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Acta Ortopédica Brasileira

Print version ISSN 1413-7852On-line version ISSN 1809-4406

Acta ortop. bras. vol.9 no.1 São Paulo Jan./Mar. 2001

http://dx.doi.org/10.1590/S1413-78522001000100004 

ARTIGO ORIGINAL

 

Angiossarcoma epitelióide ósseo: relato de um caso, com estudo imuno-histoquímico*

 

 

Cláudia Regina G. C. M. de OliveiraI; Olavo Pires de CamargoII; Tarcísio E. P. Barros FilhoIII; Reginaldo P. OliveiraIV; Alberto T. CrociV; André Matias BaptistaVI

IChefe da Seção de Anatomia Patológica
IIChefe do Grupo de Tumores
IIIChefe do Grupo de Coluna Vertebral
IVChefe do Grupo de Coluna Cervical e Raquimedular
VMédico Assistente do Grupo de Tumores
VIMédico Estagiário do Grupo de Tumores

 

 


RESUMO

Angiossarcoma primário do osso é muito raro, representando menos de 1% de todos os angiossarcomas(4).
Neoplasias vasculares também são incomuns, ocorrendo em 14% dos tumores malignos primários do osso. Os autores relatam caso em coluna lombar que merece atenção porque inicialmente tratava-se de um hemangioendotelioma, um tumor de malignidade intermediária, definido pelos critérios estabelecidos por Stout(11). Foi tratado com embolização local e radioterapia. Após dez anos, recidivou, com maior grau de malignidade, fenômeno interpretado como progressão tumoral, com características de Angiossarcoma epitelióide. O estudo imuno-histoquímico revelou positividade para marcadores vasculares. (Fator VIII, CD31 e CD34). O paciente evoluiu com metástases pulmonares. Em revisão bibliográfica, não foi encontado nenhum relato de caso semelhante, tendo em vista a longa evolução e progressão tumoral após dez anos de seguimento e expressão do fenotipo epitelióide.

Descritores: Angiossarcoma. Neoplasia vascular óssea.


 

 

INTRODUÇÃO

Angiossarcoma é uma neoplasia maligna, composta de células endoteliais que tem características vasoformadoras(4). Somente 1.4% dos tumores primários malignos ósseos são classificados como angiossarcomas(3). Em 1943, Stout(11) diferenciou morfologicamente pelo menos dois tipos de tumores malignos de vasos sangüíneos, o hemangioendotelioma e o hemangiopericitoma, onde o primeiro se caracterizava pela proliferação de células endoteliais e o segundo pela proliferação de células pericíticas. Hemangioendotelioma e angiossarcoma eram usados no passado como sinôminos. Unni et al (12), concordando com Ackerman e Spjut(10) consideraram que os tumores vasculares endoteliais malignos do osso poderiam ser classificados como uma única entidade.

Eles preferiram o termo hemangioendotelioma para essa entidade porque o termo angiossarcoma denotava um maior grau de malignidade o que era evidente em apenas alguns dos casos. De fato o curso desses tumores era variável, predominantemente progressivo e fatal(7).

Hemangioendotelioma, de acordo com o critério definitivo por Stout pode ocorrer em qualquer grupo etário, tendo uma predileção para o sexo masculino, envolvendo mais freqüentemente os ossos longos tubulares, principalmente a região proximal do fêmur(13). Comumente aparecem como lesão solitária, mas podem ser multicêntricos, (4). Quando multicêntricos, parecem ter melhor prognóstico(4).

Radiograficamente são lesões líticas ocorrendo com pouca ou nenhuma neoformação óssea reacional.

A cortical pode estar afilada ou destruída, com extensão para partes moles. "Shunts" arteriovenosos podem ocorrer e a arteriografia pode ser de valor em diferenciar tumores vasculares de não vasculares e em determinar a extensão da invasão em partes moles.

O diagnóstico diferencial radiograficamente inclui carcinoma de células claras, carcinoma metastático, sarcoma de Ewing, hemangiopericitoma, ostessarcoma, linfoma, displasia fibrosa e cisto ósseo aneurismático(6).

 

RELATO DO CASO

Um paciente do sexo masculino, de trinta e dois anos, foi atendido no Instituto de Ortopedia e Traumatologia do Hospital das Clínicas da FMUSP, em l989 com história de dor localizada em região da coluna, com paraparesia há cinco meses.

A radiografia simples mostrava em coluna lombar a nível de L.3, lesão radiolucente, com trabeculações paralelas e longitudinais, destruição da cortical, sem esclerose e com extensão para partes moles. (Fig.-1).

 

 

A tomografia computadorizada confirmava o comprometimento da cortical e a ressonância magnética evidenciava a extensão em partes moles. Não havia comprometimento de outros ossos.

O espécime de biópsia foi diagnosticado como hemangioendotelioma, sendo realizada embolização local e radioterapia uma vez que a lesão era irressecável pela sua localização.

O exame microscópico revelava neoplasia de natureza vascular, caracterizada por vasos anatomosados com células endoteliais atípicas (Fig.-2)  e projeções papilares intravasculares.

 

 

Mitoses eram raras e não havia necrose. Portanto foi classificado como hemangioendotelioma e não angiossarcoma.

Após dez anos de seguimento clínico, o paciente retornou com quadro clínico de dor, revelando possivelmente uma recidiva.

Atualmente, feitos exames de RX e tomografia computadorizada, constatou-se crescimento da lesão, com aspecto destrutivo (Fig.3) e grande extensão para partes moles, revelando maior agressividade local. O paciente apresentava também quadro de síndrome de cauda eqüina. Foi realizado tratamento cirúrgico com laminectomia ampla e descompressiva e radioterapia.

 

 

O exame microscópico revelou ninhos sólidos de células epitelióides que ocasionalmente mostravam maior grau de atipia, com citoplasma eosinófilo, apresentando por vezes intensa vascularização. Havia focos de necrose e moderado número de mitoses. As características epitelióides desse tumor mimetizavam carcinoma metastático, no osso (Fig.-4). O exame imuno-histoquímico foi realizado e as células epitelióides foram positivas para Fator VIII, CD31 e CD34, que são marcadores vasculares e de células endoteliais, caracterizando neoplasia de natureza vascular. Não houve expressão de marcadores epiteliais, como queratina e EMA, afastando a hipótese de carcinoma.

 

 

O diagnóstico anatomopatológico foi de Angiossarcoma epitelióide. O paciente foi estadiado, encontrando-se múltiplas lesões pulmonares, com caracteres de metástase pulmonar.

 

DISCUSSÃO

Dorfman et al(5) tem mostrado que o osso é raramente o sítio de neoplasias de vasos sangüíneos e linfáticos, apesar de serem ricamente vascularizados. Tumores malignos vasculares constituem menos de 1% das neoplasias malignas primárias do osso, na série relatada por Dahlin(2).

Nós concordamos com outros autores(13, 6) de que os tumores vasculares malignos do osso são uma entidade distinta, com curso clínico imprevisível. Nessa caso relatado o diagnóstico inicial foi de hemangioendotelioma, de acordo com critérios morfológicos definidos por Stout(11) que se baseia em:

1) Células endoteliais atípicas, em maior número delineando a parede dos vasos.

2) Tendência para formar lúmen vascular e anastomoses

É difícil determinar o grau de malignidade numa amostra de biópsia por geralmente haver graus variados num mesmo tumor.

Unni et al(12) em revisão de 22 casos de hemangioendotelioma de osso, dividiu esses tumores em três distintos graus, revelando que o maior indicador de prognóstico foi o grau de anaplasia.

Hastman e Stewart (8) enfatizaram a possibilidade de curso benigno em alguns casos, com longa sobrevida após cirurgia, quimioterapia e radioterapia. O prognóstico para esses tumores, entretanto, ainda continua pobre, com sobrevida em 5 anos de 26% (7). A possibilidade de curso indolente com longa sobrevida é demonstrada em alguns casos, com seguimento de oito e catorze anos Entretanto a doença parece ser agressiva e rapidamente fatal, como demostrado por Volpe e Mazabraud(13), mesmo com tratamento incluindo cirurgia, radioterapia e quimioterapia.

Nesse caso que apresentamos, após dez anos observou-se uma modificação no padrão histológico, em relação à primeira apresentação dessa neoplasia. Além do aumento do grau de malignidade, pela presença de mitoses, atipia e necrose, identificou-se também o fenótipo epitelióide, com citoplasma acidofílico devido à presença de numerosos citofilamentos. Os citofilamentos mantém o citoesqueleto dos vasos submetidos a alta pressão, significando um "status funcional" da célula neoplásica.

Rosai et al (9) chamaram a atenção por esse aspecto epitelióide das células, mas foi em 1982, que Weiss e Enzinger propuseram o termo hemangioendotelioma e angiossarcoma epitelióide.

A imuno-histoquímica é um exame de grande valor para auxiliar no diagnóstico diferencial desses tumores com carcinoma metastático. Em alguns casos de hemangioendoteliomas pode haver positividade para marcadores epiteliais.de baixo peso molecular, mas nos carcinomas não há positividade para marcadores vasculares ( como Fator VIII, CD 31 e CD 34).

Os tumores vasculares malignos tem evolução clínica imprevisível sendo que mesmo um tumor de baixo grau pode metastizar após muitos anos de evolução. A modificação do grau de malignidade nesse caso apresentado, pode refletir um fenômeno de progressão tumoral, que já é descrito em outros tumores como osteossarcoma, tumor de células gigantes e condrossarcoma(3), ressaltando mais um aspecto do comportamento imprevisível dos tumores vasculares malignos ósseos.

O tratamento nesses tumores deve ser cirúrgico, com ressecção ampla da lesão, nos casos de alto grau, podendo-se complementar com radioterapia, em lesões de difícil acesso ou quando não se consegue obter margem cirúrgica livre.

No caso apresentado por ser inicialmente um tumor de baixo grau (hemangioendotelioma) tentou-se a embolização da lesão, e radioterapia com boa resposta inicial. Após dez anos, com a recidiva e com maior grau de malignidade, verificamos que a doença pode ser progressiva, agressiva e fatal, necessitando de abordagem cirúrgica e radioterapia. A quimioterapia não tem sido usado como tratamento adjuvante.

 

REFERÊNCIAS

1. COHEN, P.R., RAPINI, R.P., FARHOOD, A.I.: Expression of the human hematopoietic progenitor cell antigen CD 34 in vascular and spindle cells tumors. J. Cutan Pathol 20: 15-20, 1993.        [ Links ]

2. DAHLIN, D.C.: Vascular tumors of bone: Bone Tumors: General Aspect and Data em 421 cases, 3rd ed. Springfiield , Illinois. 144-145, 1978:        [ Links ]

3. DORFMAN, H. D., CZERNIAK B., Bone cancer, CANCER 75:203-210, 1995.        [ Links ]

4. DORFMAN, H. D., CZERNIAK, B.: Vascular tumors of bone; Bone Tumors, St LOUIS, CV MOSBY. 795-797, 1998.        [ Links ]

5. DORFMAN, H. D, STEINER, L.C., JAFFE, H.L., Vascular tumors of Bone. Hum Pathol. 2:349-376, 1971.        [ Links ]

6. DUNLOP, J.: Malignant Hemangioendothelioma of Bone, The Journal of Bone and Joint Surgery. 59-A, nº 6: 832-834, 1977.        [ Links ]

7. GARCIA MORAL, C.A: Malignant hemangiendothelioma of bone. Review of world literature and report of two case. Clin Orthop. 82:70-79, 1972.        [ Links ]

8. HARTMANN, W. H., STEWART, F.W.: Hemangioendothelioma of bone. Unusual tumor characterized by indolent course. Cancer 15:846-854, 1962.        [ Links ]

9. RONAI, J., GOLD, J., LANDY, R. The histiocytoid hemangiomas: A unifying concept embrasing several previously described entites of skin, soft tissue, large vessels, bone and heart. Hum Pathol. 10:707-730, 1979.        [ Links ]

10. SPJUT H.D., DORFMAN R.E., FECHNER R.E., Ackerman L.V. Tumors of Bone and Cartilage. In: Atlas of Tumor Pathology. Sect. 2 fasc. 4. WASHINGTON D.C: Armed Forces Institute of Pathology. 334-340, 1971        [ Links ]

11. STOUT, A. P.: HEMANGIO-ENDOTHELIOMA: a tumor of blood vessels featuring vascular endotheleal cells. Ann Surg. 118; 445-464, 1943.        [ Links ]

12. UNNI, K.K., IVINS, J.C., BEABOUT, J.W., DAHLIN, D.C.: Hemangioma, hemangiopericytoma and hemangioendothelioma of bone. Cancer 27:1403-1414, 1971.        [ Links ]

13. VOLPE, R., MAZABRAUD, A.:  Hemangioendothelioma  (Angiosarcoma) of Bone. Cancer  49:727-736, 1982        [ Links ]

14. WEISS and ENZINGER. Epithelioid hemangioendothelioma. Cancer 50: 971-981, 1982.        [ Links ]

 

 

* Trabalho realizado na Seção de Anatomia Patológica do Instituto de Ortopedia e Traumatologia do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (IOT-HC-FMUSP).

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