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Acta Ortopédica Brasileira

Print version ISSN 1413-7852On-line version ISSN 1809-4406

Acta ortop. bras. vol.9 no.2 São Paulo Apr./June 2001

https://doi.org/10.1590/S1413-78522001000200003 

ARTIGO ORIGINAL

 

Avaliação do efeito do complexo osseína-hidroxiapatita na consolidação das fraturas na desnutrição protéica: estudo experimental em ratos

 

 

Wilson Galego Campos

Professor Adjunto da Universidade Estadual de Londrina

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

Foi realizado trabalho experimental com 40 ratos da raça Wistar, machos, para avaliar o efeito do complexo osseína-hidroxiapatita (COH) , na consolidação das fraturas, em animais submetidos a dieta protéica e dieta aprotéica, divididos em quatro grupos distribuídos aleatoriamente, que receberam ou não a medicação. Cada grupo com 10 animais foi assim constituído: grupo I, protéico sem COH; grupo II, protéico com COH; grupo III, aprotéico sem COH; grupo IV, aprotéico com COH. Procurou-se fazer fraturas semelhantes quanto ao traço e a localização em todos os grupos no 15º dia, passando os grupos II e IV a receber a dose diária de 20mg do COH, por gavagem. Todos os grupos foram submetidos à coleta de sangue no 1º, 15º e 43º dia, que foi o dia da eutanásia dos animais. Além do controle de peso fez-se a dosagem de cálcio, fósforo, fosfatase alcalina, proteínas totais, albumina e osteocalcina. O membro fraturado foi desarticulado na articulação coxofemural, no 43º dia, sendo submetido o calo ósseo à avaliação histológica, histomorfométrica, radiográfica e densitométrica e planimétrica. Concluiu-se, após análise estatística, que o COH não interferiu, de maneira significativa, na avaliação geral, na formação do calo ósseo dos animais nutridos e desnutridos. Entretanto mostrou interferência em alguns resultados como na dosagem de albumina e de fosfatase alcalina, na planimetria e no peso dos animais.

Descritores: Estudo Experimental, Consolidação Óssea, Complexo Osseína-Hidroxiapatita.


 

 

INTRODUÇÃO

Drogas, tradicionalmente utilizadas, não têm sido objeto de estudos comparativos experimentais, atuais, para referendar a sua real validade e aprimorar a obtenção dos efeitos desejáveis.

A prevalência da desnutrição protéica, elevada em nosso meio, nociva ao tecido ósseo, merece estudos; a desnutrição deve ser considerada ao se ministrarem medicamentos que visam abreviar o período de consolidação das fraturas. O objetivo do trabalho é avaliar o efeito do complexo osseína-hidroxiapatita (COH), experimentalmente, em ratos, machos, adultos, em fraturas provocadas nas tíbias de animais nutridos e desnutridos.

O COH tem sido usado em ensaios clínicos nas deficiências minerais e osteoporose de humanos, além de ser citado como adjuvante na consolidação mais rápida de fraturas.

Foram analisados os comportamentos bioquímicos do cálcio, fósforo e fosfatase alcalina, além das proteínas totais e albumina. Igualmente o marcador bioquímico da formação óssea, a osteocalcina, foi dosada para se procurar estabelecer nos resultados de exame, correlações entre o COH, desnutrição e consolidação óssea. Foram analisados também, através de avaliações ponderal, radiográfica, densitométrica, microscópica, histológica e histomorfométrica, os dados obtidos em análise estatística.

 

MATERIAL E MÉTODOS

Foram utilizados 40 ratos machos, albinus, de linhagem Wistar, com peso inicial variando de 250 a 400 gramas.

Os 40 animais foram aleatoriamente divididos em quatro grupos, assim distribuídos: Grupo I - dieta protéica sem COH (10 ratos); Grupo II - dieta protéica com COH (10 ratos); Grupo III - dieta aprotéica sem COH (10 ratos); Grupo IV - dieta aprotéica com COH (10 ratos).

Após duas semanas do início do trabalho, de acordo com as dietas estabelecidas, o COH, na dose de 20mg/dia, oral, por gavagem, foi administrado aos grupos II e IV.

Foi feita colheita de sangue por punção intracardíaca sob anestesia geral no 1º, 15º e 43º dia, para as análises bioquímicas. No 15º dia todos os ratos foram submetidos a fratura fechada do terço médio da tíbia esquerda, por flexão manual, sob anestesia com éter etílico. Após quatro semanas da fratura todos os animais foram submetidos à eutanásia com super dosagem de éter etílico. Procedeu-se a desarticulação da articulação coxofemural do membro fraturado, para estudos radiográfico, planimétrico, densitométrico, histológico e histomorfométrico. Os dados obtidos das análises bioquímica, ponderal, radiográfica, densitométrica, microscópica e histomorfométrica foram submetidos à análise estatística, em nível de significância de 5%, ou seja, os testes foram considerados significativos quando p<0,05%.

 

DISCUSSÃO

A escolha do COH que tem componentes orgânicos importantes na consolidação das fraturas, aplicados a animais nutridos e desnutridos, permite a avaliação da importância destes fatores.

O rato Wistar, animal escolhido para o experimento, mostrou-se de extrema utilidade na área de pesquisa pelas seguintes vantagens: a) fornece dados semelhantes aos verificados no esqueleto humano; b) é animal dócil; c) as fraturas são de rápida consolidação, dispensando imobilização 10; d) as alterações ósseas podem ser facilmente analisadas 8, 9; e) execução de fraturas experimentais semelhantes; f) formação do calo ósseo através de dietas estabelecidas 4; e com substâncias hormonais, dentre as quais a calcitonina, conforme demonstrado por GUARNIERO 5 et al. (1995).

A similaridade de fraturas, obtidas, preconizadas por URIST; McLEAN 13 (1950), mostrou-se satisfatória, sendo possível detectar pequenas diferenças das fraturas, porém, a nosso ver, desnecessárias à criação de dispositivos mecânicos especiais para fazer a fratura. Optou-se por não utilizar materiais de osteossíntese no foco de fratura, para não aumentar a oportunidade de interferência na consolidação óssea pela presença desses materiais. O delineamento de estudo, casualizado em quatro grupos de dez, permitiu-se análise estatística consistente. A dieta aprotéica levou a alterações verificadas na análise dos valores de proteínas totais e albuminas e a desnutrição protéica assim obtida teve interferência direta na consolidação das fraturas, concordando com as observações de 11, 4. A eutanásia na 6ª semana mostrou-se oportuna pelo sofrimento dos animais e por ser neste período o calo bem visível, 1.

Não se realizaram testes de mobilidade do foco de fratura, preconizado por HEARD 6, 7 et al. (1.982), por ser este teste dependente do operador. Não foram feitos estudos de resistência mecânica do calo, o que certamente enriqueceria o trabalho.

A anestesia dos animais mostrou ser eficiente com o éter etílico, porém devem ser considerados outros tipos de anestésicos que levam em conta possíveis interferências nos experimentos.

Observou-se efeito do COH nas dietas avaliadas aos 15º e 43º dias, após o início do estudo, sendo que os pesos médios dos grupos com a dieta protéica e dieta aprotéica diferiram significativamente (p < 0,0001). Na terceira avaliação observou-se efeito significativo da adição de COH somente na dieta aprotéica (p = 0,0104).

Na análise das proteínas totais observou-se que houve efeito significativo somente das dietas na avaliação aos 43 dias (p < 0,0001). A dieta interferiu nos níveis médios de proteínas totais, o que não ocorreu com a adição do COH.

A análise da albumina indicou que seus níveis médios mostraram a significância do efeito das dietas aos 43 dias (p= 0,0003), e o efeito da adição de COH foi também observado aos 43 dias (p = 0,0282), ocorrido somente na dieta aprotéica (p = 0,0094).

A osteocalcina sintetizada pelos osteoblastos é incorporada à matriz óssea, com pequena fração liberada na circulação, e serve como importante marcador de formação óssea 3. Não foi observada interferência do COH no nível de osteocalcina, quando esse foi avaliado em animais nutridos e desnutridos. A osteocalcina tem afinidade pelo cálcio e pela hidroxiapatita não cristalizada servindo, ao lado da fosfatase alcalina, como orientador do grau de atividade osteoblástica 2.

O exame radiográfico dos animais feito em perfil foi suficiente para avaliar o local da fratura e os aspectos gerais da consolidação óssea observados nos quatro diferentes grupos de animais, conforme o critério de ARO 1 et al. (1985). Acreditou-se, porém, que o estudo em anteroposterior, após desarticulação de joelho e tornozelo, poderia dar dados mais significativos do estudo planimétrico.

No estudo densitométrico observou-se serem os animais dos grupos nutridos os detentores de maiores densidades minerais caso sejam comparados com os grupos desnutridos, demonstrando o efeito significativo da dieta (p=0,0191) e a não-significância do COH (p=0,9567). Na avaliação histomorfométrica da fibrose, tecido cartilagíneo e tecido ósseo, não se observaram diferenças estatisticamente significativas nos animais nutridos e desnutridos com o uso do COH. O efeito significativo da dieta foi verificado quando se comparou a porcentagem de fibrose (p=0,0024) e a de osso (p=0,0211).

Na avaliação laboratorial dos níveis médios de cálcio, não houve diferenças significativas em relação à dieta e ao medicamento. O cálcio e o fósforo integrantes do COH não interferiram durante o experimento.

A complexidade dos fenômenos que cercam a consolidação óssea não permitiu estabelecer com os marcadores do metabolismo ósseo utilizados, o efeito do COH nos animais nutridos e desnutridos, sobretudo em sua parte orgânica que é a mais importante, a osseína 12.

A melhor compreensão do mecanismo da consolidação de fraturas, ao lado de análises mais apropriadas da interação dos diferentes componentes orgânicos e inorgânicos do tecido ósseo, certamente possibilita a descoberta de drogas que tenham ação mais determinante no processo de consolidação das fraturas.

 

CONCLUSÕES

1) O COH, na dosagem de 20 mg/dia, administrado via oral, no rato adulto Wistar, com ou sem desnutrição protéica, não apresentou, na avaliação geral, Interferência significativa no processo de consolidação de fraturas experimentais.

2) O COH interferiu de maneira significativa na medida planimétrica do calo ósseo nos animais nutridos, e no peso e dosagens de albumina e fosfatase alcalina nos animais desnutridos.

 

REFERÊNCIAS

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Endereço para correspondência
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