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Acta Ortopédica Brasileira

Print version ISSN 1413-7852On-line version ISSN 1809-4406

Acta ortop. bras. vol.9 no.2 São Paulo Apr./June 2001

http://dx.doi.org/10.1590/S1413-78522001000200005 

ARTIGO ORIGINAL

 

Avaliação radiográfica do hálux valgo: estudo populacional de novos parâmetros angulares

 

 

Caio Augusto de Souza NeryI; Alfonso Apostólico NettoII; Márcio BeneventoIII; Cibele RéssioIV

IProfessor Adjunto Livre - Docente do Departamento de Ortopedia e Traumatologia da UNIFESP - Escola Paulista de Medicina; Chefe do Setor de Medicina e Cirurgia do Pé
IIIntegrante do Setor de Medicina e Cirurgia do Pé da UNIFESP - Escola Paulista de Medicina; Médico Ortopedista do Hospital Anchieta
IIIMédico Ortopedista do Hospital Anchieta
IVPós-graduando do Departamento de Ortopedia e Traumatologia da UNIFESP - Escola Paulista de Medicina; Integrante do Setor de Medicina e Cirurgia do Pé

 

 


RESUMO

Estimulados pelo crescente interesse, pelos fatores intrínsecos na gênese da deformidade do hálux valgo, os autores estudaram os ângulos articulares distal do primeiro metatársico (AADM), articular proximal (AAPFP) e articular distal da falange proximal do hálux (AADFP). Para isso, avaliaram as radiografias na incidência AP em ortostase de 70 indivíduos brasileiros adultos e normais (140 pés), com idades variando de 18 a 55 anos (média 29 anos), distribuídos entre 40 indivíduos do sexo feminino (57,1%) e 30 do masculino (42,9%). A análise estatística a que se submeteram os dados indicaram como limites superiores da normalidade para a população estudada os valores de 8 graus para o AADN, 8 graus para o AAPFP e 10 graus para o AADFP.

Descritores: Pé, Hálux Valgo


 

 

INTRODUÇÃO

O sucesso cirúrgico da correção do hálux valgo depende de uma série de fatores que, quando avaliados em conjunto, permite ao ortopedista determinar qual o método ideal para o caso em questão. Não deve existir um tratamento padrão para a patologia, mas sim, através do somatório de valores clínicos e radiográficos corretamente analisados, a inclusão do paciente em algoritmo que seleciona a melhor indicação.

Vários parâmetros angulares têm sido utilizados no sentido de determinar, tanto no período pré-operatório (momento da indicação cirúrgica) quanto no pós-operatório (momento da avaliação de resultados) a técnica adequada, a intensidade da deformidade e a correção pretendida e obtida. Estudos populacionais bem conduzidos apontam para valores médios que, utilizados na prática diária, direcionam nossa escolha e avaliação. Os parâmetros clássicos - ângulos de valgismo do hálux, ângulo intermetatársico I-II, ângulo do valgismo interfalângico, ângulo articular tarsometatársico, grau de subluxação dos sesamóides e comprimento relativo dos metatársicos - continuam sendo os mais importantes na avaliação radiológica das patologias do antepé. No entanto, a obtenção de resultados insatisfatórios, apesar de criteriosa indicação cirúrgica, despertou o interesse dos pesquisadores para novos agentes etiológicos intrínsecos que pudessem estar influindo negativamente nos resultados.

O ângulo articular distal do I metatársico (AADM), definido como a relação entre a superfície articular distal com o eixo longitudinal do I metatársico, tem sido considerado pela literatura(1,7,16,18,19) como ponto fundamental, não só para perfeita indicação de qual técnica cirúrgica empregar(7), como também para a obtenção de total congruência da articulação metatarsofalângica do hálux, evitando ou diminuindo ao máximo a percentagem de correções insuficientes ou recidivas.

Além disso, o formato da falange proximal do hálux, bem como a relação de suas superfícies articulares com seu eixo médio(3,5,13,15) deve ser criteriosamente analisado. Dessa observação surgem os ângulos articulares proximal e distal da falange proximal (AAPFP e AADFP).

O objetivo do presente estudo é o de estabelecer os valores médios angulares acima referidos na população de indivíduos brasileiros adultos e normais, de forma a constituir fonte de referência para a avaliação das patologias do primeiro raio.

 

MATERIAL E MÉTODOS

Foram obtidas radiografias na incidência ântero-posterior em ortostase de 70 indivíduos brasileiros (140 pés), adultos, nos quais não foi identificada qualquer queixa ou patologia geral ou local, com idades variando de 18 a 55 anos (média 29 anos). O estudo radiográfico seguiu padronização técnica descrita em trabalhos anteriores. Quanto ao sexo, os indivíduos distribuíram-se em 40 (57,1%) do feminino e 30 (42,9%) do masculino.

 

 

Para a mensuração dos ângulos foi utilizado negatoscópio de luz fluorescente e goniômetro com escala em graus. O método empregado baseou-se na demarcação dos seguintes pontos de referência:

Ângulo articular distal do primeiro metatársico - AADM

1) ponto extremo medial da superfície articular distal do I metatársico.

2) ponto extremo lateral da superfície articular distal do I metatársico.

3) eixo médio diafisário do I metatársico, obtido a partir do centro geométrico da cabeça e ponto médio da metáfise proximal.

4) o AADM corresponde ao ângulo formado entre a linha que une os dois extremos da superfície articular distal e a perpendicular ao eixo médio-diafisário do I metatársico (fig.1).

 

 

Ângulo articular proximal da falânge proximal - AAPFP

1) ponto extremo medial da superfície articular proximal da falange proximal da hálux.

2) ponto extremo lateral da superfície articular proximal da falange proximal do hálux.

3) eixo médio diafisário da falange proximal do hálux obtido através da determinação dos pontos médios das metáfises proximal e distal desse osso.

4) o AAPFP corresponde ao ângulo formado entre a linha que une os dois extremos da superfície articular proximal da falange proximal do hálux com a perpendicular ao eixo médio diafisário da falange proximal (fig.2).

 

 

Ângulo articular distal da falange proximal - AADFP

1) ponto estremo medial da superfície articular distal da falange proximal do hálux.

2) ponto extremo lateral da superfície articular distal da falange proximal do hálux.

3) eixo médio diafisário da falange proximal do hálux obtido através da determinação dos pontos médios das metáfises proximal e distal desse osso.

4) o AADFP corresponde ao ângulo formado entre a linha que une os dois extremos da superfície articular distal da falange proximal do hálux com a perpendicular ao eixo médio diafisário da falange proximal (fg.3).

 

 

Os dados obtidos da mensuração dos três ângulos acima mencionados foram submetidos a análise estatística comparando-os quanto ao lado e sexo. Foi utilizado o teste T de Student em sua modalidade bicaudal, sendo estabelecido o limite de 5% (a < 0,05) para a rejeição da hipótese de nulidade.

 

RESULTADOS

As tabelas 1 e 2 reúnem os dados referentes à mensuração dos ângulos AADM, AAPFP e AADFP nos indivíduos do sexo masculino e feminino, respectivamente.

A tabela 3 apresenta os resultados da análise estatística a que se submeteram os dados.

 

 

DISCUSSÃO

"A grande variedade de técnicas descritas para o tratamento da deformidade do hálux valgo aponta para a hipótese de que o problema ainda carece de solução definitiva". Com essa frase, Helal definia, uma década atrás, a preocupação dos grandes autores acerca da escolha da melhor técnica para o tratamento dessa deformidade.

Novas tendências foram sendo introduzidas e já não é admissível a idéia da procura da "técnica ideal" para a solução de "todos" os casos de hálux valgo. É tão grande a variabilidade dos fatores concorrentes para a gênese do complexo de deformidades, que se torna cada vez mais clara a necessidade de aprimoramento diagnóstico e da combinação de vários recursos cirúrgicos para atenuar de maneira mais global em sua correção.

É notável o surgimento de técnicas cirúrgicas mais sofisticadas e complexas que atuem em diversos fatores intrínsecos e que obtêm, por isso, resultados cada vez melhores.

A obtenção de valores angulares estatisticamente semelhantes entre os lados e sexos veio facilitar a padronização de sua utilização que, em curto espaço de tempo, exigirá sua inclusão nos parâmetros já consagrados.

 

CONCLUSÃO

Consideramos como limites superiores da normalidade para a população adulta brasileira os valores: AADM - 8 graus; AAPFP - 8 graus; AADFP - 10 graus.

 

REFERÊNCIAS

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Trabalho realizado no Departamento de Ortopedia e Traumatologia da Universidade Federal de São Paulo-Escola Paulista de Medicina (Serviço do Prof. Dr. José Laredo Filho) e no Hospital Anchieta (São Paulo).

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