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Acta Ortopédica Brasileira

versão impressa ISSN 1413-7852versão On-line ISSN 1809-4406

Acta ortop. bras. v.11 n.4 São Paulo out./dez. 2003

http://dx.doi.org/10.1590/S1413-78522003000400006 

ARTIGO ORIGINAL

 

Efeito do concentrado de plasma em falhas ósseas provocadas em fêmures de camundongos como estimulação de formação óssea. Estudo experimental

 

 

 

Alberto Tesconi CrociI; Olavo Pires de CamargoI; George BitarII; Silvio Luiz Borges PereiraIII; Marcelo MoreiraIV; Sinval de Freitas Jr.IV

IProfessor Associado do Departamento de Ortopedia e Traumatologia da FMUSP
IIChefe do Serviço de Residência Médica de Ortopedia e Traumatologia na Santa Casa de São Vicente – UNILUS
IIIPreceptor do Serviço de Residência Médica de Ortopedia e Traumatologia na Santa Casa de São Vicente – UNILUS
IVEx-residente de Ortopedia e Traumatologia da Santa Casa de São Vicente – UNILUS

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

Os autores estudam experimentalmente o efeito do concentrado de plasma na estimulação óssea em camundongos. Foram utilizados dez camundongos isogênicos de linhagem gioto, onde após a coleta do sangue periférico de um camundongo, foi centrifugado este sangue e obtido um concentrado de plasma; foi utilizado o concentrado de plasma em falhas ósseas na região distal do fêmur, alternando-se os lados direito e esquerdo, sendo um lado com falha óssea isolada e o outro com falha óssea mais o concentrado de plasma e analisados quantitativamente e qualitativamente. Observou-se que o plasma não leva à estimulação da formação do calo ósseo, não ocorrendo aumento do processo inflamatório, e havendo apenas uma tendência a formar mais matriz óssea com o seu uso.

Descritores: Camundongos de cepas endogâmicas; Plasma; Calo ósseo; Matriz óssea.


 

 

INTRODUÇÃO

Tal como os outros tecidos musculoesqueléticos o osso é composto por células mesenquimais inclusas dentro de uma matriz extracelular abundante (1). Diversamente dos outros tecidos, a matriz óssea contém mineral que confere ao tecido grande resistência e rigidez sob condições de carga (1).

O principal componente orgânico da matriz óssea é o colágeno tipo I; este dá ao osso uma grande resistência às forças tensionais(2). O osso possui um elaborado suprimento sangüíneo e também contém nervos, vasos sangüíneos e linfáticos. O periósteo é constituindo por duas camadas: uma fibrosa externa e uma interna mais celular e vascular; o periósteo cobre as superfícies ósseas externas e participa na consolidação das fraturas. O periósteo é mais espesso, e celular. Nos lactentes e crianças apresenta um suprimento sangüíneo mais elaborado do que nos adultos. Talvez em virtude destas diferenças, o periósteo nas crianças é mais ativo na consolidação de muitas fraturas (1).

O osso humano se apresenta em duas formas: o osso cortical ou compacto e osso esponjoso ou trabecular. As diáfises dos ossos longos possuem praticamente só osso cortical. As metáfises por sua vez e a maioria dos ossos curtos e planos apresentam paredes relativamente finas de osso cortical com grandes volumes de osso esponjoso. Estas diferenças na distribuição de osso cortical e esponjoso causam diferenças na consolidação óssea(1).

Os dois tipos ósseos podem ser diferenciados pelas propriedades mecânicas e biológicas: o osso traçado ou imaturo e o osso lamelar ou maduro. O osso trançado forma o esqueleto embrionário e é substituído por osso lamelar à medida que o esqueleto se desenvolve(2). O osso trançado também forma o tecido inicial de reparação da fratura e é substituído por osso lamelar à medida que ocorre a remodelação. Comparado com o osso lamelar, o trançado tem uma velocidade mais rápida de deposição e reabsorção óssea. Há um padrão trançado irregular de fibrilas colágenas na matriz com aproximadamente quatro vezes mais osteócitos por unidade de volume que o normal, e um padrão irregular de mineralização da matriz. A freqüente formação em "colcha de retalhos" do osso trançado e o padrão de mineralização em focos criam uma aparência na radiográfica irregular que distingue o osso trançado encontrado no calo de fratura do osso lamelar. Em virtude da falta de orientação das suas fibrilas colágenas a mineralização irregular e a concentração relativamente alta de células e água, o osso trançado é menos rígido e mais facilmente deformado do que o osso lamelar(3).

Uma fratura começa o seu processo de consolidação assim que osso se quebra, e se as condições forem favoráveis, este processo se dá por uma série de fases até que o osso esteja totalmente consolidado.

As características histológicas de reparação de uma fratura em vários intervalos após a lesão foram bem descritas que se referiam principalmente às fraturas de várias costelas em coelhos, e estas evidências sugerem que o processo de reparação seja semelhante ao encontrado no homem. Contudo, deve-se levar em conta que o tipo de consolidação não é o mesmo e constante para todos os ossos em todas as circunstâncias. A reparação de um osso tubular difere muito daquela de um osso esponjoso, e o tipo de consolidação de um segmento é provavelmente influenciado por fatores como a fixação rígida dos fragmentos e a perfeição da coaptação(7,8).

Podemos considerar o processo de consolidação de um osso tubular fraturado como ocorrendo em cinco estágios: 1. Hematoma, 2. Proliferação subperiosteal e endosteal, 3. Calo, 4. Estágio de consolidação e 5. Remodelação. Devemos enfatizar, no entanto, que estes estágios não são demarcados de maneira nítida, e que dois ou mais estágios de consolidação podem ocorrer ao mesmo tempo em diferentes partes do osso(3).

Em uma fratura o sangue extravasa através dos vasos rotos e forma-se um hematoma entre as áreas da superfície fraturada ao seu redor. O hematoma fica quase totalmente contido no periósteo circundante, e pode ser deslocado ou retirado das extremidades do osso em menor ou maior intensidade. Quando o periósteo é retirado, o hematoma pode extravasar para os tecidos moles adjacentes ficando em última instância, contido por músculos, fáscias e pele(7).

A fratura inevitavelmente rompe a maior parte dos capilares que correm longitudinalmente no osso compacto, e o anel ósseo imediatamente adjacente a cada um dos lados da fratura se tornam isquêmicos em extensão variada, geralmente alguns milímetros. Sem suprimento sangüíneo, os osteócitos próximos da superfície fraturada morrem.

A característica mais óbvia nos estágios iniciais da reparação é a proliferação de células da superfície profunda do periósteo próximo à fratura. Tais células são as precursoras dos osteoblastos, que posteriormente deverão sedimentar a substância intercelular. Formam um colar de tecido ativo que circunda cada fragmento e cresce em direção ao outro fragmento. Deve-se ressaltar que este tecido celular não é formado por organização do hematoma coagulado da fratura. Na verdade o sangue coagulado tem participação nula ou muito pequena no processo de reparação; este é substituído pelo tecido de proliferação e absorvido(5).

Concomitantemente à proliferação subperiosteal ocorre a atividade celular dentro do canal medular onde as células que proliferam parecem ser derivadas do endósteo e do tecidos contidos na medular de cada fragmento. Este tecido também se prolifera até fundir-se ao tecido semelhante que cresce do outro fragmento.

Ilhotas de cartilagem podem ser encontradas no tecido celular que cresce dentro e fora do osso, formando uma ponte entre os fragmentos. A cartilagem aparece em quantidade variável sendo às vezes abundante, e em outras, pode estar ausente. Evidentemente, não é um elemento essencial no processo de consolidação(3).

À medida que o tecido celular cresce de cada fragmento, este amadurece, e as células básicas dão origem aos osteoblastos, e em alguns pontos aos condroblastos que formam a cartilagem a que já nos referimos. Os osteoblastos depositam uma matriz intercelular de colágeno e polissacarídeos que logo se torna impregnada de sais de cálcio para formar o osso não amadurecido do calo da fratura. Este, por sua vez, devido à sua textura foi denominado osso "primário"(3).

A formação desta ponte de osso primário proporciona rigidez evidente à fratura, e quando o osso lesado é superficial o calo pode ser sentido como uma massa rija ao redor da fratura. O calo ósseo ou osso primário é também visível nas radiografias e dá a primeira indicação radiográfica de que a fratura está se consolidando(2).

O osso primário que forma o calo primário transforma-se gradualmente pela ação dos osteoblastos em um osso mais amadurecido, com estrutura lamelar típica.

Quando a consolidação está completa, o osso recém formado forma em geral, um colar bulboso que circunda o osso e oblitera o canal medular. O tamanho do calo varia de caso para caso. Tende a ser grande nos casos onde tenha ocorrido um deslocamento periosteal extenso, um hematoma grande, ou ainda um desvio grande dos fragmentos ósseos. É em geral pequeno quando os fragmentos ósseos estiverem em posição anatômica e especialmente quando os fragmentos forem rigidamente fixados por uma placa de metal com parafusos ou por intramedular(7).

O calo exuberante é comum em crianças, pois o periósteo é facilmente deslocado do osso pelo sangue extravasado, permitindo assim que o osso se forme em sua parte interna.

Nos meses que se seguem à consolidação o osso é gradualmente reforçado ao longo das linhas de força à custa do excesso de osso por fora das linhas de força que é lentamente removida. Este processo imperceptível de remodelação está em atividade constante em todos os ossos durante a vida toda, porém se torna especialmente acentuado e evidente após uma fratura.

A consolidação de um osso esponjoso fraturado segue um padrão diferente daquela do osso cortical. Como o osso tem uma textura esponjosa uniforme e não tem canal medular, há uma área de contato mais ampla entre os fragmentos que é a trama de trabéculas que permite uma penetração mais fácil do tecido ósseo e sua formação. A consolidação pode ocorrer diretamente entre as superfícies dos ossos e não precisa ocorrer através do calo externo ou do calo endosteal como em um osso cortical.

Evidenciando isso, Trueta(10), observa que as células primitivas indiferenciadas podem se transformar, dando origem a osteoblastos sob a influência de substâncias osteoindutoras. A proteína óssea morfogenéticas (BMP – bone morphogenetic protein) apresenta tal característica, mas torna-se ineficaz em estimular essa resposta sem um carreador, pois se difunde muito rapidamente em sítios heterotópicos antes que possa ocorrer a osteoindução(11).

Croci(3) em 1997, em revisão da literatura, descreve que há trabalhos comprovando a obtenção desta proteína não colágena por desmineralização ácida do osso de bovinos e atualmente de outros animais e humanos (BMP – "bone morphogenetic protein"). Esta teria ação sobre quatro etapas de diferenciação citoespecífica com a ativação e proliferação de células do mesênquima, a formação de cartilagem, a formação de osso primitivo e a formação de osso lamelar. A quantidade de osso neoformado é diretamente proporcional à quantidade dessa proteína. Porém a difusão nos tecidos é limitada. Deve-se ressaltar que o papel da BMP na consolidação óssea só foi estudado experimentalmente; além disso, a etapa em que deva ser administrada com intuito de induzir resposta osteogênica apreciável ainda não foi comprovada.

Vários estudos derivaram da aplicação da BMP, dentre os quais os que realizam implantes com BMP associados com a utilização de medula óssea, com resultados de consolidação mais rápida, provavelmente devido à presença na medula óssea de células precursoras osteogênicas ou células mesenquimais que respondem ao estímulo da BMP(12).

 

CASUÍSTICA

São usados neste trabalho 10 camundongos isogênicos da linhagem gioto, provenientes do Biotério da Faculdade de Ciências Médicas Lusíadas de Santos.

Estes animais são colocados em engradados separados, numerados de 01 a 10 e submetidos aos procedimentos cirúrgicos nos fêmures.

Alternam-se o lado direito e esquerdo, tendo-se 10 fêmures (cinco direitos e cinco esquerdos como grupo controle e cinco direitos e cinco esquerdos como grupo onde é utilizado o plasma colhido previamente).

 

OBJETIVO

O objetivo desse trabalho é o de avaliar a consolidação óssea em estudo experimental em camundongos, com a utilização de hemoderivado (plasma) na estimulação da formação do calo ósseo, em falhas ósseas produzidas nos fêmures de camundongos.

 

MATERIAL

O sangue periférico de um camundongo de linhagem isogênica gioto é coletado, através de dissecção cirúrgica da aorta abdominal e punção com agulha grossa e seringa, cerca de 10 ml, sendo processado em centrifugadora para separação da fração do plasma. Este produto é utilizado para o Grupo II do experimento.

Dez camundongos isogênicos adultos de linhagem gioto, com peso aproximado de 250 gramas, provenientes do Biotério da Faculdade de Ciências Médicas Lusíadas de Santos do estado de São Paulo. Após o exame físico dos animais, os fisicamente aptos são submetidos aos procedimentos cirúrgicos. São divididos em dois grupos (I e II), sendo feito os experimentos em lados alternados.

No Grupo I estão aqueles que serão realizadas as falhas ósseas de dois milímetros do fêmur, alternadamente do lado direito e esquerdo, de tal maneira que teremos cinco fêmures de camundongos operados do lado direito e cinco do lado esquerdo, sem qualquer substituição (Grupo controle).

No Grupo II estão aqueles que serão realizadas as falhas ósseas, semelhantes ao grupo I, seguidas de colocação do concentrado de plasma obtido previamente. Temos com isso cinco fêmures direitos operados com colocação de hemoderivado e cinco do lado esquerdo.

Em resumo, temos dez camundongos, sendo vinte fêmures operados, dez do lado direito e dez do lado esquerdo, onde o Grupo I é o Grupo controle onde foram induzidas as falhas ósseas, sem qualquer substituição; e o Grupo II onde é utilizado o concentrado de plasma.

 

MÉTODOS

Protocolo anestésico: Os animais são anestesiados pela via intraperitonial, com Virboxil® 2% (Cloridrato de xilazina) na dose de 0,01 ml/kg, associado a Francotar® (Quetamina) na dose de 0,50mg/100 gramas.

Técnica cirúrgica: Após tricotomia bilateral das coxas, é feita a anti-sepsia com povidine tópico a 1% e posicionado os campos estéreis. A incisão na pele é de aproximadamente um centímetro ao nível da região distal do fêmur, diérese dos tecidos moles e controle da hemostasia.

Segue-se com a elevação periosteal com deslocador seguido de perfurações dos fêmures direito e esquerdo a um centímetro acima da interlinha articular do joelho, utilizando perfuradora com broca de titânio de dois milímetros de diâmetro, sob pressão manual e irrigação contínua com solução salina a 0,9% (Figura 1A). No grupo controle só este procedimento é feito; no outro grupo é injetado o plasma concentrado (Figura 1B). A sutura dos tecidos moles é feita com mononylon 4-0 em pontos isolados.

 

 

Os camundongos são confinados em caixas individuais e numerados de 01 a 10, recebendo nas 12 primeiras horas de pós-operatório 0,1 ml de dipirona sódica. Os animais são alimentados com ração padrão normoprotéica e fornecida água "ad libitum", mantido em temperatura ambiente entre 19 e 20 graus centígrados nas gaiolas individuais.

Após duas semanas de confinamento, os animais são eutanasiados, sendo retiradas as peças (fêmures), para preparação das peças para exame anatomopatológico, sendo avaliado qualitativamente e quantitativamente do material obtido.

Protocolo de eutanásia: São realizadas as eutanásias nos grupos I e II, com os camundongos devidamente anestesiados por via intraperitonial com cloridrato de xilazina na dose 0,01ml/kg, associado a quetamina na dose de 0,50mg/100 gramas. Após a anestesia é utilizada máscara inalatória com éter em dose letal, até a parada cárdio respiratória.

Protocolo de exame anatomopatológico: As peças retiradas são identificadas segundo o número do camundongo e o lado retirado, conforme protocolo do experimento. As mesmas são fixadas em formol a 10% pelo período de doze horas e descalcificadas em ácido nítrico pelo período de 24 horas, sendo seccionadas longitudinalmente no seu maior eixo. Em seguida são identificadas segundo o protocolo e submetidas a processamento tecidual em banho seqüencial de álcool, xilol e colocadas em blocos de parafina submetidos à corte histológico de quatro micras de espessura e corados com hematoxilina e eosina.

São feitas duas a três lâminas por bloco e analisadas em microscópio tipo Nykon – Alpha phot número 2 com aumento de 400 vezes (figura 2A e B), tendo-se como parâmetro os seguintes achados que serão levados em consideração para o presente estudo: 1. Hemorragia, 2. Polimorfonucleares, 3. Tecido de granulação, 4. Atividade osteoblástica, 5. Matriz óssea e 6. Osteoclastos.

 

 

CRITÉRIOS DE AVALIAÇÃO

A avaliação anatomopatológica segue os parâmetros habituais adotados pelo nosso Serviço de anatomia patológica, para avaliação do processo inflamatório e formação do calo ósseo, e foram pontuados, conforme a presença ou não dos achados estudados, conforme a Tabela 1.

 

 

ANÁLISE ESTATÍSTICA

Observamos a freqüência (absoluta e relativa) da incidência dos achados anatomopatológicos nas lâminas dos Grupos I e II. Realizamos a estatística descritiva dos parâmetros quantitativos nos Grupos I e II dos achados de hemorragia, polimorfonucleares, tecido de granulação, atividade osteoblástica, matriz óssea e osteoclastos.

Nas comparações dos resultados paramétricos utilizamos o teste exato de Fisher, comparando-se os eventos para cada achado do Grupo I X Grupo II. Em todos os resultados adotamos a probabilidade de significância de 5% (p=0,05) e tendência entre 5 a 10% (0,05<p<0,10).

 

RESULTADOS

A análise dos resultados, segundo os critérios adotados para o presente estudo encontra-se na Tabela 2, para o grupo I (controle) e grupo II (com plasma).

 

 

ESTUDO COMPARATIVO

Os resultados dos achados de hemorragia, polimorfonucleares, tecido de granulação, atividade osteoblástica, matriz óssea e osteoclastos nas lâminas do Grupo I (controle) e Grupo II (plasma) podem ser vistos na Tabela 3.

 

DISCUSSÃO

Estudos direcionados sobre a consolidação óssea, cada vez mais ganham ênfase dentro da Ortopedia, principalmente no que concerne à diminuição no tempo de consolidação, o que ainda é um desafio na Ortopedia. Diminuir o tempo e usar sínteses biológicas no tratamento de pseudoartroses são um desafio para todos os profissionais envolvidos e justificam plenamente experimentos como este(4).

Ham e Harris(4) descreveram em fraturas de costelas em coelhos um processo semelhante ao homem, em termos de consolidação e relataram que ao menos quanto às condições estudadas, estas são comparáveis, descrevendo suas etapas que servem de base para o presente estudo.

McKibbin(6) revisou aspectos de maneira bastante completa quanto à reparação de um osso tubular, que difere muito da reparação de um osso esponjoso, concluindo que o tipo de consolidação de um determinado osso é influenciado por diversos fatores como a fixação rígida e a perfeita redução dos fragmentos.

Tavares e Cafalli(9) observaram em coelhos com osteossíntese intramedular implantada no fêmur em um defeito ósseo induzido, a consolidação precoce desta falha óssea com esta osteossíntese; também nos fundamentamos nestas etapas para o seguimento do experimento.

Croci(3), em revisão da literatura, discorre sobre a BMP ("bone morphogenetic protein") que teria ação em quatro etapas de diferenciação específica, com a formação de osso primitivo lamelar, mas só experimentalmente, sem desenvolver a etapa específica a qual ela deva ser introduzida; esta proteína poderia estar presente inclusive nos elementos sangüíneos que poderiam ser usados como estimuladores da formação do calo ósseo.

A utilização do plasma concentrado como estímulo para a consolidação óssea, além do fato descrito acima, também se deve ao fato da facilidade da obtenção deste plasma no próprio paciente, sendo uma opção biológica não acarretando maiores complicações ao paciente.

Para uma melhor obtenção do concentrado do plasma, utilizamos um camundongo isogênico, que é geneticamente igual aos animais do experimento, evitando-se com isso potencial reação imunogênica que pudesse interferir no trabalho. O objetivo deste é testar a utilização cruzada do plasma no teste de formação do calo ósseo.

Uniformizamos o método usado para a falha óssea e alternamos os lados dos fêmures (direito e esquerdo) para evitarmos uma eventual predominância do membro, e ao mesmo também empregamos no pós-operatório o acompanhamento com a mesma bióloga para alimentação e cuidados com os camundongos pelo período de confinamento.

Utilizamos como protocolo anestésico, a via intraperitonial utilizando a associação de quetamina e cloridrato xilazina pela facilidade e controle do animal; a técnica cirúrgica foi cuidadosamente executada com o mesmo padrão e equipe para não ocorrer discrepância de técnica; a eutanásia também é feita com o mesmo método anestésico e terminada com a inalação de éter até parada cárdio respiratória do animal.

O padrão utilizado para a avaliação anatomopatológica foi aquele seguido pela maioria dos patologistas e seguidos na análise de todas as lâminas do trabalho.

Em virtude da área da fratura ser pequena o número de campos microscópicos não ultrapassou cinco campos HPF por uma área de 0,5 cm de extensão na lâmina analisada.

Dentro dos processos de reparação óssea foram utilizados critérios anatomopatológicos estabelecidos diante das seguintes alterações:

A – Hemorragia: Após a lesão óssea, ocorre dano nas células principalmente vasos sangüíneos, o que ocorre com o extravasamento sangüíneo dentro do canal medular com a presença de hemossiderina local. Foram avaliados como ausente ou focal (até um campo) e presente (mais de dois campos), onde não houve diferença entre os grupos I e II analisados.

B – Polimorfonucleares: Os mediadores inflamatórios liberados pelas células mortas e lesadas fazem com que os vasos sangüíneos dilatem-se e exsudem o plasma, com aparecimento de células inflamatórias como os polimorfonucleares (neutrófilos). Foram usados como parâmetros para avaliação como ausente (0) e presente (de 1 a 4 neutrófilos por 10HPF), e não houve diferença entre os grupos I e II estudados.

C – Tecido de Granulação: Na fase de reparação tecidual, caracteriza-se o tecido de granulação pelo aparecimento de fibroblastos e neovascularização, como resultado de mediadores químicos presentes. Foi utilizado como critério de avaliação o ausente ou escasso (até 2 campos HPF) e o presente (acima de 3 campos HPF), não observando alterações entre os grupos.

D - Osteoblastos: De origem das células do estroma medular, responsáveis pela síntese de matriz para reparos e crescimento, morfologicamente contêm o aparelho de Golgi, retículo endoplasmático e canalículos em grandes quantidades tendo como função principal a osteogênese. O padrão utilizado para sua análise foi o ausente ou leve (até 2 campos HPF) e o presente (3 ou mais campos HPF), não sendo observada dentro da analise qualquer diferença entre os grupos.

E – Matriz Óssea: Compreende cerca de um terço da massa óssea, sendo responsável pela viscoelasticidade e força tensil do osso. O colágeno tipo I compreende 90% da matriz e a hidroxiprolina é um produto da sua degradação, dando origem ao tecido ósseo maduro. Para análise usamos os parâmetros de ausente ou focal (até 4 campos HPF) e presente (acima de 5 campos HPF), não sendo observada diferença significante pelo parâmetro estatístico de 5%, mas muito próximo deste (P= 0,057); há, portanto, uma tendência para que o uso de concentrado de plasma produza mais matriz óssea, necessitando-se provavelmente de um experimento com UM "N" maior ou talvez que a quantidade de elementos estimulantes presentes no plasma seja muito pequena para o completo estímulo. Necessitaríamos de outros experimentos com diferenciação talvez dos sub tipos de proteínas morfogenéticas para conclusões posteriores.

F – Osteoclastos: Estes são células maiores, derivadas de macrófagos ou do sistema hematopoiético, que contêm enzimas lisossômicas, como a fosfatase ácida, a colagenase e a catepsina, sendo as principais células no processo de remodelação óssea. Utilizamos como padrão para avaliação o ausente ou mínima (até 5 campos HPF) e o presente (acima 5 campos HPF), não observando diferença entre os grupos I e II.

Para os resultados adotamos o índice de significância de 5% (p=0,05), sendo padrão para todas as análises, sendo este parâmetro adotados pela maioria dos trabalhos científicos.

Os achados em relação à matriz óssea mostraram uma possível aceleração do processo de osteogênese, principalmente no que se refere na formação de tecido osteóide nos animais expostos à estimulação do concentrado de plasma. Isto pode corresponder a uma maior velocidade no processo de formação do calo ósseo.

Para os demais elementos estudados não encontramos uma resposta diferente entre o grupo controle e o grupo onde foi utilizado o plasma. Vários fatores podem ter contribuído para estes resultados. Acreditamos que um número maior de animais poderia tornar significante mais algum elemento estudado, ou talvez uma depuração maior do plasma, no sentido de aumentar a concentração plasmática dos fatores estimulantes da formação de calo ósseo. Isto em nosso meio ainda é um recurso inexistente e extremamente oneroso, impossibilitando a confecção de vários trabalhos.

Diante disto, nos parece mais apropriado a utilização de uma metodologia que inclui a contagem de osteoclastos e osteoblastos e eventuais métodos de imunoistoquímica com avaliação da proliferação celular para uma abordagem mais ampla.

No futuro acreditamos que com a melhora da técnica e entendimento dos passos de consolidação, possamos ter trabalhos que derivem do emprego de várias substâncias, dentre as quais o próprio plasma possa fazer parte, tendo aplicação prática no meio ortopédico e cirúrgico para a cura e reparo de várias lesões, como fraturas, retardo de consolidação e mesmo pseudoartroses.

 

CONCLUSÕES

1. O uso de concentrado de plasma em falhas ósseas de fêmures de camundongos, não leva a estimulação da formação do calo ósseo.

2. Não há aumento do processo inflamatório no local das falhas ósseas, com o uso de concentrado de plasma.

3. Há uma tendência em formar mais matriz óssea com o uso de concentrado de plasma.

 

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Endereço para correspondência
Rua Dr. Franco da Rocha, 215 ap31 – Perdizes
São Paulo - CEP: 05015.040

Trabalho recebido em 22/05/2003
Aprovado em 27/07/2003

 

 

Trabalho realizado no Serviço de Residência Médica em Ortopedia e Traumatologia na Santa Casa de São Vicente e Faculdade Ciências Médicas de Santos – UNILUS

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