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Acta Ortopédica Brasileira

versão impressa ISSN 1413-7852versão On-line ISSN 1809-4406

Acta ortop. bras. v.12 n.3 São Paulo jul./set. 2004

http://dx.doi.org/10.1590/S1413-78522004000300006 

ARTIGO ORIGINAL

 

Estudo comparativo da medida da rotação vertebral pelos métodos de Nash & Moe e método de Raimondi

 

 

Helton L. A. DefinoI; Paulo Henrique Mendes de AraújoII

IProfessor Associado do Departamento de Biomecânica, Reabilitação e Medicina do Aparelho Locomotor da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto- USP
IIMédico Residente da Disciplina de Ortopedia do Hospital das Clínicas de Ribeirão Preto

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

Neste estudo foram avaliados a sensibilidade e precisão dos métodos de Nash e Moe e de Raimondi para a medida da rotação da vértebra torácica e lombar.Três cirurgiões de coluna avaliaram, independentemente, as radiografias de uma vértebra torácica (T9) e de uma vértebra lombar (L2) com graus de rotação que variaram de 0º a 60º e estabeleceram valores de acordo com o método de Nash e Moe e o método de Raimondi.Foram estudadas a concordância entre os examinadores para um determinado método, a variação das medidas obtidas na vértebra torácica e lombar a partir de uma mesma rotação real conhecida e a correlação entre um valor real conhecido de rotação vertebral e a sua estimativa pelos métodos utilizados no estudo . Os resultados mostraram boa concordância entre os examinadores para o método de Nash e Moe, tanto para a vértebra torácica (k médio = 0,66), quanto para a lombar (k médio = 0,80). Pelo método de Raimondi não houve diferença significativa entre os examinadores para a vértebra torácica, no entanto, para a vértebra lombar houve baixa reprodutibilidade do método.Para uma mesma rotação na vértebra torácica e lombar os resultados foram não concordantes pelo método de Nash e Moe, e pelo método de Raimondi os valores observados para a vértebra torácica foram significativamente maiores que os da vértebra lombar. A correlação entre os valores reais e as estimados pelo método de Raimondi para a vértebra torácica mostrou que houve diferença significativa produzida em função da rotação até 20º graus, já para a vértebra lombar, os valores obtidos foram muito próximos do real.

Descritores: Rotação; Coluna vertebral; Escoliose; Método de avaliação


 

 

INTRODUÇÃO

A escoliose é uma deformidade tridimensional complexa do tronco, destacando-se o seu desvio lateral e a rotação dos corpos vertebrais entre os vários componentes patológicos da deformidade(11,12). A rotação dos corpos vertebrais ocorre para o lado da convexidade da curva e a sua manifestação clínica juntamente com a deformidade das costelas na coluna torácica ou dos processos espinhosos na coluna lombar é denominada de giba ou gibosidade(4). O grau de rotação das vértebras nas escolioses está relacionado com as alterações cosméticas e estética dos pacientes, e além dos métodos clínicos para a sua avaliação, foram desenvolvidas mensurações utilizando-se as radiografias convencionais, destacando-se os métodos descritos por Cobb, Nash e Moe, Perdriolle e Raimondi (2,3,8,9,10).

A rotação vertebral tem sido um parâmetro muito enfatizado na avaliação dos pacientes e dos resultados dos procedimentos terapêuticos, e o objetivo do nosso estudo foi avaliar o grau de precisão e a concordância da medida entre diferentes examinadores relacionadas a dois métodos ( método de Nash e Moe e método de Raimondi), que tem sido utilizados na prática clínica para a avaliação da rotação vertebral em pacientes portadores de escoliose.

 

MATERIAL E MÉTODOS

Foram utilizadas no estudo uma vértebra torácica (T9) e uma vértebra lombar (L2) de indivíduo adulto e sem alterações da sua morfologia.

Foi confeccionado um dispositivo, no qual as vértebras eram individualmente fixadas, e por meio de um goniômetro o grau de sua rotação podia ser mensurado, tendo sido realizado radiografias em AP por meio da técnica convencional, desde a posição neutra (0æ%) até 60æ% de rotação, com intervalo de 5æ% entre a realização das radiografias.(Figura 1)

 

 

As radiografias foram avaliadas independentemente por 3 cirurgiões de coluna, tendo sido proposto que cada um examinasse as radiografias e determinasse as medidas das rotações vertebrais de acordo com o método de Nash e Moe e método de Raimondi.

O método de Nash e Moe é baseado na relação entre os pedículos vertebrais e o centro do corpo vertebral nas radiografias em antero-posterior, sendo a rotação classificada em cinco diferentes graus de acordo com o afastamento dos pedículos. Nas situações em que os pedículos estão eqüidistantes das margens laterais dos corpos vertebrais, não há rotação vertebral, e é considerado como grau 0. À medida que a projeção do pedículo da vértebra apical desloca-se para a linha média nas radiografias em AP,o grau de rotação progride na escala de avaliação, atingindo o maior valor (grau IV) quando ultrapassa essa linha. (Figura 2 )

 

 

O método de Raimondi utiliza a projeção dos pedículos vertebrais e a largura da vértebra como referência para as medidas. O maior eixo do pedículo é demarcado e mensurado no lado da convexidade da curva, e a distância da linha longitudinal desde o pedículo até a borda da vértebra no lado convexo é mensurado. Esses dois valores são transportados para a régua, obtendo-se o valor da rotação. (Figura 3)

 

 

 

As medidas da rotação vertebral da vértebra torácica e da vértebra lombar determinadas pelos métodos selecionados foram comparadas com os valores da rotação real que era conhecido, e os valores das medidas obtidas nas mensurações dos 3 examinadores foram comparadas .

O estudo estatístico dos valores das medidas da rotação obtida pelos 3 examinadores foi realizado por meio do teste "t de Student", "Qui-quadrado" e coeficiente kappa, dependendo do tipo da variável estudada.

 

RESULTADOS

Os valores das medidas individuais de cada examinador pelo método de Nash e Moe e pelo método de Raimondi estão ilustrados na Tabela1.

 

 

A concordância entre os valores individuais da rotação obtidos por meio do método de Nash e Moe foi comparada por meio da análise entre os pares de examinadores, tendo sido utilizado o coeficiente Kappa (K), que varia de 0 a 1. A concordância é considerada excelente para valores de k>0,80; boa para valores entre 0,60 e 0,80; regular entre 0,40 e 0,60; e fraca para valores menores que 0,40. Esses valores estão ilustrados na Tabela 2 , e foi observado maior grau de concordância entre os examinadores nas medidas da vértebra lombar (coeficiente médio de 0,80) em relação à vértebra torácica, utilizando-se o método de Nash e Moe.

 

 

A comparação dos resultados individuais da rotação obtidos por meio do método de Raimondi foi realizado por meio do teste "t de Student", considerando-se o nível de significância (p) menor que 0,05, e estão ilustrados nas Tabelas 3 e 4 . Não foi observado concordância das medidas da vértebra torácica entre os examinadores, e na coluna lombar a concordância das medidas foi observada entre dois pares de examinadores.

 

 

 

 

A comparação entre o valor real e conhecido da rotação da vértebra e os valores individuais dos examinadores obtidos pelos métodos de avaliação utilizados no estudo estão ilustrados nas Tabelas 5 e 6 . Para o método de Nash & Moe foi observado concordância dos valores, segundo o coeficiente kappa entre a medida de dois examinadores e os valores reais da rotação da vértebra torácica e lombar. Para o método de Raimondi, utilizando-se o teste "t de Student" e os teste de Wilcoxon foi observado que os valores das medidas dos examinadores divergiram do valor real da rotação da vértebra torácica e lombar.

 

 

 

 

A correlação entre o valor real e conhecido da rotação da vértebra e a estimada por meio do método de Raimondi está ilustrada na Tabela 7,e por meio do teste do Qui-quadrado para a análise da aderência dos resultados, não tendo sido observada divergência das medidas somente na medida da rotação da vértebra lombar realizada por um dos examinadores.

 

 

DISCUSSÃO

A rotação vertebral para o lado da convexidade da curva escoliótica é uma das características radiográficas da escoliose, e a sua magnitude tem sido correlacionada com o prognóstico, alterações cosméticas e tratamento dos pacientes. O método para a mensuração da rotação vertebral deve ser de baixo custo, preciso e reprodutível(1,5,7,13).

Nesse estudo observamos diferença estatisticamente significativa entre os valores mensurados por diferentes examinadores ao analisar uma mesma radiografia pelo mesmo método. Para o método de Nash e Moe (6) as maiores diferenças ocorreram na análise das radiografias da vértebra torácica, comparada com a mensuração da vértebra lombar. No entanto, foi observada uma boa concordância entre os examinadores. Para o método de Raimondi(13) houve boa concordância entre os examinadores na mensuração da vértebra torácica, e muita divergência dos resultados da mensuração da vértebra lombar, evidenciando baixa reprodutibilidade do método na vértebra estudada.

A comparação dos resultados obtidos pelos 2 métodos, considerando-se o valor real e conhecido da rotação das vértebras, mostrou que os valores não foram concordantes. No método de Nash e Moe os valores obtidos mostraram uma correlação precária entre as vértebras, e na escala de Raimondi os valores observados na análise dos valores conhecidos da vértebra torácica foram significativamente maiores que os da vértebra lombar. Essas observações indicam que as diferenças anatômicas existentes entre as vértebras torácicas e lombares podem conduzir a falsas interpretações na análise das rotações vertebrais, considerando-se os métodos de mensuração utilizados no estudo.

A comparação do valor conhecido da rotação vertebral e o valor observado por meio da mensuração pelo método de Raimondi, mostrou uma diferença significativa dos valores na medida da vértebra torácica, e na vértebra lombar somente a medida de um examinador obteve resultados muito próximos aos reais. Os resultados indicam que para os graus leves de rotação da vértebra torácica , a mensuração da rotação seria prejudicada pela utilização do método de Raimondi. Não foi possível estabelecer esta comparação para o método de Nash e Moe, pois esse método utiliza uma escala graduada e não numérica. No entanto, valores diferentes de rotação receberam a mesma graduação pelo mesmo examinador utilizando essa escala, ficando evidente a sua imprecisão.

É importante salientar que em nosso estudo foram utilizadas vértebras sem alterações morfológicas, e que nessas condições os resultados obtidos não demonstraram precisão na medida dos métodos utilizados, presumindo-se que na presença das alterações morfológicas das vértebras dos pacientes portadores de escoliose possa ocorrer uma ampliação dessa falta de correlação entre os valores reais da rotação e os valores fornecidos pelas mensurações radiográficas.

 

CONCLUSÕES

As diferenças anatômicas entre a vértebra torácica e lombar influenciaram na precisão da medida da rotação vertebral e as medidas da rotação vertebral obtidas por meio dos métodos de Nash & Moe e Raimondi não apresentam estreita correlação ou reproduzem com os valores reais e conhecidos da rotação da vértebra torácica ou lombar.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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6. Nash CL, Moe JH A study of vertebral rotation. J Bone Joint Surg (Am) 51: 223-229, 1969.         [ Links ]

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Endereço para correspondência
Av. Bandeirantes 3900 - Ribeirão Preto
CEP 14049-900 - São Paulo - Sp
email: hladefin@fmrp.usp.br

Trabalho recebido em 10/04/2004.
Aprovado em 20/06/2004.

 

 

Trabalho realizado na Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo - Departamento de Biomecânica, Medicina e Reabilitação do Aparelho Locomotor

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