SciELO - Scientific Electronic Library Online

 
vol.13 número3Tratamento da luxação femoro-patelar aguda pelo reparo do ligamento femoro-patelar medialAnálise comparativa do controle postural de indivíduos com e sem lesão do ligamento cruzado anterior do joelho índice de autoresíndice de assuntospesquisa de artigos
Home Pagelista alfabética de periódicos  

Serviços Personalizados

Journal

Artigo

Indicadores

Links relacionados

Compartilhar


Acta Ortopédica Brasileira

versão impressa ISSN 1413-7852versão On-line ISSN 1809-4406

Acta ortop. bras. v.13 n.3 São Paulo  2005

http://dx.doi.org/10.1590/S1413-78522005000300002 

ARTIGO ORIGINAL

 

Padronização da técnica para captação do potencial evocado motor em ratos através da estimulação elétrica transcraniana

 

 

Ricardo FerreiraI; Arnóbio Rocha OliveiraII; Tarcísio Eloy Pessoa de Barros FilhoIII

IMédico Colaborador do LETRAN - Responsável pela Monitoração Neurofisiológica
IIDoutorando do Curso de Pós-Graduação do Instituto de Ortopedia e Traumatologia do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo
IIIProfessor Titular do Instituto de Ortopedia e Traumatologia do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

Os autores demonstram experimentalmente a padronização da técnica para obtenção do potencial evocado motor em ratos através da estimulação elétrica transcraniana. Foram utilizados 50 ratos Wistar devidamente anestesiados e preparados de acordo com as normas vigentes no Laboratório de Estudos do Traumatismo Raquimedular e Nervos Periféricos do Instituto de Ortopedia e Traumatologia do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de São Paulo. A latência mínima média das respostas dos membros superiores foi de 2,5 ms e de membros inferiores foi de 6,5 ms. A amplitude média das respostas foi de 3,0 mV e de 2,5 mV nos membros superiores e membros inferiores, respectivamente. Os autores concluem que a técnica para captação do potencial evocado motor em ratos apresentada neste estudo é eficaz na análise da evolução eletrofisiológica da lesão medular, inédita no nosso meio, podendo ser reproduzida de modo simples, além de apresentar padrões de qualidade e aplicabilidade semelhantes aos observados na literatura mundial.

Descritores: Traumatismos da medula espinal; Ratos Wistar; Estimulação elétrica.


 

 

INTRODUÇÃO

A busca pelo conhecimento adequado dos mecanismos envolvidos na lesão medular foi intensificada nos últimos anos, justificando o aumento na produção de estudos experimentais no campo da regeneração medular(1).

O rato tem sido o animal mais utilizado em modelos experimentais de lesão medular(2), talvez pela facilidade na obtenção e no manejo destes animais, bem como na diminuição de gastos dos recursos financeiros destinados a pesquisa.

A recuperação funcional após a lesão medular em ratos, pode apresentar diferentes padrões funcionais dependendo da gravidade do trauma e do tratamento realizado. O registro desta recuperação pode ser feito através de vários testes comportamentais do animal(3,4,5,6), estudos anatomopatólogicos do seguimento medular afetado(7,8) e de métodos eletrofisiológicos(2,7,9,10,11,12) .

Na literatura nacional não há relato de estudo com o potencial evocado motor em ratos. Até então, a avaliação da recuperação na lesão medular de ratos descritas no nosso meio, tem sido realizada unicamente através de testes clínicos da função motora e exames histológicos(13,14).

Segundo a literatura(2) vários métodos eletrofisiológicos têm sido desenvolvidos para monitorar a recuperação neurológica em ratos. Alguns autores utilizaram parafusos de estimulação acoplados diretamente no crânio e que permaneceram inseridos até o término do experimento. Em outros estudos microeletrodos de estimulação foram colocados, diretamente acoplados no córtex cerebral, procedimentos estes, tecnicamente diferentes e mais complexos quando comparado ao modelo de estimulação transcraniana proposto no presente estudo, cujos eletrodos de agulha são fixados apenas no couro cabeludo do animal.

 

OBJETIVOS

O objetivo desse estudo é demonstrar a técnica para obtenção do potencial evocado motor em ratos, através da estimulação elétrica transcraniana de modo simples, econômico e de fácil reprodutibilidade em qualquer laboratório de pesquisa experimental.

 

MATERIAL E MÉTODOS

Este estudo foi desenvolvido no Laboratório de Estudos do Traumatismo Raquimedular e Nervos Periféricos (LETRAN) e no Laboratório de Microcirurgia do Instituto de Ortopedia e Traumatologia do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (IOT - FMUSP), tendo sido iniciado em 30/06/2003. Foram utilizados cinqüenta ratos Wistar machos com peso médio de 360gr, com temperatura corporal média de 28º C e devidamente anestesiados com 55 a 75 mg/Kg de Pentobarbital intraperitoneal associado com 55 a 75 mg/Kg de Ketamina intramuscular.

Os materiais necessários para o procedimento de obtenção do potencial evocado motor consistem em aparelho de eletromiografia de 4 canais, 2 eletrodos de agulha monopolares do tipo corkscrew EO401 da Neuromedical Suppliesâ para estimulação transcraniana, 1 eletrodo de agulha monopolar para ser utilizado como terra e 4 pares de eletrodos de agulha monopolares para serem utilizados na captação das respostas motoras nos MMSS e MMII.

Em seguida, serão expostos os passos para obtenção do potencial evocado motor em ratos. Pesagem (Figura 1A) do rato que é utilizada tanto para cálculo da dose do anestésico a ser aplicada, quanto para manter a uniformidade nos pesos dos animais utilizados no experimento. Anestesia (Figura 1B) intra-peritoneal com 55 a 75 mg/Kg de Pentobarbital intra-peritoneal associado com 55 a 75 mg/Kg de Ketamina intramuscular. Depois do animal estar anestesiado realiza-se a Tricotomia (Figura 1C) da região craniana, para facilitar a colocação dos eletrodos de agulha no couro cabeludo. O Comprimento (Figura 1D) crânio-caudal do animal é medido entre a região occipital e a base do início da cauda. Este dado servirá para comparar as latências observadas nos diferentes ratos. A Temperatura (Figura 1E) do rato é medida no membro inferior com termômetro digital. A Captação (Figura 1F Figura 3) das respostas musculares é realizada com a colocação de pares de eletrodos de agulha monopolar (captador e referência), com distância inter-eletrodos definida e fixa, para captação em MMSS e MMII, inseridos na musculatura proximal e anterior dos MMSS e MMII. O eletrodo de Terra (Figura 3) é colocado na região lombar através de um eletrodo de agulha monopolar. A Estimulação (Figura 2 e Figura 3) elétrica transcraniana é realizada com a colocação de dois eletrodos de agulha tipo corkscrew, no couro cabeludo na região frontal (anodo) e occipital (catodo) na linha inter-hemisférica, para estimulação bilateral simultânea. Após a colocação dos eletrodos no rato, inicia-se o equipamento (Figura 4A) e verifica-se a Impedância (Figura 4B) destes eletrodos, para comprovar a boa adaptabilidade dos mesmos, afim de obter respostas mais nítidas, seguras e fidedignas. A Calibração do aparelho é feita em dois aspectos a captação das respostas musculares: varredura: janela de 20 ms, sensibilidade: 2 mV/div., filtro de baixa freqüência: 10 Hz e filtro de alta freqüência: 10 Khz e a estimulação elétrica transcraniana através de estímulo único de 0,2 ms de duração. Intensidade de estímulo considerada supramáxima.

 



 

 

 

 

 

 

 

RESULTADOS

Na figura 5 são demonstrados alguns registros do potencial evocado motor normal em ratos. A latência mínima media das respostas de MMSS foi de 2,5 ms e de MMII foi de 6,5 ms. A amplitude média das respostas de MMSS foi de 3,0 mV e de MMII foi de 2,5 mV.

 

 

DISCUSSÃO

No atual estágio do conhecimento sobre a recuperação da lesão medular, os estudos experimentais são imprescindíveis na busca do entendimento dos mecanismos envolvidos na gênese da lesão, bem como na obtenção da melhora funcional após o traumatismo raquimedular. Trauma este habitualmente irreversível e que pode causar seqüelas devastadoras para o indivíduo, com reflexos na família e na sociedade onde ele está inserido.

Em nosso meio o estudo da recuperação neurológica em ratos após lesão medular também pode ser avaliada com o potencial evocado motor, além dos testes clínicos e histológicos já consagrados em estudos prévios(13,14).

O método apresentado nesse estudo simplifica a obtenção do potencial evocado motor em ratos. Na literatura não encontramos estudos que detalhem as técnicas já existentes passo a passo. Desse modo justificamos a realização do presente estudo, além de viabilizarmos um novo método de avaliação para a função neurológica nos crescentes experimentos realizados em nosso meio.

 

CONCLUSÕES

Acreditamos que a técnica para captação do potencial evocado motor em ratos apresentada nesse trabalho é um método seguro para analisar a evolução eletrofisiológica da lesão medular, podendo ser reproduzida de modo simples, em qualquer laboratório de pesquisa, além de apresentar padrões de qualidade e aplicabilidade semelhante aos observados na literatura mundial.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

1. Barros Filho TEP. Tratamento medicamentoso no traumatismo raquimedular. Rev Bras Ortop 2000; 35:143-6.        [ Links ]

2. Schlag MG, Hopf R, Redl H. Serial recording of sensory, corticomotor, and brainstem-derived motor evoked potentials in rat. Somatosens Mot Res 2001; 18:106-16.        [ Links ]

3. Basso DM, Beattie MS, Bresnahan JC. A sensitive and reliable locomotor rating scale for open field testing in rats. J Neurotrauma 1995; 12:1-21.        [ Links ]

4. Bresnahan JC, Beattie MS, Noyes DH. A behavioral and anatomical analysis of spinal cord injury produced by a feedback-controlled impaction device. Exp Neurol 1987;95:548-70.        [ Links ]

5. Little JW, Harris RM, Solhberg RC. Locomotor recovery following subtotal spinal cord lesions in a rat model. Neurosci Lett 1988; 87:89-94.        [ Links ]

6. Saruhashi Y, Young W. Effect of mianserin on locomotory function after thoracic spinal cord hemisection in rats. Exp Neurol 1994; 129:207-16.        [ Links ]

7. Dimar JR, Glassman SD, Raque GH, Zhang YP, Shields CB. The influence of spinal canal narrowing and timing of decompression on neurologic recovery after spinal cord contusion in a rat model. Spine1999; 24:1623-33.        [ Links ]

8. Fehlings MG, Nashmi R. Assessment of axonal dysfunction in an in vitro model of acute compressive injury to adult rat spinal cord axons. Brain Res1995; 677:291-9.        [ Links ]

9. Fehlings MG, Tator CH, Linden RD, Piper R. Motor and somatosensory evoked potentials recorded from the rat. Eletroenceph Clin Neurophysiol 1988; 69:65-78.        [ Links ]

10. Jou IM. Effects of core body temperature on changes in spinal somatosensory-evoked potential in acute spinal cord compression injury. An experimental study in the rat. Spine 2000; 25:1878-83.        [ Links ]

11. Nascimento AC, Bartels M, Loew F. Acute changes in somatosensory evoked otentials following graded experimental spinal cord compression. Surg Neurol 1986; 25:62-6.        [ Links ]

12. Zileli M, Schramm J. Motor versus somatosensory evoked potential changes fter acute experimental spinal cord injury in rats. Acta Neurochir 1991; 108:140-7.        [ Links ]

13. Tebet MA, Barros Filho TEP, Machado IR et al. Efeito da metilprednisolona na esão medular em ratos: análise funcional e histológica. Acta Ortop Bras 2003; 11: 80-6.        [ Links ]

14. Vialle E, Vialle LRG, Rasera E et al. Avaliação da recuperação motora em ratos submetidos a lesão medular experimental. Rev Bras Ortop 2002; 37:83-8.        [ Links ]

 

 

Endereço para correspondência
Arnóbio Rocha Oliveira
Departamento de Ortopedia e Traumatologia da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo
Curso de Pós-graduação
e-mail: arnobior@terra.com.br

Trabalho recebido em: 16/07/04 aprovado em 05/05/05

 

 

Trabalho realizado no Laboratório de Estudos do Traumatismo Raquimedular e Nervos Periféricos (LETRAN) e Laboratório de Microcirurgia do Instituto de Ortopedia e Traumatologia do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (IOT - FMUSP).

Creative Commons License Todo o conteúdo deste periódico, exceto onde está identificado, está licenciado sob uma Licença Creative Commons