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Acta Ortopédica Brasileira

Print version ISSN 1413-7852On-line version ISSN 1809-4406

Acta ortop. bras. vol.15 no.3 São Paulo  2007

http://dx.doi.org/10.1590/S1413-78522007000300009 

ARTIGO DE REVISÃO

 

Uso de furadeiras elétricas domésticas em cirurgias ortopédicas

 

 

Vania Regina GoveiaI; Silma Maria Cunha Pinheiro RibeiroII; Kazuko Uchikawa GrazianoIII

IPós-Graduanda em Enfermagem na Saúde do Adulto da Escola de Enfermagem da Universidade de São Paulo – EE/USP
IIProfessora Titular do Departamento de Enfermagem da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, Coordenadora do Curso de Enfermagem da Faculdade Pitágoras de Belo Horizonte
IIIProfessora Livre Docente do Departamento de Enfermagem Médico-Cirúrgica da EE/USP

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

As furadeiras elétricas domésticas tem sido empregadas em cirurgias ortopédicas nos Hospitais Brasileiros, para a perfuração óssea. Entretanto, trata-se de um equipamento elétrico, termossensível, não específico para uso cirúrgico, não avaliado quanto à eficácia da esterilização e não investigada a ocorrência de infecções cirúrgicas relacionadas ao seu uso. O objetivo dessa revisão foi descrever o estado da arte do uso das furadeiras domésticas em cirurgias ortopédicas, tendo em vista as dificuldades de limpeza e esterilização do equipamento. As bases de dados LILACS e MEDLINE foram consultadas usando vocabulários controlados, livres e a combinação deles, sem restrição de tempo. Foram localizados dois artigos que abordavam o uso de furadeiras elétricas domésticas em cirurgias ortopédicas. No primeiro, o autor sugere o descarte do equipamento quando percebida a contaminação interna por sangue, considerando as dificuldades da limpeza e esterilização. O segundo artigo descreve a adaptação de uma furadeira para o uso em cirurgias, cujo método de esterilização é pastilha de formalina em condições ambientais. Estudos são necessários para avaliar a prática atual e recomendar condições seguras de uso ou o seu abandono.

Descritores: Esterilização; Cirurgia ortopédica; Equipamento ortopédico.


 

 

INTRODUÇÃO

Os instrumentais, materiais e equipamentos utilizados durante um procedimento cirúrgico, ou seja, que entram em contato com tecido estéril do corpo devem estar livres de microrganismos, portanto, submetidos a processo de esterilização. Esta é uma medida importante contra a ocorrência de infecção pós-operatória(1,2).

A limpeza remove sujidade e diminui carga microbiana, e é o primeiro passo para garantir o processo de esterilização(3,4). Dois estudos avaliaram a carga microbiana em materiais utilizados em sítios corporais estéreis, com e sem lúmen e encontraram baixa carga microbiana. Mesmo assim os autores ressaltam a importância da limpeza para reduzir microrganismos, proteína residual e sais que podem interferir no processo de esterilização dos materiais(5,6). Alfa et al. constataram essa interferência em vários métodos de esterilização por baixa temperatura(7).

A escolha do método de esterilização depende das características físicas do artigo que será submetido ao processo, que podem ser resistentes ou sensíveis ao calor. O óxido de etileno é o método mais antigo de esterilização à baixa temperatura e vem sendo empregado desde a década de 50 para artigos médico-hospitalares sensíveis ao calor(8,9).

Infecção do sítio cirúrgico

A infecção do sítio cirúrgico é a terceira infecção hospitalar mais freqüente nos Estados Unidos, contribuindo de 14 a 16% do total de infecções hospitalares. Vários fatores contribuem para o risco do paciente evoluir com infecção após a cirurgia, inclusive a esterilização dos instrumentais cirúrgicos(10). Infecções em cirurgias ortopédicas podem ser graves e a osteomielite é considerada a complicação mais séria em ortopedia e traumatologia cirúrgica(11). A incidência de infecção após artroplastia total de joelho, num hospital de ensino brasileiro, tem se mantido em torno de 3%(12).

Cirurgias ortopédicas e o uso de furadeiras elétricas domésticas

Perfuradores elétricos ou pneumáticos são necessários em procedimentos ortopédicos que requerem a perfuração do osso, tais como para a instalação de parafusos, fios de aço e fixadores internos ou externos. Os perfuradores especiais para uso médico-cirúrgico são totalmente desmontáveis e autoclaváveis, possibilitando a limpeza apropriada das partes interna e externa após seu uso e a garantia da esterilização.

Há mais de 50 anos, as furadeiras elétricas domésticas tem sido empregadas em cirurgias ortopédicas nos Hospitais brasileiros, para perfuração óssea, fato que provoca inquietação nos profissionais que atuam em controle de infecção hospitalar ou mais especificamente na área de esterilização de materiais, pois trata-se de equipamento elétrico, termossensível, não específico para uso cirúrgico e não avaliado quanto aos possíveis danos ao tecido ósseo ou quanto à eficácia da esterilização. Esta prática certamente está justificada por motivos financeiros.

O objetivo dessa revisão foi descrever o estado da arte das pesquisas sobre o uso de furadeiras elétricas domésticas em cirurgias ortopédicas, tendo em vista as dificuldades de limpeza e esterilização do equipamento.

 

MÉTODOS

A consulta às bases de dados eletrônicas MEDLINE e LILACS foi realizada sem restrição de período, nos portais da BIREME e da US National Library of Medicine, utilizando vocabulários controlados (Descritores em Ciências da Saúde - DeCS ou Medical Subject Headings - MeSH) e vocabulários livres nos idiomas português e inglês e o operador booleano AND para a especificidade, sendo os controlados: esterilização/sterilization; cirurgia ortopédica/orthopedics; orthopedic procedures; equipamento ortopédico/orthopedic equipment; infecção da ferida operatória/surgical wound infection; osteomielite/osteomyelitis, e os termos livres: drilling machine; drill; drilling; orthopedic drilling.

 

RESULTADOS

Os resultados da busca realizada no portal da BIREME totalizou 29 publicações na base de dados MEDLINE, sendo 9 do período de 1993 a 2004 e 20 de 1966 a 1992. Nenhum resultado foi obtido na base de dados LILACS. A consulta à base de dados MEDLINE no portal da U.S. National Library of Medicine utilizando então os vocabulários controlados combinados com os termos livres resultou em: 12 artigos para Orthopedic Equipment [MeSH] AND drilling machine; 10 artigos para Orthopedic Procedures [MeSH] AND drilling machine; 5 artigos para Sterilization [MeSH] and drilling e 86 artigos para orthopedic drilling. Quando combinados os termos controlados e livres: Orthopedic Equipment [MeSH] AND Sterilization [MeSH] AND drilling machine, não foi encontrado nenhum artigo.

Todos os resumos, das publicações localizadas, foram lidos e analisados, entretanto, apenas dois artigos foram considerados pertinentes ao objetivo da pesquisa, pois tratavam do uso de furadeiras elétricas domésticas em cirurgias ortopédicas. Os demais artigos, que foram excluídos, não abordavam limpeza e esterilização de furadeiras ou perfuradores em cirurgias ortopédicas. Dentre os dois pertinentes ao objetivo da pesquisa, um artigo original publicado num periódico inglês no final dos anos 80(13), foi localizado nas buscas por (1) Orthopedic Equipment [MeSH] AND drilling machine e (2) orthopedic drilling. O outro artigo, uma carta ao editor publicada num periódico africano no início de 2002(14), foi localizado na busca por Orthopedic Equipment [MeSH] AND Sterilization [MeSH]. O primeiro avalia o uso de uma Makita® em cirurgias ortopédicas e o segundo descreve a adaptação de uma furadeira doméstica para uso em cirurgias ortopédicas(13,14).

 

DISCUSSÃO

O artigo que avalia o uso da furadeira elétrica Makita® em cirurgias ortopédicas foi publicado em 1988, há 18 anos(13). Os autores admitem que a limpeza pode ser dificultada pela contaminação do motor por material orgânico, e se isso ocorrer, sugerem o descarte do equipamento. É evidente que a manipulação do equipamento pelo cirurgião contamina com sangue a parte externa da furadeira. Já a contaminação da parte interna pode ocorrer através das aberturas para ventilação do motor, que não será detectada pela inspeção visual, tornando nada aplicável a sugestão de descarte do equipamento. Outra limitação do estudo consiste no método de avaliação da eficácia da esterilização pela coleta de material para realização de pesquisa microbiológica através de swab, apesar do resultado negativo, esse método diminui sensivelmente a probabilidade de recuperação de microrganismos.

A adaptação da furadeira doméstica para uso em cirurgia ortopédica, apresentada por Musa em 2002, numa carta ao editor, descreve o método aplicado num hospital de ensino universitário em Sokoto, na Nigéria(14). Podemos perceber a preocupação do autor com a esterilização do equipamento, entretanto, ele descreve o método de esterilização adotado por meio de pastilhas de formalina, em condições não validadas, colocadas junto a furadeira num recipiente que permanece fechado por 48 horas. Este método, segundo nossos referenciais constituem apenas um método de desinfecção de alto nível e não de esterilização(15).

Entendemos que a limpeza das furadeiras elétricas domésticas empregadas em cirurgias ortopédicas constitui num grande desafio para os profissionais, pois não podem ser submersas em solução de detergente devido às aberturas para ventilação do motor que possibilitam a entrada de água e danos ao mesmo. Habitualmente, a limpeza externa é realizada com compressa umedecida havendo a possibilidade da presença de sangue na parte interna que poderá interferir na esterilização. Assim, quando a furadeira elétrica for acionada na sala de cirurgia, haverá o risco potencial de gerar aerossóis contaminados e a possibilidade de contaminar o campo operatório.

O uso de furadeiras elétricas domésticas em cirurgias ortopédicas nos hospitais brasileiros é indubitavelmente impróprio, tendo em vista a existência de equipamentos especialmente destinados a esta finalidade. A prática nos hospitais provavelmente ocorra pelo alto custo do equipamento específico e a falta de pesquisas avaliando o risco do uso das mesmas.

 

CONSIDERAÇÕES

Apesar do uso de furadeiras elétricas na prática cirúrgica ortopédica nos Hospitais Brasileiros ser comum, não há pesquisas avaliando os riscos de utilização das mesmas em cirurgias ortopédicas, nem há comprovação da esterilização desses equipamentos, uma vez que pode haver contaminação interna com sangue.

São necessárias investigações que confirmem que apenas a limpeza externa da furadeira é suficiente, que não há resíduos orgânicos na parte interna com risco de gerar aerossóis contaminados quando o motor for acionado no campo operatório e que o processo de esterilização por baixa temperatura foi eficaz. Investigações devem ser realizadas para sustentar uma prática antiga ou para recomendar o seu abandono.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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8. Rutala WA, Weber DJ. Low-temperature sterilization technologies: do we need to redefine "sterilization"? Infect Control Hosp Epidemiol. 1996; 17:87-91.        [ Links ]

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Endereço para correspondência:
Rua Cláudio, 213, ap. 153
CEP 05043-000. São Paulo – SP
vaniagoveia@uol.com.br

Trabalho recebido em 28/07/06 e aprovado em 26/09/06

 

 

Trabalho desenvolvido na Pós-Graduação em Enfermagem na Saúde do Adulto da Escola de Enfermagem da Universidade de São Paulo

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