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Acta Ortopédica Brasileira

Print version ISSN 1413-7852On-line version ISSN 1809-4406

Acta ortop. bras. vol.16 no.5 São Paulo  2008

http://dx.doi.org/10.1590/S1413-78522008000500005 

ARTIGO ORIGINAL

 

Epidemiologia das lesões traumáticas de alta energia em idosos

 

 

Márcio KatzI; Marcos Antônio Akira OkumaI; Alexandre Leme Godoy dos SantosII; Cesar Luiz Betoni GuglielmettiIII; Marcos Hideyo SakakiIV; Arnaldo Valdir ZumiottiV

IMédico Residente do Instituto de Ortopedia e Traumatologia do HC-FMUSP
IIMédico Preceptor do Instituto de Ortopedia e Traumatologia do HC-FMUSP
IIIAcadêmico de Medicina da FMUSP
IVMédico Assistente do Instituto de Ortopedia e Traumatologia do HC-FMUSP
VProfessor Titular do Departamento de Ortopedia e Traumatologia da FMUSP

Endereço para Correspondência

 

 


RESUMO

O aumento proporcional de idosos na população mundial associado à melhoria nas condições de saúde e suporte preventivo para essa faixa etária, permite forma de vida mais ativa, expondo-os a risco mais elevado de acidentes e traumas de alta energia. Esses pacientes têm características fisiológicas, doenças associadas, padrão comportamental e complicações pós-operatórias que levam a resposta sistêmica diferente dos demais grupos etários. Esse trabalho avaliou prospectivamente 28 pacientes com idade superior a 65 anos - 16 mulheres e 12 homens. O mecanismo de trauma mais prevalente foi atropelamento, resultando principalmente, em fraturas dos membros inferiores. O tempo de internação foi superior ao de pacientes de faixas etárias inferiores e 90% dos casos apresentaram algum tipo de complicação clínica após a osteossíntese. A idade age isoladamente como fator preditivo positivo para tais complicações no paciente politraumatizado. As doenças prévias e a idade dos doentes não influenciaram o desenvolvimento de complicações ortopédicas. As lesões associadas às fraturas apresentaram correlação com o mecanismo de trauma. Estes pacientes normalmente precisam ser operados para tratamento definitivo de suas fraturas. O fato de serem mais idosos e apresentarem doenças anteriormente ao acidente não aumenta o período pré-cirúrgico.

Descritores: Epidemiologia; Ferimentos e lesões; Idosos.


 

 

INTRODUÇÃO:

A mortalidade por causas externas no Brasil ocupa a terceira colocação em quantidade, sendo responsável por 124.000 dos óbitos no ano de 2004, ficando atrás, somente, da mortalidade por doenças do aparelho circulatório e as neoplasias, representando 285.000 e 140.000, respectivamente(1).

O trauma de alta energia é a causa mais freqüente de morte em pacientes abaixo de 44 anos e representa importante impacto econômico(2,3). Nos Estados Unidos os idosos, definidos como pessoas com mais de 65 anos, representam 12,7% da população e 29% das mortes devidos ao trauma, bem como 7,8% de todos acidentes envolviam pessoas idosas(4).

A população idosa aumenta gradativamente no Brasil; em 1980 os idosos compunham 6,1% da população brasileira, no senso de 1991 correspondiam a 7,3% do contingente populacional, representando aumento de 21,3% em período de dez anos. A projeção para 2010 é de 10% da população nacional(5,6). Por volta de 2050, a população de indivíduos idosos em países desenvolvidos deverá dobrar, e triplicar em países em desenvolvimento(7-10) ( Figura 1).

 

 

As fraturas nos idosos são, habitualmente, decorrentes de traumas de baixa energia como quedas dentro do domicílio, determinando principalmente fraturas do fêmur proximal, rádio distal e coluna(11).

Comumente são lesões únicas em indivíduos que apresentam alguma doença sistêmica: hipertensão arterial, diabetes mellitus, depressão ou insuficiência renal, e que normalmente permanecem mais tempo hospitalizados quando vítimas de trauma(3,12).

Contudo, atualmente, uma porcentagem significativa dos idosos apresentam vida mais saudável e ativa, determinando maior exposição a acidentes externos, como atropelamentos e acidentes automobilísticos, o que associado às características fisiológicas próprias desta faixa etária mostram comportamento diferente dos demais grupos(7,11,13-19).

Souza demonstrou o perfil do idoso que sofre acidente de trânsito. A mortalidade dos indivíduos com mais de 60 anos que sofreram acidentes de trânsito foi de 11,8%, cerca de três vezes maior que nas outras faixas etárias (3,4%). A maioria dos acidentados foi do sexo masculino (76%), e 52% encontrava-se na situação de pedestre e próximo a residência(20).

Os fatores preditivos - idade, doenças pré-existentes, fisiologia de resposta ao trauma, complicações pós-operatórias, tipo de trauma - e a epidemiologia do trauma no idoso têm apresentado modificações significativas na literatura, indicando claramente mudanças de padrão quanto ao tempo e quanto à região analisada(19,21).

 

OBJETIVO

O objetivo do trabalho é determinar a epidemiologia das lesões decorrentes de trauma de alta energia na população idosa, e analisar as características específicas ligadas ao trauma do paciente idoso e sua evolução ao longo do tratamento.

 

CASUÍSTICA E MÉTODO

Foi realizada análise prospectiva de pacientes com mais de 65 anos internados com diagnóstico de fraturas causadas por traumas de alta energia no IOT-HCFMUSP, do gênero masculino e feminino, nos anos de 2005 e 2006.

Foram avaliados através de Protocolo de Coleta de Dados, no momento da internação e no seguimento, 6 meses de pós-operatório, representados abaixo.

São critérios de inclusão:

1. Paciente com idade superior de 65 anos.
2. Paciente com prontuário com dados completos.
3. Pacientes com Fraturas ou Politrauma.

São critérios de exclusão:

1. Pacientes com história de trauma de baixa energia, como por exemplo, quedas da própria altura.
2. Prontuários com dados imprecisos.
3. Pacientes com complicações clínicas que tenham perdido seguimento ortopédico habitual.
4. Pacientes que não atinjam o período de seguimento mínimo estabelecido.
5. Pacientes que evoluíram com óbito.

 

RESULTADOS:

Foi analisado um total de 28 pacientes com idade acima de 65 anos, sendo 16 mulheres e 12 homens.

Na análise do mecanismo de trauma, houve um número significativamente maior de atropelamentos, 19 no total, correspondendo a 67,9%. dois acidentes automobilísticos (7,1%) e sete quedas de altura ( 25%). ( Figura 2 )

 

 

O tempo médio de internação foi de 26,75 dias, superior ao de pacientes de faixas etárias inferiores tratados na mesma Instituição. 22 pacientes (78,5%) permaneceram internados por mais de 10 dias.

Na avaliação das doenças pré-existentes, observamos que 14 pacientes apresentavam hipertensão arterial sistêmica (50%), quatro apresentavam diabetes mellitus (14,2%), dois apresentavam outro tipo de doença ( 7,1% ) e oito não apresentavam doenças previamente ao trauma (28,7%).

Das complicações clínicas, oito pacientes apresentaram infecção do trato urinário (28,6%), três apresentaram broncopneumonia (10,7%), três trombose venosa profunda ( 10,7% ), dois parada cárdio-respiratória (7,2%) e nove (32,2%) outros tipos de complicações clinicas (hipotermia, constipação, diarréia, confusão mental, delirium, distúrbio hidro-elétrolítico, sepse, edema agudo de pulmão e insuficiência renal aguda ). Apenas três pacientes não apresentaram complicações clínicas (10,7%). ( Figura 3 )

 

 

O total de fraturas que os pacientes sofreram foi de 40, sendo 30 de membros inferiores ( 75%), oito de membros superiores (20%) e duas fraturas de coluna cervical (5%). (Tabela 1)

 

 

Quanto às complicações ortopédicas, cinco pacientes apresentaram infecção nos locais de fratura (17,8%), um apresentou necrose óssea (3,6%), um apresentou escaras de decúbito (3,6%), sete apresentaram limitação à deambulação após consolidadas as fraturas (25%) e 14 não apresentaram quaisquer complicações ortopédicas (50%).

Os pacientes atropelados apresentaram mais lesões associadas (traumatismo crânio-encefálico, traumatismo torácico, traumatismo abdominal, lesão descolante) do que os demais pacientes. (Tabela 2)

 

 

A presença de doenças prévias e idade avançada não aumentaram o tempo de liberação para a realização de cirurgia e o número de complicações ortopédicas após o trauma. (Tabelas 3, 4, 5 e 6).

Houve relação entre a idade avançada dos pacientes e a presença de complicações clínicas. (Tabela 7)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Os pacientes atropelados não tiveram um aumento nos dias de internação em relação aos outros. (Tabela 8)

 

 

A presença de doenças prévias e a localização das fraturas em membros inferiores não influenciaram os dias em que os pacientes permaneceram internados. (Tabela 9 e 10)

 

 

 

 

DISCUSSÃO

O mecanismo de trauma mais prevalente nos idosos é o atropelamento, resultando principalmente, em fraturas dos membros inferiores. Os pacientes desta faixa etária que sofrem traumatismos de alta energia permanecem internados por longos períodos de tempo, normalmente mais do que 10 dias.

A maioria dos pacientes apresenta alguma comorbidade previamente ao acidente, sendo a mais comum, hipertensão arterial sistêmica. E a grande maioria (quase 90%), cursam com algum tipo de complicação clinica após, dentre elas: Infecção do trato urinário, parada cardiorrespiratória, trombose venosa profunda, alterações do trato gastrintestinal, delirium, confusão mental, sepse, edema agudo de pulmão, insuficiência renal aguda e broncopneumonia , não sendo observado uma nítida predileção por alguma das complicações especificamente.

Em relação às complicações ortopédicas, 50% dos pacientes evoluem bem, sem seqüelas. E a presença de doenças prévias e a idade dos doentes não influenciam a existência de tais complicações.

O fato de os pacientes terem sido vítimas de atropelamentos, aumenta-lhes o número de lesões associadas às fraturas com relação aos que sofrem acidentes automobilísticos ou quedas de altura. Tais lesões incluem os traumatismos crânio-encefálicos, traumatismos torácicos e abdominais e as lesões descolantes nos membros. Porém o fato isolado de um indivíduo desta população ter sido atropelado, não implica em um aumento dos dias em que ele permanecerá internado, quando comparamos indivíduos vítimas de outros traumas de alta energia.

Pacientes idosos vítimas de traumas evoluem com mais complicações clinicas do que os pacientes mais jovens. Isto, não importando outros fatores relacionados ao indivíduo ou ao acidente.

A idade age isoladamente como fator preditivo positivo para tais complicações.

A idade e a presença de doenças prévias não influenciam o fato de o paciente poder ou não ser submetido a um procedimento cirúrgico. Estes pacientes normalmente precisam ser operados para tratamento definitivo de suas fraturas. E, apenas não o são, se o risco cirúrgico for alto o suficiente para que haja uma postergação até melhores condições clínicas dos doentes. O fato de serem mais idosos e apresentarem doenças anteriormente ao acidente não aumenta esse período pré-cirúrgico.

Embora os idosos fiquem normalmente internados por mais do que 10 dias, isso não ocorre em virtude da presença de doenças prévias ao acidente ou da localização da fratura ser em membros inferiores.

 

CONCLUSÃO

O mecanismo mais prevalente em idosos com fraturas decorrentes de trauma de alta energia é o atropelamento. Resultando principalmente em fraturas dos membros inferiores.

O tempo de internação hospitalar desse perfil de paciente é na maioria dos casos superior a 10 dias.

A grande maioria deste tipo de doente cursa com algum tipo de complicação clínica durante sua evolução após o trauma.

Cerca de metade dos pacientes cursa sem complicações ortopédicas.

 

REFERÊNCIAS

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Endereço para Correspondência:
Rua: Fradique Coutinho 1692 Apto 34 - Vila Madalena
São Paulo SP - Brasil - CEP 05416-002
E-mail: marciokatz@hotmail.com

Trabalho recebido em 16/08/07
aprovado em 26/10/07

 

 

Trabalho desenvolvido no Instituto de Ortopedia e Traumatologia da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo.

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