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Acta Ortopédica Brasileira

Print version ISSN 1413-7852On-line version ISSN 1809-4406

Acta ortop. bras. vol.16 no.5 São Paulo  2008

http://dx.doi.org/10.1590/S1413-78522008000500008 

ARTIGO ORIGINAL

 

Estudo experimental do sequenciamento das manobras da ligamentotaxia na descompressão do canal vertebral

 

 

Ilton José Carrilho de CastroI; Antônio Carlos ShimanoII; Angela Delete BellucciIII; Helton Luiz Aparecido DefinoIV

IAluno do Curso de Pós-Graduação do Departamento de Biomecânica, Medicina e Reabilitação do Aparelho Locomotor da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo
IIProfessor Doutor do Departamento de Biomecânica, Medicina e Reabilitação do Aparelho Locomotor da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo
IIIProfessora Doutora do Departamento de Clínica Médica da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo
IVProfessor Titular do Departamento de Biomecânica, Medicina e Reabilitação do Aparelho Locomotor da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

A descompressão do canal vertebral, para aliviar as estruturas nervosas, pode ser realizada por meio da ligamentotaxia. O objetivo foi analisar a influência da seqüência de realização da ligamentotaxia sobre a descompressão do canal vertebral. Foram utilizados segmentos de vértebras de suínos (Landrace). Um equipamento especialmente desenvolvido foi utilizado para produção de fratura do tipo explosão. Após a tomografia computadorizada, 10 espécimes que melhores apresentavam fraturas do tipo explosão foram fixados com fixador interno (Synthes). Foram formados dois grupos. No primeiro (n=5) foi realizada a lordose e depois a distração. Posteriormente, foram submetidos à nova compressão por meio de morsa até o retorno da fratura à posição inicial, a seguir foram novamente submetidos à distração e lordose. No segundo grupo (n=5) foi realizada a distração e depois a lordose. Após cada manobra era realizado o exame tomográfico para medir o diâmetro do canal vertebral. Os deslocamentos dos fragmentos dos corpos vertebrais fraturados foram mensurados e comparados utilizando t de Student (p<0,05). Comparando os deslocamentos entre os grupos, não foram observadas diferenças estatísticas (p<0,06). Esse resultado é próximo ao nível de significância adotado, sugerindo uma forte tendência que demonstra a eficácia superior da manobra iniciada pela realização da lordose.

Descritores: Fraturas da coluna vertebral; Vértebras lombares; Fixação interna de fraturas; Seguimento.


 

 

INTRODUÇÃO

As fraturas da coluna toracolombar podem estar associadas com a lesão das estruturas nervosas contidas no interior do canal vertebral, ocasionado pelo impacto produzido pelo deslocamento dos fragmentos da parede posterior do corpo vertebral fraturado(1-3).

A descompressão do canal vertebral pode ser realizada por meio do método direto (descompressão anterior ou póstero-lateral) ou indireto (ligamentotaxia)(1,3,4) (Figura 1). A descompressão indireta do canal vertebral, denominada de ligamentotaxia, está intimamente relacionada com o ligamento longitudinal posterior (LLP). O tensionamento do LLP atua como uma corda de arco deslocando o fragmento da parede posterior do corpo vertebral, permitindo desse modo a sua redução e a descompressão do canal vertebral. A ligamentotaxia é influenciada pela integridade anatômica do LLP, pela morfologia da fratura e pela realização da técnica cirúrgica, sendo a aplicação da distração do segmento vertebral lesado por meio dos implantes aplicados na face posterior da coluna vertebral lesado por meio dos implantes aplicados na face posterior da coluna vertebral o modo mais eficiente para o tensionamento do ligamento longitudinal posterior(5-7). A restauração da lordose, apesar de não ser o principal mecanismo de correção, também auxilia na ligamentotaxia e tem sido descrita como parte da sua técnica quando utilizada por meio da aplicação do fixador interno(8).

 

 

O objetivo do trabalho foi avaliar experimentalmente o efeito do sequenciamento das manobras de correção realizadas com a utilização do fixador interno (lordose e distração) no reposicionamento do fragmento da parede posterior do corpo vertebral fraturado e conseqüente descompressão do canal vertebral. A pergunta formulada no experimento foi a seguinte: Qual a manobra ideal para obter-se a máxima reposição do fragmento da parede posterior do corpo vertebral durante a realização da ligamentotaxia: lordose seguida de distração ou distração seguida de lordose?

 

MATERIAIS E MÉTODOS

Foram utilizados no estudo 30 segmentos de coluna vertebral de suínos híbridos com seis meses de idade e peso médio de 102Kg. O segmento T12-T13-L1 (os suínos possuem 13 vértebras torácicas) foi selecionado para a realização do estudo e a fratura produzida na vértebra T13 por meio da compressão axial com o auxílio de um dispositivo especialmente construído para essa finalidade. (Figura 2)

 

 

O princípio básico do funcionamento do dispositivo era a transmissão do impacto axial por meio de um cilindro sobre o segmento vertebral T12-T13-L1. O cilindro de chumbo de 34Kg deslizava em queda livre de uma altura de 100cm, guiado por uma barra metálica e atingia o segmento T12-T13-L1.

Foram produzidas fraturas por compressão axial nos 30 segmentos da coluna vertebral e 10 segmentos foram selecionados com base nas informações fornecidas pelos exames de imagem (radiografia e tomografia computadorizada). Os 10 segmentos selecionados apresentavam características morfológicas homogêneas de fratura do tipo explosão.

Os 10 segmentos de coluna vertebral selecionados para o estudo foram fixados por meio do fixador interno (Synthes) tendo sido utilizados pinos de Schanz nos pedículos vertebrais de T12 e L1. Após a instalação do fixador interno foram realizadas as manobras da ligamentotaxia, e os espécimes divididos em dois grupos de cinco segmentos vertebrais. Cada grupo foi identificado e caracterizado de acordo com a seqüência da realização da distração e da lordose. O grupo I foi denominado (lor+dis), no qual foi realizada primeiramente a lordose seguida pela distração nas manobras da ligamentotaxia. O grupo II foi denominado de (dis+lor) no qual foi realizada primeiramente a distração seguida da lordose.

Após a manobras da ligamentotaxia (lordose+distração ou distração+lorsose) os espécimes eram submetidos a tomografia computadorizada com cortes de 3mm para a avaliação do diâmetro do canal vertebral. A distância da borda posterior do fragmento do corpo vertebral fraturado até a borda anterior do ponto médio do arco vertebral foi padronizada para a mensuração do diâmetro do canal vertebral. (Figuras 3 e 4)

 

 

 

 

A avaliação por meio da tomografia computadorizada foi realizada após cada manobra isolada da ligamentotaxia (lordose ou distração) e após o conjunto das duas manobras (lordose + distração ou distração + lordose).

Após a realização da manobras de ligamentotaxia e mensuração do diâmetro do canal vertebral, os componentes do sistema de fixação eram afrouxados, e força de compressão axial aplicada sobre o segmento vertebral até a restauração da altura do corpo vertebral fraturado. A seguir nova tomografia computadorizada era realizada para a avaliação do diâmetro do canal vertebral e nova manobra de ligamentotaxia realizada, com seqüência de manobras diferentes da inicialmente realizada (Figura 5). Para a realização do corte tomográfico no mesmo lugar foi realizada a marcação com agulha hipodérmica (Figura 3). A diferença da medida do diâmetro do canal vertebral após a realização da manobra indicava o deslocamento do fragmento fraturado do corpo vertebral produzido pela manobra realizada.

 

 

Os valores obtidos por meio da mensuração do diâmetro do canal vertebral nas imagens da tomografia computadorizada após a realização das diferentes manobras da ligamentotaxia foram avaliados por meio do teste de Shapiro-Wilk para avaliação da normalidade da amostra. A comparação dos resultados obtidos entre as duas diferentes seqüências de manobras da ligamentotaxia (lordose + distração e distração + lordose) foi realizada por meio do teste t de Student tendo sido estabelecido o nível de significância de 5% (p<0,05).

 

RESULTADOS

As vértebras fraturadas e selecionadas para o estudo apresentaram após a produção da fratura diminuição da altura do corpo vertebral que variou de 6 a 8 mm (média 7mm). (Figura 6 e Tabela 1).

 

 

 

 

A comparação dos diâmetros do canal vertebral antes e após a realização da ligamentotaxia apresentou diferença estatisticamente significativa (p< 0,001) indicando que a manobra da ligamentotaxia realizada foi eficiente para a descompressão do canal vertebral em todas as sequências realizadas e também nos espécimes que tiveram a sua altura reconstituída. As Tabelas 2 e 3 e Figuras 7 e 8 mostram os valores obtidos com as diferentes sequências da realização das manobras nos espécimes. A descompressão do canal vertebral foi observada considerando-se a realização da manobra da ligamentotaxia inicial ou a sua realização no espécime reconstituído. A comparação do resultado geral da descompressão do canal vertebral apresentou diferença estatística (p<0,001) com os valores iniciais para os dois tipos de seqüência realizadas indicando que a ocorrência e a eficácia da ligamentotaxia na descompressão do canal vertebral do modelo de estudo utilizado.

 

 

 

 

 

 

 

 

A comparação dos resultados dos deslocamentos obtidos pela manobra de distração+lordose com a manobra de lordose+distração não apresentaram diferença estatística significativa (p=0,06). A análise dos dados percentuais mostrou diferença entre os dois métodos, e embora não tenha sido observada diferença estatística significativa,o valor observado esteve muito próximo do nível de significância adotado (p<0,05). Essa proximidade sugere uma tendência de melhor correção, quando é realizada a manobra de lordotização seguida da distração. O aumento do diâmetro do canal vertebral na manobra de distração+lordose foi de 19,2% e de 43,7% na manobra de lordose+distração. Os valores do deslocamento do fragmento fraturado do corpo vertebral nos espécimes fraturados, reconstituídos e no grupo total pode ser observado na Figura 9.

 

 

DISCUSSÃO

A ligamentotaxia é uma alternativa para a descompressão do canal vertebral e apresenta a vantagem da não realização da abordagem adicional (anterior ou póstero-lateral) do segmento vertebral para a descompressão das estruturas nervosas comprimidas pelos fragmentos ósseos da parede posterior do corpo vertebral. A ligamentotaxia deve ser realizada o mais precocemente possível, sendo os melhores resultados observados nos primeiros quatro dias após o trauma(7-9). A realização da ligamentotaxia está diretamente relacionada ao tensionamento do ligamento longitudinal posterior que produz o reposicionamento do fragmento fraturado do corpo vertebral. A inserção do LLP ocorre na junção entre o disco e o corpo vertebral e nesse local o ligamento o LLP apresenta prolongamentos laterais. Na parte média do corpo vertebral esse ligamento encontra-se alguns milímetros afastado da parede posterior do corpo vertebral ao nível do forame de nutrição. Em conseqüência dessa característica anatômica, os fragmentos do corpo vertebral com retropulsão no canal vertebral e causando compressão compressão menor que 35% não podem ser reduzidos com a aplicação de força de distração da ordem de 150N(6). Nas lesões muito graves nas quais somente a parede do ânulo posterior e o LLP permanecem intactos, ocorre diminuição da força de redução gerada por esse ligamento(6,8). A conexão entre o disco e o fragmento ósseo fraturado é de grande importância, não ocorrendo a redução do fragmento quando o fragmento do corpo vertebral fraturado perde a sua conexão com o disco, embora o LLP mantenha a sua integridade. Essa conexão representa um mecanismo adicional de redução, que auxilia na redução dos fragmentos ósseos e parece estar relacionada com a redução anatômica da lesão e não com a distração(6).

A realização da ligamentotaxia com a utilização do fixador interno implica na realização das manobras de lordose e distração e tem sido recomendada a realização da lordose antes da distração. Apesar da recomendação técnica dessa seqüência não observamos na literatura estudos comparando a seqüência dessas manobras.

A ligamentotaxia está intimamente relacionada com o tratamento das fraturas do tipo explosão e que apresentam integridade dos elementos ligamentares posteriores. A correção isolada da cifose do segmento vertebral fraturado não permite a descompressão do canal vertebral e a aplicação da força de distração é que promove a ligamentotaxia(5). A aplicação da força de distração antes ou após a correção da cifose é o principal elemento para a realização da ligamentotaxia e descompressão do canal vertebral(5,8). Nossos resultados confirmam essa observação, mas é possível que a sequência da aplicação das manobras conduza a resultados distintos. Apesar da não observação de diferença estatística ficou a impressão de que a realização inicial da lordose potencializa descompressão do canal.

A aplicação isolada da distração não apresenta vantagem e a sua realização por meio de instrumentação longa causa a retificação das curvas fisiológicas da coluna vertebral(8). Os resultados obtidos em nosso estudo mostraram que a realização adicional da manobra de lordose, antes ou depois da manobra de distração, contribuiu para a descompressão adicional do canal vertebral. Existem relatos de melhores resultados clínicos com a confecção de lordose nas hastes de Harrington utilizadas para essa finalidade(10).

Os resultados observados em nosso estudo experimental corroboram o relato de Zou et al.(8), no qual afirmam que a manobra de distração isolada é a responsável pela restauração do altura do corpo vertebral, e que a descompressão do canal vertebral por meio da ligamentotaxia apresenta melhores resultados quando associada com a manobra da lordose.

Deve ser ainda considerado que a descompressão do canal vertebral não ocorre exclusivamente pelo efeito da ligamentotaxia. O efeito do tensionamento de todas as partes moles inseridas na vértebra, incluindo o ligamento longitudinal anterior e o ânulo fibroso também participam no reposicionamento dos fragmentos(5). Essa observação corrobora a realização da lordose associada à distração, concordando com os resultados que observamos no experimento.

O modelo experimental utilizado merece considerações e a utilização das vértebras de suínos reflete a dificuldade da obtenção de vértebras de cadáveres humanos. A interpretação dos resultados deve considerar as possíveis diferenças anatômicas entre a vértebra humana e a vértebra de suínos. No entanto, o padrão de inserção do ligamento longitudinal posterior é muito semelhante e o fenômeno básico da ligamentotaxia pode ser estudado nesse modelo experimental.

A análise estatística dos nossos resultados não mostrou diferença entre a sequência da realização das manobras da ligamentotaxia. No entanto, o nível de significância obtido na comparação foi muito próximo ao nível adotado, sugerindo uma forte tendência que demonstra que a realização da lordose seguida da distração durante a realização da ligamentotaxia teria maior potencial para a descompressão do canal vertebral.

 

CONCLUSÃO

A comparação da seqüência da realização das manobras da ligamentotaxia (lordose + distração versus distração + lordose) não apresentou diferença estatística significativa com relação à descompressão do canal vertebral, mas sugerindo que a melhor sequência é quando se inicia pela realização da lordose.

 

REFERÊNCIAS

1. Aebi M, Etter C, Kehl T, Thalgott J. Stabilization of the lower thoracic and umbar spine with the internal spinal skeletal fixation system. Indications, techniques, and first results of treatment. Spine. 1987;12:544-51.         [ Links ]

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Endereço para correspondência:
Helton L. A. Defino
Avenida Bandeirantes, 3900 - 11º and - Campus Universitário
Ribeirão Preto/São Paulo
E-mail: hladefin@fmrp.usp.br

Trabalho recebido em 21/08/06
aprovado em 10/10/06

 

 

Trabalho realizado no Departamento de Biomecânica, Medicina e Reabilitação do Aparelho Locomotor da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo.

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