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Acta Ortopédica Brasileira

Print version ISSN 1413-7852On-line version ISSN 1809-4406

Acta ortop. bras. vol.17 no.5 São Paulo  2009

http://dx.doi.org/10.1590/S1413-78522009000500009 

ARTIGO ORIGINAL

 

Início da atividade elétrica dos músculos estabilizadores da patela em indivíduos com SDPF

 

 

Débora Bevilaqua-GrossiI; Lilian Ramiro FelícioI; Geraldo Wendel Pereira SilvérioII

IFaculdade de medicina de Ribeirão Preto FMRP-USP
IIUniversidade de Rio Verde (em memória)

Endereço para Correspondência

 

 


RESUMO

OBJETIVO: Avaliar a porcentagem de disparo inicial (PDI) dos músculos estabilizadores da patela durante exercícios de contração isométrica voluntária máxima (CIVM) em indivíduos com e sem sinais da síndrome da dor patelofemural (SDPF) nos exercícios de cadeia cinética aberta (CCA) e fechada (CCF).
MÉTODO: Foram avaliadas 10 mulheres sem queixa de dor anterior no joelho e 12 mulheres com sinais de SDPF durante a CIM em CCA e CCF com o joelho posicionado a 90º de flexão do joelho. O início da atividade eletromiográfica dos músculos vasto medial obliquo (VMO), vasto lateral obliquo (VLO) e vasto lateral longo (VLL) foi identificada por meio de um algoritmo no programa Myosystem Br 1. A análise estatística empregada foi o teste Qui-Quadrado e o teste t de student, ambos os teste com nível de significância de 5%.
RESULTADOS: Os músculos VMO e VLO apresentaram uma maior PDI em relação ao músculo VLL durante os exercícios em CCA para ambos os grupo e para o grupo SDPF em CCF. Não foi observado diferença entre os grupos.
CONCLUSÃO: Pode-se sugerir que tanto os exercícios em CCA quanto em CCF, parecem beneficiar o sincronismo na musculatura estabilizadora da patela, podendo ser indicado nos programas de tratamento fisioterapêutico.

Descritores: Exercício. Síndrome da dor patelofemural. Eletromiografia.


 

 

INTRODUÇÃO

A síndrome da dor patelofemural (SDPF) é um dos acometimentos mais frequentes das lesões osteomioarticulares do joelho, afetando principalmente mulheres jovens e sedentárias. A SDPF é definida como uma dor anterior no joelho, sendo agravada durante atividades funcionais como subir e descer escadas, agachar e permanecer sentado por tempo prolongado.1,2 Embora os fatores etiológicos não estejam bem definidos, alguns autores relatam que alterações nos estabilizadores dinâmicos da patela podem estar relacionadas com este acometimento.1,3 Alguns autores apontam que o desequilíbrio entre o tempo de resposta dos músculos Vasto Medial Obliquo (VMO) e Vasto Lateral (VL) e que alterações no tempo de resposta reflexa do VMO poderiam desencadear a SDPF.1,4,5 Contudo, muitos autores não observaram diferença entre o início da atividade elétrica destes músculos entre indivíduos com SDPF e sem dor anterior no joelho.1,4,6 Witvrouw et al.4 observaram que durante a atividade em cadeia cinética aberta (CCA) o músculo VMO inicia sua atividade posteriormente ao músculo VL, segundo estes autores, isso poderia levar ao desalinhamento patelar durante esta atividade, concordando com Cowan et al.1, que também verificaram diferença no início da atividade elétrica dos estabilizadores da patela. Entretanto, alguns trabalhos demonstraram um início de atividade simultânea entre músculos VMO e VL durante o movimento de extensão da perna nos exercícios em CCA, descartando a idéia de que a assincronia poderia ser um fator etiológico da DSFP.5,7-9 De qualquer forma, estes trabalhos analisaram o início da atividade do músculo VMO em relação ao VLL e segundo Bevilaqua-Grossi et al.10, o músculo Vasto Lateral Obliquo (VLO) é um importante estabilizador, sendo sua ação antagônica e sincrônica ao VMO. Apenas Morrish e Woledge7 analisaram o início da atividade eletromiográfica do vasto lateral oblíquo (VLO), entretanto avaliaram apenas durante a contração isométrica a 20º de flexão do joelho. Portanto, a proposta do presente trabalho foi analisar o início da atividade elétrica dos músculos VMO, VLL e VLO por meio da eletromiografia de superfície durante exercícios em CCA e CCF em indivíduos com e sem sinais e sintomas de SDPF.

 

MATERIAIS E MÉTODO

Sujeitos

Foram avaliadas 10 mulheres sem queixa de dor anterior no joelho (grupo saudáveis), com média de idade 22,2 ± 2,25 anos e 12 indivíduos com SDPF (grupo SDPF) com média de idade de 22 ± 2,04 anos, triadas a partir de uma amostra selecionada por conveniência. Os critérios de inclusão e exclusão para os grupos com e sem sinais de SDPF estão de acordo com Coqueiro et al.11 e Bevilaqua-Grossi et al.6 O estudo foi conduzido de acordo com a resolução 196/96 do Conselho Nacional de Saúde, sendo aprovado pelo Comitê de Ética da Instituição.

Instrumentação

Para analisar o início do tempo de atividade eletromiográfica dos músculos VMO, VLL e VLO, foram utilizados eletrodos ativos simples diferencial (10X1mm) de Ag/AgCl da marca Lynx Tecnologia Eletrônica Ltda. (São Paulo, SP) com ganho de 20 vezes, conectados a um eletromiógrafo da marca Myosystem® (Uberlândia, MG) placa conversora A/D de 12 bits, com amplificação de 100 vezes, totalizando um ganho de 2000 vezes. O índice de rejeição de modo comum (IRMC) foi de 93dB e a frequência de aquisição de 2KHz. O eletrodo de referência de 3 cm2 foi fixado na tuberosidade da tíbia1 do membro avaliado. Os sinais eletromiográficos foram processados por meio do programa Myosystem-Br1 versão 2.9 b (Uberlândia, MG), seguindo um algoritmo que identificou e quantificou em segundos o início da atividade eletromiográfica dos músculos estabilizadores da patela.

Durante a execução dos exercícios em CCA foi utilizado um equipamento extensor no qual a voluntária permaneceu sentada com o quadril e o joelho a 90º de flexão (Figura 1) os exercícios em CCF foram realizados no aparelho Leg Press com inclinação a 45º em relação ao solo e com os joelhos posicionados a 90º de flexão (Figura 2), para ambos os exercícios, o tronco e a cabeça das voluntárias foram estabilizados por um cinto.

 

 

 

 

Procedimentos

Os exercícios foram realizados de maneira aleatória e no membro inferior dominante para o grupo sem sinais de SDPF e no membro acometido para os indivíduos com SDPF. Anteriormente a colocação dos eletrodos, a região da pele foi tricotomizada e realizado a assepsia com álcool a 70%. Os eletrodos foram posicionados no músculo VMO com uma inclinação de 55º em relação ao eixo do fêmur e 4 cm acima da borda súpero-medial da patela12,13, enquanto para o VLL, o eletrodo permaneceu à 15 cm da borda súpero-lateral da patela e com inclinação de 14º. Em relação ao músculo VLO, o eletrodo foi posicionado a 2 cm acima do epicôndilo lateral do fêmur com inclinação de 50,4º.14 O eletrodo de referência foi posicionado na tuberosidade anterior da tíbia do membro inferior a ser avaliado. Após a colocação dos eletrodos foram solicitadas três repetições da contração isométrica voluntária máxima (CIVM) a 90º de flexão do joelho em CCA e em CCF, sendo realizado estímulo verbal durante os testes. Entre cada contração foi realizado um repouso de 30 segundos.

Análise estatística

Foram computadas para a análise estatística a porcentagem de disparo inicial (PDI) da atividade eletromiográfica determinada através da proporção do número de vezes que os músculos VMO, VLL e VLO dispararam primeiro em segundos em cada grupo. A PDI entre os estabilizadores patelares foi comparada por meio do teste Qui-Quadrado, com p<0,05.

Para a comparação do início da atividade eletromiográfica dos músculos VMO, VLL e VLO entre os exercícios em CCA e CCF e entre os grupos, foi utilizado o teste t Student - independente com p<0,05.

 

RESULTADOS

Os resultados revelaram durante a CIVM em CCA, que os músculos VMO e VLO possuem PDI maior que o músculo VLL, para ambos os grupos. Durante a atividade de CIVM em CCF, pode-se observar para o grupo SDPF que o PDI é maior nos músculos VMO e VLO em relação ao músculo VLL. Não foram observadas diferenças significativas em relação a PDI entre os estabilizadores patelares durante a CIVM em CCF para o grupo sem sinais de SDPF. (Tabela 1)

 

 

Em relação às comparações entre os grupos, saudáveis e SDPF, não foram observados diferença significativa tanto durante a atividade em CCA, quanto em CCF. (Tabela 2)

 

 

DISCUSSÃO

De acordo com os resultados, a PDI nos grupos saudável e SDPF durante os exercícios em CCA foi maior nos músculos VMO e VLO em relação à VLL. Voight e Wieder15 confirmam esses achados. Estes autores sugerem que o controle motor neurofisiológico no aparelho extensor contribui para prevenir a dor anterior no joelho, por outro lado, eles não avaliaram o VLO, que é funcionalmente importante para controlar a ação do VMO, contribuindo com a estabilização da patela e a manutenção do equilíbrio femoropatelar.7,10

Esta maior PDI do VMO está relacionada, de acordo com Grabiner et al.16 à sua vantagem mecânica sobre o VL em virtude da obliquidade das suas fibras musculares como forma de colaborar na manutenção do posicionamento patelar na tróclea femural.

Segundo Cowan et al.1 e Cowan et al.5, a dor patelofemural está associada com o desequilíbrio muscular entre VMO e VL, e exercícios que apresentem uma melhora no equilíbrio dos estabilizadores patelares devem ser realizados durante os programas de reabilitação fisioterapêutica. Entretanto, como observado por Bevilaqua-Grossi et al.10, os músculos VLL e VLO apresentam ações diferentes, sendo o VLO responsável em equilibrar as forças de ação do VMO, desta maneira, exercícios que levam a um equilíbrio entre VMO e VLO devem ser realizados.

Os resultados deste trabalho mostraram que para ambos os grupos e exercícios não foi observada diferença significativa entre os músculos VMO e VLO. Desta maneira podemos verificar um sincronismo entre os músculos VMO e VLO em ambos os grupos durante as atividades em CCA e CCF, confirmando os resultado de Bevilaqua-Grossi et al.10 que através da análise da atividade eletromiográfica sugeriram que estes músculos agem em sincronia. Não foram localizados trabalhos que avaliaram a PDI do músculo VLO.

De acordo com os dados do presente trabalho, não foram observadas diferenças significativas entre os grupos saudáveis e com SDPF nas atividades estudadas, entretanto, pode-se verificar que os exercícios em CCA e CCF para os grupos apresentam um sincronismo entre os principais estabilizadores patelares, VMO e VLO. Outro aspecto observado é que a hipótese de que o VLL dispara anteriormente aos músculos VMO nos indivíduos com SDPF não foi confirmada e, portanto, acreditamos que outros fatores estejam envolvidos com o aparecimento da SDPF.

Estes dados não concordam com os observados por Stensdotter et al.17, que observaram um início de atividade anterior do VMO para o grupo controle em relação ao grupo SDPF. Entretanto, apesar de não ter sido observado esta diferença estatística pode-se verificar para o músculo VMO um onset menor para o grupo com SDPD em relação ao controle durante o exercício em CCA e um melhor sincronismo em CCF. Segundo Neptune et al.18, o atraso no início da atividade elétrica do VMO em no mínimo 5 milisegundos relativo ao VL, aumentaria o pico e a força de reação da patela sobre a tróclea, o que poderia ocasionar dor anterior no joelho.

Os dados sugerem que, tanto as CIVM em CCA e CCF realizados a 90 graus de flexão não apresentam diferença temporal na resposta eletromiográfica sugerindo que estes exercícios possam ser utilizados para a reabilitação dos estabilizadores patelares, podendo ser indicados no tratamento fisioterapêutico de indivíduos com SDPF.

 

CONCLUSÃO

De acordo com os dados do presente trabalho pode-se afirmar que a porcentagem de disparo inicial do músculo VLL não é maior quando comparado ao músculo VMO em indivíduos com SDFP, e que a PDI dos músculos VMO e VLO não diferem entre si, sugerindo uma ação sincrônica na estabilização da patela durante os exercícios em CCA e CCF para ambos os grupos e que não há diferença na resposta temporal entre indivíduos com e sem SDFP. Desta maneira, tanto os exercícios em CCA e CCF podem ser realizados durante a intervenção fisioterapêutica.

 

REFERÊNCIAS

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Endereço para correspondência:
Av. Bandeirantes 3900, casa 2 Fisioterapia
CEP 14049-900. Ribeirão Preto, SP. Brasil
e-mail: deborabg@fmrp.usp.br

Trabalho recebido em 29/04/08 aprovado em 12/11/08

 

 

Todos os autores declaram não haver nenhum potencial conflito de interesses referente a este artigo.
Trabalho realizado no Departamento de biomecânica, Medicina e Reabilitação do Aparelho locomotor Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto FMRP-USP.

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