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Acta Ortopédica Brasileira

Print version ISSN 1413-7852

Acta ortop. bras. vol.18 no.1 São Paulo  2010

http://dx.doi.org/10.1590/S1413-78522010000100002 

ARTIGO ORIGINAL

 

Resultados do tratamento artroscópico das rupturas do manguito rotador

 

 

Carlos Henrique Ramos; João Said Sallum; Roberto Luis Sobania; Luis Gustavo Borges; Wilson Carlos Sola Junior; Leandro Yuji Pereira Ribeiro

Departamento de Ortopedia e Traumatologia da Santa Casa de Misericórdia de Curitiba – Paraná – Brasil

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

OBJETIVO: Analisar os resultados do reparo artroscópico das rupturas do manguito rotador.
MÉTODOS: Realizado estudo retrospectivo com avaliação dos resultados da técnica em 42 pacientes operados entre 2002 e 2006. O seguimento médio foi de 31 meses e a média de idade foi de 57 anos, sendo o lado dominante operado em 73,8% dos casos. Para avaliação foram usadas escalas de UCLA e Escala Visual Analógica da dor no pós-operatório.
RESULTADOS:
Os resultados foram satisfatórios em 85,7% (59,5% excelentes e 26,2% bons respectivamente) e insatisfatórios em 14,3% dos pacientes. Nos casos com lesões associadas, a mais frequente foi no tendão da porção longa do bíceps (57,1%). Associação com outras lesões não comprometeu o resultado. O mesmo aconteceu com relação a idade e tempo de acompanhamento pós-cirurgia. Quanto ao tamanho da lesão, diferença significativa ocorreu nos casos de lesões grandes e maciças demonstrando resultados inferiores em relação às pequenas e médias. A função foi inferior principalmente nos casos de lesão maciça.
CONCLUSÃO:
A reparação artroscópica das lesões do manguito rotador (MR) proporciona baixa morbidade cirúrgica e possibilita diagnóstico de lesões articulares associadas. O benefício do procedimento foi confirmado principalmente pela melhora significativa da dor, mesmo nos casos de lesões maiores.

Descritores: Bainha rotadora. Ombro. Artroscopia.


 

 

INTRODUÇÃO

O manguito rotador (MR), formado posteriormente pelos tendões dos músculos supraespinal (Se), infraespinal (Ie), redondo menor (Rm) e, anteriormente pelo tendão do músculo subescapular (Sc), tem contribuição importante nas funções de mobilidade e estabilidade do ombro. Lesões desta estrutura representam uma das maiores causas de incapacidade no ombro.1,2 Resultados satisfatórios do tratamento conservador variam na literatura entre 40 e 82 %, sendo que fatores como: idade, co-morbidades, níveis de atividade e grau de disfunção do ombro, interferem no mesmo. Com aumento da demanda funcional como prática de esportes, atividades laborais e/ou diárias, etc., em alguns pacientes o tratamento conservador pode não ter sucesso. Essa situação tem ocorrido mais frequentemente devido ao aumento da expectativa e qualidade de vida.2-4 Nesses casos, reparo cirúrgico tem-se mostrado eficiente, havendo alto índice de satisfação, com alívio da dor e melhora da função, variando entre 70 a 95%.5-9

A técnica artroscópica demonstra resultados similares à cirurgia aberta, sendo associada a vantagens como: preservação do músculo deltóide, possibilidade de diagnóstico articular e menor morbidade cirúrgica.9-12

O objetivo deste trabalho é avaliar os resultados do tratamento artroscópico do manguito rotador realizados no serviço.

 

MATERIAL E MÉTODO

Foi realizada análise retrospectiva dos resultados do reparo artroscópico do manguito rotador nos pacientes operados no serviço entre 2002 e 2006. O diagnóstico das lesões foi feito através de história clínica, exame físico e complementação radiológica (raio-x simples, ultrassonografia e/ou ressonância magnética). O critério para indicação cirúrgica em todos os casos foi insucesso no tratamento conservador por pelo menos 6 meses. O acompanhamento pós-operatório foi no mínimo de 1 ano.

 

TÉCNICA CIRÚRGICA

Os pacientes foram operados pelo mesmo cirurgião, com anestesia geral associada ao bloqueio interescalênico, posicionados em decúbito lateral, com auxílio de tração longitudinal do membro superior operado. Utilizado portal posterior para diagnóstico e instrumentação articular, e portais complementares para inspeção e tratamento subacromial. A extensão das lesões foi medida com uso de régua artroscópica milimetrada sendo classificadas como pequenas (lesões parciais completadas ou até 1 cm), médias (entre 1 e 3 cm), grandes (entre 3 e 5 cm) ou maciças (maiores que 5 cm).13 A medida considerada foi correspondente à retração do tendão. (Figura 1) As lesões completas (envolvendo toda espessura do tendão) foram reparadas e as parciais com comprometimento maior que 50% da espessura do tendão, seja pela superfície bursal ou articular (Figura 2), foram completadas e reparadas, sendo interpretadas como lesões completas de extensão pequena na análise do estudo. A reparação foi obtida com auxílio de implantes tipo âncoras ósseas (metálicas ou absorvíveis) e fios inabsorvíveis nº 2 (Ethibond® ou Orthocord®), conforme disponibilidade, sendo usados pontos tipo tendão-tendão e/ou tendão-osso dependendo do aspecto da lesão.

 

 

 

 

No pós-operatório (PO), todos foram imobilizados com tipóia tóraco-braquial durante seis semanas, com mobilização passiva e ativa do cotovelo, punho e mão imediatos, além de exercícios pendulares no ombro. Após 6ª semana, iniciou-se mobilização passiva e ativa progressivas do ombro para ganho de amplitude articular, permitindo-se exercícios de fortalecimento muscular após terceiro mês. Controle radiológico foi realizado de rotina no primeiro dia PO, para verificação do posicionamento correto das âncoras. (Figura 3) Nos pacientes que apresentavam alterações radiológicas e principalmente dor pré-operatória na articulação acrômio-clavicular (AC), foi associada ressecção de clavícula distal (procedimento de Munford). Nos casos sem dor na AC, mas com presença de osteófitos na clavícula distal, observados durante a cirurgia, foi associada ressecção dos mesmos, procedimento definido como Mini-Munford.2 Nos casos com lesão da porção longa do bíceps (comprometendo mais que 50% da espessura) foi realizada tenotomia com ou sem tenodese. (Figura 4) O critério para realização da tenodese foi a idade e exigência funcional do paciente, sendo portanto indicada nos casos abaixo de 50 anos ou trabalho com necessidade de esforço. Quando realizadas, o coto distal do CLB foi fixado com âncoras ósseas. Como todos casos foram rupturas do MR na sua porção póstero-superior, alterações no tendão subescapular foram consideradas lesões associadas. (Figura 5)

 

 

 

 

 

 

Foi preenchido protocolo com dados de cada paciente incluindo: nome, sexo, endereço, idade, lado dominante, lado operado, data cirurgia e tempo de seguimento, tamanho da lesão, lesões associadas, procedimentos associados, tipo de reparo, número de portais, número e tipo de âncoras, mobilidade pós-operatória, complicações, retorno às atividades. Para avaliação dos resultados foram utilizados critérios de UCLA (University of California-Los Angeles)14 e Escala Visual Analógica (0 a 10) para dor. A amplitude de mobilidade articular foi avaliada segundo convenção de AAOS.15

Os resultados obtidos foram confrontados com: idade, tamanho da lesão, lesões associadas, procedimentos associados, nível da dor e tempo de seguimento pós-operatório, analizando-os estatisticamente pelos Testes t de Student e Teste de Fischer.16,17

 

RESULTADOS

Foram reavaliados 42 pacientes, sendo 14 (33,3%) do sexo masculino e 28 (66,7%) feminino, com idade variando entre 39 e 79 anos (média de 57,3 anos). O lado dominante foi operado em 73,8% (31 casos). O tempo de seguimento médio foi de 31 meses, com mínimo de 12 e máximo de 66 meses. O resultado foi satisfatório em 36 pacientes (85,7%). (Tabela 1) A lesão associada mais comum foi no tendão da porção longa do bíceps (PLB), sendo encontrada em 22 casos. Destes, em 68,1% (15 casos) foi necessário procedimento complementar (tenotomia com ou sem tenodese). Outras lesões e procedimentos associados estão demonstrados nas Tabelas 2 e 3. Analisados separadamente, entre os pacientes maiores e menores de 50 anos, não houve diferença significativa nos resultados. O mesmo ocorreu com relação à presença ou não de lesões associadas e quando outros procedimentos foram realizados. Também não houve diferença considerando-se grupos com seguimento PO maior e menor que 2 anos. O tamanho da lesão influenciou estatisticamente no resultado, havendo predominância de resultados satisfatórios nos casos de lesões pequenas e médias comparados `as lesões grandes e maciças. (Tabela 4) Esta situação se refletiu na função PO, com casos de lesão maciça comprometendo principalmente elevação. (Tabela 5) Ao avaliar dor, concluiu-se que a média da mesma antes da cirurgia foi significativamente maior que no PO, mesmo nos casos insatisfatórios. Portanto, mesmo com função diminuída, a maioria obteve melhora da dor. Isto se confirma no dado subjetivo quanto à satisfação com a cirurgia, em que todos pacientes referiram melhora após a cirurgia. O retorno às atividades prévias a cirurgia ocorreu em média no quinto mês, variando de 45 dias a 1 ano PO. Nenhum pacienta apresentou complicação com o procedimento.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

DISCUSSÃO

Os resultados do tratamento cirúrgico das lesões do MR têm sido demonstrado satisfatórias pela maioria dos autores.8,9,11,14 Com a melhora da qualidade e tecnologia dos materiais, bem como melhora na curva de aprendizado para realização do reparo totalmente artroscópico, esta técnica tem se popularizado como vantajosa pela redução da morbidade cirúrgica, além de possibilitar diagnóstico e tratamento de lesões associadas na articulação. Com isto, os resultados apresentados na literatura recente têm sido cada vez melhores (70 a 95%).1,5-9 Obtivemos resultados semelhantes com 85,7% de satisfação. Estes resultados são geralmente demonstrados como inferiores em pacientes mais idosos. Worland et al.18 demonstraram em pacientes acima de 70 anos resultados satisfatórios em 78,2%. Nossos resultados foram superiores talvez por se tratar de pacientes com faixa etária inferior (média de 57,3 anos). Mesmo assim, nossos resultados não foram piores nos pacientes mais idosos. A possibilidade do diagnóstico articular demonstrou ser uma vantagem, após encontramos lesões associadas em 52,3% dos casos. A mais frequente foi observada no tendão da PLB em 57,1% dos casos. Isto corresponde com Murthi et al.19 que encontraram maior associação com lesões no bíceps. Apesar disso, nossos resultados não foram influenciados quando havia lesões associadas. De fato, Gartsman et al.20 encontraram outras lesões articulares em 68% dos casos, considerando-as "lesões menores" por não interferirem nos resultados, necessitando de tratamento complementar em apenas 12,5% delas. O fator que influenciou estatisticamente nossos resultados foi tamanho da lesão, sendo superior nas lesões pequenas e médias comparadas às grandes e maciças (97% e 55% respectivamente). Esta relação se manteve com relação a função PO com lesões maciças demonstrando média de elevação inferior (103,3°) comparadas as lesões menores (166,8°). Apesar de comprometer função, mesmo lesões maiores estavam relacionados a melhora da dor. A diferença da mesma observada no PO foi significativa, confirmando o benefício do procedimento quando o objetivo é principalmente tratamento da dor. Sendo assim, mesmo nos casos de lesões maciças, muitas vezes irreparáveis, recomendamos o procedimento após falha no tratamento conservador.

 

CONCLUSÃO

O reparo artroscópico do manguito rotador demonstrou resultados satisfatórios em 85,7% dos casos;

Fatores como: sexo, idade, associação com outras lesões e tempo PO não interferiram no resultado final;

Lesões maiores evoluem com piores resultados;

A melhora da dor foi o principal benefício obtido com o procedimento, sendo observada mesmo nos casos com piores resultados funcionais.

 

REFERÊNCIAS

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Endereço para correspondência:
Rua da Paz, 195, cj 120
CEP 80060-160 – Curitiba, PR, Brasil
E-mail: chramos@hotmail.com

Trabalho recebido em 01/09/08
aprovado em 12/12/08

 

 

Todos os autores declaram não haver nenhum potencial conflito de interesses referente a este artigo.
Trabalho realizado no Departamento de Ortopedia e Traumatologia da Santa Casa de Misericórdia de Curitiba – Paraná – Brasil

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