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Acta Ortopédica Brasileira

versão impressa ISSN 1413-7852

Acta ortop. bras. vol.18 no.1 São Paulo  2010

http://dx.doi.org/10.1590/S1413-78522010000100003 

ARTIGO ORIGINAL

 

Relação entre o ligamento patelofemoral lateral e a largura da faceta patelar lateral

 

 

Marcelo Schmidt NavarroI; Carlos Augusto Beltrani FilhoI; Jorge Akita JuniorI; Ricardo Dizioli NavarroII; Moisés CohenII

IFaculdade de Medicina do ABC, Santo André (SP), Brasil
IIDepartamento de Ortopedia da UNIFESP - São Paulo (SP), Brasil

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

OBJETIVO: Avaliar a relação entre o comprimento e largura do ligamento patelofemoral lateral (LPFL) e a largura da faceta articular patelar lateral (FAPL) em cadáveres. A instabilidade patelofemoral está intimamente relacionada com a morfologia patelar e com a tensão das estruturas retinaculares laterais. Estudos evidenciam que quanto mais larga a faceta patelar lateral e quanto mais tenso o retináculo lateral, maior a propensão do desenvolvimento de uma enfermidade na articulação patelofemoral.
MÉTODOS: Foram dissecados 20 joelhos em 20 cadáveres. Identificamos as peças quanto ao gênero, idade, lado dissecado, comprimento e largura do LPFL e a largura da FAPL. Foi utilizado o nível de significância estatística de 5% (0,050) e a aplicação da análise de correlação de Spearman.
RESULTADOS: O LPFL apresentou em média 16,05 milímetros de largura (desvio-padrão 2,48) e 42,10 milímetros de comprimento (desvio-padrão 8,84). A largura da FAPL variou de 23 a 37 milímetros (média 28,1). A relação entre a largura da FAPL e a largura do LPFL é estatisticamente não-significante (p=0,271), enquanto que a relação entre a largura FAPL e o comprimento do LPFL é estatisticamente significante (p=0,009).
CONCLUSÃO: O comprimento do LPFL e a largura FAPL apresentam valores inversamente proporcionais.

Descritores: Joelho/anatomia & histologia. Instabilidade articular. Ligamento patelar. Luxação patelar. Condromalácia da patela. Dissecação.


 

 

INTRODUÇÃO

O estudo detalhado da anatomia do joelho é fundamental para o entendimento das enfermidades que o afetam.1,2 O retináculo patelar é um importante estabilizador da articulação patelofemoral, principalmente seus componentes medial e lateral. O retináculo lateral é constituído pelas camadas superficial oblíqua e a transversa profunda.3 Duas das principais estruturas retinaculares laterais estabilizadoras da patela são o ligamento patelotibial lateral e o ligamento patelofemoral lateral (LPFL).4,5

Há uma grande diversidade anatômica nas estruturas do joelho responsável pelos distúrbios patelares. Dentre essas variáveis há uma grande associação entre o formato da patela e a instabilidade patelofemoral.6,7 O aumento da tensão retinacular lateral durante o desenvolvimento pode causar a inclinação lateral da patela, luxação lateral da patela e alteração da excursão patelar.8

A patela lateralizada durante o crescimento do indivíduo pode ser responsável pelo desenvolvimento de uma faceta patelar lateral mais larga, predispor uma hipoplasia do côndilo femoral lateral, acarretar uma patela alta e um sulco troclear raso.9 Estudos evidenciam que quanto maior a faceta articular patelar lateral e quanto mais tenso e encurtado o LPFL, maior a propensão de um indivíduo desenvolver dor anterior no joelho e instabilidade lateral da patela.10,11

Portanto, procuramos avaliar através do estudo em cadáveres se existe uma relação entre a morfologia do LPFL com o tamanho da faceta articular patelar lateral.

 

MÉTODO

No Serviço de Verificação de Óbitos do Município da Capital de São Paulo (SVOC-FM USP) foi realizada a dissecação de 20 joelhos em 20 cadáveres. A pesquisa foi aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa da UNIFESP (CEP 0093/07).

Doze cadáveres eram do gênero masculino e oito do feminino. As peças foram preparadas a fresco e não formolizadas. As peças foram identificadas quanto ao gênero, idade, lado dissecado, data da dissecação, comprimento e largura do ligamento patelofemoral lateral (LPFL) e comprimento da patela (CP). Não consideramos a cor dos cadáveres, uma vez que não encontramos na literatura estudada tal relevância. A escolha das peças foi randomizada, com o objetivo de evitar viés. Utilizou-se um paquímetro milimetrado para a medição dos valores. Todas as medidas foram realizadas com o joelho em flexão de 30º.

Os joelhos que apresentaram sinais de alguma enfermidade ou cicatrizes não foram utilizados. Quando ambos os joelhos apresentaram-se em boas condições de dissecação a escolha pelo lado foi aleatória.

Dos 20 joelhos dissecados, 11 foram do lado direito e 9 do lado esquerdo. A média da idade foi 50,2 anos (de 20 a 88 anos).

Foi realizada incisão ântero-lateral longitudinal no joelho na metade da distância entre o epicôndilo lateral e a borda lateral da patela, conforme descrito por Dye et al.12 A incisão inicial originava-se dois centímetros proximais à borda superior da patela e terminava dois centímetros distais à tuberosidade tibial. (Figura 1)

 

 

Após dissecação cuidadosa, foi identificado e removido o retináculo superficial oblíquo (Figura 2), a fim de expor o retináculo transverso profundo (Figura 3), conforme com os estudos de Fulkerson.13

 

 

 

 

Após a remoção da camada retinacular superficial foi identificado o LPFL, apresentando-se como um espessamento visível e palpável na camada do retináculo transverso profundo. O LPFL foi isolado e dissecado desde a região femoral até e a patelar. (Figura 4) A medição do comprimento foi realizada entre as junções do LPFL com o fêmur e com a patela. A largura foi mensurada na metade da distância do seu comprimento.

 

 

Uma vez analisado o LPFL seccionamos o retináculo lateral e evertemos a patela para mensurar a largura da faceta patelar lateral. Essa mensuração foi realizada no equador da patela, entre a aresta patelar sua extremidade articular lateral.

Para a análise estatística foi adotado o nível de significância de 5% (0,050) e utilizado a Aplicação da Análise de Correlação de Spearman.

 

RESULTADOS

Os resultados obtidos das dissecações estão apresentados na Tabela 1.

 

 

A largura média do LPFL foi 16,05mm (variou de 13 a 20 mm) com desvio-padrão de 2,48 e o comprimento médio do LPFL apresentou 42,1 mm (variou de 31 a 53 mm) com desvio-padrão 8,84.

A largura da faceta patelar lateral variou de 23 a 37 milímetros, com média de 28,1 milímetros.

Os resultados estatísticos estão expostos na Tabela 2. A relação entre as variáveis ‘faceta patelar lateral’ e ‘largura ligamento patelofemoral lateral’ (LPFL_L) é estatisticamente não-significante, enquanto que a relação entre as variáveis ‘faceta patelar lateral’ e o ‘comprimento ligamento patelofemoral lateral’ (LPFL_C) é estatisticamente significante.

 

 

DISCUSSÃO

As alterações morfológicas do retináculo lateral são consideradas como um dos principais responsáveis pelas enfermidades patelofemorais. O LPFL está diretamente envolvido nessa fisiopatologia, pois essa estrutura é considerada um componente do retináculo lateral e a sua tensão exagerada pode ocasionar subluxação ou luxação lateral da patela.14

Fulkerson e Gossling13 demonstraram que a patela apresenta o primeiro contato articular com a tróclea nos primeiros 10º de flexão do joelho, com entrada levemente lateralizada. Dos 20 aos 30º de flexão a patela encontra-se mais adaptada na tróclea femoral e a partir dos 30º estabiliza-se no sulco troclear. Citaram que a maioria dos problemas patelofemorais está associada com a excursão anormal da patela nos primeiros 30º de flexão. Se o retináculo lateral estiver encurtado e tenso, poderá haver aumento excessivo da pressão e da tensão facetária patelar lateral.13 Referiram ainda que o retináculo lateral tenso apresentou-se com maior frequência nos indivíduos com dor patelofemoral e síndrome da pressão lateral. Essa tensão excessiva pode produzir a inclinação lateral patelar e a dor nos tecidos moles ao seu redor. De acordo com essas informações, notamos que o conhecimento detalhado do retináculo lateral e do LPFL é fundamental para o entendimento das enfermidades que afetam a região anterior do joelho.

No estudo anatômico de Vieira et al.2, em dez joelhos de cadáveres frescos, descreveram o LPFL na camada retinacular lateral profunda. Notaram também que após sua ressecção, a patela espontaneamente excursiona medialmente, o que demonstra a importância desse ligamento na estabilidade patelar no plano sagital.2

Reider et al.1 nomearam o ligamento epicondilopatelar lateral descrito por Kaplan15 como ligamento patelofemoral lateral. Observaram que é um espessamento palpável da cápsula articular e conecta a patela ao epicôndilo femoral. Descreveram que sua largura variou de três a dez milímetros. Em relação à patela, suas mensurações foram realizadas através do estudo de 21 joelhos frescos. Quando as classificaram segundo Wiberg16, 24% dos espécimes eram do tipo I, 57% do tipo II e 19% do tipo III. A largura articular da patela apresentou em média 3,5 centímetros (variou de 3,0 a 3,9 centímetros), o comprimento patelar anterior médio foi 4,5 centímetros (de 3,8 a 5,3). Quando analisaram as correlações quantitativas das suas mensurações, os autores mostraram uma relação significante entre a morfologia da patela e a do ligamento patelofemoral lateral. Afirmaram que quanto mais a patela tende à morfologia do tipo III de Wiberg (a faceta medial é pequena e convexa, enquanto que a lateral é larga e côncava), mais largo é o LPFL. Sugeriram também que o LPFL exerce uma das principais forças que influenciam a forma da patela durante o desenvolvimento do joelho e que a largura desse ligamento é o parâmetro mais intimamente relacionado ao formato da patela. Ainda especulam que o LPFL e o trato iliotibial são estruturas que potencialmente lateralizam a patela, portanto exercem um papel clinicamente relevante nas moléstias da mobilidade patelar.1

De acordo com os resultados das nossas dissecações, observamos a correlação significante entre o comprimento do LPFL e a largura da faceta patelar lateral. Dessa forma, quanto mais curto o LPFL, mais larga é a faceta patelar lateral. Acreditamos que uma hipótese para essa correlação seja a ação do retináculo lateral tenso e encurtado no decorrer do desenvolvimento do joelho. Com a lateralização da patela e o aumento da pressão na faceta lateral durante crescimento do indivíduo, a patela pode desenvolver-se com uma morfologia alterada e predispor às alterações patológicas na articulação patelofemoral.

No estudo da função dos tecidos moles na translação patelar lateral em nove joelhos humanos realizado por Desio et al.17, confirmou-se que o retináculo lateral exerce um papel importante para evitar translação lateral da patela (representa 10% do total da forca de restrição lateral). Essa função do retináculo lateral pode explicar a incidência de altas taxas de falha nos procedimentos de liberação retinacular isolada encontrada na literatura no tratamento das alterações na articulação patelofemoral.

 

CONCLUSÃO

Segundo a mensuração anatômica adotada, o valor do comprimento do ligamento patelofemoral lateral é inversamente proporcional ao comprimento da largura da faceta articular patelar lateral.

 

REFERÊNCIAS

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Endereço para correspondência:
Rua Capeberibe, 394 – apto 72, Bairro Barcelona
São Caetano do Sul – SP. Brasil
CEP: 095-51210. Email: msnavarro@uol.com.br

Trabalho recebido em 08/09/08
aprovado em 04/06/09

 

 

Todos os autores declaram não haver nenhum potencial conflito de interesses referente a este artigo
Trabalho realizado pelo Grupo de Traumatologia Esportiva da Ortopedia e Traumatologia da Faculdade de Medicina do ABC

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