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Acta Ortopédica Brasileira

Print version ISSN 1413-7852

Acta ortop. bras. vol.20 no.4 São Paulo  2012

http://dx.doi.org/10.1590/S1413-78522012000400001 

ARTIGO ORIGINAL

 

Avaliação radiográfica na epifisiolise: possíveis preditores de bilateralidade?

 

 

Marcos Barbieri Mestriner; Cleber Marcial Aguilar Verquietini; Gilberto Waisberg; Miguel Akkari; Erika Tiemi Fukunaga; Cláudio Santili

Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo - São Paulo, SP, Brasil

Correspondência

 

 


RESUMO

OBJETIVO: Identificar radiograficamente alterações anatômicas e da maturidade esquelética em paciente com epifisiólise do quadril, que auxiliem na indicação do tratamento cirúrgico profilático dos quadris não escorregados, no mesmo paciente.
MÉTODOS: Foi realizada uma avaliação radiográfica retrospectiva com 61 pacientes, acompanhados até o final do crescimento, divididos em dois grupos: 37 com escorregamento unilateral e 24 com escorregamento bilateral, diagnosticados durante o acompanhamento. A maturidade esquelética foi avaliada nas radiografias da bacia (método de Oxford) e comparada entre os grupos, nos pacientes do mesmo sexo. Além disso, diversos ângulos descritos para a região proximal do fêmur foram medidos e comparados: ângulo de Southwick (nas incidências ântero-posterior e Lauenstein), ângulo de inclinação da fise e ângulo de sloping posterior da fise.
RESULTADOS: A maturidade esquelética mostrou diferença estatisticamente significante entre os grupos, em ambos os sexos. Com relação aos ângulos avaliados, o de Southwick no perfil mostrou-se matematicamente igual ao de "sloping " posterior, os únicos a mostrar diferenças relevantes.
CONCLUSÃO: O método de Oxford e o ângulo de Southwick no perfil podem ser utilizados como parâmetros para uma melhor indicação do tratamento profilático do quadril contralateral em pacientes com epifisiolise. Nível de Evidência III, Estudo Diagnóstico.

Descritores: Epifisiólise. Articulação do quadril/radiografia. Cabeça do fêmur. Determinação da idade pelo esqueleto. Criança. Adolescente. Humanos. Masculino. Feminino.


 

 

INTRODUÇÃO

A epifisiolise é uma doença da zona hipertrófica da placa de crescimento,1,2 que se manifesta entre 10 e 16 anos de idade, durante o estirão pubertário.3 A bilateralidade é observada em 20-40%, podendo chegar a 80% em alguns estudos,4 e em aproximadamente 88% o segundo escorregamento ocorre dentro de 12 a 18 meses após a manifestação inicial.5

A causa da epifisiolise ainda não está esclarecida, mas há fatores de risco fortemente relacionados à doença, como a obesidade associada à inclinação anatômica do colo femoral e ao crescimento acelerado durante a puberdade.6

Southwick7 foi o primeiro a determinar os ângulos entre os eixos da diáfise e epífise proximal do fêmur utilizando as incidências radiográficas ântero-posterior e perfil de Lauenstein. Estudos posteriores determinaram o ângulo de Southwick encontrado em crianças normais.6,8 O ângulo fisário (avaliado em relação ao solo) correlacionado ao risco de epifisiolistese,9-11 auxilia também na caracterização da coxa vara congênita.12-14 Na incidência de perfil, o ângulo de inclinação posterior, ou sloping posterior, pode estar relacionado ao risco de bilateralidade.15

O método de Oxford utiliza radiografias da pelve e do quadril de crianças hígidas para avaliar a mauridade esquelética, diferentemente das técnicas usuais de cálculo da idade óssea.16-18

O tratamento profilático do quadril contralateral "normal " contralateral é controverso e deve ser confrontado com o risco da cirurgia adicional.19, 20

Desta forma, o objetivo deste trabalho é identificar diferenças radiográficas de dois grupos de pacientes com relação à maturidade esquelética (método de Oxford) e aos parâmetros angulares (Southwick, ângulo fisário, ângulo de sloping posterior da fise) que auxiliem, além da idade cronológica, em uma indicação mais precisa de estabilização profilática para os quadris contralaterais.

 

MATERIAIS E MÉTODOS

Foram revisados 712 prontuários de pacientes com epifisiólise tratados no Departamento de Ortopedia e Traumatologia da Santa Casa de São Paulo entre 1982 e 1996, período em que não havia fixação profilática de rotina com base na idade cronológica. Sessenta e um pacientes (n=61) foram selecionados para o estudo.

Os critérios de inclusão foram epifisólise unilateral sem qualquer sinal radiográfico de comprometimento do lado oposto e com seguimento até o fechamento total da fise. Foram excluídos os casos com seguimento e documentação insatisfatórios.

O grupo 1 (37 pacientes) eram de pacientes com epifisiolise unilateral e o grupo 2 (24 pacientes) de comprometimento bilateral (escorregamento contralateral durante o seguimento ambulatorial). Nenhum paciente havia sido submetido à fixação profilática.

Quanto ao sexo, 33 eram do sexo masculino (54,1%) e 28 eram do sexo feminino (45,9%). No grupo 1, 20 pacientes (54,1%) eram do sexo masculino e 17 (45,9%) do feminino. No grupo 2, 13 pacientes (54,2%) eram do sexo masculino e 11 (45,8%) do feminino.

A idade no momento do escorregamento variou de 120 a 199 meses (média de 155,97), sendo que no grupo 1 a média de idade foi de 158,86 e no grupo 2 de 151,50 meses.

As incidências radiográficas analisadas foram a ântero-posterior (AP) da bacia com rotação interna dos quadris de 15o (perfil do trocânter menor) e a incidência de Lauenstein (perfil dos quadris em "posição de rã " - flexão de 90o e abdução de 45o). Foram utilizadas apenas as radiografias iniciais (quando do primeiro escorregamento) e os parâmetros froam avaliados no lado normal, sem qualquer indício de deslizamento ou pré-deslizamento.

Os parâmetros de comparação entre os grupos foram: maturidade esquelética, com base na situação dos centros de ossificação da bacia e da região proximal do fêmur (método de Oxford);18 ângulo de Southwick (AP e Lauenstein);6,7 e o ângulo de "sloping " posterior da fise proximal do fêmur (ou ângulo fisário, na incidência AP)9 e o ângulo do sloping posterior da fise proximal do fêmur (Lauenstein).15

O método de Oxford,18 consiste numa pontuação numérica que pode variar de 0 (quadril do recém-nascido) a 45 (quadril do adulto). Esse valor numérico é encontrado somando-se a pontuação encontrada em nove variáveis. (Figura 1)

 

 

O ângulo de Southwick é medido igualmente na incidência AP e perfil de Lauenstein pela intersecção da reta paralela ao eixo longo do fêmur com a reta que passa pelas duas extremidades da epífise. Em AP considera-se o ângulo maior e no perfil o ângulo considerado é o menor.6,7 (Figuras 2A e 2B)

 


 

O ângulo de inclinação da fise proximal é obtido em AP pela intersecção da linha que cruza a "gota-de-lágrima " bilateralmente com outra que passa pelas extremidades da epífise (como no ângulo de Southwick).14 (Figura 2C)

O ângulo de "sloping " posterior, na incidência de Lauenstein, é determinado pela intersecção de uma perpendicular ao eixo longo da diáfise com a linha passando pelas extremidades da epífise.20 (Figura 2d)

Todos os parâmetros descritos foram aferidos por dois residentes do terceiro ano do Departamento de Ortopedia e Traumatologia, auxiliados por dois acadêmicos da Faculdade de Ciências

Médicas da Santa Casa de São Paulo, todos devidamente treinados na aplicação dos métodos. Os valores obtidos foram enviados para a análise estatística para a comparação entre os grupos 1 e 2, aplicando-se o teste t de Student em cada uma delas.

 

RESULTADOS

Inicialmente, devido às diferenças do processo de crescimento e de maturidade entre os dois sexos, o método de Oxford foi comparado entre pacientes do mesmo sexo. Desta maneira, os grupos foram subdivididos em masculino e feminino para a realização da análise estatística.

Os gráficos presentes neste estudo são do tipo boxplot, onde o retângulo cinza representa 50% da amostra estudada, estando os outros valores contidos no restante da linha negra (distribuição em quartis). A pequena faixa negra no interior do retângulo representa o valor da média. Os valores que se encontram fora do desvio padrão em cada caso são demonstrados como números isolados, fora da linha.

A Tabela 1 e as Figuras 3A e 3B mostram os valores obtidos sobre a maturidade esquelética, utilizando-se o método de Oxford, e a distribuição dos mesmos:

 

 

 


 

A análise estatística demonstrou que houve diferença estatisticamente significante (p<0,001) entre o grupos 1 e 2, dividos em sexo masculino e feminino, em relação à maturidade esquelética.

Em relação aos ângulos aferidos, a Tabela 2 e as Figuras 4A e 4B mostram os resultados obtidos.

 

 

 


 

DISCUSSÃO

A realização deste estudo foi fundamentada em duas hipóteses: a primeira, que os pacientes com epifisiolise, que tiveram a doença nos dois quadris ou que têm um risco maior de tê-la bilateralmente, são esqueleticamente imaturos quando comparados com as crianças na mesma faixa etária com a doença unilateral, e mais ainda quando comparados às crianças normais.21-23 A fise desses pacientes predispostos, por ser ainda muito imatura, teria menor resistência à carga mecânica e teria de suportá-la por um intervalo de tempo maior, o que invariavelmente predisporia ao escorregamento fisário.5,21,22 A segunda hipótese é que os pacientes possuem quadris com alterações anatômicas sutis, que podem aumentar o risco de escorregamento, e estas alterações podem ser detectadas por meio da mensuração de ângulos em radiografias simples.6,9,10,15

O tratamento cirúrgico profilático no fêmur contralateral, quando o paciente apresenta-se com epifisiolistese unilateral, permanece como um tema controverso.24 O procedimennto, apesar de relativamente simples, carrega consigo possíveis complicações, inerentes a qualquer cirurgia, que podem proporcionar mais ônus do que benefícios.8,19 A indicação atual de tal procedimento baseia-se na idade cronológica, porém a ideia de tomada de decisão utilizando-se outros parâmetros em conjunto parece-nos razoável, uma vez que a idade cronológica nem sempre condiz com o grau de maturidade esquelética do indivíduo.21,23

Avaliando-se os resultados obtidos neste estudo, observamos que é evidente e grande a diferença entre a maturidade esquelética dos pacientes do grupo 1 em relação àqueles do grupo 2. Os resultados corroboram a hipótese de que os pacientes com escorregamento bilateral possuem um esqueleto mais imaturo. As radiografias necessárias para a avaliação de acordo com o Oxford são as mesmas já utilizadas no diagnóstico e seguimento dos pacientes com epifisiolise, o que facilita sua utilização na prática clínica, permitindo inclusive a realização de estudos retrospectivos, como o presente.

Entre os ângulos aferidos, surpreendeu-nos o fato de que o ângulo de Southwick no perfil e o sloping posterior da fise serem matematicamente iguais, apesar de serem aferidos de maneiras diferentes. No entanto, esta coincidência não é relatada em nenhum outro estudo na literatura. A despeito disso, esses foram os únicos ângulos que apresentaram correlação estatisticamente significante, em nosso estudo, o que mostra que a inclinação fisária no perfil parece ser um fator importante para a predição de ocorrência do escorregamento fisário da região proximal do fêmur. Este achado condiz com o estudo realizado por Park et al.25, que demonstraram a utilidade do ângulo do sloping posterior na predição do acometimento bilateral.

Acreditamos que os resultados presentes neste trabalho encorajam a realização de novos estudos, para avaliar a confiabilidade dos métodos, tanto intra quanto inter-observador, como na tentativa de definir valores de corte (para a maturidade esquelética e para o ângulo de sloping posterior), em que se indica ou não a fixação profilática do quadril contralateral em pacientes com a doença unilateral.

 

CONCLUSÃO

Os dados e a análise estatística presentes neste estudo permitem a conclusão de que os ângulos de Southwick no perfil e do "sloping " posterior (matematicamente iguais) mostraram importante correlação com o risco de aparecimento da epifisiolise bilateral (p<0,05).

A maturidade esquelética entre os grupos de pacientes com escorregamento uni e bilateral, estimada pelo método de Oxford, apresentou diferenças importantes, com grande confiabilidade estatística (p<0,001).

Estes parâmetros radiográficos podem ser utilizados como ferramentas complementares na prática clínica, como preditores de acometimento bilateral, no sentido de auxiliar na escolha do tratamento profilático, conservador ou cirúrgico, para o quadril contralateral de um paciente com epifisiolise.

 

REFERÊNCIAS

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Correspondência:
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E-mail: marcos.beri@gmail.com / marcos.beri@hotmail.com

Artigo recebido em 04/08/2011, aprovado em 21/09/2011.

 

 

Todos os autores declaram não haver nenhum potencial conflito de interesses referente a este artigo.
Trabalho realizado no Departamento de Ortopedia e Traumatologia da Santa Casa de São Paulo.