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Ciência & Saúde Coletiva

Print version ISSN 1413-8123On-line version ISSN 1678-4561

Ciênc. saúde coletiva vol.10 no.1 Rio de Janeiro Jan./Mar. 2005

http://dx.doi.org/10.1590/S1413-81232005000100018 

TEMAS LIVRES FREE THEMES

 

Cotidiano ritualizado: grupos de mulheres no enfrentamento à violência de gênero

 

Ritualized daily routine: groups of women to face gender violence

 

 

Stela N. MeneghelI; Rosangela BarbianiI; Camila BrenerII; Geovana TeixeiraII; Helenita SttefenII; Luciano Bairros da SilvaII; Mariza Dalla RosaII; Rosemeri BalleII; Sarita G. R. BritoII; Silvia RamãoIII

IPrograma de Pós-Graduação em Ciências da Saúde, Centro de Ciências da Saúde e Centro de Ciências Humanas, Unisinos. Av. Unisinos 950, 93022-970, São Leopoldo RS. meneghel@bios.unisinos.br
IICurso de Psicologia e Enfermagem, Unisinos (bolsistas de iniciação científica)
IIIPPG de Ciênciasda Saúde, Unisinos (mestranda)

 

 


RESUMO

Este estudo avalia a experiência com grupos de mulheres em situação de violência de gênero, desenvolvida em um programa de extensão da Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos), no Estado do Rio Grande do Sul. Os pesquisadores organizaram três grupos de mulheres durante os anos de 2002 e 2003. Os grupos tiveram o formato de oficina, abertos a toda mulher em situação de violência de gênero perpetrada pelo companheiro e constituíram um espaço protegido de acolhimento e escuta para as mulheres. O objetivo principal das oficinas foi contribuir para o "empoderamento" das mulheres, tornando-as agentes da sua própria transformação. Foram construídas dinâmicas como narrativas e pinturas, objetivando impactar sobre a violência de gênero. O grupo proporcionou troca interdisciplinar, experiência e avaliação contínua para os pesquisadores e as participantes.

Palavras-chave: Gênero, Violência, Oficinas


ABSTRACT

This study represents an evaluation about battered women's group experience developed as part of a university extension program of Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos) in Rio Grande do Sul State. The researchers organized three groups of women during the years 2002 and 2003. The groups worked like a workshop open to any woman suffering domestic violence perpetrate by partner and was a protect space to receive and listen to women. The main objective of the workshops was to contribute to the empowerment of women, turning them into agents of their own transformation. Researchers built actions like stories and paintings to impact gender violence. The group provided interdisciplinary exchange, experience and ongoing evaluation for researchers and participants.

Key words: Gender, Violence, Workshops


 

 

Introdução

Os grupos de mulheres têm sido uma estratégia utilizada desde o início do movimento feminista para trabalhar questões de gênero. O feminismo é o movimento social que surgiu no final da década de 1960 nos países de capitalismo avançado: Estados Unidos, França, Alemanha, Itália e Inglaterra, questionando a divisão tradicional de papéis sociais entre homens e mulheres e desnaturalizando o social, na medida que compreendeu a identidade feminina como histórica e socialmente construída e não biologicamente determinada. Assim, as mulheres puderam se afirmar como sexo na sua singularidade irredutível, reivindicando um espaço de atuação política e de luta por seus interesses específicos. Inaugurava-se um campo de reflexão polêmico e rico no interior das ciências sociais (Franchetto et al., 1980).

Gênero tem sido considerado o conjunto de arranjos pelos quais uma sociedade transforma a sexualidade biológica em produtos da atividade humana, e no qual estas necessidades sexuais são satisfeitas (Rubin, 1975 apud Saffiotti, 1999). Portanto, a identidade de gênero se refere à construção social do sexo, ou seja, aos papéis e valores que o constituem em dado momento histórico, em uma sociedade particular, englobando o sexo biológico.

Na sua trajetória, o movimento das mulheres se defrontou com uma questão crucial, a da identidade feminina, principalmente ao confrontar-se com a universalidade da opressão às mulheres. Opressão esta creditada à instância biológica e reprodutiva, na medida em que o organismo feminino subjugando a mulher à função reprodutora, seria uma das bases sobre a qual se teria construído a subordinação da mulher (Franchetto et al., 1980). As experiências pessoais da opressão são sustentadas por uma organização patriarcal de cunho político e as táticas de poder e de controle usadas em relação às mulheres também são usadas para sustentar o racismo, o classismo, a exclusão de idosos e outras formas de opressão grupais (Grossi & Aguinski, 2001).

Uma das peculiaridades do movimento das mulheres foi o fato de eleger como politicamente relevante o domínio das relações consideradas pessoais. A ênfase no individual ganhou corpo na estrutura celular do movimento através dos chamados grupos de reflexão, nos quais se procede a uma socialização das vivências pessoais. Uma das características destes grupos, que os diferenciam dos grupos clínicos, é a ausência da figura do terapeuta. Aquilo que parecia ser individual, pessoal, que para as mulheres se agudizava em razão da dicotomia público/privado, na experiência do grupo de reflexão ganha inteligibilidade como a construção social, no caso, a de gênero. Duas figuras de discurso dão conta desta percepção: a idéia do "eu coletivo" e "o pessoal é político". O feminismo, exemplo de prática e ideologia de um universo individualista, ao pôr em prática e valorizar a experiência individual, relativiza-a, descobrindo-a no interior do social. Produzindo essa visão totalizadora está dada sua condição e sua força de fazer política (Franchetto et al., 1980).

Estudiosas da temática feminina mostram que os pronunciamentos oficiais sobre a importância de gênero fazem parte das políticas macroeconômicas, as quais aumentam a desigualdade entre as mulheres. O conceito de gênero tem sido apropriado para esvaziar os movimentos populares de luta das mulheres e mudar o foco das desigualdades sociais para questões que envolvem direitos reprodutivos e tecnologias médicas; além disso estimula conflitos de interesse de mulheres pertencentes a classes sociais diferentes. Na realidade tem havido uma cooptação do discurso e um desgaste das energias feministas (Giffin, 2002).

Os grupos representam um caminho para a construção de estratégias coletivas de resistência para as mulheres. O grupo é uma estrutura básica de trabalho e investigação, assim como uma instância de ancoragem do cotidiano. As forças interacionais internas dos grupos implicam sustentação e apoio socioemocional, no fortalecimento das interações emocionais, na comunicação aberta, no compromisso e responsabilidade, na participação efetiva e na construção de uma individualidade crítica (Meneghel et al., 2000). As estratégias de resistência que as mulheres inventam e constroem no seu dia-a-dia significam, na realidade, estratégias de "empoderamento". Entendido, o "empoderamento", como as feministas o utilizaram, ou seja, é a contribuição para que a mudança nas relações entre homens e mulheres vá acompanhada de transformações na linguagem, refletindo novas construções e imaginários sociais (Leon, 2000).

Embora a violência de gênero aconteça com mulheres de todas as classes sociais, pesquisas têm apontado que as mulheres em desvantagem socioeconômica estão mais propensas a permanecer na violência. Assim, as políticas de prevenção buscam tornar as mulheres mais independentes, incrementando sua auto-estima e aumentando os seus recursos, em suma empoderando-as (Hyman et al., 2000).

Apesar da opressão que sofrem na sociedade, assim como outros grupos em situação de exclusão, as mulheres podem desenvolver capacidade de resistência, ou seja, habilidade de perceber além das pretensões hegemônicas de mistificação e confusão. Esta capacidade inclui a visão dual ou o duplo conhecimento que permite às mulheres operarem de um modo pluralista, no qual nada é desacreditado; o bem, o mal, o feio, nada é rejeitado, nada é abandonado. Não apenas elas sustentam contradições como as transformam em algo mais (Anzaldua, 1990 apud Grossi & Aguinski, 2001).

A experiência das mulheres contém sempre a experiência de outras mulheres e esta experiência vem sendo transmitida oralmente, por gestos, olhares e narrativas. As mulheres foram e são construídas com palavras. Neste processo de construção identitária, a imaginação e a justiça são instrumentos possibilitadores de narrativas – a pequena história pessoal é parte de uma grande história. Este é um dos principais caminhos por meio do qual uma pessoa elabora e assimila significados, constrói sua identidade e descobre quem ela é (Eggert , 2002).

As diferentes abordagens feministas assumem a educação como fator importante para a mobilidade social das mulheres, para a transformação das relações de opressão e para a conquista de poder social. Neste contexto trabalha-se com o método de Freire (1983), tratando de resgatar seus elementos fundamentais: a dialogicidade e o conhecimento crítico. Busca-se a palavra como meio para que o diálogo aconteça e através dele suas duas dimensões: a ação e a reflexão.

As oficinas fazem parte da dimensão coletiva e interativa da investigação. Além disso, educadores populares têm enfatizado a validade de técnicas que trabalhem novas formas de comunicação, explorando para além do cognitivo, aspectos vivenciais e afetivos (Conill & Sherer, 2003). Perguntar sobre os limites e possibilidades de construção de projetos coletivos é perguntar sobre os limites e possibilidades de se viver/conviver e trabalhar em grupo. A psicanálise – ou as diferentes leituras psicanalíticas sobre a questão – sugere diferentes possibilidades de resposta, algumas mais, outras menos otimistas (Sá, 2001).

Um dos referenciais que adotamos neste projeto é a técnica de grupo operativo desenvolvida por Pichón Rivière, no qual os participantes tornam-se sujeitos de sua própria mudança e transformação (Pichón Rivière, 1998). Na construção do grupo, objetiva-se transformar o grupo de uma situação de grupo-objeto para grupo-sujeito, instaurando um processo de autonomia.

Os grupos de mulheres a que se refere este artigo foram desenvolvidos usando a ferramenta oficina e sediados em um programa de extensão da Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos), durante o ano de 2002. O primeiro grupo resultou de uma pesquisa intitulada "Impacto de grupos de mulheres em situação de vulnerabilidade de gênero", uma parceria entre pesquisadores, Fórum de Mulheres de São Leopoldo e programas de extensão da Universidade (Meneghel et al., 2003). Após o término da pesquisa, manteve-se o grupo, devido à solicitação das participantes e como forma de devolução para a população dos resultados da pesquisa.

Este trabalho relata as experiências dos três diferentes grupos de mulheres (dois deles desenvolvidos em 2002 e um em 2003) e mostra alguns dos caminhos percorridos. Além disso, o espaço das mulheres tornou-se um espaço de reflexão para alunos de diferentes disciplinas e cursos dentro da Universidade, operadores do social (promotoras legais populares e participantes do Fórum de Mulheres), ultrapassando os objetivos iniciais da proposta.

Neste artigo destaca-se a elaboração das dinâmicas para alavancar os temas das oficinas. A partir desta pesquisa formou-se uma rede agregando alunos de diversos cursos, graduação e pós-graduação, e professores de diferentes centros e programas, engendrando uma nova pesquisa – "História de resistência de mulheres" (Meneghel & Farina, 2003).

 

Método – as histórias que inventamos...

Este é um estudo exploratório cujo objetivo é refletir acerca das vivências produzidas nos grupos de mulheres nucleados em programas de extensão da Universidade do Vale do Rio dos Sinos. As motivações para construção do grupo de mulheres surgiram a partir das demandas dos programas de extensão ao se defrontarem com as múltiplas violências no dia-a-dia dos serviços.

O grupo operou quinzenalmente durante o ano de 2002, em dois projetos separados de oficinas e continuou em funcionamento no ano de 2003. Representou um local protegido onde as mulheres puderam expor suas histórias de vida e as violências que sofreram. O grupo esteve aberto e recebeu constantemente novas participantes, muitas delas encaminhadas pelas próprias usuárias. Em nenhum momento houve cobrança de assiduidade e as mulheres foram ouvidas e consideradas co-terapeutas (Minuchin & Fischman, 1990). Na organização de cada um dos grupos, o momento inicial correspondeu a uma sondagem para identificar os temas de interesse das mulheres. As oficinas organizadas semestralmente compreenderam uma média de seis a oito encontros. Os primeiros encontros possibilitaram a apresentação das histórias das mulheres e no último avaliamos o processo vivenciado. Algumas das participantes acompanharam o processo desde a primeira oficina estruturada porém a maioria das mulheres participou de forma episódica. A média de freqüentadoras por encontro oscilou em torno de cinco mulheres e cinco pesquisadores.

Em todos os encontros selecionamos uma dinâmica para acompanhar o tema teórico escolhido. Algumas dinâmicas foram realizadas a partir de técnicas descritas, outras adaptadas ou construídas pelos pesquisadores.

Os temas abordados estiveram direcionados às questões do feminino, trabalhamos as histórias de vida e das violências, papéis e estereótipos de gênero, identidade de gênero, conjugalidade, negociações familiares e limites a comportamentos intrusivos, relação pais e filhos, corpo e sexualidade e estratégias de resistência: auto-estima, "empoderamento", metas para a vida futura. A equipe da pesquisa coletou, adaptou e inventou uma série de dinâmicas, vivências e rituais para acompanhar a discussão sobre estes temas. Em todos os momentos procuramos disponibilizar meios para responder as necessidades e demandas emergentes, como possibilitar uma escuta individual para as mulheres vivendo situação de crise mais aguda (ideação suicida, separação litigiosa, depressão).

Na medida que as oficinas passaram a acontecer como atividade de extensão, não houve preocupação com o registro completo das sessões, embora em cada uma delas um aluno bolsista ficasse responsável pela síntese e compilação de algumas falas. A análise das falas e depoimentos fundamentou-se na técnica de análise de conteúdo (Bardin, 1979; Minayo, 1992; Bauer, 2002).

 

Resultados: falar, ritualizar, mudar

Os grupos percorreram um trajeto, sempre diverso, porém com alguns pontos de convergência. Poderíamos afirmar que eles partiram de uma etapa de identificação da violência na vida de cada mulher: primeiro tinha muita agressão física, de tudo, era sempre espetáculo para os vizinhos, para a cessação da postura de vítima e posição mais autônoma diante da vida: até que eu comecei a me impor. Basta! Se tu sabe bater, eu também sei. Com ele era na base da agressão. Tive que fazer como a mãe dele fazia com ele. Eu não via maldade, ele é o homem da casa, eu dava meu pagamento para ele. Antes eu era submissa. Na situação de violência de gênero, o processo de responsabilização em si é essencial para o desenvolvimento de autonomia necessária para confrontar a violência (Moreira, 1999). Para que a mulher possa reconstruir sua vida é necessário ela reconhecer o abuso e perceber que a mudança deve partir dela e não do parceiro, o qual raramente reconhece seu comportamento como abusivo. Torna-se fundamental desconstruir os mecanismos de acomodação diante da situação. Ele me chama de burra, diz que eu sou gorda, me bota para baixo. Eu não tenho mais vontade para nada. Eu não considero que deva me separar dele. Eu dependo dele para comer e ter um lugar para ficar.

Desconstruir a violência tem a ver com a construção de gênero que também opera por meio da desconstrução, salienta Louro (1997). Ao aceitarmos que a construção de gênero é histórica e se faz incessantemente, estamos entendendo que as relações entre homens e mulheres, os discursos e as representações dessas relações estão em constante mudança.

Narrar episódios dolorosos e em algumas circunstâncias mantidos em segredo por longos períodos de tempo requer um espaço protegido de escuta para que as mulheres possam contar suas histórias de vida. As oficinas possibilitaram este espaço – contar e recontar; ouvir e comover-se, e neste movimento reconstruir identidades.

Nas três oficinas a que nos reportamos foram desconstruídas, construídas, re-construídas, transconstruídas inúmeras dinâmicas, vivências e dramas. Várias delas conhecidas e já relatadas em outros textos (Portella & Gouveia, s.d; Regia et al., 1988) outras novas e algumas inventadas.

O tema "varal", por exemplo, foi motivo de diversas explorações. Varais remetem para lavar roupas, um estereótipo de gênero clássico. Então propusemos "o varal das identidades" em que se pendurava na corda, o auto-retrato desenhado; "o varal das vulnerabilidades" quando recortamos e penduramos para secar os aspectos negligenciados e feridos; "o varal dos papéis", uma proposta para discutir a educação diferenciada de gênero. Nesta última abordagem, as mulheres identificavam papéis masculinos e femininos e os registravam em papéis azuis e rosas, acompanhados de prendedores das mesmas cores. Na discussão procurávamos salientar as polaridades e as dicotomias, enfatizando as possibilidades de complementação e de troca, mudando as tarefas para um lado ou outro. Assim, o desafio de romper esse esquema binário não é, na verdade, nada banal, mas um desafio que vem sendo proposto por alguns estudiosos feministas. Um pólo não apenas depende do outro, mas em certa medida também contém o outro – de modo reprimido, desviado, procrastinado. Esses dualismos escondem a interdependência entre os pólos (Louro, 1996). Houve também "o varal dos desejos", em que as metas e as imagens-objetivo das mulheres eram plasmadas na multicolorida linha da vara de roupas que levamos para dentro da oficina.

Outra dinâmica que perpassou os grupos em múltiplas roupagens foi a do "corpo de Maria", elaborada a partir da vivência que fazia parte da capacitação do Programa de Atenção da Saúde da Mulher, criada pelo Ministério da Saúde, nos anos 80. Uma mulher desenhava o contorno do corpo de outra e aos poucos a identidade e a corporeidade de Maria ia sendo preenchida. Buscamos inspiração nesta técnica para trabalhar o tema sexualidade, mas queríamos que todas as participantes do grupo tomassem parte da vivência. Assim, todas as mulheres participavam desenhando o perfil umas das outras e depois preenchendo a figura com os dispositivos de sua sexualidade. Elas desenharam seios, vaginas, úteros grávidos, ovários. E também registraram como dispositivos da sexualidade as bocas, os olhos e o coração. Nos espaços destinados ao corpo e à sexualidade (e não só nesses), as mulheres deram lições à equipe da pesquisa. Os assuntos que brotaram giraram desde sexo, estupro e violência sexual, passaram por orgasmo, liberação feminina e adultério; entraram nas questões dos direitos reprodutivos e do aborto. As mulheres questionaram as instituições sociais e a hipocrisia da sociedade.

Em todas as oficinas as mulheres reivindicaram tratar o tema sexualidade, mesmo quando os pesquisadores "esqueciam" elas faziam questão de lembrar. Em um dos grupos introduzimos a discussão com uma brincadeira de "pegar o rabo". Utilizamos rabinhos de pano e as mulheres pegavam o "rabo" umas das outras. Esta brincadeira foi o aquecimento para introduzir a discussão sobre sexualidade. Nessa ocasião, ouvimos o seguinte relato: quando tive a primeira relação sexual, na realidade, fui estuprada, mas como eu não sabia como era, achei que era assim mesmo. Só muito tempo depois entendi que foi uma violência. Acho que por isso nunca gostei de sexo – sexo não é necessário para uma pessoa viver bem. As reflexões sobre o corpo, as intrusões, o que é permitido/o que não é permitido que a brincadeira propiciou, permitiram a verbalização e constatação das violências sexuais a que são submetidas: o meu marido me incomodava, me batia durante o dia, e a noite eu não conseguia ter uma boa relação sexual com ele. Achava que o problema era meu, o meu marido dizia: - "Eu acho que você não é normal porque você não tem vontade nunca". Aí eu fui procurar um médico e o médico investigou para ver se eu era frígida. Com o tempo eu fui vendo que não era eu, era porque ele me batia, brigava comigo aí eu fui perdendo a vontade (...) Eu tenho que fazer janta todo dia. E quando ele chega em casa ele quer a janta pronta. Ele diz que eu não faço nada, que eu digo que fiz isso que fiz aquilo e ele diz: "Isso você leva tantos minutos pra fazer, aquilo mais tantos e o resto do tempo o que você fez?"

Ao refletir sobre a sexualidade começamos a aprender como nos diz Foucault que o poder também se exerce através do fascínio, através de dispositivos e estratégias que induzem, incitam, seduzem e provocam e não apenas através de mecanismos que reprimem ou negam. Estas formas de poder, que se exercitam cotidiana e muitas vezes dissimuladamente transformam o indivíduo em sujeito, submetido ao outro através do controle e da dependência e ao mesmo tempo atado a sua própria identidade pelo conhecimento de si mesmo (Louro, 2002).

Relatos de pesquisas mostram que os assuntos que emergem nos grupos são semelhantes, observando-se a denúncia como estratégia de mudança, a vergonha, a necessidade de autovalorização, a visão do homem como doente necessitando tratamento (Moreira, 1999). Ziebell & Cônsul (2002) relatam que a discussão nos grupos gira em torno de problemas do dia-a-dia das mulheres, temas como educação de crianças, afeto e sexualidade, alcoolismo, violência e desemprego. Esses temas evidenciaram a insuficiência das políticas públicas em São Leopoldo (RS) e a urgência de repensar a atuação das mulheres no enfrentamento desta realidade.

Outra peculiaridade dos grupos de mulheres que organizamos foi o espaço exploratório para a construção de rituais. Entendemos como Mafessoli (1997) que o ritual é a máscara e o escudo que permite avançar sem perigo frente às adversidades naturais e sociais (...) e que a violência ritualizada se integra harmoniosamente enquanto que reprimida ou negada explode em sangue e perversão. Desta maneira, incentivamos a construção de rituais coletivos durante todo o trajeto, mesmo sabendo que o fio entre o ato terapêutico e o burlesco, entre a tragédia e a farsa, muitas vezes é extremamente tênue. Dentre os rituais que adaptamos e inventamos, enfatizaremos as árvores que plantamos: árvores da violência, contrapostas com árvores da paz e árvores da vida. Nas "árvores da violência", as mulheres colocaram notícias de jornal, denúncias de eventos violentos e objetos temáticos: roupas íntimas femininas representando abusos sexuais; relhos e correntes como símbolo dos instrumentos disciplinares; enquanto "as árvores da paz e da vida" foram adornadas com objetos de contraponto: velas, fotos, bonecas, cosméticos, poesias, recados, bibelôs, cobertos por um véu de tule lilás. A partir do início da construção da árvore, diariamente ela crescia, metáfora do "empoderamento" do grupo. As árvores da violência foram queimadas simbolizando a eliminação dos aspectos indesejados das vidas das mulheres.

Neste trabalho percebemos, como Linhares (1999), que os rituais são vitrais – amparam o instituído e o instituinte com suas claridades cambiantes. Trabalhar a dimensão simbólica nesse constante montar e remontar os símbolos e ritos do cotidiano é desnaturalizar a injustiça. Nos ritos do cotidiano é que se expressam esses conteúdos de resistência e de acomodação. Os rituais são sementeiras quentes para a mudança.

Olhamos as oficinas como que divididas em dois momentos: o primeiro deles representando a confrontação com a violência e o desejo de mudança – processo que denominamos desconstrução. O segundo momento evidenciando o fortalecimento da identidade e da autonomia das mulheres – a etapa de reconstrução. Estes momentos têm duração variada de acordo com a mulher e podem ocorrer várias vezes com uma mesma pessoa, já que qualquer um de nós pode sempre estar sujeito à dor, à desesperança e à depressão. Para estimular a aquisição de autonomia, trabalharam-se temas voltados a imagens-objetivo e a auto-estima das mulheres. Uma das propostas foi um tema de casa que pressupunha a realização de uma atividade para elas mesmas. Uma das mulheres trouxe como retorno o fato de ter realizado uma cirurgia para varizes: há quinze anos que eu queria fazer esta cirurgia. Minha filha me emprestou o dinheiro para que eu pudesse fazer. Outra mulher contou que comprou uma bicicleta ergométrica. Ele (o companheiro) não queria que eu comprasse. Ele me chama de gorda, ele quer que eu emagreça. Ele duvida que eu vá fazer ginástica todo o dia. Mas eu vou provar para ele que eu posso fazer todo o dia. As mulheres retrucaram em coro: Provar para você. É, ela retificou, provar para mim. Assim como em outros grupos (Moreira,1999; Meneghel & Barbiani, 2003), a confiança começou lentamente a se construir e a emergir um sentimento de calor humano e simpatia pelos outros participantes. Os grupos estimulam maior independência pessoal, menos sentimentos escondidos, maior interesse em inovar. Eles produzem mudanças construtivas, mas só podem florescer em ambiente essencialmente democrático.

Houve momentos que elas disseram "não" para as nossas propostas, quando quisemos construir "o agressor", a partir de peças de roupa e outros pertences dos companheiros e dramatizar uma interlocução com "os homens fetichizados" buscando ampliar e focalizar as possibilidades de negociação e mediação conjugal, elas esqueceram de trazer os objetos. Talvez tenhamos ido longe demais, e a construção das figuras masculinas configurasse uma afronta ao poder dos maridos e companheiros e elas tenham ficado receosas. Talvez essa dramatização tenha-lhes parecido uma paródia da vida familiar ou uma atitude de nonsense. Por outro lado, talvez elas desejassem continuar com o foco voltado para elas mesmas, e este sinal é importante porque significa centrar as possibilidades de mudança no próprio "eu" e deixar de projetar os sentimentos na figura do outro. Tu tem que aprender a dizer não, elas afirmaram em várias situações e entendemos que quando elas, mesmo sem dizer abertamente, mudaram a proposta temática da oficina, este movimento significou quebra da heteronomia em relação à coordenação. Esta mudança de rumo sinalizou "empoderamento" por parte das mulheres e este é um dos objetivos das oficinas na busca de enfrentamento à violência de gênero.

Ainda em relação às dinâmicas, fizemos várias rodas de metas e objetivos a alcançar, teias de desejos a batalhar, pintamos a capa da mulher que eu quero ser, costuramos a camiseta do bode expiatório, baseada no relato de Estès (1997). Como o povo lakota pintava hieróglifos nas peles de animais para registrar os acontecimentos de inverno, os povos náuatle, maia e egípcio possuem seus códigos de registro dos grandes eventos da tribo, das guerras, das vitórias, as mulheres têm seus capotes expiatórios, seus mantos de batalha. Estas produções, por mais singelas que possam parecer – folhas de papel pardo pintadas com pincel atômico, camisetas velhas rebordadas, ao término de cada oficina eram cuidadosamente dobradas e levadas para casa.

Em relação à capa da mulher que eu quero ser, uma participante comentou: O meu ex-marido invadiu a minha casa e levou a capa que eu tinha feito com vocês. Eu disse para ele: "Não importa. Você não sabe o que é ter amigos. Eu tenho amigos. Lá no meu grupo de mulheres todos me tratam de igual para igual. Tu levou a minha capa. Mas não faz mal, ela está dentro de mim e isto tu não pode me tirar". Esta mulher chegou no grupo acuada pelo marido que a ameaçava de morte e que segundo os depoimentos dela tinha as costas quentes pelo pessoal do tráfico. Ela contou a história das suas violências no grupo por catorze vezes. Sempre a mesma história sem saída, às vezes congelando num detalhe repetido inúmeras, incansáveis vezes. A escuta se fazia penosa, pesada, sentíamos, como Calvino (1990), que às vezes o mundo inteiro me parecia transformado em pedra... E depois deste processo, ela subitamente mudou: está estudando, trabalhando e efetivou a separação legal. Ela voltou ao grupo, não mais para repetir a história de imobilidade, de vítima, mas para dar o testemunho da mudança e da transformação: Agora, eu aprendi, para tudo eu pergunto o por quê.

Transformação. Esta palavra remete a Calvino (1990) que introduz os seus princípios para o próximo milênio recontando a história de Perseu e de Medusa. E ressalta um dos aspectos que a narrativa mítica oportuniza: a cada vez que ela é contada percebe-se algo novo, algo que estava na história, mas não tinha sido visto ou valorizado anteriormente. Entre os estratagemas que a narrativa mítica nos oferece aparece o não confronto direto, estratégia que muitas vezes as mulheres adotam intuitivamente. É sempre na recusa da visão direta que reside a força de Perseu, mas não na recusa da realidade do mundo de monstros entre os quais estava destinado a viver, uma realidade que ele traz consigo e assume como um fardo pessoal. Assim, Calvino ao relatar a passagem em que Perseu coloca a cabeça da Medusa no chão, descreve como ele (o herói) ameniza a dureza do solo com um ninho de folhas, recobre-o com algas e nele deposita a cabeça da Medusa com a face voltada para baixo. A leveza de que Perseu é o herói não poderia ser mais bem representada, segundo penso, do que por este gesto de refrescante cortesia, para com um ser monstruoso e tremendo, mas mesmo assim de certa forma perecível, frágil (Calvino, 1990). E no relato que segue nos ficou claro o paralelismo com o grupo de mulheres. Ouçamos, outra vez, Calvino: Mas inesperado, contudo, é o milagre que segue: em contato com a Medusa, os râmulos aquáticos se transformam em coral, e as ninfas para se enfeitarem com ele, acorrem com râmulos e vergônteas, que aproximam da hórrida cabeça.

O peso do grupo, que como cuidadores, ajudamos a carregar, desfaz-se quando a transformação acontece com uma delas, mesmo que esta transformação não seja duradoura, mesmo que seja pequena, a mulher muda a situação de violência para a de autonomia, provando que os râmulos aquáticos se transformam em coral! E a tarefa do grupo parece consistir apenas em propiciar o ninho de folhas recoberto de algas para depositar a cabeça da Medusa.

 

Colaboradores

SN Meneghel e R Barbiani trabalharam na concepção teórica, elaboração e redação final do texto; C Brener, G Teixeira, H Sttefen, L Bairros da Silva, MD Rosa, R Balle, SGR Brito e S Ramão participaram na organização e execução das oficinas e na revisão bibliográfica.

 

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Artigo apresentado em 7/1/2204
Aprovado em 7/6/2004
Versão final apresentada em 10/10/2004

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