SciELO - Scientific Electronic Library Online

 
vol.12 issue1The relation between space and collective oral health: for a georeferenced epidemiology author indexsubject indexarticles search
Home Pagealphabetic serial listing  

Ciência & Saúde Coletiva

Print version ISSN 1413-8123

Ciênc. saúde coletiva vol.12 no.1 Rio de Janeiro Jan./Mar. 2007

http://dx.doi.org/10.1590/S1413-81232007000100032 

RESENHAS BOOK REVIEWS

 

 

Luiz Antonio de Castro Santos

Instituto de Medicina Social, UERJ

 

 

 

Adekson MO. The Yorùbá Traditional Healers of Nigeria [Os cuidadores tradicionais iorubanos da Nigéria]. Nova York & Londres: Routledge, 2003, 136 p.

"J´appelle technique un acte traditionnel efficace (et vous voyez qu´un ceci il n´est pas different de l´acte magique, religieux, symbolique). If faut qu´il soit traditionnel et efficace. Il n´y a pas de technique et pas de transmission, s´il n´y a pas de tradition".1

"Faço poesia hoje com o êxtase xamânico. Em vez da ditadura do proletariado, o século 21 vai se caracterizar pela descoberta das culturas xamânicas".2

Minha geração foi fascinada, ainda no início dos anos 60, por um poeta paulistano vigoroso, Roberto Piva, hoje beirando os 70 anos. A palavra de Piva sempre foi cortante, suas profecias desafiaram nossas crenças políticas e ideologias. Piva continua paulistano e contestador. Atualmente tece, no interior da metrópole, um discurso anárquico e dionisíaco, cultua seus orixás e invoca seu animal xamânico. A leitura do livro recente de Mary Olofunmilayo Adekson, pesquisadora e professora nigeriana, adepta das técnicas de counseling e do cuidado xamânico, é decepcionante sob alguns aspectos, mas estimulante sob vários outros. Seu pequeno livro deve ser lido como uma invocação (talvez um pouco fria, em que falta a adesão transbordante e iluminada do poeta), ou ainda, um culto aos orixás que a tradição afro-brasileira mantém desde os séculos do tráfico hediondo.

"Africans seek healing, rather than treatment." (p. 21). "Os africanos procuram o cuidado, mais do que o tratamento". Esta é um dos enunciados reveladores do livro de Mary Adekson. Marcel Mauss nos lembrava que um ato simbólico, religioso ou mágico terá de ser tradicional e eficaz, para constituir parte relevante de uma organização social. Como uma intérprete dos cuidadores ou healers da nação Ioruba na Nigéria, a autora mostra que a noção de "eficácia no tratamento", para aquele povo da África Ocidental, é bastante distinta da noção biomédica corrente nas sociedades modernas: lá, a qualidade do cuidar vem antes de tudo.

Mary Olofunmilayo Adekson produziu uma narrativa cuidadosa sobre os rituais da saúde e doença no sudoeste da Nigéria, e discute o significado de tais ritos para uma filosofia do cuidar em sua sociedade. A narrativa não só teoriza sobre o cuidado, mas coloca em questão o comportamento de "profissionais" da saúde em relação ao sofrimento. As aspas são necessárias, pois refere-se a autora ao culto das tradições, como o aprendizado das ervas e a divinação, que se transmitem por gerações e pela linha exclusivamente masculina. Não se trata de um treinamento profissional, aberto a todos, ou ao gênero feminino. Adekson questiona a modernidade da organização hospitalar e do tratamento ambulatorial em grandes clínicas. Para ela, esses espaços de cura desconsideram algumas das dimensões cruciais dos ritos xamânicos, como a preocupação pessoal e a compaixão do cuidador Ioruba em relação a seus clientes, a ênfase na cordialidade e no encorajamento, a busca da empatia e da humildade desses homens superiores diante de seus clientes. A atitude respeitosa deve ser mantida entre o cuidador e o cliente, isto é, a relação entre as partes é hierárquica, mas exige respeito a quem procura o cuidado ou a prática terapêutica.

Não estamos diante de terapias alternativas que desqualifiquem por completo o discurso e as práticas ocidentais – muitos dos mais respeitados "traditional healers" são líderes tribais com educação superior, alguns são proprietários de farmácias fitoterápicas ou de clínicas hospitalares, outros participam de uma Sociedade Médica Herbalista, na província de Ogum, ou são membros da Associação de Médicos Nativos. Mas o mundo dos modernos babaláwo (na grafia nagô) é um encontro de pessoalidades e subjetividades tradicionais com o mundo dos conhecimentos e práticas de cura das sociedades capitalistas centrais. Como o saber dos pajés na cultura Kamaiurá, revelada na análise magistral de Carmen Junqueira, estamos diante de um encontro de realidades invisíveis, entre um mundo dos espíritos e um território de micróbios, bactérias e vírus. O que ocorre nas nações Ioruba e Kamaiurá (e, lembraria também, entre as quebradeiras de babaçu e os agentes comunitários de saúde) é uma forma tensa de acomodação intercultural, em que a presença de práticas médicas acaba por ampliar o saber nativo, "sem causar rupturas significativas"3.

The Yorùbá traditional healers of Nigeria é um livro repleto de descrições acuradas – por vezes exaustivas e repetitivas, como numa evocação – sobre as concepções e as técnicas do cuidado. Contém relatos esclarecedores sobre os elos e frinchas existentes entre as dimensões da magia, da religião e da prevenção e terapia do sofrimento humano. Relata muitas estórias interessantes – baseadas em observação, em técnicas audiovisuais e em entrevistas – que tratam da relação íntima, quase afetiva, entre as famílias Ioruba e seus "doutores", sejam os babalaôs ("pais dos segredos") ou onísègùns (na escrita dos nagôs), os terapeutas herboristas.

A enfermidade, a religião e os ritos mágicos – como o jogo de búzios – são dimensões inseparáveis da organização social, argumenta a autora. Por conformarem um tecido inteiriço, a emulação de modos "ocidentais" de cuidados do corpo por culturas milenares, pondera Mary Adekson, pode romper aquele tecido. No entanto, parece-me que as descrições da autora apontam para uma situação de fricção interétnica – para lembrarmos novamente Carmen Junqueira, além dos escritos clássicos sobre os Terena, de Roberto Cardoso de Oliveira4 – sem conseqüências necessariamente comprometedoras da unidade sistêmica daquele "mundo dos espíritos". É claro que falamos aqui de situações de entrechoque de culturas, distintas dos episódios de massacre indígenas no Brasil ou de guerras étnicas na Nigéria ou em Ruanda, em que ocorreram ações de violência generalizada, conquista e aniquilamento cultural. Não só no continente africano, mas em muitos países de raízes escravistas e forte influência das culturas africanas – as realidades afro-cubana e afro-brasileira constituem bons exemplos – as "técnicas Ioruba de cura" tem se somado, ao invés de resistir, ao credo científico ocidental adotado pela população. Poderíamos lembrar, por analogia, a relação não-parasítica que há entre as plantas epífitas.

A autora não chega a discutir os tipos de sincretismo que a própria Nigéria oferece no campo terapêutico. Talvez essa interpenetração já lembrava Gilberto Freyre desde Casa-Grande & Senzala e Sobrados e Mucambos — seja mais forte no Brasil. Note-se que o babalaô é o pai dos "segredos" para a nação Ioruba, mas no Brasil o termo pai de "santo" (ou mãe de santo) indica o entrecruzamento de crenças católicas e africanas ancestrais.

Alguns pontos do livro merecem reparo. Primeiramente, nem a editora nem o prefaciador do livro fornecem informações detalhadas sobre a autora. Isto faz falta, pois o conhecimento de linhagens e territórios acadêmicos estimula o debate. Um segundo ponto refere-se precisamente à questão do diálogo. A autora simplesmente desconsidera o universo intelectual de "outras" periferias, como a brasileira ou a antilhana, em que práticas ancestrais dos Ioruba foram transplantadas e têm sido estudadas há décadas em nossas universidades. Sobre o povo Iorubá, na Nigéria, temos os estudos feitos por Claude Lépine5 do Departamento de Sociologia e Antropologia da UNESP (campus de Marília), apresentados em congressos internacionais, mas igualmente ausentes da bibliografia de Adekson. Há também um lamentável silêncio, na obra, em relação aos clássicos: o texto faz apenas menção ligeira a alguns trabalhos de Evans-Pritchard e Mircea Eliade, e mesmo esses autores não são chamados a dialogar com o farto material etnográfico colhido por Adekson. Um terceiro ponto remete à questão de método. Como referi anteriormente, a autora adverte a todos os que, em seu país, se dedicam a desenvolver técnicas de terapia corporal e aconselhamento, de se acautelarem contra o abandono de "modelos, técnicas e enfoques próprios à cultura nigeriana" (p. 36). Entretanto, as técnicas de análise de dados utilizadas pela autora são assimiladas, de modo ingênuo e quase escolar, dos métodos de análise estatística e teste de hipóteses que a própria ciência social anglo-saxã – tradição à qual a autora se filia – há muito tempo deixou de levar a ferro e a fogo.

Paradoxalmente, a autora se propõe a empregar as técnicas mais maleáveis da triangulação, noção proposta há algumas décadas por Norman Denzin6, nos Estados Unidos, mas o livro nos revela apenas um dos lados do polígono… Diga-se em favor da autora, no entanto, que mesmo a antropologia médica, canadense ou norte-americana, tem dado atenção excessiva a técnicas de pesquisa – sobretudo à pesquisa-ação, e muito mais à "ação" do que à pesquisa – e tem deixado de lado o diálogo com os clássicos da antropologia. Não há pecado em Malinowski7 que justifique o silêncio. No entanto, os comentários críticos não implicam desmerecer ou desqualificar o livro de Mary Adekson. Se atentarmos para uma de suas melhores contribuições – por exemplo, mostrar que os babalaôs constroem uma relação a um tempo íntima e respeitosa com seus clientes – teremos ali uma pista segura para abrandar algumas vozes críticas do Programa de Saúde da Família, preocupadas com a "mistura das esferas privada e pública" nas visitações dos membros das equipes multiprofissionais ou dos agentes comunitários. O que importa é a paciência, a persistência e a delicadeza na interação com as famílias: "inú rere" (afabilidade), eis um pilar da retidão e do caráter firme dos "pais de todos os segredos".

 

Referências

1. Mauss M. Sociologie et Anthropologie. Paris: Presses Universitaires de France; 1950.

2. "Piva celebra Xangô e voa com o gavião". O Estado de São Paulo 2005 Set 17; p. D3

3. Junqueira C. Doenças do espírito. Estudos de Sociologia 2001; 6(10):7-19.

4. Oliveira RC. O índio e o mundo dos brancos. São Paulo: Difusão Européia do Livro; 1964.

5. Lépine C. A doença mental entre os Iorubas da Nigéria. In: D´Incao MA, organizadora. Doença mental e sociedade. Rio de Janeiro: Graal; 1992.

6. Denzin N. The research act. Chicago: Aldine Publishing Company; 1970.

7. Malinowski B. Magic, science, and religion. Prospect Heights, Ill.: Waveland Press; 1948.