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Ciência & Saúde Coletiva

Print version ISSN 1413-8123On-line version ISSN 1678-4561

Ciênc. saúde coletiva vol.13 no.5 Rio de Janeiro Sept./Oct. 2008

http://dx.doi.org/10.1590/S1413-81232008000500019 

ARTIGO ARTICLE

 

Tempo de adesão à Estratégia de Saúde da Família protege idosos de eventos cardiovasculares e cerebrovasculares em Florianópolis, 2003 a 2007

 

Time of adhesion to the Family Health Strategy protects elderly against cardiovascular and cerebrovascular accidents in Florianópolis, 2003 to 2007

 

 

André Junqueira XavierI, II; Sandro Sedrez dos ReisIII; Elizabeth Machado PauloII; Eleonora d'OrsiIV

IDepartamento de Medicina, Universidade do Sul de Santa Catarina, Campus de Tubarão, Av. José Acácio Moreira 787, Bairro Dehon. 88704-900 Tubarão SC. andre.xavier@unisul.br
IICaixa de Assistência dos Funcionários do Banco do Brasil (CASSI) de Santa Catarina
IIIGerência de Gestão de Pessoas, Banco do Brasil
IVPrograma de Pós-Graduação em Saúde Pública, Departamento de Saúde Pública, Universidade Federal de Santa Catarina

 

 


RESUMO

A Estratégia de Saúde da Família (ESF) proporciona acompanhamento longitudinal e atenção integral à saúde. Este estudo avaliou a influência do tempo de adesão à ESF sobre a incidência de eventos cardiovasculares e cerebrovasculares entre idosos cadastrados na CASSI-Florianópolis. Os agravos selecionados justificam-se pela alta incidência, boa notificação e associação com fatores de risco modificáveis pela ESF. Quanto maior o tempo de adesão à ESF, menor a incidência de eventos agudos, demonstrando efetividade da mesma. Foi realizado estudo de coorte histórica, com 674 idosos (60 anos ou mais) cadastrados entre novembro de 2003 a março de 2007. Realizou-se análise bivariada e multivariada com regressão logística. Identificaram-se como fatores de risco independentes: idade acima de 80 anos (OR=3,44; IC95%: 1,8-6,2), diabetes (OR=2,62; IC95%: 1,4-4,7), hipertensão (OR=1,68; IC95%: 1,0-2,6) e sedentarismo (OR=2,06; IC95%: 1,2-3,2). Não houve associação significativa com gênero, dislipidemia, obesidade, tabagismo ou alcoolismo. O maior tempo de adesão à ESF demonstrou efeito protetor independente (OR=0,43; IC95%: 0,2-0,8), após ajuste para covariáveis anteriores, sendo eficiente na redução do risco de eventos cardiovasculares e cerebrovasculares entre idosos cadastrados.

Palavras-chave: Atenção primária em saúde, Estratégia de Saúde da Família, Geriatria, Avaliação em saúde


ABSTRACT

The Family Health Strategy (FHS) provides longitudinal follow-up and integrated healthcare. This study evaluated the influence of the time of adhesion to the FHS upon the incidence of cardiovascular and cerebral vascular accidents among the elderly enrolled in the CASSI-Florianópolis. The events were selected because of their high incidence, good notification and association with risk factors the FHS is able to modify. The longer the time of adhesion to the strategy the lower the incidence of these events, demonstrating the effectiveness of the FHS. A historical cohort study was conducted with 674 senior participants (60 or more years), registered between November/2003 and March/2007. The analysis used Student's T test, bivariate and multivariate analysis with logistic regression. The independent risk factors were: age over 80 years, (OR=3,44; CI 95%: 1,8-6,2), diabetes (OR=2,62; CI 95%: 1,4-4,7), hypertension (OR=1,68; CI 95%: 1,0-2,6) and physical inactivity (OR=2,06; CI 95%: 1,2-3,2). The study found no significant association between gender, dislipidemia, obesity, smoking, alcoholism and the studied events. The long time of adhesion to the FHS showed independent protective effect (OR=0,43; CI 95%: 0,2-0,8) after adjustment to earlier covariates, being effective in reducing the incidence of cardiovascular and cerebral vascular accidents among the enrolled population of elderly.

Key words: Primary care, Family health, Geriatrics, Health evaluation


 

 

Introdução

Objetivando a implantação e implementação de programa de saúde efetivo, foi concebido em 1994, pelo Ministério da Saúde, um modelo estruturante da atenção básica no país, a Estratégia de Saúde da Família (ESF). Com proposta baseada na atenção integral, contínua e resolutiva, este modelo se baseia nas ações voltadas para garantia da oferta de serviços e de melhoria do acesso e no fortalecimento dos princípios do Sistema Único de Saúde1.

A ESF desenvolve as seguintes atribuições: planejamento de ações que produzam impacto positivo apropriado sobre as condições de saúde da população de sua área de abrangência, promoção e vigilância à saúde conscientizando os indivíduos para serem sujeitos e não apenas pacientes (passivos) neste processo, interdisciplinaridade potencializando o resultado do trabalho e abordagem integral da família2.

A Caixa de Assistência dos Funcionários do Banco do Brasil (CASSI) é uma entidade de autogestão em saúde, integrante do sistema de saúde suplementar brasileiro que assiste, hoje, mais de 800.000 pessoas distribuídas por todo o território nacional. Surgiu como uma associação dos empregados do Banco do Brasil e manteve esta identidade associativa ao longo de seus 63 anos de existência3.

Após sua reforma estatutária de 1996, a CASSI redefiniu-se como organização que pretende administrar a saúde da população sobre a qual é responsável. Foi assumido o princípio de atenção integral à saúde, estruturando a Atenção Primária à Saúde (APS)4 como eixo da reorganização do sistema; este passou a ser o referencial estratégico da CASSI.

A ESF representou a operacionalização da APS na CASSI. Após experimento piloto, a partir de 19994,5, nos grandes centros, onde se encontravam as maiores unidades da CASSI, foram constituídas estruturas próprias de serviços em ESF, com base em princípios de hierarquização dos níveis de atenção à saúde e constituição de referência e contra-referência com a finalidade de resgatar plenamente a história clínica e de agravos à saúde da população assistida.

Na CASSI de Florianópolis, a ESF foi oficialmente lançada em 07 de novembro de 2003. Os idosos (acima de 60 anos) desde então iniciaram o processo de cadastramento, pois foram considerados como população prioritária em função de sua alta morbimortalidade e conseqüente intensa demanda sobre os serviços de saúde.

A estruturação da ESF considerou o seguinte formato de equipes: para cada 1.200 pessoas da área de abrangência do serviço, foi disponibilizado um médico de família e um técnico de enfermagem - denominados equipe nuclear. Para cada três equipes nucleares foi disponibilizado um enfermeiro, um assistente social e um psicólogo. Em cada módulo estruturado desse serviço foi também disponibilizado um nutricionista4,5.

Essas equipes foram submetidas a capacitações continuadas, com curso básico de saúde do idoso e acesso a cursos de especialização em saúde da família. A referência principal foi a metodologia canadense na abordagem assistencial6,7. Entre outras habilitações, as equipes se aprofundaram nos principais problemas, bem como as peculiaridades da população a ser assistida.

Com normas definidas relativas à área de abrangência, profissionais e carga horária diferenciada, a estratégia executa o papel de acompanhamento de grupos de risco, dentre eles os idosos. A priorização da população idosa em termos de organização do acesso à ESF na CASSI se justifica pelo acelerado processo de envelhecimento da população que necessita de novas e mais efetivas formas de assistência à saúde, com vinculação ao serviço e cuidado integral à saúde, em sintonia com a experiência de outros países8. Embora representasse menos de 8% da população brasileira, o grupo com 60 anos e mais absorveu 21% dos recursos do SUS destinados ao pagamento de internações hospitalares em março de 19979.

A população idosa adstrita à ESF de Florianópolis que atualmente se encontra 100% cadastrada é composta por indivíduos que são acompanhados efetivamente desde o início do cadastramento até aqueles que foram cadastrados recentemente, pois o processo é contínuo, com o ingresso constante de indivíduos que atingem 60 anos. Trata-se de uma população heterogênea em termos de exposição à ESF e seus programas de promoção da saúde.

Estes são alguns dos programas desenvolvidos dentro da estratégia: cadastramento de todos os idosos e realização de entrevistas com uso de instrumento de Avaliação de Saúde e Qualidade de Vida - ASQV, grupo de convivência de idosos, programa de prevenção e redução do tabagismo de forma individual e em grupos - Tabas, Grupos de Vida Saudável - GVS, grupos de caminhada, melhoria da adesão a tratamentos por meio de descontos no uso de medicações de uso contínuo, grupos de orientação nutricional, grupos de inclusão digital.

Dentro das atividades da equipe de saúde da família, também se encontram: rastreio para tabagismo, obesidade, quedas, problemas cognitivos e de capacidade funcional, depressão, resistência insulínica e diabetes mellitus, além de determinação do risco cardiovascular por meio de escore padronizado, juntamente com o rastreio de alterações vasculares periféricas usando-se o índice tornozelo-braquial.

Especificamente, as doenças cardiovasculares e cerebrovasculares são as primeiras causas de morbimortalidade entre idosos, sendo que o aumento da idade é o principal fator de risco. A prevalência de insuficiência cardíaca congestiva (ICC) acima de 75 anos chega a 10% e tem como causas principais a hipertensão arterial sistêmica e as cardiopatias isquêmicas. A insuficiência coronariana pode chegar a uma prevalência de 70%, mas somente 20 a 30% são sintomáticas nesta faixa etária10-12. Cerca de 50% dos idosos atendidos em ambulatório apresentam pelos menos uma cardiopatia. A prevalência de IAM e DAC entre idosos brasileiros é cerca de 29% e de 3% para AVC13.

A alta incidência da doença arterial coronariana (DAC), infarto agudo do miocárdio (IAM) e acidente vascular cerebral (AVC) resulta da longa interação de fatores de risco, tais como hipertensão arterial sistêmica (HAS), diabetes mellitus (DM), dislipidemias, tabagismo, sedentarismo, estresse e obesidade. O controle e acompanhamento longitudinal com vigilância à saúde dos idosos pode melhorar a adesão aos tratamentos e diminuir a incidência de eventos agudos aqui representados pela DAC, IAM e AVC12.

A compreensão da história natural destes agravos, coordenada com a prevenção primária - educação em saúde para as modificações de estilo de vida necessárias à diminuição da morbimortalidade e medidas de prevenção secundária com rastreio, diagnóstico precoce, tratamento adequado e conseqüente contenção do dano, minimiza grandes prejuízos que resultam em perda de independência e autonomia desta população. IAM, DAC e AVC são condições de controle factível, passíveis de ações preventivas por meio de programas efetivos de políticas públicas, através da ação focada na promoção e proteção de saúde11.

A ESF, pela sua capacidade de acompanhamento longitudinal implementando medidas de prevenção primária, secundária e terciária, é fundamental em uma população que responde por cerca de 83% das mortes por infarto agudo do miocárdio14. O estudo da relação entre as patologias cardiovasculares e cerebrovasculares entre idosos (acima de 60 anos) e o tempo de adesão dos mesmos à ESF se justifica pela sua alta incidência destes agravos, boa notificação, e por que estão associados a fatores de risco modificáveis pela ESF.

Este trabalho discute o tempo de participação na ESF como agente protetor contra a exposição da população idosa aos fatores de risco para os referidos eventos, com conseqüente compressão da morbidade. Quanto maior o tempo de adesão à estratégia, menor deverá ser a incidência de eventos agudos. A diminuição da taxa de incidência por estes agravos demonstraria a efetividade das ações e serviços de saúde13.

O objetivo deste estudo é avaliar a influência do tempo de adesão à Estratégia de Saúde da Família sobre o risco de eventos cardiovasculares e cerebrovasculares entre os idosos cadastrados na CASSI-Florianópolis, controlando para o perfil demográfico, de hábitos de vida e morbidade, em um período de 41 meses.

Na tentativa de delimitar adequadamente o objeto a ser avaliado, torna-se importante definir como o presente estudo se encaixa na terminologia da avaliação em saúde em termos de espectro de avaliação, abordagens, atributos ou características a serem avaliados, estratégias e desenhos de pesquisa15. Em termos do espectro da avaliação, trata-se de uma pesquisa avaliativa, que busca responder à pergunta: o tempo de adesão à ESF pode diminuir o risco de eventos cardiovasculares e cerebrovasculares?  

Entre as abordagens possíveis no campo de avaliação em saúde, a divisão clássica proposta por Donabedian16 em estrutura, processo e resultado, este trabalho pretende avaliar o resultado, ou seja, se existe modificação no estado de saúde dos idosos cadastrados na ESF da CASSI, de acordo com o tempo de adesão. Quanto aos possíveis níveis que podem ser avaliados, trata-se de uma avaliação de serviços de saúde, em especial a Estratégia de Saúde Da Família, implantada neste serviço. Em termos dos atributos ou características avaliáveis, pretende-se avaliar a efetividade, ou seja, o possível efeito do tempo de adesão à ESF no estado de saúde dos idosos acompanhados em condições habituais do serviço15. Por fim, entre a diversidade de estratégias e desenhos de pesquisa, este se encaixa em um estudo epidemiológico do tipo longitudinal (coorte), considerado adequado para avaliar resultados15.

 

Material e métodos

O estudo realizado foi do tipo coorte histórica. Foram analisados 715 idosos (idade igual ou superior a 60 anos) cadastrados na CASSI-Florianópolis no período de novembro de 2003 a março de 2007. Os desfechos analisados foram os eventos cardiovasculares e cerebrovasculares, fatais ou não, codificados pela 10ª Classificação Internacional de Doenças em: angina pectoris (I20), infarto agudo do miocárdio (I21, I22, I23, I24), doença isquêmica crônica do coração (I25) e acidente vascular encefálico (I63, I64, I67.8, I67.9, I69). Estes desfechos foram avaliados em dois momentos: no momento do cadastramento e ao final do período de seguimento (março de 2007). Foram excluídos da análise os participantes que apresentavam os desfechos anteriormente ao cadastramento (informação obtida via questionário na entrevista do cadastramento), óbito por causa não relacionada a evento cardiovascular, mudança de endereço, cadastramento posterior ao período de estudo e data de cadastramento não encontrada.

Foi selecionado o primeiro quintil (20%) de idosos que foram cadastrados de novembro de 2003 até maio de 2004 para representar o grupo com maior tempo de exposição à ESF e este grupo foi comparado ao restante da população que compreende aqueles cadastrados de junho de 2004 até março de 2007 (os 80% cadastrados há menos tempo).

Os dois grupos foram comparados entre si em relação às variáveis de confundimento: sexo, idade, hipertensão arterial sistêmica (pressão arterial >=140/85 mmHg), diabetes, obesidade (índice de massa corporal>30), dislipidemia, sedentarismo (atividade física com freqüência inferior a 30' duas vezes por semana), tabagismo e alcoolismo.

A coleta de dados foi realizada por médico geriatra com experiência no acompanhamento ambulatorial desta população. A entrevista de cadastramento e o preenchimento dos prontuários foram realizados por enfermeira capacitada (com especialização em gerontologia e saúde da família) e treinada para esta finalidade. Os dados foram coletados no prontuário eletrônico Sinergis, nos prontuários em papel, nos questionários de Avaliação da Saúde e Qualidade de Vida (ASQV) implementados na CASSI para a população idosa no cadastramento, nas planilhas de vigilância das equipes de Saúde da Família da CASSI-SC, no banco de dados SOC para eventos com internação e no controle de dispensação de medicações de uso contínuo do setor da farmácia FECOB/programa de medicamentos.

Diferenças entre médias foram testadas pelo teste t de Student e diferenças entre proporções pelo teste de qui-quadrado. Os dois grupos foram comparados em relação aos desfechos cardiovasculares e cerebrovasculares em análise bivariada e multivariada com regressão logística. Foi elaborado um modelo ajustado para variáveis demográficas, hábitos de vida e morbidades. Foram apresentadas as razões de chance brutas e ajustadas, com intervalos de confiança de 95% e p-valores (teste de Wald). Foi considerada associação estatisticamente significativa quando p<0,05.

Foram utilizados os programas Excel ® para planilha e o pacote estatístico SPSS 8® para análise estatística.

 

Resultados

Foram cadastrados 715 idosos (idade igual ou superior a 60 anos) na Estratégia de Saúde da Família da CASSI-Florianópolis entre novembro de 2003 e março de 2007. Destes, 41 foram excluídos da presente análise devido a: óbito durante o período de estudo, por causa não relacionada a evento cardiovascular (1), por cadastramento posterior ao período de estudo (2), por data de cadastramento não encontrada (2), por mudança de moradia (1) e por apresentarem eventos cardiovasculares e/ou cerebrovasculares anteriormente ao cadastramento (35).

Foram estudados, portanto, 674 idosos, sendo 50,6% do sexo masculino, idade média de 69,1 anos, mediana de 68 anos, idade máxima 97 anos, 9,5% com idade igual ou superior a 80 anos, sendo 29,2% sedentários, 5,8% tabagistas, 11,8% obesos, 42,2% hipertensos, 35,1% portadores de dislipidemia e 10,3% diabéticos.

O grupo dos 20% cadastrados há mais tempo (G1) teve média de 32 meses de exposição à ESF e o grupo dos 80% cadastrados há menos tempo (G2) teve média de 23 meses de exposição à ESF, diferença significativa (p<0,001).

A prevalência de eventos cardiovasculares e cerebrovasculares na população total estudada (n=715), obtida anteriormente ao cadastramento, foi de 3,9%; sendo que no grupo G1 foi de 5,0% e no grupo G2 foi de 3,7%; não houve diferença estatisticamente significativa entre estas proporções.

O grupo G1 (com mais tempo de adesão à ESF) foi composto por 146 idosos: 45,2% do sexo masculino, idade média de 69,4 anos, 27,4% sedentários , 55,5% hipertensos, 40,4% portadores de dislipidemia, 19,9% obesos, 13,7% diabéticos, 3,4% tabagistas, nenhum alcoolista e 8,9% com eventos cardiovasculares (Tabela 1).

O grupo G2 (com menor tempo de adesão à ESF) foi composto por 528 idosos: 52,1% do sexo masculino, idade média de 69,1 anos, 29,7% sedentários, 39,0% hipertensos, 33,9% portadores de dislipidemia, 10,4% obesos, 9,5% diabéticos, 6,4% tabagistas, 1,1% de alcoolistas e 15,5 com eventos cardiovasculares (Tabela 1).

No grupo G1, houve significativamente maior prevalência de hipertensão arterial sistêmica (p<0,001), maior prevalência de obesidade (p=0,002) e menor incidência de eventos cardiovasculares (p=0,042). Não houve diferença significativa entre os dois grupos em relação à diabetes, alcoolismo, sedentarismo, tabagismo e dislipidemia (Tabela 1).

A média etária daqueles com pelo menos um evento cardiovascular ou cerebrovascular foi de 71,8 anos contra 68,5 daqueles livres de eventos ao final do período de estudo (p<0,001).

Na análise bivariada, houve risco significativamente maior de evento cardiovascular para os idosos acima de 80 anos, hipertensos, diabéticos ou sedentários. Não se observou associação significativa do sexo masculino, dislipidemia, obesidade, tabagismo ou alcoolismo com eventos cardiovasculares. O maior tempo de adesão à ESF demonstrou efeito protetor significativo (Tabela 2).

Na análise multivariada, ter 80 anos de idade ou mais foi o fator de risco independente com mais forte associação com o desfecho. Os idosos acima de 80 anos apresentaram chance 3,5 vezes maior de eventos cardiovasculares e cerebrovasculares. Em segundo lugar, ficou ter diabetes com chance 2,62 vezes maior do evento. Em terceiro lugar no modelo, entrou o sedentarismo com chance 2,06 vezes maior do evento. Pertencer ao grupo G1 se revelou fator de proteção independente entrando em quarto lugar no modelo, com chance 57% menor de eventos cardiovasculares e cerebrovasculares para os idosos cadastrados há mais tempo. Em quinto lugar, entrou no modelo a hipertensão arterial sistêmica com chance 1,68 vezes maior de eventos cardiovasculares (Tabela 3).

 

Discussão

Este trabalho avaliou a influência do tempo de adesão à ESF sobre o risco de eventos cardiovasculares e cerebrovasculares, encontrando efeito protetor independente de sexo, idade, presença de hipertensão arterial sistêmica, diabetes, obesidade, dislipidemia, sedentarismo, tabagismo e alcoolismo.

Entre as limitações do trabalho, podemos citar as dificuldades inerentes ao diagnóstico de problemas cardiogeriátricos, em função de fatores ligados ao envelhecimento em si, à polimedicação no idoso, à alta freqüência de quadros assintomáticos, oligossintomáticos, bem como sinais e sintomas inespecíficos, característicos desta faixa etária, assim como a qualidade do preenchimento do prontuário.

Especificamente quanto ao grupo de idosos estudado, o G1 na época do cadastramento possuía maior morbidade em relação à HAS e obesidade; fatores de risco já bem estabelecidos em relação a problemas cardiovasculares e cerebrovasculares. Seria de se esperar em função disso maior incidência de eventos nesta população ao final do tempo de acompanhamento. No entanto, houve uma proteção significativa desta população com mais tempo de acompanhamento pela ESF, sugerindo melhor controle dos fatores de risco modificáveis, tais como, sedentarismo, obesidade, tabagismo, HAS e diabetes em função do acesso e da coordenação de cuidados.

Este fenômeno corrobora com a ação da estratégica de saúde da família ao focar não somente o controle das patologias mais prevalentes, mas também o desenvolvimento de programas de atividade física, cessação do tabagismo, educação em saúde, prevenção primária e rastreio de fatores de risco para doenças cardiovasculares e/ou cerebrovasculares e grupos de idosos.

O estudo foi viabilizado pela opção da CASSI em cadastrar prioritariamente os idosos, população na qual os efeitos de uma APS bem gerenciada podem ser melhor percebidos, sanitária e economicamente8. Soma-se a isto uma certa homogeneidade da população estudada: em sua maioria, funcionários de carreira de uma mesma instituição com nível socioeconômico e escolaridade comparáveis.

As possibilidades observadas de se subsidiar a gestão em sua tomada de decisões, a partir de análises como esta, recomendam o estímulo a estudos e investigações semelhantes por todos os serviços envolvidos no projeto desta ou de outras instituições. Foram realizados diversos estudos de avaliação em APS/ESF, priorizando os mais diversificados ângulos de classificação de indicadores. Em geral, são priorizados os indicadores de processo e as avaliações do grau de implantação dos programas, mas não avaliam os resultados em termos de modificação no estado de saúde da população-alvo do programa, conhecimento necessário para os diversos fóruns de gestão dos sistemas e organizações de saúde quanto à efetividade8, 17-19.

Favorecer a participação social dos usuários do serviço, na formulação das políticas de saúde, é uma medida que estimula a ampliação da discussão e efetivação do controle social por meio da participação das entidades representativas no Conselho de Usuários, favorecendo o vínculo do indivíduo com a equipe de saúde, o que pode contribuir para melhoria da resposta terapêutica do paciente20-22. A ESF deve estar preparada para atender aos novos objetivos em saúde: mudanças de atitude, mudanças de comportamento, aderência crônica aos tratamentos e inclusão social.

 

Conclusão

Juntamente com a idade avançada, diabetes, sedentarismo e hipertensão arterial, que representaram fatores de risco independentes, pertencer à Estratégia de Saúde da Família há mais tempo representou fator independente de proteção para eventos cardiovasculares e cerebrovasculares entre os idosos cadastrados na CASSI-SC. Ressalta-se que a população cadastrada há mais tempo obteve maior proteção a despeito de uma prevalência significativamente maior de HAS e obesidade. O estudo indica um efeito protetor dependente do tempo de participação na Estratégia de Saúde da Família, isto é, quanto mais tempo na ESF, maior a proteção contra doenças cardiovasculares e cerebrovasculares. Os eventos cardiovasculares podem ser bons marcadores para a avaliação do impacto da ESF em idosos. A ESF mostrou, neste estudo, ser eficiente na promoção da saúde dos idosos cadastrados.

 

Perspectivas

Deve-se aprofundar este estudo, juntando-se outras variáveis sociodemográficas e de saúde, com estudos de sobrevida e tempo até determinado evento cardiovascular e cerebrovascular. Também é necessária a continuidade deste estudo para que se tenha uma avaliação contínua da qualidade da atenção à saúde na CASSI-SC. Outras variáveis poderão ser estudadas, tais como a presença e o grau de arteriopatia periférica que constitui evento proximal e anterior aos desfechos agudos cardiovasculares e cerebrovasculares e sintomas depressivos que também influenciam um maior adoecimento do sistema circulatório. A mortalidade poderá ser uma variável de desfecho a ser estudada, assim como outros indicadores da qualidade do cuidado na Estratégia de Saúde da Família.

Considerando a presença geográfica continental da CASSI e de seus serviços de APS/ESF, bem como sua interligação por rede lógica, sistemas de prontuários eletrônicos com acompanhamento longitudinal e outros instrumentos, dentre os quais uma estrutura de gestão de informação, poderão ser efetuados estudos sobre sua população, hoje superior a meio milhão de pessoas, prestando um serviço ao país no que tange à gestão e promoção da saúde.   

 

Colaboradores

AJ Xavier e E d'Orsi participaram da concepção teórica, coleta e análise de dados, elaboração e revisão final do texto, SS dos Reis participou da concepção teórica, elaboração e revisão final do texto, EM Paulo participou da coleta de dados, elaboração e revisão final do texto.

 

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Artigo apresentado em 19/07/2007
Aprovado em 07/10/2007
Versão final apresentada em 26/02/2008

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