SciELO - Scientific Electronic Library Online

 
vol.14 issue2Conceptions of normality and mental health among prisoners in a correctional institution in the city of SalvadorThe perception of domestic violence of pregnant and not pregnant women in the city of Campinas, São Paulo author indexsubject indexarticles search
Home Pagealphabetic serial listing  

Services on Demand

Journal

Article

Indicators

Related links

Share


Ciência & Saúde Coletiva

Print version ISSN 1413-8123On-line version ISSN 1678-4561

Ciênc. saúde coletiva vol.14 no.2 Rio de Janeiro Mar./Apr. 2009

http://dx.doi.org/10.1590/S1413-81232009000200026 

TEMAS LIVRES FREE THEMES

 

Protagonismo e vitimização na trajetória de mulheres envolvidas na rede do tráfico de drogas no Rio de Janeiro

 

Agency and victimization in the trajectory of women involved in drug trafficking in Rio de Janeiro

 

 

Mariana Barcinski

Centro Latino-Americano de Estudos Violência e Saúde Jorge Careli, Escola Nacional de Saúde Pública. Fiocruz. Av. Brasil 4.036/700, Manguinhos. 21040-361 Rio de Janeiro RJ. barcinski@fiocruz.br

 

 


RESUMO

O presente artigo tem o objetivo de problematizar a tradicional vitimização de mulheres que se envolvem com atividades criminosas, chamando a atenção para o protagonismo e a iniciativa pessoal como motivadores para trajetórias criminosas femininas. A partir da análise discursiva de entrevistas qualitativas com cinco mulheres com uma história passada de envolvimento na rede do tráfico de drogas no Rio de Janeiro, a intenção é captar os dilemas que caracterizam a forma como estas mulheres justificam a sua inserção numa atividade criminosa primordialmente masculina. Ao nível micro, a análise tratará da eficácia retórica dos diversos posicionamentos assumidos pelas participantes1. De forma complementar, investigará de que forma as entrevistadas se apropriam de discursos hegemônicos acerca da feminilidade para dar sentido às suas estórias pessoais2. Os resultados demonstram que as participantes ora apelam para os motivos externos que justificam suas escolhas (como a falta de opção que marca a trajetória de populações marginalizadas como os favelados ou o envolvimento com parceiros criminosos), ora assumem total responsabilidade por terem se envolvido com o tráfico de drogas. Neste último caso, é comum que citem o poder e o respeito que experimentavam como traficantes como o principal motivador para suas escolhas.

Palavras-chave: Protagonismo, Gênero, Criminalidade, Discurso


ABSTRACT

The goal of the present article is to discuss the traditional victimization of women who get involved in criminal activities, focusing on agency and personal initiative as the main motivators. Through the discursive analysis of qualitative interviews with five women with a history in drug trafficking in Rio de Janeiro we sought to capture the dilemmas that characterize the ways in which these women justify their participation in a traditional male activity. At a micro level, the analysis focuses on the rhetoric efficacy of the different positions assumed by the participants1. At a macro level, the analysis investigates how the participants appropriate different discourses about womanhood in order to give sense to their personal histories2. The results show that the participants oscillate between appealing to external causes for justifying their choice (such as the lack of options characterizing the trajectory of marginalized populations and the personal involvement with criminal partners) and assuming responsibility for having been involved in drug trafficking. In this case, they often mention the power and respect they used to experience as traffickers as the main motivator for their criminal trajectory.

Key words: Agency, Gender, Criminality, Discourse


 

 

Introdução

Apesar da criminalidade feminina, especialmente a participação de mulheres no tráfico de drogas, ter aumentado nos últimos quinze anos no Brasil3, tal cenário ainda não justifica um proporcional interesse acadêmico pelo tema. No campo da criminologia em geral, poucos esforços têm sido feitos no sentido de entender o contexto particular no qual mulheres decidem participar de atividades criminosas tradicionalmente masculinas e as especificidades desta participação. Gilfus4, por exemplo, aponta para a falta de estudos baseados numa apreciação direta das percepções, experiências e motivações exclusivamente femininas. Em vez de procurar entender os motivos da enorme disparidade no número de crimes cometidos por homens e mulheres, esse autor acredita que as teorias deveriam se debruçar sobre a experiência de mulheres "reais" que decidem entrar para o mundo do crime, contribuindo assim para um retrato mais fiel da criminalidade feminina.

Provavelmente por causa da óbvia influência masculina na iniciação de mulheres no crime, a participação feminina continua a ser pensada e teorizada principalmente através do envolvimento destas mulheres com seus parceiros. De acordo com essa perspectiva, o protagonismo e a intencionalidade feminina são ignorados e as mulheres que se envolvem em atividades criminosas são vistas exclusivamente como vitimizadas por homens criminosos. Sua participação absolutamente involuntária é resultado da opressão, do medo e da falta de opção que supostamente caracterizam a vida de mulheres afetivamente envolvidas com estes homens.

As explicações tradicionais para a diferença nas taxas de criminalidade feminina e masculina baseiam-se na imagem da mulher como naturalmente dócil, passiva e menos suscetível à prática de comportamentos violentos. Os crimes femininos são então justificados pela desumanização da criminosa. Sustentando uma representação da mulher como essencialmente gentil, estes discursos sugerem a natureza diabólica de mulheres criminosas. Uma vez que a violência e a agressão não fazem parte da "natureza feminina", mulheres que se engajam em crimes são consideradas "loucas" e necessitando de intervenção legal ou psicológica. Definir a mulher transgressora como louca ou como vítima de violência enfatiza a irracionalidade e a falta de protagonismo feminina5.

Numa tentativa de preencher a lacuna deixada pelos estudos em criminologia de uma forma geral, algumas estudiosas feministas têm investigado as especificidades da criminalidade feminina. É sabido, por exemplo, que quando uma mulher transgride a lei, ela o faz em circunstâncias absolutamente diferentes daquelas em que os homens tornam-se foras da lei. Há diferenças substanciais entre a criminalidade feminina e a masculina, diferenças estas que clamam por uma interpretação mais acurada6. Investigar essas diferenças parece ser o primeiro passo para reconhecer o papel desempenhado por questões de gênero, principalmente na prescrição de comportamentos masculinos e femininos (incluindo os comportamentos criminosos) na sociedade.

Ao teorizar acerca das especificidades dos crimes femininos, autores apontam para o caráter relacional destes crimes7. De acordo com essa perspectiva, as mulheres criminosas enfatizam seus papéis de cuidadoras e seu envolvimento é usualmente caracterizado como protetor das suas relações afetivas (românticas) e familiares.

O presente artigo visa problematizar a tradicional vitimização de mulheres envolvidas em atividades criminais, posicionando-as como agentes em suas escolhas. Obviamente, não se trata de uma tentativa de minimizar o impacto da subordinação e opressão femininas como fundamentais para entender o processo através do qual mulheres tornam-se criminosas. Trata-se, entretanto, de colocar estas mulheres no centro do processo decisório, enfatizando sua intencionalidade, criatividade e a força das suas trajetórias pessoais. Portanto, além dos elementos contextuais e interpessoais comumente reportados por mulheres que se envolvem com o crime, esse estudo visa lançar luz sobre o protagonismo feminino e sua importância no processo de criminalização de mulheres.

Mais especificamente, o artigo tem como objetivo captar os dilemas envolvidos na forma como mulheres justificam a sua participação em atividades ilícitas, ora apelando para fatores externos e estruturais, ora assumindo total responsabilidade pelas suas escolhas. Posicionando-se simultaneamente como vítimas de um sistema social injusto ou de parceiros criminosos violentos e como agentes conscientemente engajados em suas escolhas, as mulheres aqui entrevistadas evidenciam os dilemas e as contradições que marcam suas identidades.

O fato do tráfico de drogas ser reconhecido como uma atividade masculina faz da análise da trajetória destas mulheres uma empreitada particularmente complexa. Pelo caráter não usual de suas experiências, espera-se que o processo de construção de identidade destas mulheres seja marcado por uma negociação constante entre diferentes discursos acerca do feminino2. Portanto, pela própria natureza da atividade em que estas mulheres tomam parte, não surpreende que suas identidades sejam marcadas por tensões e contradições, usualmente refletidas na apropriação de discursos dissonantes acerca das suas condições.

 

Método

Participantes

As participantes deste estudo são cinco mulheres com uma história passada de envolvimento com o tráfico de drogas em favelas do Rio de Janeiro. No esboço original do estudo, a idéia era entrevistar mulheres atualmente envolvidas na atividade. No entanto, logo no início do trabalho de campo, tornou-se óbvia a inviabilidade deste projeto. Os riscos para ambas as partes envolvidas (entrevistadas e entrevistadora) eram muitos altos, especialmente levando-se em consideração que o estudo previa a condução de entrevistas longas, abertas e em profundidade e que tais entrevistas deveriam ser gravadas em áudio para a análise discursiva proposta. Diante do medo de ambos seus parceiros criminosos e da polícia, as participantes certamente se recusariam a falar sobre as suas trajetórias no tráfico de drogas.

A escolha por um número reduzido de participantes deveu-se em parte pela óbvia dificuldade de recrutar mulheres nesta situação particular e, mais uma vez, pela metodologia adotada no estudo. Para a análise discursiva qualitativa proposta, pareceu-me apropriado trabalhar com poucas participantes. Além disso, a minha intenção era analisar a fundo o processo de construção de identidade destas mulheres, buscando nas suas histórias pessoais e familiares, bem como em seus contextos sociais e econômicos, parte da sua motivação para ingressarem no tráfico de drogas. Portanto, na tentativa de conhecer estas mulheres mais a fundo, a escolha por um número pequeno de participantes foi a mais apropriada.

As participantes foram recrutadas por uma ONG que desenvolve trabalhos voltados para a provisão de alternativas educacionais e profissionais para jovens envolvidos na rede do tráfico de drogas em comunidades cariocas. Todas as entrevistadas atuaram diretamente na estrutura do tráfico, seja vendendo e embalando drogas ou transportando drogas e armamentos entre diferentes favelas. Dentre elas, há uma mulher que trabalhou como "gerente" de uma boca de fumo. Como esse é um papel comumente desempenhado por homens, essa entrevistada em particular mostra-se orgulhosa por ter ocupado essa posição. Atualmente, todas as participantes estão empregadas em atividades legais ou desempregadas.

Originalmente, todas as entrevistas seriam realizadas na sede da referida ONG, localizada em uma das maiores favelas do Rio de Janeiro. No entanto, algumas participantes recusaram-se a ir ao meu encontro. É sabido que as facções criminosas que controlam o tráfico de drogas na cidade estabelecem rígidas barreiras entre diferentes favelas. Desta forma, o fluxo de pessoas comuns, mesmo aquelas não envolvidas na atividade (como é o caso das participantes atualmente), é determinado pelas linhas imaginárias estabelecidas pelas facções. Moradores têm total conhecimento destas limitações e evitam transitar por favelas dominadas por facções rivais (diferentes daquelas que controlam o tráfico na sua própria favela). Por este motivo, para entrevistar três participantes, eu precisei ir ao encontro delas nas favelas em que elas moravam. As demais entrevistas foram realizadas na sede da ONG.

Como os dados aqui analisados são parte da minha tese de doutorado defendida em 2006 no departamento de Psicologia da Clark University, nos Estados Unidos, o estudo foi submetido e aprovado pelo comitê de ética da referida universidade. Os nomes das participantes, bem como qualquer informação que pudesse identificá-las, foram alterados por motivos de segurança e privacidade. As participantes foram informadas do caráter voluntário da sua participação e tiveram total liberdade para interromper as entrevistas (ou a sua gravação) caso não se sentissem à vontade com os temas discutidos.

Entrevistas

A parte inicial das entrevistas tinha como objetivo explorar alguns aspectos da vida atual das participantes, como a sua situação de trabalho, a estrutura familiar e suas relações afetivas e românticas. O motivo para começar as entrevistas indagando acerca das suas experiências presentes foi evitar a resistência das entrevistadas. Em uma entrevista piloto realizada seis meses antes da coleta dos dados, uma das participantes havia expressado o desinteresse e o cansaço de falar sobre o seu passado como traficante. Ao falar das suas vidas presentes, suas histórias como traficantes emergiam espontaneamente como parte das suas trajetórias de vida. Surpreendentemente, suas histórias no tráfico de drogas constituíram a maior parte das entrevistas, juntamente com os seus planos para o futuro fora da atividade.

Esta primeira parte das entrevistas teve também como objetivo investigar as especificidades do posicionamento social das participantes, enfatizando suas percepções acerca das suas realidades estruturais e contextos culturais. De acordo com a perspectiva adotada no estudo, esse é um passo fundamental para contextualizar o discurso e as trajetórias de cada participante.

A partir daí, as entrevistas foram conduzidas na tentativa de investigar a maneira como as participantes construíam as suas identidades como criminosas. As perguntas foram então elaboradas para que elas falassem sobre a sua efetiva participação no tráfico de drogas, sobre os papéis que desempenharam na atividade, sobre as diferenças entre homens e mulheres traficantes no que diz respeito a estes papéis e sobre as razões pessoais para ingressarem numa atividade tradicionalmente masculina.

A direção e o fluxo das entrevistas foram quase que exclusivamente determinados pelas contribuições espontâneas das participantes. Freqüentemente, elas introduziam temas que não constavam do protocolo original de entrevista. O caráter flexível das entrevistas provou ser bastante produtivo, contribuindo para uma menor resistência por parte das entrevistadas.

 

Análise

Através da análise discursiva das entrevistas qualitativas conduzidas com estas cinco mulheres, o presente artigo investiga a forma como elas justificam a sua entrada e permanência no tráfico de drogas, uma atividade primordialmente masculina, oscilando na construção de diferentes e contraditórias justificativas.

De acordo com uma perspectiva que considera as identidades como construídas no curso de interações sociais1, a presente análise examina as estratégias retóricas adotadas por estas mulheres na construção de suas trajetórias criminosas. Neste nível micro, o papel da audiência é fundamental, visto que os interlocutores estão continuamente se posicionando uns em relação aos outros. Por esta razão, a minha posição como co-construtora das suas identidades é constantemente problematizada. Diferentes aspectos da minha própria identidade são enfatizados nas construções discursivas das participantes. Por exemplo, apelando para a nossa suposta compartilhada experiência como mulheres, as participantes freqüentemente posicionam-se como agentes em suas decisões. Por outro lado, reconhecendo-me como uma representante de uma organização que lida com a prevenção e o combate ao trabalho de jovens no tráfico de drogas, essas mulheres mostram-se empenhadas em construir as suas identidades como vítimas. Desta forma, sua participação no tráfico de drogas fora o resultado de uma falta de opção (dado o contexto social e econômico em que vivem), em vez de uma atitude intencionalmente motivada. Como mulher, eu possivelmente me orgulharia do protagonismo e da intencionalidade enfatizada pelas participantes. Por outro lado, como representante oficial da referida instituição, eu provavelmente desaprovaria a deliberada inserção delas numa atividade ilícita como o tráfico de drogas.

Como mencionado acima, o discurso das participantes é marcado pelo dilema de posicionarem-se, ao mesmo tempo, como agentes em suas decisões e como vítimas de um sistema (social, econômico e de gênero) que não lhes deixa outra oportunidade senão o caminho da criminalidade. Não é o objetivo da presente análise investigar os "reais" motivos por trás do discurso ambíguo das participantes, mas justamente apontar para a natureza dilemática das suas identidades. Além de reconhecer a tensão presente em seus depoimentos, a análise se ocupará da investigação dos possíveis significados destas contradições. Em outras palavras, a questão é examinar o impacto destes diferentes posicionamentos (como vítimas ou como agentes) na construção da identidade das entrevistadas.

No nível macro, serão analisados os discursos mais freqüentemente apropriados pelas entrevistadas na construção das suas estórias. Neste nível, identidades são consideradas também como o resultado da apropriação e resistência a discursos hegemônicos. Teorizando acerca do poder constitutivo de discursos culturais, Wetherell8 aponta para o fato de que sujeitos são construídos por discursos que se sedimentam na forma de linhas habituais de argumentação. Portanto, é através da apropriação e reprodução de discursos culturais que as identidades são construídas.

No caso específico das entrevistadas, a análise evidenciará como elas reproduzem diversos discursos que posicionam as favelas e os favelados à margem da sociedade. Tal apropriação reflete, simultaneamente, a decisão de posicionarem-se como vítimas de um sistema desigual e injusto e um claro conhecimento das diferenças estruturais que separam ricos e pobres, negros e brancos, homens e mulheres. Desta forma, a apropriação e reprodução de tais discursos servem a diferentes propósitos no processo de construção da subjetividade das participantes.

Conforme descrito acima, portanto, a presente análise terá um caráter sistêmico, focando-se simultaneamente nos níveis micro e macro em que a construção de identidades se dá. Os dilemas (e seus significados) entre agência e passividade na construção das trajetórias criminosas destas mulheres serão analisados em função de sua eficácia retórica e da apropriação de discursos hegemônicos diversos.

 

Agência e passividade nos dados

A análise de trechos das entrevistas com as participantes tem como principal objetivo ilustrar o caráter dilemático do discurso e das identidades das mulheres entrevistadas. Focando-se nas contradições expressas pelas participantes, podemos constatar como a vitimização e o protagonismo são simultaneamente apropriados pelas participantes no processo de construção de suas identidades criminosas.

De uma forma geral, quando questionadas acerca das suas trajetórias no tráfico de drogas, as participantes posicionam-se como ativamente envolvidas em suas decisões de entrar e sair da atividade. Quando as minhas perguntas sugerem uma suposta passividade ou vitimização como, por exemplo, quando eu aponto para as dificuldades econômicas e o preconceito como motivadores ao crime –, essas mulheres mostram-se particularmente empenhadas em assumir a responsabilidade pelas suas escolhas.

Selma tem trinta e três anos e trabalha há quinze como faxineira em casas de família. Ela representa um caso especial dentre as participantes, porque foi envolvida no tráfico de drogas em uma época (final dos anos oitenta) em que a participação feminina era ainda mais incomum do que é hoje. É desta forma que Selma fala da motivação para a sua entrada na atividade: a amizade não me levou a lugar nenhum, eu fui porque eu quis, fui com as minhas pernas, fui porque eu quis.

A fala acima é construída como uma reação a minha sugestão sobre a influência de amigos e família na trajetória criminosa das pessoas em geral. Após ter me contado que seu pai havia trabalhado no tráfico de drogas no passado, eu naturalmente questiono Selma sobre a influência deste fato na sua própria história. Apropriando-se de um discurso comum entre as entrevistadas, ela assume a responsabilidade integral pela sua decisão de entrar para o tráfico de drogas, veementemente negando qualquer influência externa.

No entanto, ao teorizar acerca da trajetória de outras pessoas, Selma reconhece a possível influência do meio circundante. Por exemplo, ela conta que é por medo de que seu irmão adolescente se envolva com o tráfico de drogas (em virtude das "más companhias") que sua família está pensando em deixar a favela e mudar-se para o interior do estado.

As contradições expressas no discurso de Selma são comumente refletidas quando as participantes discorrem sobre a trajetória criminosa de outras pessoas na favela. As dificuldades econômicas e a vulnerabilidade pessoal que podem determinar a entrada de alguém no tráfico são mais facilmente reconhecidas quando elas teorizam acerca das motivações alheias. De certa forma, a vitimização e a passividade são mais facilmente assumidas quando elas não dizem respeito às suas próprias escolhas.

Flávia tem vinte e um anos e seu envolvimento passado no tráfico é justificado pela sua dependência de drogas. No trecho a seguir, ela justifica a participação de uma amiga e de outras mulheres na atividade: esse é o trabalho dela. Então elas se mantêm dali. Se não tiver, não tem. E muitas das vezes você vê que elas passam necessidade.

A fala acima sugere não somente que o tráfico de drogas deve ser considerado simplesmente como uma alternativa econômica viável no contexto das favelas, mas também que mulheres ingressam na atividade por falta de melhores opções. Desta forma, o tráfico de drogas representa muitas vezes a única opção de sustento para elas.

A princípio, Flávia parece particularmente inclinada a desculpar mulheres que se envolvem com o tráfico de drogas por causa de questões familiares, como a necessidade de sustentar pais e filhos. Como evidência, ela empaticamente testemunha o sacrifício de sua amiga para sustentar os quatro filhos. Em outros momentos, no entanto, Flávia aponta para a busca de poder e status como maiores motivadores da criminalidade feminina. Nestes casos, ela sugere que os motivos destas mulheres são de alguma forma menos legítimos dos que os daquelas que se tornam traficantes para sustentar suas famílias. No trecho a seguir, ela questiona o argumento da "falta de opção" como principal motivador para a trajetória criminosa das pessoas (não a sua própria), apontando para os motivos "menos legítimos" citados acima. Mais uma vez, o argumento da falta de opção fora sugerido por mim: oportunidade tem, mas quer se sentir o herói. Quer ter aquilo ali, tipo levantar um troféu, né? Quer ser o mais forte.

Embora reconheça as dificuldades econômicas que levam populações menos privilegiadas a ingressarem no crime, quando explicitamente questionada, Flávia aponta para a intencionalidade e o protagonismo das pessoas. Ironicamente, Flávia é das participantes mais atentas e mais conscientes acerca do impacto da discriminação e do preconceito sobre as populações marginalizadas. Seu discurso, em geral, é marcado por uma consistente análise crítica da situação econômica e social que faz dos favelados um grupo à margem da sociedade (e por isso mesmo mais suscetível a se envolver com o crime). Como evidência da sua postura crítica, no trecho a seguir, Flávia responde se há mais negros do que brancos trabalhando para o tráfico de drogas: tem, tem mais preto. Por que? Porque já é discriminado na rua, não tem mais nada a perder, pô, que se foda, vou formar no morro, vou ser soldado no morro.

No trecho acima, além de evidenciar a sua perspectiva crítica acerca da situação social dos favelados negros, Flávia reproduz o discurso de que certos indivíduos envolvem-se com o crime por falta de opções (argumento que ela veementemente combate em outros trechos de sua entrevista). Como reação à discriminação e à falta de esperança, jovens negros encontram no tráfico de drogas uma saída para a invisibilidade e a falta de perspectiva que marcam as suas vidas.

Da mesma forma que Selma, a passividade e a vitimização são mais facilmente reconhecidas no outro; Flávia em momento algum demonstra a mesma atitude crítica a respeito do seu próprio envolvimento no tráfico de drogas. Em outras palavras, a sua participação no tráfico não fora motivada por dificuldades econômicas ou pela influência de parceiros criminosos, como é o caso de muitas mulheres que ela descreve. Em diversos trechos da entrevista, Flávia esforça-se para estabelecer uma distância entre ela e outras pessoas da favela, especialmente outras "meninas". Retoricamente, essa distância é construída através do constante alinhamento comigo. Diferente de outras "meninas da comunidade", por exemplo, Flávia é capaz de manter uma conversa com alguém "educado como eu" (é assim que ela se refere a mim). Portanto, é enfatizando as nossas supostas características comuns que Flávia distancia-se das mulheres por ela percebidas ora como vítimas oprimidas, ora como oportunistas em busca de status social dentro das favelas.

Vanessa tem vinte e seis anos e trabalhou durante oito anos no tráfico de drogas. A sua entrada e longa permanência na atividade são justificadas pelo poder e respeito que ela costumava experimentar na favela. Segundo ela, ser reconhecida como uma "mulher diferente" (mais poderosa e destemida do que as outras mulheres da favela) compensava todos os riscos envolvidos na atividade: eu achava diferente uma mulher - a gente praticamente não via nenhuma mulher no tráfico. Aí os garotos também já gostava.

Durante toda a entrevista, Vanessa enfatiza o fato de que seu envolvimento fora sempre motivado pelo desejo de se sentir especial e de ser reconhecida como tal. Para ilustrar o prazer que sentia ao ser reconhecida como uma mulher diferente, ela conta as diversas vezes em que fora armada de fuzil aos bailes da comunidade. Segundo Vanessa, as mulheres no baile cochichavam sobre ela, invejando o poder de uma mulher carregando armas como um homem. Além do poder e respeito, ela ainda cita a "adrenalina" e o risco envolvidos nas tarefas que desempenhava como traficante. Ao contrário de outras mulheres, ela não tinha medo de acompanhar os "meninos" em todas as missões arriscadas que marcam o dia-a-dia de um traficante. Ela carregava armas, fugia da polícia e entrava em combates diretos com facções criminosas rivais.

Portanto, sua motivação para ingressar e permanecer no tráfico fora sempre interna; o que movia Vanessa era o desejo de se sentir "como um dos meninos". Não há nos seus relatos a menção a nenhum envolvimento afetivo com homens criminosos ou nenhuma história familiar que justificasse o seu envolvimento. Ao contrário, Vanessa faz questão de negar o envolvimento afetivo com traficantes; em suas palavras: eu nunca fui mulher de nenhum bandido. O meu envolvimento sempre foi direto ali no trabalho com eles [homens traficantes], entendeu?. Ao distanciar-se de outras mulheres cuja participação no tráfico é inteiramente justificada pelo envolvimento com homens criminosos, Vanessa enfatiza o seu poder de decisão acerca da sua própria vida no crime. Assim como Flávia, ela jamais fora diretamente influenciada por namorados ou maridos.

É intrigante, no entanto, que a identidade de Vanessa esteja tão fortemente associada ao reconhecimento e à admiração dos "meninos" traficantes. Em outras palavras, seu poder como traficante é conferido pelos homens que a reconhecem como uma mulher diferente das outras. De certa forma, portanto, parece haver uma motivação externa ao menos para a prolongada permanência de Vanessa no tráfico de drogas.

É desta forma que Vanessa descreve sua efetiva atuação como traficante: andava armada, dava tiro, trocava tiro. Tudo com eles [os homens] e eu fazia ali, entendeu? Não ficava ali igual a elas [outras mulheres], só sentada vendendo [drogas]. Era como se eu fosse um soldado mesmo, entendeu, do tráfico.

Vanessa, como Selma e Flávia, posiciona-se como protagonista da sua história. Motivada pelo desejo de se sentir uma mulher diferente das outras (com mais poder, status e reconhecimento ex terno), ela assume total responsabilidade pelas suas escolhas. No entanto, também como as outras entrevistadas, Vanessa reconhece os fatores externos que podem determinar a escolha de outras pessoas pela vida do crime. No trecho abaixo, ela faz menção ao preconceito usualmente sofrido por jovens que se envolvem na atividade: o tráfico eu acho que é o único emprego assim mesmo que não tem nada de raça, entendeu? Nem raça, nem estudo, nem nada. Entrou, trabalhou.

No trecho acima, Vanessa aponta para a natureza democrática do tráfico de drogas. Aliás, ela explicitamente defende esse argumento. Em suas opinião, as pessoas entram para a atividade simultaneamente por falta de opção e pelo fato do tráfico supostamente empregar pessoas de qualquer raça, classe e nível escolar. Para sustentar o seu argumento, Vanessa relata o caso de um amigo negro que, após ser humilhado durante uma entrevista de trabalho, decide entrar para o tráfico de drogas. Mais uma vez, o argumento da "falta de opção" parece ser apropriado para justificar a escolha de outras pessoas, não a das entrevistadas. Suas próprias histórias são usualmente marcadas pelo protagonismo e pela intencionalidade na tomada de decisões.

Outra participante, Denise, também aponta explicitamente para o poder e o respeito como motivadores para a sua entrada no tráfico de drogas. Acostumada a namorar "bandidos", ela sempre desejou experimentar o poder que em geral é somente experimentado pelos homens: eu queria também ter poder, queria ter as pessoas ao meu redor, me bajulando o tempo todo, sabe?

Denise representa um caso especial dentre as participantes, por ter ocupado um cargo de elevado prestígio na hierarquia do tráfico de drogas. Ela foi "gerente" de um ponto de vendas, responsável por todos os empregados e todas as drogas vendidas ali. Portanto, o poder efetivamente exercido por ela está no centro da sua identidade como criminosa. Da mesma forma que Vanessa, no entanto, esse poder não parece ter sido experienciado de forma absoluta. Denise sente-se poderosa principalmente em comparação com outras mulheres que desempenhavam funções menos importantes do que ela. É assim que ela constrói essa comparação: me sentia, me sentia superior. Todas tinham que ser submissas a mim.

Apesar de também supervisionar o trabalho de homens como gerente do ponto de venda, é sobre as mulheres que Denise parece ter exercido o seu poder (ou, pelo menos, somente as mulheres eram "submissas" a ela naquela época). O importante no caso de Denise é a sua apreciação pelo poder e o fato dela apontar as suas motivações internas como principal motivador da sua trajetória criminosa. No entanto, como é o caso de Vanessa, seu poder também está diretamente associado ao fato dos homens na atividade reconhecerem Denise como uma mulher especial.

Em ambos os casos em que o poder e respeito foram explicitamente citados como motivadores para o ingresso no tráfico de drogas, as entrevistadas sugerem que o poder é, em geral, uma propriedade masculina. Vanessa e Denise são diferentes justamente porque tiveram a coragem e a audácia de se embrenharem por um terreno primordialmente masculino. É neste sentido que o poder de Vanessa é ainda mais ampliado quando reconhecido pelos homens. Ela gostava de ser reconhecida pelos "meninos" como uma mulher corajosa, pronta a entrar com eles em combates e missões perigosas. Por sua vez, Denise tinha o desejo de ser respeitada como os homens criminosos com os quais ela costumava se envolver romanticamente.

Os casos acima discutidos ilustram a tentativa das participantes de posicionarem-se como agentes, negando qualquer influência externa nas suas próprias escolhas. De uma forma geral, elas posicionam-se como imunes aos fatores externos que usualmente são apresentados como motivadores de carreiras criminosas, tais como a privação econômica, a desestruturação familiar e a rede social em que o sujeito encontra-se inserido. Apropriando-se de discursos que enfatizam o livre arbítrio e a importância das escolhas pessoais, essas mulheres posicionam-se como protagonistas de suas histórias e recusam qualquer justificativa que as relegue à posição de vítimas passivas de uma realidade mais ampla.

No entanto, conforme evidenciado acima, as entrevistadas claramente reconhecem o impacto da realidade social e econômica circundante na vida e nas escolhas individuais. Embora seja intrigante o fato desse impacto não ser abertamente assumido quando elas tratam de suas próprias trajetórias, o reconhecimento dos efeitos limitantes de elementos externos está certamente presente quando as participantes avaliam as trajetórias criminosas alheias. Tal fato torna ainda mais relevante o empenho das participantes em retoricamente posicionarem-se como agentes, minimizando os reconhecidos efeitos da opressão e do preconceito em suas próprias vidas.

Em contraste com os casos acima discutidos, algumas participantes posicionam-se abertamente como vítimas. Reconhecendo as desigualdades sociais e as estruturas de poder que determinam as escolhas feitas por populações marginalizadas, es sas mulheres enfatizam a subordinação principalmente a homens criminosos como o motivador das suas vidas no crime. Desta forma, a participação destas mulheres no tráfico de drogas, em vez de motivada por uma escolha pessoal, é descrita como o resultado da influência de homens envolvidos na atividade. Como "mulheres de bandido", elas não tiveram outra opção senão servirem de cúmplices nos crimes cometidos por seus parceiros. Se por um lado o caráter involuntário desta participação é amplamente descrito na literatura4,9, é interessante notar o uso retórico que as participantes fazem desta posição. Como vítimas de uma situação para além do seu controle, estas mulheres não devem ser responsabilizadas pelo caminho que seguiram no passado. Ao contrário do protagonismo, do desejo pessoal e da intencionalidade tão claramente professados, aqui as mulheres são descritas como passivas diante do risco de estarem envolvidas com um parceiro criminoso.

Curiosamente, nos casos em que as mulheres posicionam-se como vítimas, o protagonismo é reconhecido como propriedade de outras mulheres que, voluntariamente, decidem se envolver com bandidos. Esse reconhecimento vem, em geral, acompanhado de um julgamento acerca do caráter destas mulheres. Portanto, é legítimo e justificável o caso de mulheres que se envolvem com o tráfico de drogas em virtude de suas relações amorosas, mas altamente condenável o caso daquelas que decidem por conta própria ingressarem no crime. O protagonismo aqui é identificado como uma característica negativa, diretamente equacionada com o desejo ilegítimo e reprovável que certas mulheres têm de se sentirem poderosas. O poder, mais uma vez, é identificado como uma propriedade masculina. Nestes casos, no entanto, as mulheres não devem almejar o poder, que deve ser exclusivamente exercido por homens.

Sandra tem quarenta e um anos e seu envolvimento no tráfico, segundo ela, é resultado do seu relacionamento com o marido e o filho envolvidos na atividade. Por causa destas relações, Sandra costumava esconder drogas e armas em casa, além de dirigir em assaltos planejados por seu marido. Diante do seu óbvio envolvimento em atividades criminosas, ela enfatiza a sua inocência diversas vezes no curso de suas entrevistas: [eu] não tinha paz, não tinha paz, parecia que eu fiz um pacto com o capeta, mas eu não fiz. Eu não sabia, eu era inocente.

Ao contrário de outras mulheres que ela descreve, Sandra desconhecia as atividades criminosas do seu marido quando casou com ele, aos treze anos de idade. Por este motivo, ela não se considera uma típica "mulher de bandido", aquela mulher que segundo ela decide deliberadamente se envolver com criminosos, em busca do status e do reconhecimento advindos desta posição. Sandra é uma vítima inocente. Como aqueles que encontram no tráfico de drogas a única opção econômica disponível, ela também não teve escolha senão servir de cúmplice nos crimes do seu marido e filho.

Ao se referir às namoradas do seu filho (morto pela polícia durante um assalto, aos dezenove anos), Sandra deixa clara a distinção que faz entre ela e àquelas mulheres que intencionalmente se envolvem com bandidos. É assim que ela se refere às "viúvas" do seu filho: ele deixou nove putas, nove viúvas, cinco grávidas.

Sandra faz um julgamento bastante rígido das mulheres que se envolvem com bandidos por escolha. Em sua opinião, seu filho tinha nove namoradas simplesmente porque era bandido; nenhuma das namoradas teria se envolvido com ele caso ele estivesse trabalhando em uma atividade regular. O termo que ela usa para se referir a estas mulheres (putas) evidencia o julgamento que Sandra faz delas. Interessante notar que o termo diz respeito ao comportamento sexual destas mulheres. Em contraste, Sandra em nenhum momento problematiza o fato do seu filho ter tido nove namoradas; o possível comportamento promíscuo do seu filho não é alvo de seu julgamento.

Nos casos acima discutidos, as participantes posicionam-se ambas como protagonistas de histórias e vítimas de uma realidade social ou pessoal fora de seu controle. Na maioria dos casos, os dois discursos aparentemente contraditórios são apropriados por uma mesma participante.

A insistência das participantes em posicionarem-se como agentes é, de alguma forma, surpreendente se pensarmos nos comportamentos criminosos sobre os quais elas assumem responsabilidade. Como a agressão e a violência explícita não fazem parte dos discursos culturalmente associados às mulheres, os relatos em que as participantes posicionam-se desta forma parecem cair sobre a rubrica de contra-discursos. Produzidos às margens, como uma reação a discursos hegemônicos, os contra-discursos capturam a complexidade que caracteriza as experiências pessoais10.

Conforme ilustrado pelos dados aqui analisados, a decisão de entrar para o tráfico de drogas é justificada pelas participantes primordialmente de duas formas: como motivada pela falta real ou percebida de opções ou determinada por uma escolha deliberada. Ao adotar determinadas estratégias, é interessante notar a forma com que as entrevistadas reproduzem os discursos freqüentemente usados para descrever os favelados. Souza e Silva e Barbosa11 argumentam que a classe média, por exemplo, percebe os favelados como potenciais criminosos ou como vítimas passivas que precisam ser resgatados por iniciativas filantrópicas. Os autores apontam para o caráter discriminatório destas duas imagens. Ao definirem os favelados como um problema social a ser tratado pelo Estado, essas representações justificam as constantes (e violentas) intervenções nas favelas.

 

A vitimização e o protagonismo possível

As contradições reconhecidas no discurso das participantes, que ora posicionam-se como agentes, ora como vítimas inocentes, apontam para a complexidade do fenômeno da criminalidade feminina. Obviamente, não se trata de desvendar a verdade por trás dos motivos professados por estas mulheres, mas entender que protagonismo e vitimização estão simultaneamente presentes nas suas experiências. Mais do que simples estratégia retórica adotada no processo de construção de suas identidades, vitimização e protagonismo parecem ser de fato percebidos pelas participantes ao descreverem as suas trajetórias.

Ao teorizar acerca das suas experiências, entendemos a necessidade de perceber estas mulheres como agentes em suas decisões, principalmente na tentativa de rever teorias deterministas acerca da criminalidade feminina. De acordo com essas teorias, os crimes femininos podem ser inteiramente justificados pelo envolvimento de mulheres com homens criminosos ou pela necessidade destas mulheres de proteger e sustentar suas famílias. Em contraste com o protagonismo tão insistentemente clamado pelas entrevistadas, estas teorias focam-se exclusivamente nos elementos externos que determinam as escolhas femininas, principalmente quando tais escolhas subvertem as expectativas acerca dos papéis femininos na sociedade.

De certa forma, reconhecer o protagonismo feminino é conceber que jovens pobres compartilhando contextos sociais e econômicos similares fazem diferentes escolhas em relação ao futuro12,13. Em outras palavras, a pobreza e a percebida falta de perspectivas não conduzem necessariamente jovens à criminalidade. Além disso, posicionar as mulheres criminosas como agentes abre a possibilidade de entendermos os diversos contextos em que mulheres figuram como perpetradoras de violência, subvertendo teorias e discursos acerca das relações entre gênero e poder.

No entanto, um olhar macro nos ensina que o entendimento do fenômeno do tráfico de drogas não poder prescindir de uma análise das questões mais amplas que limitam o protagonismo individual. Como o tráfico de drogas como atividade organizada localiza-se principalmente nas favelas do Rio de Janeiro, a análise não pode ignorar o contexto econômico que faz das favelas um terreno fértil para a proliferação da atividade. Da mesma forma, o fato da atividade ser realizada primordialmente por homens negros14 faz com que uma análise de raça e gênero seja imprescindível para a compreensão do fenômeno. Uma análise de gênero parece ainda essencial se considerarmos os papéis subordinados comumente desempenhados por mulheres no tráfico de drogas. Assim como as crianças, as mulheres costumam ser usadas para o desempenho de tarefas consideradas menos prestigiosas ou mais arriscadas.

Portanto, o protagonismo é obviamente exercido dentro dos limites impostos por uma realidade social, econômica, cultural e familiar mais ampla. É também nesse sentido que devemos entender a ambigüidade presente no discurso das participantes. Por um lado, entendemos a insistência delas em posicionarem-se como agentes, especialmente se levarmos em consideração a invisibilidade e vitimização que tradicionalmente marcam a trajetória dos favelados15,16. Por outro lado, o protagonismo é sempre experienciado dentro dos mesmos limites que determinam essa invisibilidade e marginalização dos favelados. Desta forma, protagonismo e vitimização devem ser pensados como caminhos possíveis dentro da realidade das participantes, caminhos que enfatizam a força de ambos suas histórias pessoais e seu contexto circundante.

 

Referências

1. Harré R, Van Langenhove L. Positioning theory: Moral contexts on intentional action. Oxford: Blackwell; 1999.         [ Links ]

2. Glenn EN. Social constructions of mothering: An overview. In: Nakano Glenn E, Chang G, Forcey LR, editors. Mothering: Ideology, experience and agency. London: Routledge; 1994. p. 1-29.         [ Links ]

3. Soares B, Ilgenfritz I. Prisioneiras: vida e violência atrás das grades. Rio de Janeiro: Garamond; 2002.         [ Links ]

4. Gilfus M. From victims to survivors to offenders: Women's routes of entry and immersion into street crime. In: Alarid LF, Cromwell P, editors. In her own words: Women offenders' views on crime and victimization. Los Angeles: Roxbury Publishing Company; 1992. p. 5-14.         [ Links ]

5. Morrissey B. When women kill: Questions of agency and subjectivity. London: Routledge; 2003.         [ Links ]

6. Goodstein L. Women, crime, and criminal justice: An overview. In: Renzetti CM, Goodstein L, editors. Women, crime, and criminal justice: Original feminist readings. Los Angeles: Roxbury Publishing Company; 2001. p.111-132.         [ Links ]

7. Steffensmeier D, Allan E. Gender and crime: Toward a gendered theory of female offending. Annual Review of Sociology 1996; 22:459-487.         [ Links ]

8. Wetherell, M. Positioning and interpretative repertoires: Conversation Analysis and post-structuralism in dialogue. Discourse & Society 1998; 9(3):387-412.         [ Links ]

9. Zaluar A. Women of gangsters: Chronicle of a less-than-musical city. Estudos Feministas 1993; 1(1):135-142.         [ Links ]

10. Harris A, Carney S, Fine M. Counter work: Introduction to 'Under the covers: Theorising the politics of counter stories.' The International Journal of Critical Psychology 2001; 4:6-18.         [ Links ]

11. Souza e Silva J, Barbosa JL. Favela: alegria e dor na cidade. Rio de Janeiro: Senac; 2005.         [ Links ]

12. Assis SG. Traçando caminhos numa sociedade violenta: a vida de jovens infratores e seus irmãos não infratores. Rio de Janeiro: Fiocruz; 1999.         [ Links ]

13. Souza e Silva J. Por que uns e não outros? Caminhada de jovens pobres para a universidade. Rio de Janeiro: 7 Letras; 2003.         [ Links ]

14. Cecchetto F. Violência e estilos de masculinidade. Rio de Janeiro: FGV; 2004.         [ Links ]

15. Cruz Neto O, Moreira MR, Sucena LF. Nem soldados nem inocentes: juventude e tráfico de drogas no Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Fiocruz; 2001.         [ Links ]

16. Dowdney L. Crianças no tráfico: um estudo de caso de crianças em violência armada organizada no Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: 7 Letras; 2003.         [ Links ]

 

 

Artigo apresentado em 06/05/2007
Aprovado em 16/10/2007

Creative Commons License All the contents of this journal, except where otherwise noted, is licensed under a Creative Commons Attribution License