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Ciência & Saúde Coletiva

versão impressa ISSN 1413-8123versão On-line ISSN 1678-4561

Ciênc. saúde coletiva v.14 n.2 Rio de Janeiro mar./abr. 2009

http://dx.doi.org/10.1590/S1413-81232009000200037 

RESENHAS BOOK REVIEW

 

Silvana Vilodre Goellner

Departamento de Desportos, Escola Superior de Educação Física, Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

 

 

Fraga AB. Exercício da informação: governo dos corpos no mercado da vida ativa. Campinas: Autores Associados; 2006. 185 p.

Sedentarismo, obesidade, doenças crônico-degenerativas, hipertensão... Quando pronunciadas, essas palavras não se referem apenas a disfunções corporais inatas ou adquiridas, mas nelas inscrevem-se outros sentidos: descuido, displicência, irresponsabilidade, negligência... A negatividade que as reveste indica, ainda, que o portador de tais "deformidades" não cuidou suficientemente de sua saúde, apesar das inúmeras informações que são disponibilizadas através de diferentes instâncias sociais, tais como consultórios médicos, laboratórios, clínicas, academias, revistas especializadas, reportagens jornalísticas, sites, programas de televisão, enfim, uma série de locais que investem no "discurso da vida ativa" - remédio a sanar vários dos males que afligem a sociedade contemporânea.

Este livro problematiza questões como estas ao privilegiar como objeto de análise o programa de promoção de atividades físicas intitulado "Agita São Paulo", lançado oficialmente pelo governo de São Paulo no ano de 1996 , adotado pelo Ministério da Saúde sob a denominação de "Programa Nacional de Promoção de Atividade Física Agita Brasil" em 2001 e tomado pela OMS como programa referência nos eventos comemorativos ao Dia Mundial da Saúde de 2002–Move for health.

Alex Fraga faz uma discussão que parte da especificidade da intervenção do "Agita São Paulo", localizando-o numa rede discursiva que objetiva divulgar uma série de estratégias direcionadas para a construção de um estilo de vida ativo e saudável. Um elemento fundamental dessa estratégia é persuadir os sujeitos de que a realização de trinta minutos diários de atividades físicas moderadas "faz a diferença". Baseado nas recomendações do Center for Disease Control e Prevention e pelo American College of Sports Medicine, o programa adota essa idéia como o seu slogan e pauta sua intervenção na propagação da importância da atividade física moderada para a aquisição de uma vida saudável.

Ao percorrer os meandros da criação e consolidação do "Agita São Paulo", o autor estabelece linhas de conexões com programas similares desenvolvidos em diferentes países, buscando compreender a emergência do discurso da vida ativa no cenário da promoção da saúde contemporânea. Dito de outra forma: analisa como a promoção de atividades físicas integra diferentes estratégias de governo dos corpos, possibilitando estruturar-se no seu entorno uma rede de disseminação de informações que toma a vida ativa como um objeto de valor pleno na educação dos corpos, na regulação da saúde e no governo se si.

Recorre à genealogia foucaultiana para analisar como se dá a construção do que denomina "maquinaria do agito" e as formulações de Deleuze sobre a sociedade de controle para compreender como, hoje, os corpos estão sujeitos a uma rede de técnicas, procedimentos e saberes que regulam os estilos de vida. Analisa como a vigilância sobre os corpos opera não mais apenas centrada nas clássicas instituições de confinamento (prisões, escolas, hospitais etc.), mas também, e fortemente, através das redes de poder que monitoram os corpos através da regulação dos fluxos e dos acessos à informação. Evitando binarismos tais como vida ativa x sedentarismo e saúde x doença, desenvolve uma instigante reflexão, desvelando como determinados discursos que ligam saúde e atividade física se solidificaram na atualidade de forma a se tornarem inquestionáveis .

O livro divide-se em quatro capítulos: "Linhas de conexão", "Biopolítica informacional", "Maquinaria do agito" e "Palimpsesto". No primeiro deles, o autor explicita o locus da investigação, as fontes de pesquisa, os referenciais teórico-metodológicos, a trama, enfim, dá a ver ao leitor (a) o seu percurso, a sua história e a forma como opera com os conceitos para analisar os dados capturados no site do "Agita São Paulo" e em outras fontes, tais como relatórios científicos, artigos acadêmicos, decretos, manifestos, informes de publicidade, matérias jornalísticas e uma sorte de documentos disponíveis on line, cujos conteúdos circulam em tono do mercado da vida ativa.

Em "Biopolítica informacional" e "Maquinaria do agito", discute questões cruciais para a compreensão da homogeneidade do discurso da vida ativa como fundamental para a saúde e vida dos sujeitos. Evidencia, sobretudo, que vários dos programas direcionados para a promoção da saúde por meio do incentivo à prática de atividades físicas, mais do que se preocuparem, efetivamente, com a quantidade e qualidade do que é feito, centram a atenção nas estratégias de endereçamento. Ou seja, na consolidação de minuciosas táticas de persuasão que capturam os indivíduos, assujeitando-os.

Nessa perspectiva, a repetição do mesmo é estratégia imperante. Apregoar os benefícios da vida saudável e ativa na sociedade de consumo significa vender não apenas produtos e serviço, mas, fundamentalmente, a idéia, o estilo, o imaginário. Significa, sobretudo, valorizar o sujeito que se movimenta e, simultaneamente, demonizar o sedentário.

Afinal, quando a saúde torna-se um capital, o sedentarismo custa caro aos cofres públicos, aos planos de saúde, as seguradoras e aos indivíduos, dado o valor moral que se atribui a quem pena deste "mal". Para minimizar tais perdas, é necessário aderir à nova ordem, qual seja, a da vida saudável e ativa e, nesse contexto, os programas de promoção de saúde serão aqueles que de, forma ilimitada, desenvolvem o "exercício da informação".

Além de combater os males econômicos-sanitários e trazer benefícios físicos e psicológicos, às atividades físicas são atribuídos outros atributos: colabora para minimizar ou evitar o consumo de álcool, drogas, fumo, regular a alimentação e as práticas sexuais, diminuir a violência, a evasão escolar, os problemas familiares... Enfim, um sem-número de vantagens que, ao serem incessantemente veiculadas pelos recursos midiáticos e informacionais, fazem do sujeito um regulador/administrador de seu próprio bem-estar. Ou seja, o Estado não é mais o único responsável por prover muitas das condições que asseguram a sua "qualidade de vida". Esta se revela como uma conquista adquirida individualmente frente à adesão a diferentes prescrições, comparações, medições, dentre elas o acúmulo, ao longo do dia, de trinta minutos de realização de atividades físicas moderadas que podem ser feitas de uma vez só ou fracionadas em três períodos de dez minutos. Diante de tamanha responsabilidade, cabe ao indivíduo gerenciar a sua saúde através da matematização do consumo e do gasto energético. Aqui já não importa a qualidade do que faz, mas o quanto faz ou deixa de fazer pois, como recomenda o "Agita São Paulo", movimentar-se pode ser "subir ou descer escadas, caminhar, fazer alongamentos na fila do supermercado, descer do ônibus dois pontos antes e percorrer o trajeto a pé, jardinar, varrer a casa, etc.". Importa, enfim, disseminar a idéia, em especial, se ela estiver ancorada no saber biomédico.

Essa reflexão permite entender muitas das razões pelas quais o "Agita São Paulo" conquistou reconhecimento em vários países cujos desdobramentos fazem-se sentir em diferentes tempos e lugares. No terceiro capítulo do livro, Alex Fraga o esmiúça a partir de três eixos temáticos: "Sem fronteiras para agitar", "Trinta minutos fazem a diferença" e "Sedentarismo tem remédio". Nestes, esquadrinha, detalhadamente, os discursos, as estratégias de marketing, os recursos imagéticos, os apelos publicitários, as práticas científicas, enfim, as teias de relações que criaram possibilidades para o "Agita São Paulo" tornar-se o que, efetivamente, se tornou. Suas reflexões são bastante instigantes, sobretudo quando afirma que muitos dos programas de incentivo à adoção de estilos de vida ativos, dentre eles, o próprio "Agita", não dependem da prática física para viabilizarem seus propósitos, mas da capacidade de mobilização, da habilidade persuasiva e da versatilidade midiática para fazer com que suas recomendações circulem, de preferência com destaque, dentro do mercado da vida ativa. Para programas como estes, escreve o autor, "mais do que simplesmente pôr o corpo em movimento, é fundamental pôr a mensagem para "correr", disseminar seu palavreado, fazer penetrar a crença físico-sanitária no imaginário social contemporâneo".

Enfim, o livro permite pensar o quanto as atuais representações de saúde, beleza, vida ativa, bem-estar, qualidade de vida são construções discursivas plenas de significados edificantes, cuja disseminação provoca efeitos de realidade. Interpelam os sujeitos, produzem seus desejos, criam necessidades, vigiam seus hábitos, governam seus corpos. Inscritos no que poderíamos afirmar ser uma "pedagogia do corpo", tais discursos inscrevem-se na nossa carne a partir de diferentes práticas, muitas delas tão sutis que sequer percebemos a força de suas marcas, os vestígios do seu poder, os emaranhados de sua vontade. Ao tratar a saúde como uma parte integrante e definidora da promessa da vida ativa (e vice-versa), as palavras de Alex Fraga desacomodam pois, de maneira explícita e densa desconstroem uma rede discursiva na qual estamos absolutamente mergulhados, uma rede cuja capilaridade nos atravessa cotidianamente, conferindo-nos a ilusão de que somos o que desejamos ser e que nossa aparência é fruto de nossas escolhas. Ilusão porque tais liberdades não passam de formas transmutadas de vigilância pois, como bem sintetiza o autor "hoje, talvez mais do que em qualquer outra época, estamos cada vez mais atados a nossa própria liberdade de escolha". São afirmações desta ordem que atestam a relevância desse livro pois, em última instância, faz ver que "saúde" está muito além daquilo que comumente circula nas diferentes instâncias culturais com as quais nos deparamos cotidianamente.

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