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Ciência & Saúde Coletiva

Print version ISSN 1413-8123On-line version ISSN 1678-4561

Ciênc. saúde coletiva vol.14 no.4 Rio de Janeiro July/Aug. 2009

http://dx.doi.org/10.1590/S1413-81232009000400016 

ARTIGO ARTICLE

 

Iniciação sexual masculina: conversas íntimas para fóruns privados

 

Male sexual initiation: personal conversations for private forums

 

 

Elaine Ferreira do NascimentoI; Romeu GomesII

IDepartamento de Ensino, Instituto Fernandes Figueira, Fundação Oswaldo Cruz. Av. Rui Barbosa 716, Flamengo. 22250-020 Rio de Janeiro RJ. E-mail: elaine@iff.fiocruz.br
IIDepartamento de Ensino, Instituto Fernandes Figueira, Fundação Oswaldo Cruz

 

 


RESUMO

O trabalho tem como objetivo analisar a iniciação sexual masculina, identificando os sentidos a ela atribuídos por jovens de classe popular. O referencial teórico-conceitual foi o de que a sexualidade reflete relações mais amplas, envolvendo sujeito e sociedade. O desenho metodológico se caracteriza por um estudo de caso sob a perspectiva das ciências sociais, ancorada numa abordagem hermenêutica-dialética, envolvendo dezenove jovens do sexo masculino, na faixa etária de 15 a 17 anos. Nas conversas estabelecidas pelos jovens, observa-se que, de um lado, valorizam-se determinadas fontes de informações em detrimento de outras e, de outro, há uma oscilação entre permissão e interdição dos assuntos relacionados à sexualidade em geral e à iniciação sexual em específico. Ainda nessas conversas, a masturbação desponta como um espaço privilegiado da iniciação sexual masculina. Em termos de sentidos atribuídos à iniciação sexual, os jovens a associam a algo complicado, prazeroso, afetuoso e espaço de aprendizagem. Os achados do estudo apontam que investimentos precisam ser empreendidos no campo da saúde coletiva para o desenvolvimento de tecnologias de acolhimento das demandas sexuais juvenis masculinas, deslocandose de fóruns privados acerca da iniciação sexual para uma atenção integral à saúde de homens jovens.

Palavras-chave: Iniciação sexual, Masculinidade, Juventude


ABSTRACT

This paper aims to analyze the male sexual initiation, identifying the way low income youth understand it. The theoretical and conceptual references were those in which sexuality reflects wider relations that involve the person itself and society. The methodological plan features a case study under the social sciences perspectives, supported by a hermeneutic and dialectical approach. It involves 19 male youngsters aged 15 to17. During young men’s conversations, it is observed that certain sources of information are valued in preference to others, on the one hand there is a range between to permit and to forbid subjects usually related to sexuality and particularly to sexual initiation. Youngsters associate it with something complicated, pleasure-giving, affective and consider it a learning environment. Study discoveries indicate the investments needed to supply the public health field in order to develop technologies to provide the young men sexual demands, changing them from private forums to sexual initiation to an integral health care to young men.

Key words: Sexual initiation, Masculinity, Youth


 

 

Introdução

Através deste artigo, objetivamos analisar a iniciação sexual masculina, identificando os sentidos a ela atribuídos por jovens de classe popular. A iniciação sexual e sexualidade de jovens em geral vêm sendo investigadas a partir de um recorte de gênero por inúmeros autores, a exemplo de Borges e Schor1,2, Feliciano3, Heilborn4, Leal e Knaut5, Melo e Santana6 e Rieth7. Apesar dessa considerável produção, na literatura específica acerca da sexualidade masculina, considera-se que ainda há pouca informação sobre o pensamento de homens jovens acerca da sua sexualidade8,9. Nesse sentido, a partir da articulação entre a escuta de jovens homens e a literatura específica, pretendemos contribuir para o avanço dessa produção.

Ao pensarmos a iniciação sexual masculina, não podemos desconsiderar que as suas questões se inserem num campo mais amplo que é a sexualidade, esta entendida numa perspectiva sócio-histórica10. A sexualidade é uma das dimensões do ser humano que envolve uma complexidade que perpassa gênero, identidade sexual, orientação/preferência sexual, erotismo, envolvimento emocional, fantasias, desejos, crenças, valores, atitudes11.

A visão foucaultiana12 pode nos ajudar a ter uma compreensão mais ampla da sexualidade, uma vez que tal perspectiva teórico-conceitual procurou se afastar da visão do sexo exclusivamente baseado nas energias biológicas, deslocando-se para a produção discursiva sexual como uma construção rigorosamente sócio-histórica13. A partir dessa concepção, o sexo passa a ser visto muito mais como uma norma cultural que governa a materialização dos corpos do que como um dado corporal sobre o qual se impõe artificialmente a construção de gênero14.

Assim como em relação à sexualidade em geral, somos partidários do posicionamento de que a iniciação sexual reflete relações mais amplas, envolvendo sujeito e sociedade. Caminhando nessa direção, situamos a iniciação sexual como reflexo de roteiros sexuais mais amplos, que são culturalmente construídos, configurando-se a partir de elementos simbólicos e não verbais numa sequência de condutas organizada e delimitada no tempo [...] Esses roteiros fornecem o nome dos atores, descrevem suas qualidades, indicam motivos do comportamento dos participantes e estabelecem a sequência de atividades apropriadas, verbais e não-verbais, que devem ocorrer para que o comportamento se conclua com êxito e para permitir a transição para novas atividades15.

Seguindo esta linha de raciocínio, uma outra abordagem que pode ser associada à de roteiro sexual é a proposta do sociólogo Bozon, que aborda o conceito de scripts sexuais, entendido como experiências sexuais que “foram apreendidas, codificadas e inscritas na consciência, estruturadas e elaboradas como relatos”10. Os scripts culturais têm uma função estruturante para o imaginário sexual de grupos, para os relacionamentos e para os indivíduos. O principal efeito da estruturação dos scripts é inscrever a sexualidade em uma dramaturgia.

Comumente, dentro desses roteiros, a iniciação sexual é vista como uma pertença da juventude, aqui entendida como uma categoria social ou criação simbólica relacionada a espaços de aprendizagem em que se atribui uma série de comportamentos e atitudes relacionados à etapa demarcada entre infância e ser adulto16. Nesse sentido, a iniciação sexual masculina pode ser considerada como um ritual de passagem, conferindo ao jovem o status de ser homem, posição de destaque dentro do grupo de pares e a possibilidade de se tornar parceiro sexual para o grupo feminino.

Na juventude, a sexualidade se configura como uma importante questão social, relacionando-se, dependendo da sociedade, a controle, interdições e período em que a identidade sexual se afirma. Nesse sentido, dependendo do grupo social, de um lado, se administra a forma como o jovem exerce a sua sexualidade e, de outro, há uma preocupação, principalmente em relação aos jovens do sexo masculino, em observar se os comportamentos expressos se enquadram num padrão de identidade sexual prescrito pelo modelo hegemônico de gênero.

Consideramos que a articulação entre juventude e iniciação sexual se constitui em um desafio constante, principalmente no recorte de gênero, onde o processo de socialização de moças e rapazes costuma ser distintos15. Outro elemento que pode constituir um desafio é a conciliação entre discursos e práticas. No imaginário social, de um lado os pais costumam expressar as expectativas de que os jovens devem se iniciar sexualmente para afirmarem a sua masculinidade/virilidade e, de outro, culturalmente há o campo da interdição que faz com que esses pais não demonstrem na prática como ocorre a relação sexual, delegando a outrem esse ensinamento (jovens mais experientes, profissionais do sexo, mulheres mais velhas, etc.).

Acrescido a este fato, observamos que a iniciação sexual se insere na instância do exercício da sexualidade no campo da intimidade17 ou privacidade, espaço este comumente e reconhecidamente refe­renciado como recintos que devem preservar segre­dos, aspectos que caracterizam o fórum privado.

Nesse sentido, a intimidade ou a privacidade pode caracterizar aspectos que remetem a significados contraditórios na esfera do controle, uma vez que nada do que se passa nesse fórum – em termos de sexualidade – deve ser revelado, pois possivelmente viria a comprometer uma dada imagem que se busca preservar. Mesmo quando o cenário é apresentado pelos jovens, estes contam e recontam a partir de algo que foi submetido a um processo de publicização, ou seja, conta-se aquilo que o outro gostaria de ouvir, ou aquilo que pode ser dito, ou ainda um roteiro que se espera que um jovem conte ou possua em termos de experiência.

Com base nessa perspectiva, assinalamos que a importância deste estudo está na possibilidade de investigar e apreender a maneira como os jovens do sexo masculino simbolizam a sua iniciação sexual, a partir da socialização das informações que vivenciou e dos sentidos atribuídos aos modelos de sexualidade masculina culturalmente construídos. Esse investimento investigativo pode trazer ganhos para ações em saúde centradas no acolhimento das demandas sexuais juvenis masculinas.

 

Material e método

Nosso estudo é parte de uma investigação que procurou problematizar aspectos relacionados ao fenômeno da sexualidade masculina juvenil, buscando aqui estabelecer um diálogo das representações acerca das experiências da sexualidade masculina juvenil, ancorada no modelo hegemônico de masculinidade. Essa investigação pautou-se numa abordagem de pesquisa qualitativa, aqui entendida como um conjunto de práticas interpretativas que busca investigar os sentidos que os sujeitos atribuem aos fenômenos e ao conjunto de relações em que eles se inserem18. Nessa abordagem, baseados em princípios da hermenêutica-dialética19, procuramos compreender e contextualizar os sentidos subjacentes às falas dos sujeitos investigados.

O desenho metodológico se caracterizou por um estudo de caso sob a perspectiva das ciências sociais. Em ciências sociais, o caso costuma ser “uma organização, uma prática social ou uma comunidade, geralmente estudada a partir de observação participante e entrevistas”18. Dentro dessa abordagem, o estudo de caso tem duplo papel: compreensão abrangente da singularidade do caso e reflexão mais geral sobre regularidades do processo e estruturas sociais, nas quais se situa o caso18, 20.

O caso estudado foi um grupo de jovens matriculados no curso de capacitação de jovens para o mercado de trabalho, promovido pela organização não governamental Rede de Capacitação e Qualificação RECOFIAT. Essa fundação tem por objetivo preparar jovens, moradores da cidade do Rio de Janeiro e em situação de vulnerabilidade social, para o mercado de trabalho na área de mecânica de automóveis.

O curso é desenvolvido em parceria com a Rede de Concessionária FIAT. A RECOFIAT atua na comunidade do Caju (Rio de Janeiro) há mais de dez anos, com capacitação (na área de mecânica de automóveis) e colocação no mercado de trabalho de jovens de comunidades de baixa renda. Além de oferecer o curso de profissionalização, também oferece módulos de português, matemática, geografia, história, ciências, línguas estrangeiras e de cidadania. Os jovens após o curso básico fazem estágios de seis meses na empresa parceira e são encaminhados para entrevistas de seleção de emprego, nesta ou em outras empresas parceiras da ONG. O curso tem duração de dois anos e um índice de aproveitamento em torno de 80%.

Os critérios que compõe o perfil para ingressar neste curso de capacitação para o mercado de trabalho são: os jovens devem estar devidamente matriculados na rede de ensino, cursando pelo menos a 7ª série do segundo segmento do ensino fundamental, ter entre 15 e 16 anos, ser moradores de comunidades de baixa renda (possíveis jovens em situação de vulnerabilidade social) e passar num processo de seleção pública simplificado, prova básica de português, matemática e entrevista.

A instituição RECOFIAT foi escolhida por reunir as qualidades de campo necessárias para um estudo de caso, ou seja, oferecer um curso de capaci­tação e inserção ao mercado de trabalho para jovens na área automobilística, setor considerado predominantemente masculino e, por essa característica, concentra em torno de 95% de homens jovens que permanecem juntos numa jornada de 44 horas semanais, podendo ser considerado, na linguagem de Welzer-Lang21, como uma “casa dos homens”.

A amostra de conveniência (que não teve como proposta uma representatividade numérica, mas sim um aprofundamento da temática19) foi composta a partir dos seguintes princípios: (a) escolha dos sujeitos que detinham atributos relacionados ao que se pretende estudar (no caso deste trabalho, rapazes a partir de 15 anos, matriculados na RECOFIAT); (b) entrevista de sujeitos em número suficiente para que possa ter uma certa reincidência das informações; (c) a possibilidade de inclusões sucessivas de sujeitos até que seja possível uma discussão densa das questões da pesquisa.

Os jovens entrevistados compuseram um grupo de dezenove rapazes com idades entre 15 e 17 anos, sendo que a maioria (15) tem dezesseis anos, dois têm 15 e outros dois, 17 anos. Seus integrantes se declararam, em sua maioria, pretos (12). Os demais se declararam pardos (4) e brancos (3). Dezessete deles cursam a oitava série do segundo segmento do ensino fundamental e dois estão na sexta série, no mesmo nível. Praticamente a metade (9) encontra-se comprometida com o namoro e dez não estão namorando no momento, sendo que um deles informa nunca ter tido uma namorada. Em termos de iniciação sexual, na época em que o trabalho de campo se realizou, dez entrevistados declararam ter tido relação sexual com moças, enquanto nove deles relataram não ter tido tal experiência. Dos que já tinham se iniciado sexualmente, um deles o fez com uma profissional do sexo e os outros tiveram a sua iniciação sexual com moças que eram de sua faixa etária.

A coleta dos dados se apoiou em entrevistas semi-estruturadas, realizadas na instituição em que os mesmos encontram-se matriculados para o curso de qualificação para o mercado de trabalho. Nesse tipo de coleta, procuramos estabelecer uma conversa dirigida com os entrevistados em torno de temas que integravam o objeto da pesquisa. No caso deste recorte da pesquisa, focalizamos questões relacionadas sobre ser homem, ser homem e jovem e experiências sexuais.

Em termos de procedimento analítico adotado no trato dos depoimentos, neste estudo, utilizamos o método de interpretação de sentidos22, com base em princípios hermenêuticos-dialéticos para a interpretação do contexto, das razões e das lógicas dos depoimentos que giraram em torno das temáticas do estudo.

Na trajetória analítico-interpretativa, percorremos os seguintes passos: (a) leitura compreensiva, visando à impregnação, visão de conjunto e apreen­são das particularidades do material gerado pela pesquisa original; (b) identificação e recorte temáti­co dos depoimentos sobre as experiências sexuais; (c) identificação e problematização das idéias explíci­tas e implícitas no texto; (d) busca de sentidos mais amplos (socioculturais) que articulam as falas dos sujeitos da pesquisa, buscando identificar modelos culturais de masculinidade; (e) diálogo entre os sentidos atribuídos problematizados, informações provenientes de outros estudos acerca do assunto e o referencial teórico do estudo; e (f) elaboração de síntese interpretativa, procurando articular objetivo do estudo, base teórica adotada e dados empíricos.

O projeto de pesquisa na qual se insere este trabalho foi avaliado pelo Comitê de Ética em Pesquisa com Seres Humanos do Instituto Fernandes Figueira/Fiocruz, em cumprimento da resolução 196/96 do Conselho Nacional de Saúde. Para garantir o caráter sigiloso das informações, os depoimentos dos entrevistados foram codificados com nomes fictícios.

 

As conversas acerca da sexualidade

Em nossa análise acerca das conversas de jovens que tratam da sexualidade, não podemos desconsiderar a própria conversa (entrevista) que gerou as informações trabalhadas neste artigo. Nesse sentido, estamos entendendo as conversas como aquelas realizadas no passado dos jovens, ainda que recente, e aquelas realizadas no presente com os pesquisadores que recontam esse passado ou, em outras palavras, que atualizam o passado no próprio ato da entrevista.

Antes de tratarmos das conversas propriamente ditas, observamos que devemos considerar que esse tipo de conversa se refere a um tema que, nem sempre, flui, por se tratar de algo que comumente está associado ao âmbito da privacidade e das relações íntimas. Nesse sentido, observamos que alguns jovens narraram ter sentimentos de vergonha e desconforto ao tratarem do assunto, principalmente no caso daqueles que ainda não tinham tido a primeira relação sexual.

Eu tenho vergonha de falar [sobre sexo e sexualidade] sei lá acho que é de ser tímido, ainda mais que não aconteceu ainda, sabe como é, né? (Rogério, 16 anos).

Pô aí, eu sempre tive vergonha de conversar [sobre sexualidade] eu fico assim, não me sinto a vontade (Márcio, 16 anos).

Nem com amigo, nem com pai e nem com minha mãe. Sabe o que, no intimo [...] (Maurício, 16 anos).

Feita essa observação sobre a fala acerca da sexualidade, podemos apresentar os dados do nosso estudo, em pelo menos dois eixos da discussão. O primeiro deles se refere aos pólos interdição-permissão. Já o segundo diz respeito às fontes legitimadas e utilizadas pelos jovens para poder estabelecer as conversas sobre o assunto.

No que tange aos pólos interdição-permissão, observamos que o deslocamento de um para outro é determinado principalmente a partir dos seguintes aspectos: relações hierárquicas entre os sujeitos que participam do diálogo; gênero dos participantes da conversa e faixa etária em que se encontra o interlocutor. Esse deslocamento, por sua vez, pode ser demarcado por uma sutileza ou por um acirramento dos contrates.

A dificuldade de se conversar sobre a iniciação sexual por conta das relações hierárquicas pode ser ilustrada a partir dos seguintes depoimentos:

Em casa a gente tem mais vergonha de falar sobre esse assunto. A gente tem vergonha, os pais ficam sem jeito, é uma confusão só, então ninguém fala sobre isso (Ronaldo, 16 anos).

Eu sempre tive vergonha de conversar com meus pais, mas aprendi tudo em roda de colegas (Márcio, 16 anos).

Junto às diferenças entre os interlocutores por conta da hierarquia entre eles, a questão da diferença de gênero pode se agregar no sentido de dificultar a conversa sobre o assunto, potencializando múltiplas interdições:

Com mãe é mais difícil, primeiro porque é sua mãe e [segundo] é mulher, tá em outra faixa de idade. Uma explicação pontual até vai, mas outras coisas, aí não dá não (Márcio, 16 anos).

Minha mãe! Eu fico meio assim, sem jeito, sem graça, meio constrangido, sei lá, se fosse com homem já seria melhor [pai falecido] (Téo, 15 anos).

Nas relações estabelecidas entre os jovens e os pais, as interdições podem ser flexibilizadas, a ponto de se chegar a um certo grau de permissão, para se falar sobre a questão da prevenção de uma gravidez indesejada/não planejada e, por tabela, a prevenção às DSTs e aids.

Ele [pai] só me fala pra tomar cuidado, sobre esses negócios [não engravidar e não se expor a doenças] (Rodrigo, 16 anos).

É mais conselhos, sobre o que eu devo ou não devo fazer, como devo me comportar, essas coisas (Romário, 16 anos).

Com meu pai, a conversa é sempre direta, pra ter cuidado pra não pegar doenças, pra se prevenir (Robson, 16 anos).

No que se refere à conversa com interlocutores da mesma faixa etária, observamos que para os jovens, a preferência é procurar o grupo de pares (amigos). Esse movimento pode refletir várias motivações para se conversar sobre o assunto. Uma delas é a troca de repertório acerca das experiências, visando um aprender com o outro. Outra pode ser a exibição para o interlocutor de que há uma virilidade, através do contar que tem desejos e/ou experiências sexuais. Por último, observamos que o conversar sobre sexo pode facilitar a interação de sujeitos. Essas múltiplas motivações podem ser exemplificadas com os depoimentos que seguem:

Na roda dos amigos, de repente com a namorada. Às vezes é uma troca e às vezes é mais uma conversa porque eu tenho mais experiência do que eles (Robson, 16 anos).

Converso com os meus amigos, mas [pra] trocar idéia [...] fez ontem e não usei camisinha, aí eu falo cabrunco você é maior maluco. Você se arrisca assim e você não sabe qual é a mulher, então a gente conversa essa parada assim, mais isso. (Ronaldo, 16 anos).

Ao mesmo tempo em que o falar sobre sexo com os amigos ocorre com uma certa fluidez, essa conversa também tem um limite, pois quando o namoro fica mais sério, os jovens podem se afastar no sentido de se preservar e preservar a relação com a namorada.

Um amigo sempre contava maior vantagem, mas quando ele começou a namorar sério ele se afastou da gente, dessas conversas, a gente se encontrava, mas já não falava mais sobre essas coisas [o que se faz quando está com a namorada] (Rogério, 16 anos).

[Fala] que a gente saiu com a menina, que a gente vai sair com ela e que vamos fazer algumas coisas, mas quando a gente sai mesmo, ninguém fala nada (Rogério, 16 anos).

No que se refere às fontes utilizadas pelos jovens para os conteúdos das conversas sobre a sexualidade, destacamos que em termos do foco privilegiado para a circulação das informações acerca da sexualidade, em geral, os jovens apontam a importância da escola. Dentro dessa perspectiva, essa instituição foi apontada como um espaço importante para a reflexão e discussão sobre sexualidade. No entanto, há uma crítica sobre a maneira como este tema é tratado pela instituição, em forma de palestra, ou seja, há um investimento na informação formal, como institucionalização do discurso tido como competente, mas não na troca das experiências, no diálogo entre alunos e professores.

Com professores, só quando eles vão fazer apresentação lá na escola. Tiveram três palestras sobre sexo (Renato, 17 anos).

Passei um ano só estudando isso em ciências, só passava isso (Rodrigo, 16 anos).

Em relação às fontes de informação, de cunho institucional, a exemplo da escola, observamos que tais fontes são atravessadas pelas relações geracionais. Por se configurarem a partir dessas relações, ora nelas se reflete a idéia de que a fonte se reveste de autoridade por falar de algo que ou se tem conhecimento ou se tem experiência acerca do assunto, ora se constituem a partir de conflitos, que são próprios entre as gerações mais velhas e as mais novas.

O depoimento que segue ilustra bem essa imbri­cação entre fonte e geração. Nele, se reconhece o papel da igreja como instituição responsável pela orientação dos jovens, incluindo-se nela a orientação sobre a sexualidade, e a relação entre alguém mais novo que reconhece a importância de alguém de uma geração acima da sua, por ter mais experiên­cia.

Eu acho importante a igreja dar essa direção, esse rumo pra vida da gente. Então o pastor orienta a gente, porque além de pastor, um homem de Deus, ele também é mais velho, então sabe mais das coisas nessa parte, com certeza (Romário, 16 anos).

Na fala de Romário, observamos o reconhecimento do pastor a partir do seu duplo papel como fonte de informação: representante oficial da igreja e representante de uma geração que já possui uma trajetória maior de vida do que ele próprio. Esses papéis articulados configuram uma relação hierárquica que se consolida pela premissa de que, na busca de informações, há, pelo menos, dois status: alguém que fala e alguém que escuta. Essa fala, por sua vez, é valorizada pela escuta na medida em que é reconhecida e valorizada como orientadora.

Ainda em termos das informações, nas falas dos jovens, observamos a repercussão do discurso oficial acerca dos cuidados a serem tomados para se prevenir contra doenças sexualmente transmitidas e da gravidez indesejada.

[A primeira relação] foi com preservativo. Ter prazer, não ter filho, não pegar doença e nem passar pra ninguém. Eu, por exemplo, não faço ao acaso, eu levo a garota no motel ou então é uma casa segura, assim a dela se não tiver ninguém ou a minha, mas é planejado. Claro que se pintar, assim sem querer, eu também vou, porque como eu disse eu gosto da coisa, mas eu não quero arrumar confusão, então eu posso dizer, eu já recusei por causa que eu não tinha camisinha. Cara, por incrível que pareça, nós dois tinha preservativo, ela também não tinha experiência, mais a gente sabia que não queria encrenca, filho, essa parada assim. Nem foi tanto a coisa da doença, se preocupar com o que podia pegar, foi mais a coisa de engravidar, mas de qualquer forma valeu a intenção, ela não ficou grávida e a gente pode seguir com a nossa vida e os nossos planos (Ronaldo, 16 anos).

As informações acerca da sexualidade, em geral, surgiram de uma forma bem articulada com os pólos interdição-permissão. Sobre isso, gostaríamos de ressaltar que os referidos pólos não se confi­guram apenas na direção de uma geração em interditar ou permitir o comportamento sexual de outra geração. Esses pólos podem ocorrer também nas relações entre pares. Em outras palavras, na relação entre os jovens podem, em determinados momentos, surgir interdições e, em outros, há uma permissão para que comportamentos ou, até mesmo, discursos acerca da sexualidade se manifestem.

Por outro lado, no que se refere a fontes de informação, a hierarquização não ocorre apenas a partir das relações intergeracionais. Elas também ocorrem entre os pares, em que um é hierarquicamente valorizado pelo fato de, supostamente, ter mais informações acerca da sexualidade do que o outro par da relação.

Essas relações hierárquicas (entre gerações ou entre saberes) nos faz pensar na relação poder-saber que atravessa o campo da sexualidade. Podemos considerar que os relatos dos jovens caminham tanto no eixo do poder (quando oscilam entre interdição e permissão na construção de seus discursos), como no eixo do saber (quando refletem a necessidade de tornar conhecidos aspectos da sexualidade que eles desconhecem).

No que se refere ao eixo do poder, observamos que esse, ao controlar o prazer cotidiano, demarcar, circunscrever, diferenciar os corpos que controla e os dociliza12, 14, o poder tanto bloqueia quanto incita; daí a constituição do pólo interdição-permissão na conversa dos jovens. Por outro lado, o poder se imbrica com o saber na medida em que a vontade de saber pode lhe servir de suporte e instrumento12. Talvez o saber possa fazer com que se insurja contra o poder, ainda que seja o da norma e não o da lei acerca do que é sexualmente permitido, ou talvez o poder se instaure a partir do que se sabe sobre a sexualidade.

Ampliando a nossa discussão sobre a ambiguidade da fala dos jovens entre interdição e permissão, pensamos que isso talvez ocorra por conta do fato de, na sociedade ocidental, coexistirem as ideologias sexuais tradicionais (restrição de práticas sexuais admitidas) e liberais (legitimação de uma multiplicidade de práticas sexuais)15. Por outro lado, independentemente do predomínio de uma ou outra ideologia, não podemos desconsiderar que os comportamentos sexuais das pessoas seguem roteiros permeados por normas da interação social. No caso da sexualidade, essas normas se traduzem por limites que são impostos às respostas sexuais, fazendo da sexualidade algo mais no campo da negociação do que da impulsividade15. A partir disso, dialeticamente falando, diríamos que os comportamentos sexuais dos jovens são permitidos à medida que se aproximam dessas normas e são interditados quando delas se afastam. Em termos do processo de interdição ou permissão, diríamos também que esses ocorrem não só a partir do âmbito externo. Os próprios indivíduos também internalizam as normas, uma vez que desde cedo as crianças aprendem formas apropriadas de iniciação, controle e dominação no campo da sexualidade15. Nessa internalização, os conflitos podem existir entre os níveis intrapsíquico e social, fazendo com que os limites e as possibilidades sejam subjetivados e traduzidos em normas de interação dos indivíduos.

 

A masturbação como experiência sexual masculina

Nos depoimentos dos jovens, a masturbação revela-se como uma prática bastante comum, sendo vista como parte constitutiva do processo de iniciação sexual. Nessa perspectiva, é considerada por eles como muito importante. Inúmeros sentidos a ela são atribuídos: algo natural, descoberta do prazer no próprio corpo, simulação da presença do feminino, atestado da virilidade e preparo para a relação sexual.

Eu acho natural, acho que todo mundo faz, acho até que é importante, pra aliviar a tensão. Todo mundo faz, é porque é bom, então eu acho que as pessoas fazem e às vezes, se tá estressado, depois acaba assim relaxando. Pra mim, ela é uma carícia com você, com seu corpo, às vezes seu corpo, ele te pede isso (Rico, 16 anos).

A gente aprende a conhecer, a conhecer o corpo, o prazer, aprende várias coisas, o ritmo, a sentir, várias coisas. Quer dizer, não precisa ter mais de uma pessoa pra acontecer a masturbação (Romário, 16 anos).

É uma coisa muito interessante, muito prazerosa e também muito importante, por causa do contato com o corpo (Tiago, 16 anos).

Eu, como comecei com a masturbação, eu já sei o que me dá prazer e tô descobrindo o que dá prazer à minha parceira, é isso (Reginaldo, 16 anos).

Porque enquanto você se masturba, você ainda não tem a garota, mas você pode pensar nela, imaginar o que fazer com ela, essas coisas (Renato, 17 anos).

Esses depoimentos trazem a masturbação como uma prática comum do universo masculino. Esse resultado, de uma certa forma, se relaciona aos dados de uma ampla pesquisa realizada em três cidades brasileiras23. Nesse estudo, num conjunto de 2.018 homens jovens, 50,7% optaram pela resposta de que a masturbação é uma prática comum, mesmo tendo parceiro/a. Os demais entrevistados se distribuíram entre as respostas de que é uma prática que se faz quando se está sem parceiro/a (31,01%) e de que é um vício (18,4%). Dentre suas conclusões, esse estudo observa que, em relação a essa prática, “ainda prevalece uma representação fortemente associada ao masculino no sentido do auto-erotismo e da atividade sexual como portadoras de uma qualidade técnica em si [...]”23.

Observamos que a masturbação, apesar de quase todos afirmarem ser uma prática rotineira e que todos fazem, ainda é um campo de interdição, pelo constrangimento e vergonha que pode causar se as pessoas ficam sabendo. Visando escamotear e se preservar a viver esses processos, mitos e tabus podem ser produzidos e reproduzidos, conforme aparece na fala de Rogério:

É importante sim. Eu acho até que garota faz também, mas elas não falam, né? Acho que têm vergonha. Eu acho que tenho vergonha se alguém ficar sabendo, ou ver, mas de fazer não, até porque é bom e todo mundo faz, principalmente homem, fala que fica com calo na mão, que cresce cabelo, mas é só zoação (Rogério, 16 anos).

Gagnon15, em seu texto sobre conduta sexual, problematiza a importância da masturbação nos roteiros sexuais masculinos e reflete que ela está para além da produção de um ciclo orgástico de tensão generalizada, ou seja, processo de excitação intensa e resolutiva. A importância da masturbação, segundo o autor, está no fato desse comportamento ser acompanhado por uma série de narrativas sexuais mais ou menos complexas, cujos elementos podem ser independentemente capazes de evocar e manter a própria atividade sexual15. A masturbação, então, pode ser considerada como um processo de aprendizagem que tem a possibilidade de promover uma mudança do campo da competência para o do desempenho.

 

Os sentidos atribuídos à iniciação sexual masculina

As narrativas dos entrevistados que já tinham tido relação sexual, no momento do trabalho de campo, trazem sentidos construídos a partir de uma experiência declarada de natureza heterossexual. Eles atribuem diversos sentidos à iniciação sexual: algo complicado, prazeroso, afetivo e espaço de aprendizagem.

A iniciação sexual como algo complicado caracteriza o principal sentido por eles atribuído. Complicado porque nem sempre se sentem devidamente informados; devem aprender a conciliar o seu prazer com o da parceira e percebem o momento como um desafio a ter que provar que é homem (ou que funciona sexualmente de forma adequada). Diante da necessidade de enfrentar a primeira experiência sexual de forma adequada – visto como um rito de passagem para ser homem – o relacionamento com outros jovens não só serve de apoio para que os medos sejam exorcizados, como também serve de referência.

Assim, quando os entrevistados informaram sobre a primeira relação sexual, expressaram um certo constrangimento, pois para a maioria a sensação não foi boa, foi difícil, houve desconforto, não sabiam como se comportar, não conheciam o outro corpo, portanto não sabiam como dar prazer às parceiras.

Cara, acho difícil [falar sobre]. No começo foi meio estranho, mas depois a gente vai vendo que acaba sendo normal. Estranho [porque] a gente não conhece [o outro corpo], a gente não sabe bem o que fazer, mas o pior é que a gente não sabe o que a pessoa espera da gente. Com tempo e prática, a gente vai aprendendo, ganhando experiência (Romário, 16 anos).

Foi super complicado, diferente, um troço muito estranho, porque na masturbação é só você, não tem que se preocupar com ninguém, só tem você e as fantasias (Ricardo, 17 anos).

No momento foi com uma garota da minha idade também. E como a gente era iniciante, a gente era inexperiente também. Não vamos dizer assim que foi tão bom! (Maurício, 16 anos)

A primeira vez é fogo, eu até fiquei meio nervoso até. Quer dizer, bastante nervoso, depois é que você vai pegando jeito (Tiago, 16 anos).

Junto ao sentido “complicado” atribuído ao primeiro ato sexual, há também a representação dessa experiência como algo que é prazeroso.

Foi bom, gostei, lógico [desde a 1ª vez]. Foi bom, mas eu já tive mais algumas vezes, ainda não muitas, o que eu sei é que cada vez que acontece é sempre melhor que a anterior. Eu gosto da coisa, gosto de fazer, gosto da experiência, gosto muito dessa coisa, como eu vou falar, eu gosto dessa coisa de pele, eu gosto muito de sexo com outra pessoa. Eu também gosto de a cada vez estar melhor, de se aprimorar, de fazer melhor, de satisfazer a parceira e de se satisfazer também e ensinar e aprender com a outra pessoa, eu gosto disso (Ronaldo, 16 anos).

Outro sentido atribuído à primeira experiência de iniciação sexual foi que a iniciação sexual é algo que compõe o campo da afetividade. Parte dos nossos jovens disse que fez sexo pela primeira vez com a namorada ou com quem tinha um relacionamento de afeto.

Com a minha namorada a gente já transou, é importante [a primeira vez] ser com alguém que você tem uma ligação [afeto] (Reginaldo, 16 anos).

No momento foi com uma garota da minha idade, também minha namorada, a gente se gostava (Maurício, 16 anos).

Além desses sentidos, observamos que, de uma forma solitária, a iniciação sexual também aparece como um espaço de aprendizagem. Esse sentido surge na fala de um jovem que teve a sua primeira experiência com uma profissional do sexo, levado pelo pai a um bordel.

Ele [pai] achou que tava na hora deu saber das coisas de sexo, acho que os pais ficam preocupados e como eu acho que não sabem como falar, leva os filhos em puteiros. Mas eu achei importante o que meu pai fez comigo, foi uma atitude legal. Hoje eu me dou bem com minha namorada por causa da minha experiência com a profissional. Eu não tenho filho, mas quando tiver e ele tiver na idade, vou tentar perguntar primeiro pra ele, aí ele querendo eu levo [para ter experiência com profissional do sexo] (Rafael, 16 anos).

Apesar de considerar importante a atitude do pai – a forma que o pai teve de se preocupar com (a sexualidade) ele – o jovem também critica o fato de não ter participado da decisão de como ter sua primeira relação sexual. No entanto, o silêncio em torno do evento pode representar algumas dificuldades que podem ser simultâneas, coexistentes ou não: de enfrentar o pai; medo de magoá-lo e a existência de uma confraria que é ao mesmo tempo influencia­da e reforça aspectos culturais da masculinidade.

É possível articular o conjunto dos sentidos atribuídos à literatura disponível sobre o assunto. É interessante destacarmos que a fala desses jovens de uma certa forma vai numa direção contrária a alguns achados de outros estudos que demarcam diferenças na iniciação sexual feminina (mais centrada no afeto) da masculina (mais voltada para a testagem da virilidade)2, 7. Assim, diferentemente desses dados, entre os nossos jovens, havia a idéia de que o vínculo afetivo com a parceira era algo bastante importante, sendo fundamental que fosse com a pessoa que gostam, pois é bom para a intimidade e promove a aproximação.

Por outro lado, ao comparamos os nossos achados com a literatura, observamos similitudes com conclusões dos estudos de Feliciano3, Heilborn4 e Leal e Knaut5. O primeiro estudo concluiu que, embora a primeira vez seja sempre uma experiência difícil, tanto para homens como para as mulheres, no caso dos jovens a iniciação é permeada pelos temores em conseguir demonstrar competência no desempenho sexual. Já o segundo nos remete à idéia de que a iniciação sexual dos rapazes é traduzida como uma obrigação social, um aprendizado técnico, que pode garantir o status de virilidade. O último estudo nos traz a observação de que a maneira pela qual os jovens descrevem e pensam a sua própria iniciação sexual revela como o dispositivo positivo de aprendizado de técnicas corporais produz saberes, induz a prazeres e institui relações de poder. As conclusões desses estudos, de uma certa forma, se relacionam aos sentidos que os nossos entrevistados atribuíram à iniciação sexual como algo complicado e como um espaço de aprendizagem. Assim, na ótica dos nossos jovens, se de um lado a iniciação sexual é um espaço em que se aprende fazendo, o que vai possibilitar a aquisição de uma tecnologia sexual masculina, de outro, até adquirir esta aquisição, há uma exposição da sua inexperiência, tornando a iniciação algo “complicado”, que pode causar constrangimento.

Outra similitude que surgiu dos nossos achados com outros estudos diz respeito ao sentido de prazer que os nossos jovens atribuíram à iniciação sexual. Nesse sentido, assim como nas falas dos nossos entrevistados, os jovens estudados por Melo e Santana6 demonstraram o prazer como uma dimensão bastante visível de expressão da sexualidade em geral. Vários autores assinalam que a sexualidade não se refere somente às capacidades reprodutivas do ser humano, mas também ao prazer, considerando que este evolve, além do nosso corpo, nossa história, nossos costumes, nossas relações afetivas, nossa cultura24-26.

 

Considerações finais

O nosso artigo buscou discutir os principais sentidos atribuídos à iniciação sexual masculina a partir da ótica dos jovens entrevistados, referenciando esta discussão na esfera da intimidade ou da privacidade.

Nossa discussão problematizou a importância significativa da conversa, uma vez que esta foi considerada como um elemento fundamental de expressão do jovem em geral e, em particular, em relação à sexualidade. Como vimos, a relevância da conversa se apresentou em três momentos; num primeiro momento, os jovens elegem uma determinada platéia para narrar, no segundo, elaboram esta narração ou conversa e no terceiro, atribuem um certo significado e valorizam esta conversa.

Ainda no campo das conversas, estas se tornam um espaço privilegiado da interação entre os jovens, porém com certa reserva, mas com outros segmentos etários e hierárquicos ainda se mantêm na esfera da interdição.

Outra discussão importante, trazida pelos nossos achados, refere-se aos fóruns privados, em que circulam tanto as fontes de informação quanto à socialização das mesmas; nesse espaço, as interdições podem ser ao mesmo tempo relativizadas e valorizadas atribuindo status de ser homem aos jovens que tiveram alguma experiência de relacionamento sexual ou narraram sobre ela e, por consequência, assumindo uma posição de destaque dentro do grupo de pares.

Tanto as conversas íntimas quanto os fóruns privados, suscitados pelos discursos dos jovens entrevistados acerca da iniciação sexual, nos apontam que investimentos precisam ser empreendidos no campo da saúde coletiva para subsidiar o desenvolvimento de tecnologias de acolhimento das demandas sexuais juvenis masculinas.

Nessa perspectiva, as conversas indicam elementos importantes que nos fazem problematizar algumas questões: (a) a disponibilidade dos serviços de saúde em promover uma escuta que garanta a conciliação entre as informações normatizadas (como as relacionadas à gravidez na adolescência e prevenção as DSTs/aids) com a necessidade dos jovens homens em lidar com a iniciação sexual, para que no olhar do imaginário social este se torne homem; (b) a estimulação da comunicação entre os diversos setores/profissionais de atendimento/intervenção aos jovens, para assegurar o enfrentamento da complexidade que a sexualidade envolve, aí incluindo a iniciação sexual masculina, não a reduzindo ao simples espaço de prevenção de doença; (c) a sensibilização dos serviços para que suas ações se orientem a partir da perspectiva de gênero, fazendo com que as conversas e fóruns acerca da sexualidade/iniciação sexual não circulem apenas num segmento de gênero e sim haja uma socialização relacional.

Por último, observamos que, embora as conversas e os fóruns privados dos nossos entrevistados apontem para uma iniciação sexual/sexualidade estritamente heterossexual, a saúde deve tornar-se mais sensível ou avançar para a possibilidade de que tanto os jovens quanto os profissionais de saúde convivam com a diferença da preferência/orientação sexual intra e intergênero.

 

Colaboradores

EF Nascimento participou da concepção, delineamento e redação do artigo, análise e interpretação dos dados; R Gomes participou da concepção, delineamento e redação do artigo, análise e interpretação dos dados.

 

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Artigo apresentado em 13/03/2007
Aprovado em 13/12/2007

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