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Ciência & Saúde Coletiva

Print version ISSN 1413-8123

Ciênc. saúde coletiva vol.14 no.6 Rio de Janeiro Dec. 2009

http://dx.doi.org/10.1590/S1413-81232009000600040 

RESENHAS BOOK REVIEWS

 

 

Marta Carvalho LouresI; Celmo Celeno PortoII

IDepartamento de Enfermagem, Universidade Católica de Goiás
IIPrograma de Pós- Graduação de Ciência da Saúde, Faculdade de Medicina, Universidade Federal de Goiás

 

 

 

Fleck MPA, organizador. A avaliação da qualidade de vida: guia para profissionais da saúde. Porto Alegre: Artmed; 2008. 228p.

Este livro é a síntese de um trabalho de dez anos sobre a avaliação da qualidade de vida. Apresenta informações básicas sobre o desenvolvimento do instrumento de avaliação de qualidade de vida da Organização Mundial de Saúde (OMS), o WHOQOL, e sua aplicação no contexto brasileiro. É um trabalho de autoria conjunta do médico psiquiatra Marcelo Pio de Almeida Fleck e vários colaboradores que documentaram o trabalho do Grupo WHOQOL desde a sua concepção.

Na primeira parte, são apresentados problemas conceituais em qualidade de vida e os diferentes módulos do WHOQOL.

No capítulo 1, avalia-se o conceito de qualidade de vida como de grande importância como medida de desfecho em saúde pela natureza daquilo que o próprio indivíduo sente e percebe. Afirma-se que, para se definir qualidade de vida, é necessário despender um empenho considerável nos níveis conceitual, metodológico, psicométrico e estatístico, levando a um avanço nas tecnologias para desenvolvimento de novos instrumentos.

No capítulo 2, são apresentadas as abordagens utilizadas para a avaliação da qualidade de vida. Afirma-se que o ponto de vista da pessoa e seu comportamento são fundamentais para os interessados em saúde e doença e nos desfechos do tratamento.

No capítulo 3, os autores refletem sobre o conceito da OMS sobre a noção de qualidade de vida e bem-estar e do papel que as avaliações subjetivas de estado de saúde têm na experiência. Os conceitos evoluem com o passar do tempo.

O capítulo 4 apresenta os primórdios da utilização do conceito de qualidade de vida e sua evolução. Interessante a apresentação do desenvolvimento de um novo grupo de escalas de qualidade de vida, o WHOQOL, tendo como ponto de partida a definição de saúde da OMS. Com a evolução da conceitualização de qualidade de vida, foi proposta a inclusão da qualidade de vida global e um conjunto de domínios e facetas específicas que refletem as características de cada um desses domínios.

Nos capítulos 5, 6, 7 e 8, são relatados o desenvolvimento dos vários módulos do WHOQOL. Relata-se a experiência da OMS ao desenvolver um instrumento de aferição da qualidade de vida que foi aperfeiçoado em vários países por processo de adaptação de instrumentos, para a comparação transcultural dos resultados obtidos.

O desenvolvimento da versão em português do WHOQOL-100 se deu no Departamento de Psiquiatria e Medicina Legal da UFRGS. Descreveu-se todo o método, traduziu-se o instrumento, fez-se discussão em grupos focais, etc.

O WHOQOL-BREF é uma alternativa de instrumento genérico de aferição de qualidade de vida de curta extensão, aplicável em qualquer população, pode ser respondido independentemente do nível de escolaridade e permite que o investigador inclua outras medidas de interesse além da de qualidade de vida.

Com o desenvolvimento do WHOQOL-HIV, foi possível detectar o bom desenvolvimento psicométrico quando aplicado em indivíduos soropositivos, pois ele demonstrou consistência interna, validade de construto, validade discriminante e válida concorrente satisfatória.

O WHOQOL-SRPB foi desenvolvido para avaliar espiritualidade, religiosidade e crenças pessoais. Desenvolveu-se um módulo do WHOQOL-100 em uma perspectiva transcultural, que se mostrou vantajoso do ponto de vista conceitual e psicométrico, com o acréscimo de três facetas relacionadas à espiritualidade.

O WHOQOL-OLD oferece um conjunto de itens adicionais para a avaliação da qualidade de vida com idosos com uma metodologia transcultural que permite comparações fidedignas em diferentes culturas. Pode ser utilizado em vários estudos, avaliações transculturais, pesquisa de base epidemiológica, manifestação de status de saúde, avaliação de serviços, estudos de intervenções clínicas, de impacto de serviços de saúde e de diferentes programas e até mesmo de cuidados sociais na qualidade de vida de idosos, na identificação de políticas de saúde na qualidade de vida da população idosa e auxiliar na determinação das áreas de investimento capazes de refletir maiores ganhos na qualidade de vida.

A segunda parte do livro, sobre a aplicação do WHOQOL em amostras clínicas e não-clínicas, descreve a aplicação da medida de qualidade de vida com saúde em diferentes áreas, com ênfase em dados locais, utilizando o WHOQOL.

O capítulo 10 trata de qualidade de vida e alcoolismo. A medida da qualidade de vida torna-se um meio importante para avaliar que resultados terapêuticos ainda necessitam de desenvolvimento de estratégias terapêuticas mais eficazes e/ou complementares.

No capítulo 11, discorre-se sobre qualidade de vida em pacientes deprimidos. A percepção dos diferentes domínios da vida de um indivíduo é um aspecto nuclear da avaliação da qualidade de vida, por existir evidência de que depressão e qualidade de vida sejam construídas em áreas de intersecção, mas não necessariamente redundantes.

No capítulo 12, revisa-se o impacto de cada transtorno de ansiedade específico na qualidade de vida e relatam-se resultados de pesquisas realizadas com o uso do instrumento do WHOQOL-BREF. Os estudos têm sugerido que os transtornos de ansiedade estão associados a uma pior qualidade de vida; logo, instrumentos que possam avaliar essa variável de forma confiável, permitindo a comparação entre diferentes populações, são necessários.

O capítulo 13 apresenta dados das pesquisas conduzidas pelo grupo de pesquisa do Programa de Tratamento do Transtorno do Humor Bipolar (PROTAHBI) do Hospital das Clínicas de Porto Alegre. Procura-se contribuir para alguns tópicos ainda obscuros em relação à qualidade de vida e transtorno bipolar (TB).

Em Avaliação da Qualidade de Vida na Esquizofrenia, apresenta-se uma revisão geral do uso de instrumentos da avaliação da qualidade de vida de pacientes com esquizofrenia. São mostrados os primeiros resultados do estudo, que utilizaram escalas variadas de avaliação de qualidade de vida e, em seguida, discutem-se alguns estudos que aplicaram o WHOQOL nessa população. Por fim, apresenta-se o relato de uma pesquisa desenvolvida no Hospital Psiquiátrico São Pedro, em Porto Alegre (RS). O WHOQOL, em suas diferentes versões, tem revelado boas qualidades psicométricas também para o uso em pacientes de longa permanência.

O capítulo posterior trata da qualidade de vida em pacientes com HIV/aids, trazendo conceitos gerais e resultados de um estudo brasileiro. Os autores recomendam cuidado na interpretação dos resultados, uma vez que os altos escores podem estar associados basicamente a uma frequência maior de sintomas físicos e fadiga. Na comparação entre o WHOQOL-100 e o F36, os dois instrumentos discriminam bem as fases de infecção, evidenciando sempre o estágio aids como o de pior qualidade de vida em relação aos assintomáticos e aos sintomáticos em todos os domínios de ambos os instrumentos.

Em Recordação dos Cuidados Parentais e Qualidade de Vida na Idade Madura, os autores descrevem um exemplo da aplicação do instrumento de medida da qualidade de vida WHOQOL-BREF em população não-clínica. Com o seu uso, testa-se a hipótese de que cuidados parentais favoráveis podem estar associados a uma melhor qualidade de vida na idade adulta. Os resultados confirmam que os sujeitos com uma criação mais favorável representam-se mais satisfeitos na vida adulta.

O capítulo 17 trata da relação entre espiritualidade/religiosidade/qualidade de vida. São descritos dados da literatura sobre essa relação, assim como pesquisas desenvolvidas no Brasil com o auxílio de instrumentos do WHOQOL. Observam-se grandes progressos na relação entre o campo da saúde e o campo da espiritualidade/religiosidade. No futuro, se a comunidade científica estiver aberta e alerta aos aspectos positivos e negativos da inter-relação entre religião, espiritualidade e saúde, haverá menor receio de se explorarem novas questões e de se libertar de velhas desconfianças que, aparentemente, partem mais dos professores da saúde mental que dos pacientes.

O objetivo buscado pelos autores do capítulo 18 é explorar aspectos peculiares da avaliação da qualidade de vida em pacientes portadores de cardiopatia isquêmica. Considera-se que o procedimento de avaliação deve ser claramente descrito com a intenção e significância do seu impacto na vida diária dos pacientes. Instrumentos que demonstraram ser válidos e confiáveis e sensíveis na literatura internacional, que são traduzidos e bem validados para a nossa população, de fácil e rápida aplicação, como o WHOQOL-BREF, por exemplo, aliados à carência de pesquisas em qualidade de vida em pacientes cardiopatas no Brasil, tornam esse assunto um vasto campo de pesquisa a ser explorado.

No capítulo 19, analisa-se a qualidade de vida em insuficiência renal crônica. A medida de qualidade de vida em doenças crônicas considera a recomendação da OMS de incluir múltiplas dimensões de funcionamento e bem-estar na avaliação dos desfechos em saúde. Tais medidas vêm sendo reconhecidas atualmente também como instrumento de avaliação de efetividades de intervenções terapêuticas. A avaliação da qualidade de vida em pacientes renais crônicos tem sido considerada tão importante quanto as medidas de morbidade e mortalidade.

O último capítulo, Qualidade de Vida em Idosos, aborda de forma abreviada o envelhecimento e suas especificidades e os aspectos gerais da qualidade de vida do idoso de forma mais detalhada. A última parte apresenta os achados encontrados pelo grupo WHOQOL, centro brasileiro, com a aplicação do WHOQOL-100 em idosos.

Este trabalho tem contribuído de forma significativa na construção do instrumento WHOQOL-OLD. Defende-se que o principal desafio que a longevidade impõe aos idosos é a preservação da qualidade de vida na presença das ameaças de restrição da autonomia e da dependência social. Assim, poderíamos pensar em geriatria não somente na cura, mas também na funcionalidade e na autonomia para a realização das atividades diárias como ótimos indicadores de saúde.