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Ciência & Saúde Coletiva

Print version ISSN 1413-8123

Ciênc. saúde coletiva vol.15 no.1 Rio de Janeiro Jan. 2010

http://dx.doi.org/10.1590/S1413-81232010000100005 

DEBATEDORES DISCUSSANTS

 

Da pesquisa sobre segurança alimentar e nutricional no Brasil ao desafio de criação de comitês de alimentação e nutrição

 

From research on food security and nutrition in Brazil to the challenge of creating committees on feeding and nutrition

 

 

Rossana Pacheco da Costa Proença

Departamento de Nutrição, Centro de Ciências da Saúde, Universidade Federal de Santa Catarina. rossana@mbox1.ufsc.br

 

 

O artigo "A pesquisa sobre segurança alimentar e nutricional no Brasil de 2000 a 2005: tendências e desafios" aborda tema de extrema relevância, que vem sendo discutido cientificamente e incorporado a políticas públicas no cenário mundial. Partindo da base de dados do Diretório dos Grupos de Pesquisa no Brasil do CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico), as autoras analisaram a área de origem e as temáticas pesquisadas, sugerindo a necessidade de investimentos na integração entre os componentes alimentar e nutricional da SAN (segurança alimentar e nutricional), diminuindo o intervalo entre as discussões econômicas e sociais da questão.

Um primeiro ponto a ser destacado é a inexistência do termo na árvore do conhecimento do CNPq, demonstrando, mais uma vez, a necessidade de revisão e atualização deste material, tão importante na classificação e sistematização de informações da pesquisa brasileira.

Esta questão aparece mais claramente ao analisar-se a temática SAN em relação aos comitês de área que organizam o ensino de pós-graduação e a pesquisa científica na Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento de pessoal de Nível Superior) e no CNPq. Assim, conforme discutido pelas autoras do artigo em debate, citando material recente1,2, na Capes pode-se vislumbrar as temáticas da SAN incluídas em vários comitês, espalhados por quase todas as áreas do conhecimento. Em parte, este fenômeno deve-se à própria natureza multifacetada da SAN, bem fundamentada pelas autoras. Mas destaca-se a percepção de que isto ocorre, também, em função da não-existência de uma área específica de alimentação e nutrição no contexto da grande área da Saúde. Assim, a inserção da Nutrição como uma subárea da Medicina II na Capes pode ser responsável por esta diluição de grupos, diminuindo as possibilidades de integração para a formação e a pesquisa em SAN.

Já no CNPq, com o comitê Saúde Coletiva e Nutrição, esta questão parece ser menos candente nos aspectos referentes àquilo que as autoras identificaram como pesquisa de SAN relacionada justamente com a Saúde Coletiva. Contudo, no que diz respeito à temática que as autoras denominaram "componente nutricional da SAN", principalmente nas discussões mais específicas sobre alimentos, também nesta agência a ausência de um comitê específico é sentida, pela necessidade de compreensão de conceitos e metodologias específicos no momento de avaliação dos projetos propostos. Neste sentido, salienta-se a percepção de que a criação de comitês específicos de alimentação e nutrição na Capes e no CNPq são estratégias importantes para aglutinar esforços e recursos, reforçando a formação e a pesquisa em SAN.

Ao discutirem a distribuição dos grupos de pesquisa em SAN por área predominante, as autoras identificaram a maioria dos grupos na área de ciência e tecnologia dos alimentos, relacionando esta produção científica com a denominada qualidade dos alimentos, fixando-se, contudo, somente na questão sanitária. Ora, além da correta e necessária discussão realizada pelas autoras das políticas de ciência e tecnologia e da incorporação do componente alimentar visto de maneira mais abrangente, sugere-se também uma reflexão sobre o que seria esta qualidade do alimento, ou mais especificamente, o que seria um alimento de qualidade. Como já discutido em vários momentos3, ressalta-se a percepção de que, quando se discorre sobre qualidade em alimentos e alimentação, está ocorrendo uma supervalorização, praticamente no mundo todo, da dimensão higiênico-sanitária da qualidade. Sabe-se, entretanto, que diversos autores salientam que a qualidade em um alimento pode ser percebida pelo ser humano em múltiplas dimensões. Assim, parece pouco defensável que as pesquisas, os diversos selos de qualidade e metodologias de busca de qualidade se reportem somente a uma destas dimensões, como se o fato de o alimento estar limpo e não contaminado - elemento essencial, mas não o único - garantisse que todos os outros aspectos estejam satisfatórios.

Assim, considerando que a qualidade com relação aos alimentos deve ser um processo centrado no ser humano, propõe-se que ela pode ser percebida, pelo menos, sob as óticas nutricional, sensorial, higiênico-sanitária, de serviço, regulamentar, simbólica e, mais recentemente, de sustentabilidade. As definições de SAN discutidas, inclusive historicamente, pelas autoras, permitem esta expansão do conceito, podendo refletir a necessária integração dos grupos que refletem e pesquisam na temática.

Também relacionado a este conceito mais abrangente de SAN, embora o artigo em debate não tenha aprofundado este ponto, cabe citar a questão metodológica das pesquisas, que ainda se apresenta bastante centrada em estudos quantitativos. Considerando, na palavra das autoras, "a amplitude conceitual e a grandiosidade de questões relativas a SAN", observa-se a necessidade de incorporação da pesquisa qualitativa neste contexto. Em uma revisão sobre a pesquisa qualitativa em nutrição e alimentação, Canesqui4 reforça que muitos dos textos encontrados requerem um "aperfeiçoamento teórico-metodológico para superar os estudos descritivos, adequando o seu entendimento". Concorda-se com esta autora que observa, ainda, "a necessidade de apoiar a formação em Ciências Sociais e Humanas na Nutrição e incentivar a prática da multidisciplinaridade para aperfeiçoar aquelas pesquisas", ponto também discutido no artigo em debate.

Outro destaque, lançado recentemente sobre o tema, é representado pelo Suplemento da Revista de Nutrição. Segundo informações da Nota da Editora5 e do Editorial6, este suplemento, financiado por edital público específico, apresenta artigos com resultados de pesquisas desenvolvidas com financiamento de editais nacionais e internacionais. Esta iniciativa pode ser considerada importante para a temática de SAN, no mínimo, por dois aspectos. Um deles seria a questão em si, de editais públicos estarem financiando tanto as pesquisas temáticas quanto a divulgação delas, importante prática ainda não muito incorporada à realidade científica brasileira. Outro ponto é que este suplemento tenha sido lançado pela Revista de Nutrição, periódico específico da temática de alimentação e nutrição que atualmente se encontra indexado em duas das maiores e mais abrangentes bases de dados internacionais, quais sejam, Web of Science, do sistema ISI (Institute of Scientific Information), e Scopus. Assim, pode-se prever um maior destaque a esta produção nacional, uma vez que, ao ser digitado o tema "alimentação e nutrição" nestas bases, demonstra-se que no Brasil existe um periódico científico que incorpora a questão da SAN, inclusive na nomenclatura.

Finalizando, faz-se necessária uma reflexão sobre aspectos da SAN ainda pouco trabalhados na produção científica nacional, considerando o apontado no artigo em debate. A alimentação fora de casa é um deles, que representa uma importante faceta do comportamento alimentar atual e, por exemplo, somente na versão 2008-2009 está sendo incorporada à Pesquisa de Orçamento Familiar (POF) do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE)7. Então, pontos como a comida de rua, a alimentação em restaurantes comerciais e coletivos, os patrimônios gastronômicos regionais, dentre outros, são, comumente, alvo somente de pesquisas de qualidade sanitária, reduzindo o foco da contribuição para a SAN.

Outra lacuna são os estudos relacionados ao comportamento do consumidor de alimentos, considerando a sua segurança de maneira abrangente. Destacam-se aqui as possibilidades de estudos de SAN com relação às diversas formas de informação alimentar e nutricional, principalmente a propaganda e a rotulagem de alimentos industrializados e refeições.

Assim, as possibilidades de pesquisa em SAN no país, a exemplo da construção da própria política nacional sobre o tema8, ainda têm muitos desafios a serem enfrentados. Mas este enfrentamento começa pelo reconhecimento do terreno, trabalho tão bem realizado pelo artigo em debate.

 

Referências

1. Jordão AA, Garcia RWD, Marchini JS. Fator de impacto e pós-graduação stricto sensu em alimentos, nutrição e ciência e tecnologia de alimentos. Rev. Nutr. 2006; 19(6):793-802.         [ Links ]

2. Kac G, Fialho E, Santos SMC. Panorama atual dos programas de pós-graduação em Nutrição no Brasil. Rev. Nutr. 2006; 19(6):771-784.         [ Links ]

3. Proença RPC, Sousa AA, Veiros MB, Hering B. Qualidade nutricional e sensorial na produção de refeições. Florianópolis: EDUFSC; 2008.         [ Links ]

4. Canesqui AM. Pesquisas qualitativas em nutrição e alimentação. Rev. Nutr. 2009; 22(1):125-139.         [ Links ]

5. Medeiros MAT. Nota da Editora. Rev. Nutr. 2008; 21(Supl.):5-6.         [ Links ]

6. Pereira RA, Santos LMP. A dimensão da insegurança alimentar. Rev. Nutr. 2008; 21(Supl.): 7-13.         [ Links ]

7. Yokoo EM, Pereira RA, Veiga GV, Nascimento S, Costa RS, Marins VR, Lobato JCP, Sichieri R. Proposta metodológica para o módulo de consumo alimentar pessoal na pesquisa brasileira de orçamentos familiares. Rev. Nutr. 2008; 21(6):767-776.         [ Links ]

8. Burlandy L. A construção da política de segurança alimentar e nutricional no Brasil: estratégias e desafios para a promoção da intersetorialidade no âmbito federal de governo. Cien Saude Colet 2009; 14(3):851-860.         [ Links ]

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