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Ciência & Saúde Coletiva

Print version ISSN 1413-8123

Ciênc. saúde coletiva vol.15 no.1 Rio de Janeiro Jan. 2010

http://dx.doi.org/10.1590/S1413-81232010000100014 

ARTIGO ARTICLE

 

Representações do corpo: com a palavra um grupo de adolescentes de classes populares*

 

Representations of the body: with the word one group of adolescents from popular classes

 

 

Patrícia Déa BragaI; Maria del Carmen Bisi MolinaI; Túlio Alberto Martins de FigueiredoII

IPrograma de Pós-graduação em Atenção à Saúde Coletiva, Centro de Ciências da Saúde, Universidade Federal do Espírito Santo. Av. Marechal Campos 1468, Maruípe 29040- 090 Vitória ES. patbraga@gmail.com
IIDepartamento de Enfermagem, Universidade Federal do Espírito Santo

 

 


RESUMO

Diante da grande preocupação com a estética corporal demonstrada por um grupo de adolescentes de classes populares, o presente estudo teve como objetivo conhecer e analisar as suas representações sociais de corpo. Tratou-se de investigação de abordagem qualitativa realizada com adolescentes trabalhadores vinculados ao Centro Salesiano do Menor, em Vitória (ES). Uma amostra aleatória foi selecionada de um grupo de 334 sujeitos. Oito meninas e sete meninos foram abordados por meio de entrevista não-estruturada. A partir da análise de suas falas, foi realizada uma categorização e utilizada a teoria das representações sociais para sua discussão. Os resultados apontaram que a percepção de corpo, tanto para meninos quanto para as meninas, está voltada para as idéias de proporcionalidade, normalidade e perfeição. Quanto às consequências de não ter o corpo ideal, ambos apontaram situações como exclusão, doenças, infelicidade e até morte. Aprofundar o conhecimento sobre a percepção, os pensamentos e sentimentos dos adolescentes relativos ao corpo pode contribuir para subsidiar intervenções nesse grupo, ampliando significativamente o âmbito de atuação dos profissionais na área da saúde.

Palavras-chave: Imagem corporal, Adolescência, Sociedade de consumo.


ABSTRACT

In view of the great body aesthetic concern demonstrated by a group of adolescents from popular classes, this study had the purpose of getting to know and analyze the social representations of the body. It investigated the qualitative approach carried out with adolescent workers from the Centro Salesiano do Menor, in Vitória, Espírito Santo State. A random sample was selected from a group of 334 individuals. Eight girls and seven boys were approached by means of non-structured interview. From the analysis of their speeches, a categorization was performed and the theory of the Social Representations was used for discussion. The results pointed out that body perception, for boys as well as for girls, are focused on the ideas of proportionality, normality and perfection. Regarding the consequences of not having an ideal body, both stated situations such as: exclusion, illnesses, unhappiness and even death. In-depth knowledge on opinion, thoughts and feelings of the adolescents relative to the body, may contribute to subside interventions in this group, extending significantly the scope of professional performance in the health sector.

Key words: Body image, Adolescence, Consumer society.


 

 

Introdução

A grande importância atribuída à imagem e à aparência nas sociedades contemporâneas ocidentais é fato e muitos são os recursos existentes que constroem e fortalecem diariamente o universo da beleza e da estética. O corpo, objeto deste estudo, é também objeto deste cenário; corpos esculpidos, modelados em academias ou produzidos em salas cirúrgicas.

As concepções e as representações do corpo, bem como a beleza, sofreram transformações ao longo da história em cada sociedade, associadas às mudanças socioeconômicas e culturais. Assim, conhecer como determinado grupo pensa e concebe o corpo pode contribuir para compreender a hegemonia de uma estética corporal, como também esclarece a amplitude dos significados relativos ao próprio corpo.

Enquanto objeto de estudo e conhecimento, o corpo contempla pelo menos duas dimensões: uma objetiva, orgânica, tradicionalmente do domínio da medicina e da biologia, e outra, subjetiva, um corpo vivenciado e sentido, constituindo objeto de reflexão da filosofia e das disciplinas humanísticas1. Na primeira, valorizam-se aspectos que podem ser medidos e verificados com exatidão e, consequentemente, quantificados. Subjetivamente, o corpo é entendido ao se levar em consideração sua interação com o mundo e as implicações dessa relação.

Os conceitos sobre a experiência do corpo e sua relação com o mundo começaram a extrapolar sua suposta dimensão exclusivamente natural, sendo esse processo desencadeado desde Marx, Nietzsche e Freud, com discussões sobre a ação, a vontade e o desejo humanos.

Na sociedade contemporânea, a "superexposição de modelos corporais nos meios de comunicação contribuiu fundamentalmente para a divulgação de uma ótica corpórea estereotipada e determinada pelas relações de mercado"2. A esse respeito, Serra e Santos3 referem que, no mundo contemporâneo, a mídia exerce papel importante na construção e desconstrução de procedimentos alimentares e padrões de estética, os quais estão submetidos a interesses de empresas produtoras de mercadorias, indústrias de aparelhos e equipamentos e setores financeiros.

Santaella4 relata que a preocupação com a beleza foi ganhando força no decorrer do século XX e, na contemporaneidade, "a palavra de ordem está no corpo forte, belo, jovem, veloz, preciso, perfeito, inacreditavelmente perfeito". Por sua vez, Boltanski5 considera que as pessoas das classes populares se esforçam para obter imagem semelhante aos da classe dita superior. Observa que as revistas lidas por mulheres da classe média ou da faixa superior das classes populares são veículos que propõem as normas e modelos de vida das classes ditas superiores e contribuem para suscitar nas leitoras a vergonha de si mesmas e, mais precisamente, a vergonha do corpo, ressaltando que, dessa forma, essa pode se referir a uma vergonha de classe, pois considera que o corpo é efetivamente do mesmo jeito que todos os outros objetos técnicos, visto que a posse do mesmo marca o lugar do indivíduo na hierarquia de classes.

Assim, este estudo teve como objetivo aprofundar algumas questões relacionadas à preocupação com a estética corporal de adolescentes de classes populares, investigando as representações de corpo entre esses, conhecendo seus valores, opiniões e crenças.

Importante destacar que a adolescência é frequentemente associada a um período do desenvolvimento humano marcado por transformações biológicas e psíquicas geradoras de inquietudes e sofrimento, sendo a emergência da sexualidade e a dificuldade em estabelecer a própria identidade alguns dos elementos associados a essa fase. Nesse contexto, o critério biológico comparece e tem associação com o fenômeno da puberdade, o qual, através de transformações físicas importantes, prepara o organismo para a reprodução.

Esse fenômeno caracteriza-se pela universalidade na espécie e delimita as fronteiras da adolescência, pois o processo do surgimento dos caracteres sexuais e da finalização do crescimento morfológico se confunde com o período cronológico mais comumente associado à adolescência, isto é, em média, dos dez aos dezesseis anos nas meninas e dos doze aos dezenove anos nos meninos, podendo variar entre grupos populacionais6.

Do ponto de vista cronológico, a adolescência é estabelecida pela Organização Mundial de Saúde (OMS), marcando a idade de dez a catorze anos como sendo a pré-adolescência, e a idade de quinze a dezenove anos, a adolescência propriamente dita. Já na esfera legal no Brasil, o Estatuto da Criança e do Adolescente (Lei Federal 8.069 de 1990)7 considera a pessoa entre doze e dezoito anos de idade como adolescente.

Buscando superar diferentes visões acerca da adolescência, estudos têm sido realizados considerando a mesma como uma criação histórica do homem, enquanto representação e fato social e psicológico. Portanto, é constituída como significado, produzida pelos homens, a partir da realidade social e de marcas que serão referências para a constituição dos sujeitos.

Os seios que se desenvolvem em uma menina, em algum tempo ou cultura, já foram interpretados como uma possibilidade de amamentar seus filhos, sendo que, hoje, os mesmos significam torná-las sedutoras e sensuais. Para os meninos, a força muscular já teve o significado de maior possibilidade para o trabalho, maior capacidade de guerrear e caçar, e hoje é considerada como fonte de beleza, sensualidade e masculinidade8.

Assim, é relevante destacar que estamos falando de adolescências, a saber: "adolescência" e "outra adolescência", se pensada na perspectiva de gênero. Ou "adolescência" e "outras adolescências", se analisadas numa perspectiva social. Assumimos, portanto, a compreensão que concebe a adolescência por meio da inserção histórico-estrutural e simbólica9, e não meramente por uma delimitação de faixa etária.

Ao buscarmos desenvolver, na perspectiva do discurso do adolescente, um estudo que trata de aspectos tão multifacetados e afeitos ao corpo, recorremos à teoria das representações sociais - um quadro teórico fronteiriço entre a psicologia e a sociologia - como suporte para o nosso estudo empírico.

 

Métodos

Para desenvolvimento deste estudo, foi utilizada a abordagem qualitativa. A pesquisa foi realizada no Centro Salesiano do Menor (CESAM), localizado em Vitória (ES), desde 1996. A instituição atende adolescentes das classes populares que desejam e precisam de trabalho para o seu crescimento pessoal e para a colaboração no orçamento de suas famílias. Tem como proposta a educação e inserção de adolescentes no mercado de trabalho formal, auxiliando-os na inserção no mercado de trabalho, dentro dos princípios do Estatuto da Criança e do Adolescente10.

Constituíram o grupo de estudo vinte adolescentes cadastrados no CESAM, sorteados a partir de uma lista de 334 sujeitos de ambos os sexos, que ainda estariam frequentando o centro nos meses de agosto a dezembro de 2005, período em que foi realizado o trabalho de campo.

Foi estabelecido que, caso houvesse necessidade, nova seleção seria realizada e, como medida de interrupção das entrevistas, foi utilizado o critério de ponto de redundância das questões abordadas no roteiro11.

Foi utilizada a entrevista não-estruturada, sendo gravada com permissão dos participantes e de seus pais. Antecedendo o trabalho de campo, foi realizado um pré-teste do roteiro de entrevista com os adolescentes do projeto "Caminhando Juntos" (CAJUN), na mesma cidade e frequentado também por adolescentes de classes populares, com a devida autorização da coordenação local.

Buscando ampliar as possibilidades de compreensão do fenômeno, foi utilizado um diário de campo no qual foram anotadas as impressões do autor, sendo que esse procedimento foi realizado em momento posterior sem a presença do adolescente. Como forma de garantir o anonimato dos adolescentes, foi escolhido e justificado por cada um deles um codinome animal. Procurou-se manter um ambiente adequado à realização das entrevistas.

As entrevistas foram transcritas de forma fidedigna, sendo redigidos todos os detalhes que pareceram importantes além das falas, como risos e momentos de silêncio. A análise do material foi realizada a partir de uma categorização que consiste, segundo Bardin12, em "uma operação de classificação de elementos constitutivos de um conjunto, por diferenciação e, seguidamente, por reagrupamento segundo o gênero (analogia), com os critérios previamente definidos". Assim, foram isolados os elementos e realizada a classificação, procurando impor uma certa organização às mensagens. A discussão das categorias foi tratada à luz da teoria das representações sociais.

O presente estudo foi aprovado no Conselho de Ética do Centro de Ciências da Saúde da UFES e todos os adolescentes e seus representantes legais assinaram um termo de consentimento livre e esclarecido.

 

Resultados

Dos vinte adolescentes selecionados, quinze (oito meninas e sete meninos) participaram da pesquisa, pois quatro meninos não quiseram participar e a participação de uma menina foi dispensada por ter sido alcançado o ponto de redundância das questões abordadas no roteiro de entrevista.

A maioria tinha dezesseis anos e estava cursando o ensino médio no momento das entrevistas. Os jovens inserem-se no mercado de trabalho ocupando funções de arquivistas, auxiliares administrativos, recepcionistas e etiquetadores em empresas da região metropolitana da Grande Vitória. A maioria era praticante da religião católica ou evangélica e, como hobby e/ou lazer, disseram ir à praia, ao baile funk, ao shopping, à igreja, parques, academia, jogar bola, fazer esportes, cursos, lutas, jogar videogame, sair com os amigos e ver filmes, entre outras atividades. Referiram ainda que, pelo fato de trabalharem e estudarem, o tempo para o lazer ficava reduzido.

Para começo de conversa... o que é um corpo bonito?

Ao falarem sobre um corpo bonito/legal pertencente ao sexo oposto, sujeitos do sexo masculino se referem a ele com qualificadores puramente físicos, afirmando que o ideal é um corpo magrinho, definido, bem cuidado, normal. Assim, na percepção masculina, para uma garota ser considerada como tendo um corpo bonito/legal, ela tem de ter ou ser, conforme a seguinte descrição: Um corpo mais magrinho, definido, estilo violão (Águia, sexo masculino). Também prevalecem qualificadores físicos, quando se referem a um corpo bonito/ legal para os meninos, afirmando que esse deve ser definido, forte e malhado.

Ao idealizarem um corpo masculino bonito ou legal, adolescentes do sexo feminino também valorizaram qualificadores puramente físicos, como: Um homem perfeito [risos], um corpo normal, que não é gordo, que não é muito magro, que tem uns musculozinhos (Cachorro, sexo feminino). Para as meninas, referiram ser aquele que é bem estruturado, com idéia de proporcionalidade e de normalidade, como: Magrinha, não aquelas secas, que tenha cintura, tenha peito (Urso, sexo feminino).

Verificamos que a grande preocupação de ambos os sexos está em buscar a beleza física. Além disso, de uma forma geral, as expectativas em torno do corpo estão dentro do padrão de beleza ditado pela mídia atual.

O corpo, configurado por novas práticas e técnicas, sofreu modificações simultâneas às ocorridas na sociedade brasileira. Exemplificam-se pelas redefinições de instituições (como o casamento e a família), que, através de um afrouxamento da moral, constituíram novos comportamentos, hábitos e valores - cada vez mais associados à idéia de liberdade13. Numa ruptura com o passado, pontua Del Priore13, um movimento foi lançado, e é iniciado o que a autora chamou de "uma mística da magreza", que traz as práticas do regime e da musculação características incorporadas à mulher moderna. Também nesse momento, começam a trabalhar as mães de família. Na avaliação de Castro14, a "revolução sexual" pela difusão da pílula anticoncepcional, assim como o movimento feminista e o hipismo, contribuiu para colocar o corpo em cena como signo de transgressão nos anos sessenta. Já na década de oitenta, houve uma proliferação das academias de ginástica, tornando mais cotidianas e regulares as práticas físicas. Sob a aparente libertação física e sexual, pregou-se a conformidade a um determinado padrão estético - que pode ser lido como a mais nova moral - e é convencionalmente chamado de "boa forma"15.

Assim, as demarcações de um corpo bonito aqui trazidas pelos adolescentes traduzem as insígnias do novo tempo: corpos fortes, musculosos, torneados, perfeitos, "traçados" por uma nova ordem que se instaurou e que ganha destaque neste início do século XXI.

Ter (ou não ter) um corpo legal: eis a questão

Adolescentes de sexo masculino apontaram como portadores de um corpo legal para os sujeitos do mesmo sexo pessoas do próprio convívio ou mesmo artistas de projeção atual na mídia. Pouco frequentemente, no entanto, referiram-se a si mesmos. Ao que parece, a idealização de um corpo legal, para adolescentes de sexo masculino, é uma questão de alteridade.

Ao elaborarem uma representação de pessoas de corpo bonito para as pessoas do sexo oposto, os adolescentes do sexo masculino mantiveram o mesmo padrão anteriormente citado. Às vezes, as pessoas eram suas próprias colegas. Em outras, as referências se dirigiram a personalidades do mundo artístico ou da moda. Da mesma forma, as meninas também apontaram como referências femininas pessoas próximas ou celebridades festejadas atualmente na mídia. Buscando representar um corpo bonito ou legal para pessoas do sexo oposto, as referências também recaíram sobre pessoas do seu círculo ou celebridades: Meu vizinho. Ele é musculoso, mas não aquela coisa feia, ele tem pouco músculo (Águia, sexo feminino). Reinaldo Gianechini. Ele tem o peitoral definido, tem o sorriso bonito, uma boa aparência (Mosquito, sexo feminino).

Para todos, prevaleceu sempre a idéia de que quem tem um corpo legal é o outro amigos, parentes ou uma celebridade e nunca eles mesmos. Além disso, as características ressaltadas sobre esse corpo correspondem aos padrões estabelecidos atualmente pela sociedade.

Rolnick16, ao tecer considerações sobre a alteridade - a existência do outro -, refere ser esta a concepção de outro: "tudo aquilo (humano ou não, unitário ou múltiplo) exterior a um eu". Considera, assim, a existência de uma relação entre um eu e um ou vários outros que se dá num plano visível, captável pela percepção; e uma outra dimensão invisível da alteridade, na qual comparecem conexões e somas, esboçando outras composições, desestabilizando-nos e gerando em nós estados inéditos, que extrapolam nossa identidade esta unidade provisória onde nos reconhecemos.

No processo de idealização e permanente insatisfação, podemos destacar o que se refere ao desenvolvimento de uma sociedade de consumo, na qual, bem distante de poder ser alcançado, esse outro idealizado é garantido, sendo o combustível para continuar se desejando o que não se tem. Há uma oferta e uma demanda - e já não se tem tão claro quem cria quem.

A auto-imagem do adolescente: espelho, espelho meu...

Os sujeitos do sexo masculino revelaram querer mudanças no corpo. Observa-se, no entanto, que, entre os mesmos, muitos se sentem magros, desejando obter mais massa muscular. Esses adolescentes referem querer ficar mais fortes, ter um corpo mais traçado e mais definido. As falas apresentadas a seguir o demonstram. Eu queria ficar mais forte, mais massa muscular, um corpo mais cheio, mais traçado. Eu me acho bem magro (Tigre, sexo masculino).

Ainda dentro desse contexto, aparece o adolescente que se acha gordo, que também se queixa de não ter o corpo definido. A satisfação com sua auto-imagem é um discurso que também comparece: Acho meu corpo bonito pros padrões que pedem hoje (Touro, sexo masculino).

Apesar do desejo de modificar o corpo, quando questionados se gostam dele, alguns adolescentes do sexo masculino disseram gostar. Ainda no que concerne à auto-imagem, buscando conhecer as partes do corpo que esses adolescentes mais gostam, sujeitos do sexo masculino citaram diferentes partes, como o rosto, o braço.

Abordados sobre o que gostariam de mudar no corpo, os sujeitos do sexo masculino destacaram o desejo de ficar mais forte. O fato pode ser explicado pela associação entre força e masculinidade, predominantes na nossa sociedade.

Ao falarem sobre seu próprio corpo, adolescentes do sexo feminino demonstraram insatisfação com o mesmo, desejando modificá-lo, sendo que as características dessas mudanças demonstram associação com o padrão de corpo ideal já citado. Seguem as falas para ilustração:

Eu não acho o meu corpo bonito. Eu tenho muita estria, muita gordurinha aqui do lado (Beija-flor, sexo feminino).

Eu acho, assim, o meu corpo legal, mas eu queria emagrecer um pouquinho mais (Urso, sexo feminino).

Ao serem questionadas se gostavam do próprio corpo, algumas adolescentes do sexo feminino reafirmaram a insatisfação com o mesmo. Outras, no entanto, estão em harmonia com a sua imagem corporal. Questionadas sobre as partes do corpo de que mais gostam, os sujeitos do sexo feminino citaram várias. No entanto, foi percebida a ênfase dada às partes superiores do corpo, como cabeça, rosto e olhos. Houve também referências a outras partes.

Em relação às modificações que desejariam realizar em si mesmas, as adolescentes do sexo feminino apontaram áreas do corpo que desejam modificar que parecem considerar o padrão de estética ditado pela sociedade: Perder um pouco de barriga e de coxa também (Beija-flor, sexo feminino). Meu cabelo [risos], que ele fosse um pouco mais liso (Urso, sexo feminino).

A insatisfação com o corpo foi percebida por adolescentes de ambos os sexos; no entanto, o fato sobressaiu em adolescentes do sexo feminino. Assim como nos meninos, o crescimento corporal das meninas pode estar interferindo na auto-imagem dessas adolescentes, pois, vale lembrar, há um desarranjo na velocidade de crescimento das diferentes partes do corpo neste período. As intensas transformações físicas que exigem sucessivas reconstruções e reformulações da imagem do próprio corpo podem, nesse processo, gerar insatisfações com a imagem corporal dos adolescentes de ambos os sexos17.

Considerando atualmente a ocorrência de uma série de distúrbios nutricionais, caracterizados tanto pelo excesso quanto pelo déficit nutricional nos adolescentes, Conti et al.18 demonstraram em estudo realizado em escolas privadas de São Paulo que meninas com excesso de peso revelaram maior insatisfação, quando comparadas aos seus pares e aos meninos. Apontaram que, na cultura ocidental, é percebida uma proposta de estereótipos que costumam estar associados ao sucesso, poder, desempenho sexual e plena aceitação social, e que, para a mulher, ser magra simboliza competência, sucesso, controle e atrativos sexuais. Dessa forma, o excesso de peso oferece uma conotação pejorativa, principalmente para as adolescentes, sendo possivelmente uns dos fatores explicativos para a insatisfação feminina.

A preocupação com a beleza física, demonstrada tanto pelos adolescentes do sexo masculino como do feminino, revela, entre outras coisas, uma erotização do corpo, que ressalta a onda de genitalização acontecendo particularmente na mídia19.

O próprio corpo em questão

Como causas do próprio corpo ser como é, os meninos relataram questões relacionadas à genética, ou a uma "tendência familiar", como também no que diz respeito ao cuidado e disciplina com o corpo, como: Porque eu não cuidava dele. Comer demais, não fazer exercício físico (Águia, sexo masculino).

Da mesma forma, as adolescentes relataram aspectos relativos a uma "tendência familiar" e ao trato com o corpo. Talvez seja de família. Na minha família não tem ninguém gordo. É todo mundo magrinho (Cachorro, sexo feminino). Uma parte é mesmo relaxo. Exagerei nas doses de comida, aí fiquei assim, com esse corpo (Beija-flor, sexo feminino).

Quando os adolescentes de ambos os sexos apontaram a família - aspectos biológicos e genéticos - parece haver correspondência com o que é frequentemente abordado pela área médica, que indica esses fatores como constituintes do corpo. Ao falarem sobre o descuido com o corpo - citando a dificuldade em fazer exercícios físicos ou o fato de comerem exageradamente - os adolescentes trazem à tona a questão do estilo de vida, os fatores psicológicos, socioeconômicos, políticos e culturais, os quais já foram abordados no presente estudo, demonstrando a relação desses com o corpo.

Percebe-se, no entanto, que esses outros condicionantes determinantes na constituição do corpo não foram pronunciados com clareza nas falas dos adolescentes. Apesar de não terem citado, acreditamos que também não seja fácil para os adolescentes alcançar esse modelo de corpo, uma vez que os mesmos detêm um poder aquisitivo menor para o acesso aos produtos e serviços destinados à construção desse corpo idealizado.

A nebulosidade de suas falas é um indicador sobre a necessidade de reflexões e debates que propiciem uma melhor compreensão sobre a importância da influência desses fatores.

Vale quanto pesa...

O desejo de possuir um corpo "normal" foi revelado tanto pelas meninas quanto pelos meninos, pois, segundo suas crenças, ter um corpo nesse padrão ajudaria a obter sucesso na vida. Para os meninos, o corpo no aspecto funcional, "um corpo que aguente", foi destacado, associado à questão do trabalho. A questão estética também compareceu: Pra alguma atividade mais forçada, precisa de um corpo definido, um corpo que aguente (Águia, sexo masculino). Quanto às consequências de não ter o corpo ideal, os mesmos apontaram situações como exclusão, doenças, infelicidade e, até, morte.

Sujeitos do sexo feminino relataram que, algumas vezes, depende da profissão exercida, mas existe na sociedade uma concepção forte de que corpo e beleza estão associados ao sucesso no trabalho e na vida de um modo geral: Se você for muito obesa, se eles pedir alguma coisa, aí fala, ah, porque ela não vai aguentar. Se for magro demais, não faz isso porque não vai ficar adequado pra você (Beija-flor, sexo feminino).

Em relação às consequências de não ter o corpo ideal, nos trechos abaixo, referentes às falas dos sujeitos do sexo feminino, apareceram situações como exclusão, desvalorização, doenças e infelicidade:

Racismo, não conseguir ninguém pra namorar (Cachorro, sexo feminino, 16 anos).

Ser desvalorizada por onde você passar, receber piadinha de mau gosto, ter menos preferência no emprego, dificuldade de arrumar um namorado (Papagaio, sexo feminino).

Segundo considerou Boltanski5, há um esforço das pessoas das classes menos favorecidas para obter imagem semelhante à das classes ditas superiores, ainda que tal represente dificuldades para eles em aspectos econômicos, de tempo, etc., visto que a posse desse corpo marca um lugar privilegiado na sociedade.

Nesse sentido, para muitos, "a beleza põe mesa" e, na corrida pelo corpo belo e simétrico, vale praticamente tudo, desde as estratégias menos complexas até aos excessos, como as cirurgias reparadoras, uso de anabolizantes, dentre tantas outras que vêm sendo utilizadas para a obtenção de um corpo esculpido e dentro dos padrões ditados em nossa sociedade.

No que diz respeito a essas estratégias, é importante ressaltar que no Brasil é cada vez mais comum o desenvolvimento de problemas relacionados às tentativas de obtenção de um corpo magro, mesmo em condições em que inexiste a necessidade de perda de peso, seja do ponto de vista da saúde ou da estética. Os distúrbios nutricionais, caracterizados tanto pelo excesso quanto pelo déficit nutricional, aparecem com maior frequência entre os adolescentes17. Bulimia, anorexia, vigorexia (compulsão por corpo cada vez mais musculoso), diagnosticados como distúrbios psiquiátricos, são cada vez mais comuns nesse grupo.

Em contrapartida à ditadura do corpo magro e belo, Pinheiro et al.20 apresentaram dados recentes que comprovam um aumento da prevalência de obesidade no Brasil, considerando, entre alguns de seus determinantes, a expansão no consumo de alimentos ricos em gorduras, assim como um estilo de vida mais sedentário, estimulado pelos avanços tecnológicos.

Ades e Kerbauy21 acrescentam à análise que o problema de excesso de peso não se restringe às mulheres ou à população adulta, sendo verificado o sobrepeso ou obesidade, cada vez mais, entre crianças e adolescentes. Em estudo recente, Ferriani et al.22 verificaram que, quando se trata de adolescentes obesos, essa imposição social do corpo magro e perfeito ocasiona insatisfação corporal, sentimentos de angústia, vergonha e rejeição ao próprio corpo.

Conti et al.18 observaram que, diante das influências socioculturais, os meninos são estimulados a praticarem atividades esportivas, enquanto as meninas, a praticarem atividades que impliquem a perda de peso. Diante disso, consideram que os meninos estão sendo protegidos, uma vez estimulados a praticar atividades que desenvolvem outras competências, como as afetivo-cognitivas e sociais. Semelhante situação não ocorre com as meninas, que são estimuladas a praticar atividades individuais, com enfoque no caráter estético.

Atualmente, alguns profissionais de saúde referem que, dentre outros fatores, a erotização e o "bombardeio" de imagens sexuais ao qual as garotas estão expostas, por meio da mídia, podem influir em uma adolescência precoce, na qual, aos oito anos de idade, essas já não se vêem mais como crianças23. Consideram também que o consumismo está levando à adultização precoce das garotas, pois, guiadas pelo modismo, fazem com que as mesmas entrem no mundo adulto mais cedo.

Veículos de comunicação apontam também para o crescimento da indústria de cosméticos e o negócio da beleza "cresce em ritmo chinês". Refere que a beleza foi um fator discriminador no mercado de trabalho, principalmente na década de oitenta, quando foi provado que as pessoas com boa aparência ganhavam até 15% a mais, assinalando que a situação não é muito diferente hoje24.

Ao refletir sobre o impacto da globalização na cultura alimentar, Garcia25 destacou a emergência de uma sociedade global, onde processos globais transcendem os grupos, as classes sociais e as nações, referindo-se à desterritorialidade característica de tal sociedade ao deslocar coisas, indivíduos e idéias. Seguindo a lógica que a autora aponta, podemos refletir sobre a imposição de valores relacionados aos alimentos, à saúde e, no que tange ao presente estudo, ao corpo e a um padrão de beleza idealizado.

Hall26 considera que, no lugar de pensar na ameaça da globalização destruindo as identidades nacionais, no global "substituindo" o local, seria mais acurado pensar numa nova articulação entre "o global" e "o local", produtora de novas identificações "globais" e novas identificações "locais". Tal articulação contestaria e deslocaria as identidades centradas e "fechadas" de uma cultura nacional, possibilitando novas posições de identificação, mais plurais e diversas, menos fixas e unificadas.

Goldenberg e Ramos15, considerando o contexto social e histórico atual particularmente instável e mutante, referem que os meios tradicionais de produção de identidade, como a família, a religião, a política, o trabalho, dentre outros, encontram-se enfraquecidos. Nesse sentido, é possível imaginar que muitos indivíduos ou grupos estejam se apropriando do corpo como um meio de expressão (ou representação) do eu.

 

Considerações finais

O presente estudo, ao investigar as representações do corpo e, mais especificamente, sobre a estética corporal entre os adolescentes de classes populares, verificou que surgiram idéias voltadas para a normalidade e perfeição.

Para os meninos, um corpo musculoso e forte foi destacado e, para as meninas, detalhes como cabelo, cor da pele e até acessórios da moda foram citados. Observa-se que essas qualificações referentes à estética corporal são as mesmas ditadas pela nossa sociedade. Nessa, a mídia tem um papel particularmente importante, veiculando idéias de interesse de mercado, caracterizando o mundo ocidental de economia capitalista.

Podemos dizer que as representações sobre o corpo, aqui apresentadas, enunciam o fenômeno das representações sociais ou saberes sociais, e esse saber diz respeito a uma construção de uma significação simbólica, na qual os sujeitos sociais empenham-se em entender e dar sentido ao mundo. Nas falas dos adolescentes, a atenção e preocupação com a estética corporal revelaram, entre outras coisas, que o fato de pertencerem a uma classe socioeconômica menos favorecida não foi significativo a ponto de não desejarem ou estarem menos interessados em alcançar o padrão de beleza hegemônico.

A idéia de melhorar a qualidade da existência individual e coletiva implica reconhecer a necessidade de um trabalho no campo da subjetividade, pois parece haver uma crise que pode ter relação com o desmoronamento de um modo de subjetivação, que diz respeito a uma liberdade de tomar decisões a favor das diferenças.

O estigma social, que dita um corpo magro e simétrico como sendo o padrão de beleza, faz com que os adolescentes busquem para si esse estereótipo considerado perfeito, podendo, a partir disso, serem gerados problemas relacionados à imagem corporal. As novas práticas e tecnologias são mais que bem-vindas. No entanto, os exageros e excessos daí provenientes é que são preocupantes e merecem atenção.

A complexidade do corpo demonstra ser um campo fértil para a compreensão dos fenômenos relacionados ao mesmo. Assim, a presente pesquisa fornece subsídios para a ampliação do conhecimento e a atuação na área da saúde, transcendendo seu aspecto exclusivamente biológico, possibilitando a realização de um trabalho mais eficaz com os adolescentes do CESAM e com os jovens que vivenciam realidades semelhantes.

Importante lembrar que esses resultados dizem respeito a um grupo específico de adolescentes de classes populares, que não pode ser generalizado. Sendo uma aproximação do fenômeno estudado, entendemos ser impossível uma completa apreensão do mesmo, visto que a realidade é dinâmica, e igualmente o são as pessoas que dela fazem parte.

 

Colaboradores

PD Braga, MCB Molina e TAM Figueiredo participaram da concepção do artigo, da análise nele contida e da redação final.

 

Referências

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Artigo apresentado em 11/06/2006
Versão final apresentada em 11/02/2008

 

 

* Dissertação apresentada ao Programa de Pós-graduação em Atenção à Saúde Coletiva.