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Ciência & Saúde Coletiva

Print version ISSN 1413-8123

Ciênc. saúde coletiva vol.15 no.4 Rio de Janeiro July 2010

http://dx.doi.org/10.1590/S1413-81232010000400023 

TEMAS LIVRES FREE THEMES

 

A mídia e o corpo: o que o jovem tem a dizer?

 

The media and the body: what the young people have to say?

 

 

Maria Aparecida ContiI; Maria Natacha Toral BertolinII; Stela Verzinhasse PeresIII

IInstituto de Psiquiatria da Faculdade de Medicina, Universidade de São Paulo. Rua Dr. Ouvídio Pires de Campos 785/2º andar, Cerqueira César. 05403-010 São Paulo SP. maconti@usp.br
IIDepartamento de Nutrição, Universidade de Brasília
IIIFaculdade de Saúde Pública, Universidade de São Paulo

 

 


RESUMO

O objetivo deste estudo é verificar a percepção do jovem quanto à relação entre a mídia, especialmente o acesso à televisão e revistas e o corpo do adolescente. Trata-se de um estudo transversal, realizado com 121 adolescentes em uma instituição particular de ensino do ABC paulista. Aplicou-se uma entrevista individual semiestruturada gravada em fita magnética. Estas foram avaliadas utilizando-se a metodologia do discurso do sujeito coletivo, embasada no conceito das representações sociais. A tabulação dos dados ocorreu por meio da utilização de três figuras metodológicas: idéia central, expressões chave e o discurso do sujeito coletivo. Nos discursos dos jovens, foram registradas em 95% das idéias centrais relações entre a TV, revistas e o corpo, sendo as mais frequentes relacionadas ao estímulo a um ideal físico de magreza e à influência negativa com experiências de humilhação e desencadeamento de doenças. Em 5% das idéias centrais, não se registrou relação entre a TV, revistas e o corpo. Conclui-se que os jovens revelaram conhecimento acerca da intensa interferência da mídia em relação ao corpo do adolescente.

Palavras-chave: Adolescência, Mídia, Representação social, Pesquisa qualitativa


ABSTRACT

The aim of this article is to verify the perception of the young about the relation between the media, especially the TV and magazine access and the body of the adolescent. It is a cross-section study carried out with 121 adolescents of a private school in São Paulo. A semi-structured individual interview was applied and recorded in magnetic ribbon using the methodology of the discourse of the collective subject based in the concept of social representation. The data were tabulated using three methodological approaches: central idea; key expressions and discourse of the collective subjective. The discourses of adolescents were evaluated, indicating that 95% of central ideas expressed relations among TV, magazines and the body and the most common ideas were about the stimulation of the thinness ideal physicist and the negative influence with hazard experience and illnesses appear. In 5% of central ideas registered no relation among TV, magazines and the body. We could conclude that young people show the knowledge about the intense media's interference in the adolescent body.

Key words: Adolescence, Media, Social representation, Qualitative research


 

 

Introdução

A mídia, sinônimo de "meios de comunicação social", diz respeito aos veículos responsáveis pela difusão das informações, como rádio, jornais, revistas, televisão, vídeo, entre outros1. Configura-se, na atualidade, como uma das instituições responsáveis pela educação no mundo moderno, trazendo tanto benefícios como malefícios, respondendo pela transmissão de valores e padrões de conduta e socializando muitas gerações2.

A adolescência, compreendida como uma construção social moderna, representa uma possibilidade de emergência da subjetividade com novas referências e padrões identitários3. Particularmente para os adolescentes, os meios de comunicação contribuem inegavelmente para um aprendizado sobre modos de comportar-se, sobre modos de constituir-se a si mesmo4.

A influência da televisão sobre o comportamento do jovem é um fato reconhecido mundialmente. Pesquisa envolvendo jovens italianos revelou que 50% destes têm um aparelho em seu quarto, os quais são fortemente influenciados pela publicidade na aquisição de produtos, além de demonstrarem em quase sua totalidade (92,2%) grande interesse pela televisão5. Tiggemann et al.6, pesquisando jovens australianos, registraram a forte influência da mídia na construção de um corpo magro.

Para Fisher4, esta influência vai além de uma simples fonte básica de lazer, tratando-se de um lugar extremamente poderoso no que tange à produção e à circulação de uma série de valores, concepções, representações relacionadas a um aprendizado cotidiano sobre quem nós somos, o que devemos fazer com o nosso corpo, entre outros. Ainda para a mesma autora, a televisão, em especial, participa diretamente na formação do jovem, sugerindo, estimulando e delineando determinadas formas de existência coletiva ou da relação consigo mesmo e com o outro7.

Dos meios de comunicação social, a TV é o mais difundido no Brasil. Segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD)8 este aparelho eletrodoméstico está presente em 91,4% das residências no território nacional, com destaque para a Região Sudeste, que registrou as maiores proporções (94,4%).

Além de que, a televisão, com suas programações diárias, preenche lacunas sociais e culturais geradas pela falta de acesso ao teatro, cinema, lazer e informação. Em muitos casos, substitui também a escola, como, por exemplo, nas produções de ensino à distância9. A TV divide ainda com a família o espaço de formação no que se refere às relações identitárias e de identificação afetiva e moral, bem como à transmissão dos conteúdos culturais2.

A questão levantada neste estudo é em que medida os jovens estão atentos à participação da televisão em sua formação e escolhas. Para tanto, se objetivou avaliar a percepção dos adolescentes quanto à relação estabelecida entre a TV e as revistas e o corpo.

 

Métodos

Este estudo refere-se a uma etapa da pesquisa de doutoramento da primeira autora, envolvendo jovens do ensino fundamental I e fundamental II, com idades entre dez a dezoito anos. Trata-se de um estudo do tipo transversal, do qual participaram adolescentes regularmente matriculados em uma instituição da rede particular de ensino no ABC paulista.

A amostra selecionada foi intencional10,11, correspondendo aos 386 jovens que participaram da etapa citada. Todos foram convidados a participar e aqueles que se disponibilizaram foram entrevistados individualmente. Estes compuseram uma amostra de 121 adolescentes. A participação foi voluntária e a coleta de dados ocorreu em dezembro de 2006 em uma sala restrita disponibilizada pela direção escolar.

Antecedendo o trabalho de campo, realizou-se, em setembro de 2006, um pré-teste com um grupo de adolescentes da mesma instituição, sendo estes, por um critério de disponibilidade de horários, selecionados pela coordenação pedagógica. Totalizaram 28 jovens de ambos os sexos, na faixa etária média de treze anos e, sequencialmente, os ajustes necessários para uma maior compreensão da entrevista foram realizados.

Aplicou-se a técnica da entrevista semiestruturada, caracterizada como entrevistas episódicas, que combina em sua estrutura convites para narrar acontecimentos da vida pessoal12. As entrevistas foram gravadas em fita magnética, sendo solicitado ao adolescente que respondesse a seguinte pergunta: "Fale um pouco da relação entre a TV e a revista e a forma como o jovem cuida do corpo". A duração das entrevistas variou de três a doze minutos. Posteriormente, as entrevistas foram transcritas.

Para análise do conteúdo discursivo, utilizou-se a técnica de análise do discurso do sujeito coletivo (DSC), que consiste em utilizar um instrumento de tabulação e organização dos dados qualitativos com a aplicação das figuras metodológicas: "expressões-chave"; "idéias centrais" e o "discurso do sujeito coletivo" (DSC)13. Dessa forma, a partir do material verbal coletado nas entrevistas, constituiu-se um discurso-síntese do grupo.

Esta técnica embasa-se no conceito das representações sociais14 como uma forma de expressar diretamente a representação social de um dado sujeito social15. Para a elaboração dos DSC, utilizou-se o programa Qualiquantisoft, versão 1.3C.

O estudo foi desenvolvido de acordo com a Resolução nº 196/96 do Conselho Nacional de Saúde e aprovado pelo Comitê de Ética da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo.

 

Resultados

Dos 121 jovens participantes, 63% eram do sexo feminino. As idades dos adolescentes variaram entre onze e dezoito anos, com a média de idade de 13,8 anos e desvio padrão de 2,1 anos. Cursavam da quinta série (ensino fundamental i) ao terceiro ano colegial (ensino fundamental ii).

Das respostas obtidas, foram extraídas 189 expressões-chave, que foram agrupadas em dezesseis idéias centrais, cujas representações desdobraram-se em quatro eixos, sendo estes: (1) presença de uma relação negativa entre a mídia e o corpo" (64%); (2) uma relação positiva e uma relação positiva e negativa concomitantemente, entre a mídia e o corpo (18%); (3) há uma relação, no entanto, sem julgamento de valor (13%); (4) pouca ou nenhuma relação entre a mídia e o corpo (5%). Desta forma, observa-se que a maior frequência dos discursos identificou relação entre a mídia e o corpo do jovem (95%), em contraponto a 5% das ideias centrais que não identificaram ou identificaram muito pouco esta relação.

Na Tabela 1, observam-se as ideias centrais e trechos dos discursos do sujeito coletivo que identificaram tipos diferentes de relações negativas entre a mídia e o corpo. A idéia central referente à "cobrança de um ideal físico" registrou a maior frequência entre todas as respostas (25%).

 

 

As ideias centrais e os discursos com representações sociais que identificaram uma relação positiva e uma relação positiva e negativa concomitantemente são apresentadas na Tabela 2. As idéia centrais "existe o lado positivo e negativo" e "a influência é positiva" correspondeu a 9%, para ambas, respectivamente.

 

 

A Tabela 3 apresenta as ideias centrais e trechos dos discursos do sujeito coletivo que identificaram relação entre a mídia e o corpo do adolescente, mas sem julgamento de valor, descrevendo o fato em si. A idéia central "existe relação entre a TV e o corpo do jovem", com 9%, registrou a maior frequência entre todas as respostas.

 

 

Na Tabela 4, registram-se as ideias centrais e os discursos com representações sociais que expressaram os conteúdos que identificaram pouca ou nenhuma relação entre a mídia e o corpo. A ideia central "não influencia" correspondeu a 5% da frequência entre todas as respostas.

 

 

Discussão

Foi possível verificar a percepção do grupo frente à influência da mídia no cotidiano dos jovens, com maior destaque para a TV. Quase a totalidade das idéias centrais (95%) inferiu esta relação, principalmente ressaltando o aspecto negativo, pela cobrança de um ideal físico, tanto para meninos como para meninas (25%), e pelo desencadeamento de doenças e sentimentos depreciativos, como a humilhação (11%).

Esta relação foi verificada com meninas australianas na faixa etária de onze a dezesseis anos. Tiggemann et al.6 trabalharam com grupo focal, confirmando o quanto as influências socioculturais, em particular a mídia, exercem sobre as jovens para serem magras. As autoras observaram, no discurso das meninas, uma elaborada conceituação acerca da relação entre os efeitos da mídia para a imagem corporal. Sendo assim, as jovens revelaram conhecimento acerca dos possíveis fatores que influenciam os adolescentes. Este mesmo efeito foi registrado no presente estudo. Pelo discurso do sujeito coletivo, foi possível confirmar que os jovens estão atentos à interferência da mídia no que se refere ao corpo.

O ideal físico para meninas na sociedade ocidental contemporânea é a magreza, fato este confirmado por vários pesquisadores16,17. Para as jovens australianas, as duas principais razões do desejo em ser magra são baseadas, primeiramente, na influência das modelos e da mídia e, em um segundo momento, para sentirem-se mais atraentes e receberem mais atenção.

Fischer4 afirma que os imperativos de beleza, da juventude e da longevidade, sobretudo nos espaços dos diferentes meios de comunicação, perseguem o indivíduo como instrumento de tortura por meio de corpos que são oferecidos como modelos determinando a beleza. Coimbra18 sinaliza o poder da mídia como um dos mais importantes equipamentos sociais, no sentido de produzir esquemas dominantes de significação e interpretação do mundo. Nesta direção, "ser belo" e "ser magro" configura-se como um modelo de unidade propagado pelos meios de comunicação que produz formas de existir e se relacionar. Puderam ser observadas no discurso do sujeito coletivo estas fragmentações. Idéias centrais como "existe, mas depende de cada um" (8%); "a TV engana, mostra uma coisa que não é" (5%); "interfere ditando um padrão de moda" (4%); "afeta mais as meninas" (4%); "seguir estereótipos para ser aceito (4%); "influencia no comportamento e pensamento" (3%) e a "TV faz ficar parado" (1%) foram registradas na construção do discurso coletivo que inferiu uma participação negativa da mídia e o corpo do jovem.

Foi possível registrar idéias centrais que abordaram o aspecto positivo da mídia (9%) e a influência positiva e negativa ao mesmo tempo (9%). Fischer4 descreve o dispositivo pedagógico da mídia por meio de estratégias, nas quais a TV assume um lugar especial de educar, fazer justiça, promover a investigação dos fatos, indo até para os cuidados para com o próprio corpo. Pela construção do discurso do sujeito coletivo, verificou-se este desdobramento na relação entre a televisão e o corpo, pela ótica do adolescente. Mas, ainda para a autora, faz-se necessário desvelar os conteúdos dos materiais televisivos para, assim, ter-se acesso aos conteúdos positivos provenientes dos programas da televisão. Deve-se ir além, apontando para a necessidade de se ampliar a compreensão acerca das formas concretas pelas quais o indivíduo é diariamente informado, os modos como as emoções são mobilizadas e as estratégias de construção de sentidos na TV, entre outros fatores.

Em pesquisa com crianças19, foram descritas e avaliadas as relações que as mesmas estabelecem com o que vêem na TV. Foi observado que, apesar das críticas que os adultos fazem à TV, as crianças têm grande consideração pela mesma, porque, na opinião delas, é possível aliar aprendizagem ao entretenimento, oferecendo a chance de ter acesso aos conhecimentos de que precisam para ter um futuro agradável, atraente e interessante. No DSC da presente pesquisa, foi registrado, em 9% das idéias centrais, esta influência, sendo confirmado neste fragmento: "pode ser um bom instrumento de informação, passa muita coisa boa, mostra o que tá acontecendo pra tentar conscientizar".

Fischer4 afirma que, consciente ou não, tem-se na TV, nas revistas de ampla divulgação, nos programas de rádio, um lugar de aprendizado a respeito do próprio indivíduo, da vida levada, da forma como se recebe e se avalia, pessoas classificadas como heróis ou vilões, cidadãos corretos ou transgressores da ordem. Fávaro et al.20 confirmam esta tendência com pesquisa com pré-adolescentes e a novela "Malhação". Registraram o predomínio do julgamento moral conservador dos personagens com a manutenção de papéis masculinos e femininos que privilegiam o status masculino.

Registrou-se 13% das idéias centrais que identificaram uma relação entre a TV e o corpo, mas sem um julgamento de valor. No discurso do sujeito coletivo, estavam presente idéias como "existe relação entre a TV e o corpo, e "na TV eles pegam as pessoas mais em forma, né?", "existe, mas não sei explicar" e "a internet também influencia".

Identificou-se ainda, em 5% das idéias centrais, pouca ou nenhuma relação entre os temas pesquisados. No discurso do sujeito coletivo, estavam presentes idéias como "cada um cuida do corpo do jeito que quer e não tem nada a ver a TV com os jovens" e "não influencia muito, mas têm alguns adolescentes que entram na academia e tal".

Apesar da maioria da idéias centrais abordarem o conhecimento do jovem acerca do poder da mídia em relação ao seu corpo, este fato, isoladamente, parece não ser o suficiente para a aceitação do jovem em relação ao corpo. Pesquisas inferem que, independente da apresentação corporal, adolescentes são insatisfeitos com seu corpo21, 22.

Tendo-se o indivíduo, o seu psiquismo, como foco de atenção, a teoria psicanalítica se ocupa em decifrar os mistérios obscuros desta estrutura, ou seja, a alma humana. Como uma possibilidade interpretativa, Nasio23 revela a ação e reação do indivíduo, explicando, entre tantos conceitos, o referente à "alienação no desejo do outro". Para o pesquisador, estar alienado é não ter uma unificação psíquica, é apresentar-se de forma incoordenada e, como uma saída para o indivíduo manter-se ativo, utiliza o recurso da alienação naquilo em que consegue se constituir. Ainda para o autor, se existe um "eu" (indivíduo-psiquismo), este é resultado do efeito que o "outro" (seus pares e grupo social) tem sobre ele, ao preço da imagem criada acerca de si próprio ser constituída no "outro" e pelo "outro", ficando, assim, primordialmente alienada neste. Neste cenário, o desejo do indivíduo torna-se uma expressão do desejo do "outro". Nasio23 vai além, afirmando que o "eu" pouco ou quase nada sabe acerca de seu desejo, a não ser o que o "outro" o revela, de modo que o objeto de desejo do "eu" nada mais é do que o objeto de desejo do "outro".

Partindo-se deste referencial, as manobras aplicadas pela mídia são eficazes na manipulação do comportamento do adolescente, visto que o desejo do adolescente se expressa na medida em que se identifica com o desejo do "outro" que, no caso, poderiam ser as mensagens, idéias e imagens promovidas pela mídia. Sendo assim, é possível compreender os motivos pelos quais os jovens, mesmo cientes da interferência da mídia em relação ao corpo, pouco alteram suas atitudes em relação ao mesmo, pois, de acordo com a teoria psicanalítica, estão alienados no desejo do outro.

Seguindo esta linha de raciocínio, um dos principais objetos de desejo vendido pela mídia – o "outro" – seria a conduta de consumo, atrelando este comportamento às imagens de sucesso, realização e prazer. A postura hedonista do homem é explorada pelos profissionais de marketing, que sabem como ninguém vender uma idéia e/ou imagem e atrelá-las às realizações de desejos24.

Reis Jr9 afirma que, sem se dominar os processos de construção de mensagens, dificilmente o jovem espectador poderá analisar criticamente os produtos à sua disposição ou ser menos influenciado por eles. Assim, o "belo" e a forma do jovem relacionar-se consigo próprio e com o seu meio social são padronizados e definidos pelos grandes meios de comunicação por meio dos programas e propagandas.

É importante sinalizar que as contradições sociais estão presentes nos discursos dos jovens, pois, se por um lado há uma cobrança de um corpo ideal, magro e esguio para as meninas e um corpo forte e musculoso para os meninos, por outro, observa-se no meio televisivo um estímulo ao consumo de alimentos calóricos3, com pouca prática esportiva e uso excessivo de TV, videogames e computadores.

Del Priori25, em análise acerca das transformações do corpo feminino no Brasil, pontua as interrelações entre as mudanças socioculturais e o cuidado da mulher destinado ao seu corpo. Sinaliza direções já desde o início do século passado, com a introdução e estímulo da prática desportiva para o combate do "ócio" e os "hábitos mundanos" da juventude, o lançamento de certos produtos de beleza que começavam a ser industrializados, a inovação dos saldos e liquidações que permitia às camadas urbanas médias adotar a roupa de gente rica. Desenhava-se paulatinamente um padrão de comportamento e beleza calcado na aparência física. A palavra de ordem tornava-se "beleza" e toda feiúra deveria ser banida25.

A mídia televisiva e revistas apoderaram-se destes conceitos, tornando-os comuns à realidade cotidiana. Nos discursos dos adolescentes, foi possível identificar estas relações. Para Gomes1, a subjetividade contemporânea está cunhada no consumo. Segundo a autora, nossas roupas, nossos acessórios, os objetos que usamos, tudo nos constitui como sujeitos identificados com a cultura que consumimos e nossa identidade é marcada por aquilo que podemos ou não podemos possuir e assim definir um lugar específico nas redes sociais. Nesta mesma direção, Moreira26 sinaliza que há tendências perigosas na participação da cultura midiática na formação da identidade de crianças e jovens, como, por exemplo, o esvanescimento da percepção dos limites entre o real e a ficção, a superexposição à imagem gerando a preguiça do pensamento, o desinteresse pela leitura, a incessante pedagogia da propaganda com a busca de uma formação de hábitos leais ao consumo em detrimento da autonomia e do senso crítico e, especialmente, o espelhamento narcísico, pela imersão no mundo virtual.

Uma das hipóteses para se compreender esta intrincada relação entre a mídia e a adolescência é sugerida por Moreira26, que pontua o quanto o sistema midiático-cultural, por intermédio da publicidade e propaganda, modula os comportamentos das crianças, até o ponto de serem julgados como naturais para a realidade cotidiana e até em relação à própria subjetividade. Sendo assim, crianças desde muito cedo aprendem a "ler" o mundo, a "identificá-lo" e a "desejá-lo" muito antes de serem alfabetizadas, ou até antes mesmo de aprenderem a falar. Esse efeito é possível de ser observado nas atitudes e escolhas dos jovens de hoje, que como crianças em um passado recente, foram submetidas a este processo doutrinário de educação midiática. Mesmo revelando ciência acerca do efeito da mídia em relação ao corpo, nos discursos dos jovens, foi possível observar que percebem suas atitudes como "normais", muitas vezes não avaliando de forma crítica esta interferência.

Outro ponto a ser discutido refere-se à percepção subliminar24, entendida como a influência exercida sobre a atitude ou comportamento por uma mensagem ou informação que não é percebida conscientemente, remetendo o indivíduo a camadas mais profundas do psiquismo. Segundo os profissionais da área, por uma questão ética, esta técnica de persuasão foi abandonada em favor da propaganda aberta e controlada. Mesmo assim, o que se observa é a modulação dos comportamentos individuais e coletivos, tendo-se na mídia uma grande vitrine de exposição. No entanto, cabe reforçar que, se por um lado a mensagem publicitária que passa pela tela em velocidade rápida, de frações de segundos, não é mais aplicada, por outro lado, têm-se exposições às mensagens, como, por exemplo, em folhetos, fôlderes e até em capas de revistas, e que talvez possam ser registrados em algum nível inconsciente24, modulando os comportamentos individuais e sociais.

Este tema é pivô de discussões recentes. Movimentos de categorias de classes profissionais27, bem como a mídia escrita28, mobilizam-se para sinalizar a importância de uma maior compreensão das relações entre a mídia, em especial a televisiva, e seus efeitos na formação das crianças e jovens. Estas entidades pontuam os excessos ocorridos nas programações, o que inclui os comerciais, no sentido de estimular crianças e jovens a adotar um padrão alimentar inadequado, sendo este mais um dos fatores responsáveis pela prevalência de doenças como o sobrepeso e a obesidade, definida atualmente como a grande epidemia do século29. Em outro extremo, encontram-se as doenças como a anorexia e bulimia nervosas, associadas diretamente a um padrão máximo de magreza veiculado pela mídia30.

No sentido de superar o olhar reducionista sobre a questão da influência da TV sobre o jovem, desta ser positiva ou negativa, Gonçalves31 propõe um olhar abrangente, partindo-se do princípio que a TV na sociedade e na vida do jovem é um fato, sendo, portanto, necessário ser avaliada como tal, a fim de se apontar possibilidades e alternativas. A autora propõe um conhecimento dos elementos mediadores presentes no processo de constituição da consciência, oriundos e veiculados pela televisão.

Conclui-se que os jovens pesquisados revelaram ciência da relação entre a mídia e o corpo. Pais, educadores, pesquisadores e a sociedade civil devem atentar-se para a interferência da TV na formação do jovem. Nesse sentido, os mesmos, além de outros profissionais, gestores da saúde e especialistas da mídia, devem se comprometer em conhecer mais aprofundadamente estas relações e propor medidas de intervenção que proporcionem a valorização dos aspectos positivos do uso da TV e coíba os negativos.

 

Colaboradores

Conti MA, Toral N e Peres SV participaram igualmente em todas as etapas do artigo.

 

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Artigo apresentado em 03/01/2008
Aprovado em 12/03/2008
Versão final apresentada em 14/04/2008