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Ciência & Saúde Coletiva

Print version ISSN 1413-8123

Ciênc. saúde coletiva vol.16  supl.1 Rio de Janeiro  2011

http://dx.doi.org/10.1590/S1413-81232011000700101 

ARTIGO
MEDICAMENTOS

 

Automedicação na adolescência: um desafio para a educação em saúde

 

Self-medication in adolescence: a challenge to health education

 

 

Ilane Magalhães Silva; Ana Maria Fontenelle Catrib; Vânia Cordeiro de Matos; Ana Paula Soares Gondim

Universidade de Fortaleza. Av. Washington Soares 1.321, Edson Queiroz. 60811-341 Fortaleza CE. ilane_mag@yahoo.com.br

 

 


RESUMO

O estudo visa analisar o conhecimento dos estudantes de escolas públicas e privadas do município de Fortaleza (CE) sobre o uso de medicamentos e suas implicações para a saúde. Trata-se de um estudo descritivo, com 722 adolescentes matriculados em dez escolas do município de Fortaleza. Levantou-se, por meio de um questionário, aspectos relativos ao consumo, indicação e orientação de medicamentos e a influência da mídia. Relataram uso de medicamentos, nos últimos sessenta dias, 72,0% dos participantes, sendo os analgésicos os mais citados (65,4%). Os responsáveis pelas indicações foram familiares (51,2%) e médicos (33,1%), sendo a automedicação relatada por 20,8% dos estudantes. Não receberam orientações sobre o uso correto de medicamentos 70,9% dos alunos. Do total, 34,1% revelaram já terem sido influenciados por meios de comunicação na compra de medicamentos. É possível concluir que o conhecimento dos adolescentes sobre medicamentos e suas implicações na saúde é bastante incipiente e desprovido de qualquer noção básica sobre o uso racional deles. Além disso, os estudantes da rede pública são mais orientados sobre o uso correto de medicamentos, por parte dos profissionais do sistema público de saúde, o que demonstra a eficiência do sistema como promotor de saúde da população matriculada em escolas públicas de Fortaleza.

Palavras-chave: Automedicação, Adolescentes, Educação em saúde


ABSTRACT

The study aims to examine the knowledge of students of public and private schools in the city of Fortaleza, Ceará State, Brazil on the use of medicine and their health implications. It is a descriptive study of 722 adolescents enrolled in ten schools in the city of Fortaleza. He got up aspects of consumption, indication and guidance medicine and influence of the media using a questionnaire. Seventy two percent of the participants reported use of medicine the last 60 days, and painkillers were the most cited (65.4%). The indications were responsible for the family (51.2%) and physicians (33.1%), and the self-medication by 20.8% of the students. Regarding the use of medicine 70.9% of the students were not instructed on the proper use of the medicine. Of the total, 34.1% had already been influenced by media in the purchase of medicine. It's possible to conclude that teenagers' knowledge about medicine and its implications on health is very weak and devoid of any basic notion of the rational use of medicine. In addition, public school students are more oriented on the proper use of medicines by professionals in the public health system, which demonstrates the efficiency of the promoter of health of the population enrolled in public schools in Fortaleza.

Key words: Self-medication, Adolescents, Health education


 

 

Introdução

A saúde deixou de ser uma premissa existencial do ser humano, ao tornar-se campo da atividade econômica, decorrente de mudanças estruturais implantadas, objetivando a ampliação de mercado1. Segundo a Sociedade Brasileira de Vigilância de Medicamentos (Sobravime)2 , o medicamento como parte do complexo médico industrial influi na percepção da saúde e da doença, tanto nos profissionais da saúde quanto na sociedade. O medicamento não se apresenta sozinho como substância química mas está acompanhado por um cortejo de publicidade, informação, brindes, estudos, etc., configurando uma forma de pensar.

A automedicação é definida como o uso de medicamentos sem prescrição médica, sendo o próprio paciente quem decide qual é o fármaco a ser utilizado, com o objetivo de tratar ou aliviar sintomas ou mesmo de promover a saúde, independentemente da prescrição profissional3. Os medicamentos possuem forte valor simbólico para a população, transcendendo a sua atividade terapêutica, o que contribui para maior consumo e uso irracional destes4.

Consoante Lage et al.5, os medicamentos são reconhecidos como instrumentos indispensáveis às ações de saúde, ocupando papel central na terapêutica da atualidade. Conforme os mesmos autores, os fatores relacionados ao modo e utilização do medicamento refletem-se no efeito terapêutico. Bem assim, a orientação recebida no consultório médico é confrontada com outras fornecidas por diferentes profissionais da área da saúde, com aquelas obtidas por parentes, vizinhos e, também, nos meios de comunicação social. Esses confrontos podem levar ao uso inadequado desses produtos.

Os elevados índices de prescrição de antibióticos, a carência de orientação dos usuários por parte dos profissionais prescritores e dispensadores, as publicidades diretas ao consumidor final e o uso incorreto por parte do paciente constituem barreiras para a promoção do uso racional de medicamentos. No Brasil, há outros fatores que agravam este quadro; cerca de oitenta milhões de pessoas praticam a automedicação, há uma má qualidade de oferta de medicamentos, não se cumpre a obrigatoriedade da receita médica e há uma carência de informações e instrução da população em geral, o que justifica a preocupação em implementar as estratégias do uso racional de medicamentos6,7.

Visando minimizar os fatores citados, a Organização Mundial Saúde (OMS)8 estabeleceu como meta para a avaliação do uso de medicamentos e controle do seu consumo, com o objetivo de melhorar a racionalidade do uso nas próximas décadas.

Os estudos sobre automedicação em crianças e adolescentes brasileiros foram desenvolvidos em serviços de saúde ou constituíram-se em estudos de base populacional, sendo esses: (1) epidemiologia do consumo de medicamentos em crianças de centro urbano da região sul do Brasil9; (2) automedicação em pediatria geral10; (3) utilização de medicamentos por crianças atendidas em creches11; (4) epidemiologia do consumo de medicamentos no primeiro trimestre de vida em centro urbano do sul do Brasil12; (5) estudo da automedicação infantil em uma região administrativa no município do Rio de Janeiro13; (6) uso judicioso de medicamentos em crianças14 e (7) automedicação em crianças e adolescentes15. O que diferencia esta pesquisa das demais é o fato de ter sido realizada na escola, espaço que se apresenta apropriado para desenvolver ações de saúde e veicular informações educativas junto aos adolescentes, na tentativa de expandir saberes e conhecimentos de forma efetiva e abrangente sobre o uso racional de medicamentos.

Outra consideração importante é o fato de que o adolescente é portador de uma experiência de vida e se encontra formulando socialmente seu ponto de vista sobre determinados saberes, podendo este disseminar o conhecimento sobre o uso racional de medicamentos junto à família, amigos e sociedade.

Com base nestas considerações, este estudo questionou os adolescentes sobre a automedicação e a influência dos meios de comunicação, abordando, também, aspectos relativos ao consumo de medicamentos, os responsáveis pelas indicações e pelas orientações dadas sobre os fármacos utilizados.

Na tentativa de contribuir para o aprimoramento da temática, este ensaio deteve-se em analisar o conhecimento dos estudantes de escolas públicas e privadas do município de Fortaleza (CE) sobre o uso de medicamentos e suas implicações para a saúde.

 

Metodologia

Trata-se de um estudo transversal, de abordagem quantitativa. A pesquisa foi realizada em dez escolas do município de Fortaleza, sendo cinco mantidas por iniciativa pública e cinco privadas. No projeto inicial, estava prevista a inclusão de doze escolas (seis públicas e seis privadas), representando as seis Secretarias Executivas Regionais (SER) do município de Fortaleza; no entanto, por motivos de recusa de duas escolas, a pesquisa foi realizada em dez unidades escolares.

Os estabelecimentos de ensino estavam cadastrados em diferentes SER e foram tomadas aleatoriamente cinco destas secretarias, contanto que cada secretaria regional fosse contemplada por uma escola pública e uma particular que oferecessem ensino fundamental e médio.

A amostra constituiu-se de 722 adolescentes escolares, baseada na prevalência de automedicação em criança (41,4%)13. Foram escolhidos aleatoriamente alunos de treze a dezoito anos, matriculados na educação básica nas diferentes SER que aceitaram participar da investigação e encontravam-se presentes no momento da aplicação do instrumento de coleta de dados. No ano de 2006, o município de Fortaleza contava com 7.675 alunos matriculados nas dez escolas de educação básica.

A coleta de dados foi realizada de setembro de 2006 a outubro de 2007, usando-se um questionário contendo sete questões fechadas e cinco abertas, que abordavam aspectos relacionados às características sociodemográficas (idade, sexo, dependência administrativa, série, turno), conceito e finalidade de medicamento, justificativa de uso de medicamento sem receita médica, medicamentos utilizados nos últimos sessenta dias, responsáveis pela indicação e orientação sobre o uso correto destes, influência dos meios de comunicação, uso diário de medicamento em casa, transporte de medicamento para uso próprio, uso de medicamento a partir da leitura de bulas, uso de medicamento sem consulta médica, classes terapêuticas mais utilizadas e uso e indicação de antimicrobianos.

Para a montagem do banco de dados e análise dos resultados, utilizou-se o programa estatístico SPSS, versão 11.0. Realizou-se uma análise estatística descritiva simples. Para as variáveis categóricas, foi realizada uma análise de frequência absoluta e relativa, cujos resultados foram apresentados em forma de tabelas, considerando-se dois grupos: escola pública e escola privada.

Em atendimento a Resolução nº 196/96, do Conselho Nacional de Saúde16, que preconiza e regulamenta as pesquisas envolvendo seres humanos, esta pesquisa foi aprovada pelo Comitê de Ética e Pesquisa da UNIFOR. A autorização para aplicar o questionário foi obtido por meio do termo de consentimento livre e esclarecido, após apresentação e esclarecimento de todo o projeto aos adolescentes escolares ou responsáveis por eles.

 

Resultados

Participaram do estudo 722 adolescentes, sendo 450 (62,3%) estudantes de escolas mantidas por iniciativa pública e 272 (37,7%) de escolas privadas. O sexo feminino foi predominante, com 393 (54,4%) estudantes. Quanto à idade dos alunos, a faixa de variação foi de treze a dezoito anos e a maioria de 641 (88,7%) tinha idade entre quinze e dezoito anos. Quanto à série em curso, 63 (8,7%), 287 (39,8%), 191 (26,5%) e 181 (25,1%), correspondem, respectivamente, ao 9º ano do ensino fundamental, 1º, 2º e 3º anos do ensino médio. Estudavam no turno da manhã 596 (82,5%) participantes e 126 (17,5%), no turno da tarde.

Observa-se na Tabela 1 que 320 (46,9%) alunos definiram o medicamento como "substância química com objetivo de cura" e 215 (31,5%) conceituaram como "método de aliviar as doenças". Houve 56 (8,2%) alunos que denotaram o significado como "meio de combater sintomas de uma doença" e dezenove (2,8%) como "útil para prevenir doenças". As proporções dos conceitos dados por alunos de escolas públicas e privadas apresentaram semelhança de acordo com as respostas dos estudantes, nas quais se observa a ideia de cura associada ao uso do medicamento, cuja ingestão é referida como responsável pela melhoria do corpo acometido pelas doenças.

 

 

Na Tabela 1, também é possível observar as opiniões dos alunos referentes ao uso de medicamentos sem receita médica. Dentre os 669 participantes que responderam à pergunta, 114 (17,0%) acreditavam que isso ocorre porque as pessoas já possuem experiência com o medicamento, 97 (14,5%) defendiam a ideia de que a falta de informação e/ou orientação leva à realização de tal prática, 91 (13,6%) citaram a influência da televisão e amigos, 82 (12,3%) relataram a preguiça de ir ao médico ou pela praticidade, sendo essa resposta mais frequente em alunos das escolas privadas. A dificuldade no atendimento do SUS foi outra razão dada por 77 (11,5%) estudantes, principalmente aqueles de escola pública.

Quando questionados se podiam tomar medicamentos por conta própria, 393 responderam que "não". As principais justificativas foram poder apresentar efeitos adversos ou contrários do medicamento, com 96 citações, e causar danos à saúde, com sessenta, sendo a primeira afirmação a mais citada entre alunos de escolas públicas e a segunda a mais mencionada entre alunos de escolas privadas. Dos que afirmaram que podem tomar medicamentos por conta própria, 153 justificaram, relatando ser algo simples o que eles sentiam, 74 não justificaram as respostas, 54 citaram outras justificativas, onze o fazem porque possuem dificuldades de marcar a consulta (Tabela 1).

Em suas respostas, os estudantes da pesquisa revelaram que o custo elevado dos medicamentos prescritos pelos médicos e a dificuldade de acesso aos postos de saúde são fatores determinantes para a automedicação, como, também, demonstraram a banalização com que se referem aos medicamentos e a facilidade com que os adquirem sem a orientação de um profissional.

Pode-se observar que, dos participantes do estudo, 520 (72,0%) tinham feito uso de um ou mais medicamentos nos últimos sessenta dias, com predominância do sexo feminino (60,0%). Houve maior consumo por alunos da rede privada de ensino. Na Tabela 2, dentre as classes de medicamentos mais citadas, estavam os analgésicos, com 340 (65,4%) relatos, os antigripais, com 64 (12,3%), os antitérmicos, com 61 (11,7%) e os antimicrobianos, com 51 (9,8%). Acrescenta-se que os alunos referiram o uso de uma variedade de outros medicamentos com diversas indicações terapêuticas. As classes medicamentosas foram contabilizadas somente uma vez, nos casos em que foram utilizados dois ou mais medicamentos da mesma classe por alunos de escolas públicas e privadas.

 

 

Dos que fizeram uso de medicamentos, 266 (51,2%) tiveram indicações por parte de familia res, 172 (33,1%) de médicos e 108 (20,8%) foram por conta própria. A indicação por médicos (38,9%) e a automedicação (28,1%) foram maiores para alunos das escolas privadas em termos percentuais (Tabela 2).

Do total dos estudantes, 512 (70,9%) não receberam ou não se lembram de haver recebido orientações sobre o uso correto de medicamentos. Dos que foram orientados, 91 (43,3%) receberam a orientação de médicos, 82 (39,0%) de familiares, 44 (21,0%) na escola e 33 (15,7%) no posto de saúde. Os alunos de escolas do sistema público foram menos orientados pelos familiares e escolas, porém mais orientados por médicos do que os alunos de escolas da rede privada.

A Tabela 3 relata a influência que os meios de comunicação exerceram sobre os adolescentes no momento da escolha de um medicamento. Dos estudantes, 246 (34,1%) relataram que já fizeram uso de medicamentos influenciados pela mídia, sendo a televisão (TV) a mais citada, com 229 (93,1%) relatos, seguida dos jornais e revistas, com 05 (2,0%), o rádio, com 03 (1,2%), e outros, como, por exemplo, a Internet, com nove (3,7%). Quase a totalidade de adolescentes se mostrou influenciada pelos meios de comunicação.

 

 

Destaca-se que o sexo feminino mostra-se mais influenciado pela mídia. Das 126 (24,2%) adolescentes que utilizaram medicamentos para cólica, 76 (60,3%) fizeram uso do medicamento composto "dipirona sódica + cafeína anidra + citrato de orfenadrina" que, durante o período da coleta de dados, realizava o seu marketing através da mídia televisiva. Estes eram tomados, sem indicação, em 24 (31,6%) casos. Os familiares indicaram o medicamento "dipirona sódica + cafeína anidra + citrato de orfenadrina" em 21 (27,6%) casos (Tabela 3).

Quanto ao uso de antimicrobianos, 51 (9,8%) utilizaram essa classe de medicamentos, sendo o médico e familiares os maiores responsáveis pela indicação destes, com 22 casos (43,1%) cada um, seguidos da automedicação, com sete eventos (13,8%). As enfermidades mais relatadas pelos alunos foram dor na garganta ou virose (45,1%) e inflamação (25,5%). Os estudantes de escolas públicas tiveram maior número de indicações por parte dos familiares, ao contrário dos estudantes das escolas privadas, que tiveram um maior número de indicações por parte dos médicos (Tabela 4).

 

 

Em os locais mais citados para obtenção de medicamentos sem receita médica, 471 (66,2%) citaram a farmácia, 277 (38,9%) relataram conseguir em casa, 135 (19,0%) adquiriam com amigos, 122 (17,1%) obtinham com o médico ou posto de saúde, 121 (17,0%) compravam em supermercados/mercearias, havendo diferença significativa, em termos percentuais, entre alunos de escolas públicas (25,8%) e privadas (2,6%). Do restante, quinze (2,1%) obtinham os medicamentos nas escolas e trinta (4,2%) os adquiriam em outros locais. Dez participantes não responderam a esta questão; portanto, o total representa 712 sujeitos, que puderam optar por mais de uma resposta.

Dos estudantes, 314 (44,2%) ressaltaram que sempre liam a bula, 308 (43,3%) realizavam essa prática eventualmente e 89 (12,5%) jamais liam. No que concerne ao entendimento da orientação da bula, 329 (46,3%) responderam que entendiam bem, 44 (6,2%) não entendiam, 292 (41,1%) entendiam às vezes e 45 (6,3%) realmente não liam a bula. A maioria, 549 (76,8%) alunos, verificava a data de validade dos medicamentos.

 

Discussão

No presente estudo, 72,0% dos estudantes utilizaram medicamentos nos últimos sessenta dias. Em estudo similar com crianças e adolescentes realizado nos municípios de Limeira e Piracicaba, no estado de São Paulo, a prevalência estimada de automedicação foi de 56,6%. Ambas são superiores à prevalência de 49,7% encontrada por Arrais et al.17 em um estudo que abordou o consumo de medicamentos em adultos no município de Fortaleza. Esta diferença, no entanto, pode ser explicada pelo fato de que, nesta pesquisa, os participantes tinham idades entre treze e dezoito anos e o consumo de medicamentos foi avaliado considerando um período de sessenta dias, o que foi quatro vezes maior do que o relatado por outros autores que desenvolveram estudos em populações adultas.

Em outros estudos realizados por Bertoldi et al.18, em Pelotas, e por Vilarino et al.19, em Santa Maria, encontrou-se maior consumo por parte do sexo feminino, o que também foi constatado nesta e nas demais pesquisas18-20 .

A Lei nº 5.991/73 define medicamento "como todo produto farmacêutico, tecnicamente obtido ou elaborado, com finalidade profilática, curativa, paliativa ou para fins de diagnósticos". A maioria dos alunos (46,9%) definiu medicamento como "uma substância química com objetivo de cura", o que corrobora o dito por Lefèvre21 de que é perfeitamente possível se ver o medicamento como um signo cujo significado vai bem mais além da simples ideia, conceito de imagem mental de "saúde", implicando, também e, sobretudo, a própria realização e obtenção da saúde. A crença de que o medicamento simboliza a "saú de" influencia as pessoas à prática da automedicação, porém, o risco encontra-se inerente a esse processo. Nenhuma substância medicamentosa é inócua ao organismo, havendo para todas elas contraindicações e reações adversas, sendo o medicamento utilizado na forma correta ou de forma negligente, o que é outro fator agravante.

Apesar da grande diversidade das respostas, número significativo dos adolescentes (17,0%) afirmou que as pessoas tomavam medicamentos sem receita médica porque já possuíam experiência com o medicamento. Estudos evidenciam que aproximadamente 51,0% das decisões de se medicar são baseadas em prescrições anteriores22,23.

"A preguiça de ir ao médico e/ou praticidade" e "dificuldade no atendimento do SUS" foram respostas que apresentaram diferenças significativas, em termos percentuais, entre os estudantes de escolas públicas e privadas, podendo tais diferenças ser justificadas pelas condições socioeconômicas de cada grupo. Percebe-se que a automedicação é praticada pelos dois grupos, mas por motivos opostos. O grupo de estudantes de escolas particulares, que, provavelmente, tem acesso à rede privada de saúde, não faz uso desta, por praticidade ou preguiça, praticando assim a automedicação. Alunos de escolas públicas, no entanto, que, possivelmente, são usuários do SUS, realizam tal prática, por terem dificuldades de atendimento no sistema público de saúde. Esta análise revela que as condições socioeconômicas podem interferir na frequência em que a automedicação ocorre, porém não restringem o exercício da automedicação a nenhuma classe social.

Constatou-se que muitos adolescentes entendiam que se podem tomar medicamentos por conta própria, porém não justificaram tal asserção. Quanto aos riscos da automedicação, os estudantes relataram que sabiam ou sabiam parcialmente de tais riscos, mas grande parte não justificou a resposta. Esses dois fatos ressaltam a falta de informação e/ou orientação nesta temática, motivo relatado pelos estudantes como uma das razões para que as pessoas façam uso de medicamentos sem a prescrição médica.

As escolas aparecem como fonte de informação para 21,0%, fato demonstrativo de que nenhuma das redes de ensino está efetivamente tratando do tema transversal "saúde", definido nos Parâmetros Curriculares Nacionais24 desde 1997, elaborado após a promulgação da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB nº 9.394/9.625)25. A falta de conhecimento por parte dos estudantes sobre o uso de medicamentos mostra que tanto a rede privada de ensino quanto a rede pública não dispõe de profissionais preparados para trabalhar as questões que envolvem a saúde, uma vez que a formação dos professores não contemplou aspectos relativos a estas temáticas, nem a escola conta em seu quadro com profissionais da saúde.

Diante disso, percebe-se que se faz necessário o desenvolvimento de ações educativas em saúde na escola, no sentido de proporcionar ambientes educacionais mais saudáveis que promovam a saúde de todos os seus partícipes.

Os analgésicos foram os medicamentos mais citados pelos adolescentes (65,4%), fato que se mostrou semelhante a outros trabalhos desenvolvidos no país26-28. As classes de medicamentos encontradas já eram esperadas, já que os extremos etários são considerados os maiores consumidores de medicamentos26, sendo crianças e idosos mais susceptíveis a enfermidades que necessitam de terapias medicamentosas específicas, as quais exigem maior controle da posologia e tempo de tratamento.

Constatou-se que houve mais casos de indicação dos medicamentos por parte dos familiares (51,2%), seguido dos médicos (33,1%) e por conta própria (20,8%), sendo estas proporções obedecidas tanto para alunos das escolas particulares quanto para estudantes de escolas privadas. Diante deste fato, percebe-se a necessidade de informação acerca do tratamento e de medicamentos por parte dos pacientes e familiares. Tal informação deve provir de fontes fidedignas e atualizadas, o que, muitas vezes, não é possível apenas em bulários e propagandas29. A conscientização da comunidade é um pré-requisito para que sejam alcançados níveis elevados de saúde27.

Considerando o fato de que os alunos de escolas particulares possuíam melhores condições socioeconômicas e ensino de melhor qualidade, entende-se o maior consumo de medicamentos por esses participantes, tanto por indicações médicas (38,9%), como por automedicação (28,1%). O acúmulo de conhecimento e a disposição de maiores informações, que os auxiliam na escolha do medicamento, tornam o indivíduo mais confiante para se medicar28,29, porém a prática da automedicação também foi constatada em adolescentes da rede pública de ensino.

Apenas 29,1% dos alunos assinalaram já terem sido orientados sobre o uso correto de medicamentos, sendo o médico (46,3%) o mais referido pelas escolas públicas e os familiares (47,4%), pelas escolas particulares. Notou-se a pequena participação do farmacêutico (15,2%) nesse processo educativo, evidenciando que este profissional necessita conscientizar-se do seu papel na melhora da saúde pública, minimizando os riscos decorrentes da má utilização de medicamentos. Em estudo realizado por Arrais et al.30, apenas 25,8% de 833 pacientes receberam orientação sobre como tomar o medicamento no instante da dispensação.

A veiculação de campanhas publicitárias tendenciosas, cujos objetivos são meramente comerciais, estimula o consumo indiscriminado e crescente de medicamentos31. Dos participantes, 34,1% fizeram uso de fármacos influenciados por meios de comunicação. Das alunas que tomaram medicamentos para cólica, 60,3% fizeram uso do "dipirona sódica + cafeína anidra + citrato de orfenadrina", podendo haver relação entre o alto índice de uso e a propaganda televisionada deste produto, que ocorria durante a coleta de dados do presente estudo. A propaganda se torna perigosa, levando em conta a ideia de que induz à automedicação por pessoas que não têm atitude crítica na recepção da publicidade de medicamentos para reconhecer o limite do seu uso dentro da atenção à saúde5. Quando questionados sobre quem indicou o medicamento "dipirona sódica + cafeína anidra + citrato de orfenadrina", apenas 6,6% responderam haver sido os meios de comunicação, porém 59,2% revelaram que foram a família, os amigos ou automedicação, o que permite questionar-se sobre a influência da mídia.

O fato de medicamentos serem vendidos em locais inadequados foi detectado por este estudo. Os estudantes de escola pública relataram, em maior proporção (25,8%), o fato de que conseguiam medicamentos sem receita médica em supermercados e mercearias, enquanto apenas 2,6% dos alunos de escolas particulares relataram tal prática. A dispensação de medicamentos é privativa dos estabelecimentos autorizados e definidos pela Lei nº 5.99132, especificando farmácias, drogarias, postos de medicamento, unidades volantes e dispensário de medicamentos. Segundo Melo et al.33, a venda de medicamentos anódinos em supermercados e demais locais leigos pode engrossar as estatísticas de incidência de intoxicações medicamentosas e somente com uma fiscalização sanitária atuante, associada à educação da população, os perigos da automedicação poderiam tomar um rumo menos desastroso.

 

Considerações finais

Ao final do estudo, é possível concluir que a automedicação entre os adolescentes de escolas públicas e privadas de Fortaleza (CE) ocorre sem controle sanitário, familiar e institucional.

O conhecimento dos adolescentes sobre medicamento e suas implicações na saúde mostrou-se incipiente e desprovido de qualquer noção básica sobre o uso racional de medicamento. Sua concepção sobre medicamento tem sido influenciada pelo modelo biomédico: "combater sintomas" e "prevenir doenças", reflexo da visão descontextualizada do tema saúde nos espaços educacionais.

Chama atenção o fato de estudantes da rede pública receberem mais orientações sobre o uso correto de medicamentos por parte dos profissionais do sistema público de saúde, demonstrando a eficiência do sistema como promotor de saúde da população matriculada em escolas públicas de Fortaleza e a não utilização do sistema público de saúde pelos estudantes da rede particular de ensino.

Nas duas realidades educacionais, é notória a banalização da prática da automedicação na adolescência, particularmente entre as meninas, vislumbrando-se possíveis usuárias permanentes de medicamentos.

 

Colaboradores

IM Silva, AMF Catrib, VC de Matos e APS Gondim participaram igualmente de todas as etapas da elaboração do artigo.

 

Referências

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Artigo apresentado em 26/11/2008
Aprovado em 28/08/2009
Versão final apresentada em 12/11/2009