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Ciência & Saúde Coletiva

Print version ISSN 1413-8123

Ciênc. saúde coletiva vol.16 no.7 Rio de Janeiro July 2011

http://dx.doi.org/10.1590/S1413-81232011000800029 

TEMAS LIVRES FREE THEMES

 

Prevalência da síndrome metabólica e seus fatores associados em área rural de Minas Gerais (MG, Brasil)

 

Prevalence of metabolic syndrome and its associated factors in a rural area of Minas Gerais State (MG, Brazil)

 

 

Adriano Marçal Pimenta; Andréa Gazzinelli; Gustavo Velásquez-Meléndez

Departamento de Enfermagem Materno-Infantil e Saúde Pública, Escola de Enfermagem, Universidade Federal de Minas Gerais. Avenida Professor Alfredo Balena 190 Santa Efigênia. 30130-100 Belo Horizonte MG. adrianomp@ufmg.br

 

 


ABSTRACT

OBJECTIVE: To estimate the metabolic syndrome (MS) prevalence and its associated factors in rural communities of Minas Gerais State.
METHODS: This is a cross-sectional and populational based study, conducted in Virgem das Graças and Caju, which are located in Jequitinhonha Valley, Minas Gerais State. Information on demographic, lifestyle, anthropometric, biochemical and hemodynamic characteristics were collected of 534 adults. The MS was defined according to National Cholesterol Education Program - Adult Treatment Panel III criteria. The independent associations between co-variables and MS were evaluated using the multivariate Poisson regression with robust variances. The statistical level of significance was set at 5.0%.
RESULTS: MS was diagnosed in 14.9% of the subjects. Female sex, obesity, chronic subclinical inflammation, insulin resistance, age, and moderate alcohol consumption remained independently associated with MS.
CONCLUSIONS: In a rural population studied, MS was a Public Health concern, associated with modifiable factors. Therefore, primary preventive actions could be used to reduce the prevalence of this disease and its impact on people's health.

Key words: Metabolic syndrome x, Rural population, Obesity, Inflammation, Insulin resistance, Alcohol drinking


RESUMO

OBJETIVO: Estimar a prevalência da síndrome metabólica (SM) e seus fatores associados em área rural de Minas Gerais.
METODOLOGIA: Trata-se de um estudo transversal, de base populacional, conduzido nas comunidades rurais de Virgem das Graças e Caju, Vale do Jequitinhonha, Minas Gerais. Foram coletas informações sobre características demográficas, do estilo de vida, antropométricas, bioquímicas e hemodinâmicas de 534 participantes adultos. A SM foi definida segundo critérios estabelecidos pela National Cholesterol Education Program - Adult Treatment Panel III. Associações independentes entre as covariáveis e a SM foram avaliadas usando-se a regressão multivariada de Poisson com variâncias robustas. O nível de significância estatística foi estabelecido em 5,0%.
RESULTADOS: A SM estava presente em 14,9% dos participantes. O sexo feminino, a obesidade, a inflamação crônica subclínica, a resistência à insulina, a idade e o consumo moderado de bebida alcoólica permaneceram independentemente associados à SM. CONCLUSÕES: Na população rural estudada, a SM era problema de Saúde Pública, associada a fatores modificáveis. Portanto, medidas preventivas primárias poderiam ser usadas para diminuir a prevalência deste agravo e o seu impacto na saúde das pessoas.

Palavras-chave: Síndrome x metabólica, População rural, Obesidade, Inflamação, Resistência à insulina, Consumo de bebidas alcoólicas.


 

 

Introdução

A síndrome metabólica (SM) é caracterizada pela agregação de anormalidades fisiopatológicas, tais como a obesidade, a dislipidemia, a resistência à insulina (RI), a hiperinsulinemia, a intolerância à glicose e a hipertensão arterial1.

A proporção de pessoas acometidas pela SM é alta em vários países do mundo, ultrapassando 20,0% do total da população adulta, tanto em áreas rurais quanto urbanas1,2. No Brasil, prevalências semelhantes a esta foram observadas em inquéritos epidemiológicos isolados com delineamento transversal3,4. No distrito rural de Cavunge, município de Ipecaetá, semi-árido baiano, a SM estava presente em 30,0% dos indivíduos5.

O estudo da SM também é relevante devido a sua forte associação ao diabetes mellitus tipo 2 (DM 2)6 e às doenças cardiovasculares (DCV)7, que estão entre os mais importantes problemas de Saúde Pública da população mundial.

No Brasil, em 2005, aproximadamente 8 milhões de pessoas tinham diabetes, e 90,0% a 95,0% dos casos eram do tipo 28. Nesse mesmo ano, as DCV foram responsáveis por 31,5% do total de óbitos, constituindo-se na principal causa de morte9.

Determinantes da SM têm sido identificados em estudos epidemiológicos, com destaque para os fatores demográficos (idade, sexo e cor de pele negra), socioeconômicos (baixa renda e baixa escolaridade), do estilo de vida (tabagismo, consumo de bebidas alcoólicas, sedentarismo e ingestão de alimentos de alto valor energético), antropométricos (Índice de Massa Corporal [IMC]) e inflamatórios (proteína C-reativa [PCR])10,11. Entretanto, essas associações não foram confirmadas sistematicamente na população rural brasileira. 

Nesse cenário, estudos de confirmação e esclarecimento sobre os determinantes da SM na população rural brasileira são de interesse científico e de Saúde Pública, já que grupos prioritários e aspectos comportamentais passíveis de modificação podem ser identificados, fornecendo subsídios para o planejamento em saúde com o intuito de diminuir a sua magnitude e, consequentemente, o impacto do DM 2 e das DCV nos habitantes dessa região.

Portanto, o objetivo deste estudo foi estimar a prevalência da SM e seus fatores associados em comunidades rurais de Minas Gerais.

 

Métodos e técnicas

Desenho e população do estudo

Trata-se de um estudo epidemiológico, observacional, de delineamento transversal e base populacional, realizado entre novembro de 2004 e março de 2005 nas comunidades de Virgem das Graças e Caju, respectivamente, áreas rurais dos municípios de Ponto dos Volantes e Jequitinhonha, ambos localizados na região do Vale do Jequitinhonha, nordeste do Estado de Minas Gerais. Esses locais foram escolhidos porque neles as populações já estavam cadastradas e os moradores eram sujeitos de um projeto interinstitucional mais amplo denominado "Fatores de risco cardiovasculares, doenças crônicas e hereditabilidade em área rural de Minas Gerais".

As características econômicas da população estudada demonstram um perfil basicamente agrícola, sendo a principal fonte de renda das famílias as atividades relacionadas à plantação e cultivo de mandioca, milho, feijão e arroz. A criação de gado, o garimpo e a mineração também são realizados por algumas pessoas da região.

Em Virgem das Graças e Caju as casas são construções simples, feitas com tijolo de barro e telhas. Algumas possuem energia elétrica e água encanada não tratada, proveniente de nascentes ou de barragem, e não apresentam rede de esgoto.

O cadastro dos moradores da região, realizado pelos pesquisadores do projeto interinstitucional citado anteriormente, mostrava que residiam nessas comunidades 272 famílias, totalizando 1.216 indivíduos. Desses, 522 foram excluídos porque eram menores de 18 anos. Na época da coleta de dados, certificou-se, ainda, que 33 pessoas tinham mudado para outras localidades e 6 haviam falecido. Assim, restaram 655 sujeitos para a pesquisa. Desse total, houve uma perda de 61 pessoas (9,3%), reduzindo a amostra para 594 indivíduos (90,7% do total de adultos cadastrados inicialmente), porque 47 não se encontravam no local durante a coleta de dados e 14 recusaram-se a participar do estudo.

Foram excluídas ainda 15 mulheres grávidas; 12 indivíduos diabéticos; 31 pessoas com PCR acima de 10 mg/l, por ser um valor indicativo de uma possível infecção e/ou estado inflamatório agudo12; e 2 indivíduos com incapacidade física que impossibilitava a aferição de suas características antropométricas. Portanto, a amostra final para este estudo constituiu-se de 534 pessoas.

Coleta de dados

Pesquisadores treinados realizaram entrevistas face a face, utilizando um questionário que continha perguntas relativas a aspectos demográficos, socioeconômicos e do estilo de vida. 

As seguintes variáveis foram investigadas: idade em categorias de faixa etária (18-29, 30-39, 40-49, 50-59, 60 e mais); cor de pele (branca, parda/negra); estado marital (com ou sem cônjuge); escolaridade em anos de instrução (analfabeto, 1-4, 5-8, 9 e mais); tabagismo (fumante, ex-fumante, não-fumante); e consumo de bebida alcoólica em gramas de etanol/dia (não consome; 0,1-20,0 gramas/dia; 20,0 e mais gramas/dia), adaptando-se a metodologia empregada em outros estudos ao nosso questionário de ingestão de bebidas alcoólicas13.

Ao final da entrevista, procedeu-se uma avaliação clínica que incluiu medidas antropométricas e aferição da pressão arterial, de acordo com recomendações padronizadas14,15. As medidas foram repetidas 3 vezes e, em seguida, registrados os valores médios.

Para a análise bioquímica, foram coletadas amostras de sangue por meio de punção venosa, estando o sujeito em jejum de 12 horas. Essas amostras foram individualmente identificadas e enviadas ao laboratório de análises clínicas, situado na cidade de Belo Horizonte, no mesmo dia da coleta, seguindo especificações técnicas recomendadas para evitar danos ao material biológico.

Antropometria

O peso foi aferido por meio de uma balança digital (Modelo PL 150, Filizola Ltda., Brasil) com aproximação de 0,1 kg. Os indivíduos foram colocados no centro da plataforma do aparelho, usando roupas leves, sem meias e sapatos. A altura foi mensurada com uma fita métrica inextensível, fixada em uma parede sem rodapé a uma distância de 50,0 cm do chão. Os sujeitos, sem sapatos e sem meias, foram posicionados de pé e de costas para a fita métrica, com os pés paralelos e os tornozelos juntos. A região glútea, ombros e a parte posterior da cabeça tocavam a parede e os braços permaneciam soltos ao longo do corpo.

Com a mão sob o queixo do indivíduo, posicionou-se sua cabeça de forma que a parte inferior da órbita ocular estivesse no mesmo plano do orifício externo do ouvido (plano de Frankfurt). Apoiou-se um esquadro no topo da cabeça sem empurrar a mesma para baixo. A medida foi realizada com aproximação de 0,1 cm. O índice de massa corporal (IMC) foi calculado usando-se a fórmula: IMC = peso (kg) / altura2 (m) e classificado de acordo com os pontos de corte estabelecidos pela Organização Mundial de Saúde (OMS)16.

Para aferição da circunferência da cintura (CC), o indivíduo permaneceu em pé com o abdome relaxado e desnudo, braços soltos e os pés juntos. A fita métrica inelástica foi colocada ao redor do sujeito em um plano horizontal, posicionando-a no ponto médio entre a parte inferior do último arco costal e a parte superior da crista ilíaca ântero-superior. A medida foi aferida ao final de uma expiração normal com aproximação de 0,1 cm.

Pressão arterial

A pressão arterial foi determinada por um método indireto, usando-se um esfigmomanômetro de mercúrio e de acordo com as recomendações da Sociedade Brasileira de Cardiologia15. As medidas foram feitas três vezes no braço direito do sujeito, com um intervalo de 2 minutos entre cada uma delas.

Análise bioquímica

As concentrações do colesterol total, triglicérides e glicose foram determinadas por um método enzimático colorimétrico, utilizando o analisador COBAS MIRA PLUS (Roche Diagnostics, Suíça). A concentração de HDL-c foi medida após precipitação das frações de LDL-c e VLDL-c pelo ácido fosfotungstico e cloreto de magnésio. Os níveis de LDL-c foram calculados por aplicação da equação de Friedewald17 [LDL-c = colesterol total - (HDL-c + triglicérides/5)], uma vez que não havia valores de TG > 400 mg/dl. 

As concentrações de PCR e insulina foram determinadas por um método de alta sensibilidade quimioluminescente, usando o analisador IMMULITE 2000 (EURO/DPC Ltda., Reino Unido).

A inflamação crônica subclínica foi caracterizada por níveis de PCR no 4º quartil da distribuição dessa variável na população estudada.

No que diz respeito à RI, ela foi avaliada pelo índice Homeostasis Model Assessment-Insulin Resistance (HOMA-IR)18, calculado por meio da seguinte equação: HOMA-IR = insulinemia de jejum (µU/ml) x glicemia de jejum (mmol/l)/22,5.

Foram identificadas como resistentes à insulina as pessoas com os valores de HOMA-IR no 4° quartil da distribuição dessa variável na população estudada.

 

Definição da síndrome metabólica

A síndrome metabólica foi definida de acordo com os critérios propostos pela National Cholesterol Education Program - Adult Treatment Panel III (NCEP-ATP III), que exige a presença de três ou mais dos seguintes componentes19: obesidade central (CC > 102 cm para homens e > 88 cm para mulheres), hipertrigliceridemia (TG > 150 mg/dl), baixo HDL-c (HDL-c < 40 mg/dl para homens e < 50 mg/dl para mulheres), hipertensão arterial (pressão arterial sistólica [PAS] > 130 mmHg e/ou pressão arterial diastólica [PAD] > 85 mmHg e/ou tratamento para hipertensão arterial), hiperglicemia (glicemia de jejum > 100 mg/dl). 

Análise estatística

A população estudada foi caracterizada com a apresentação das frequências absolutas e relativas das variáveis demográficas, socioeconômicas, do estilo de vida, antropométricas, bioquímicas, da SM e seus componentes segundo o sexo. As diferenças estatísticas foram avaliadas usando-se os testes de qui-quadrado de Pearson ou exato de Fisher, com um nível de significância de 5,0% (p<0,05).

O processo de modelagem baseou-se em duas etapas. Inicialmente, foram selecionadas as variáveis que apresentaram um p-valor < 0,25 na análise bivariada. Posteriormente, realizou-se uma análise multivariada na qual foi empregada a técnica de regressão de Poisson com variâncias robustas. As magnitudes das associações foram estimadas pelo cálculo da Razão de Prevalência (RP), adotando-se o intervalo de confiança a 95% como medida de precisão. Foram mantidas no modelo final as variáveis que mostraram níveis de significância estatística menor do que 5%.

A avaliação da qualidade do modelo final foi feita pelo cálculo do seu coeficiente de determinação (R2); pelas aplicações do teste da bondade (goodness-of-fit test) e do linktest; e pela análise dos resíduos, baseando-se principalmente nos pontos influenciais. Também foram testadas a colinearidade e a interação entre as variáveis que permaneceram no modelo final.

Para o processamento e análise dos dados, utilizou-se o software STATA (versão 9.0).

Questões éticas

O estudo foi aprovado pela Comissão de Ética em Pesquisa da Universidade Federal de Minas Gerais, de acordo com a Declaração de Helsinki e a Resolução 196/96 do Conselho Nacional de Saúde20. Todos os indivíduos que fizeram parte do estudo foram informados sobre os objetivos da pesquisa e sobre seus direitos como participantes e, voluntariamente, assinaram o termo de consentimento.

 

Resultados

A população estudada foi constituída de 534 pessoas, sendo 270 homens (50,6%) e 264 mulheres (49,4%).

Do total de pessoas, 11,6% tinham obesidade abdominal, 15,2% apresentavam hipertrigliceridemia, 44,1% tinham baixos níveis de HDL-c, 10,6% apresentavam hiperglicemia e 59,7% eram hipertensos. Foram observadas maiores prevalências de obesidade abdominal e baixos níveis de HDL-c entre as mulheres (Tabela 1).

 

 

A prevalência da SM foi maior no sexo feminino (RP = 3,58; IC 95%: 2,11 - 6,05), e aumentou diretamente com a idade (p de tendência linear < 0,001). Por outro lado, a prevalência da SM foi menor nas pessoas com 9 ou mais anos de escolaridade (RP = 0,22; IC 95%: 0,06 - 0,90), tabagistas (RP = 0,54; IC 95%: 0,31 - 0,93) e que consumiam bebida alcoólica (RP = 0,24; IC 95%: 0,08 - 0,73 para consumo de etanol entre 0,1 e 20 gramas/dia; RP = 0,25; IC 95%: 0,06 - 0,97 para consumo de etanol maior de 20 gramas/dia) (Tabela 2).

 

 

A prevalência da SM foi muito alta entre as pessoas com sobrepeso (RP = 5,46; IC 95%: 3,33 - 8,94) e obesidade (RP = 10,39; IC 95%: 6,44 - 16,77). A prevalência da SM foi maior nos indivíduos com LDL-c > 160 mg/dl (RP = 2,98; IC 95%: 1,95 - 4,56), HOMA-IR > 4º quartil (RP = 3,28; IC 95%: 2,13 - 5,05), e PCR > 4º quartil (RP = 2,32; IC 95%: 1,46 - 3,73) (Tabela 3).

 

 

Na Tabela 4 são apresentados os resultados da análise de regressão multivariada de Poisson com variâncias robustas. O sexo feminino (RP = 2,20; IC 95%: 1,33 - 3,62), a obesidade (IMC > 30 kg/m2; RP = 3,03; IC 95%: 2,05 - 4,48), a PCR > 4º quartil (RP = 1,56; IC 95%: 1,05 - 2,31), o HOMA-IR > 4º quartil (RP = 1,92; IC 95%: 1,28 - 2,88), a idade (RP = 7,06; IC 95%: 2,62 - 19,04 para a comparação entre pessoas com 60 e mais anos e pessoas com 18 a 29 anos) e o consumo moderado de bebida alcoólica (0,1 a 20,0 gramas de etanol/dia; RP = 0,26; IC 95%: 0,09 - 0,73) permaneceram independentemente associados à SM, após a análise multivariada dos dados. Não foram observadas interações significativas entre as variáveis que permaneceram no modelo final.

 

 

Discussão

A SM foi diagnosticada em 14,9% dos participantes deste estudo, frequência inferior à da área rural de Cavunge - Bahia (30,0%)5, de uma amostra de moradores da região metropolitana de Salvador - Bahia (19,0%)3 e do município de Vitória - Espírito Santo (29,8%)4. Em comunidades rurais ao redor do mundo, a proporção de indivíduos com a SM é frequentemente superior a 30,0%2.

Apesar da menor magnitude da SM em relação às observadas nas investigações citadas anteriormente, não se pode deixar de considerá-la um problema de Saúde Pública na população estudada, particularmente, entre as mulheres, cuja prevalência do agravo foi quase três vezes maior do que nos homens (23,3% versus 6,5%). Esse achado é congruente ao de outras pesquisas realizadas em áreas rurais, seja em âmbito nacional5 ou internacional2.

Neste estudo, a alta prevalência da SM nas mulheres está relacionada ao fato delas terem maiores proporções de obesidade abdominal e baixos níveis de HDL-c, anormalidades que estavam presentes nas combinações mais frequentes de três ou mais componentes da SM (dados não apresentados). Adicionalmente, as mulheres apresentavam altas prevalências de hiperinsulinemia, RI e inflamação crônica subclínica. Além disso, resultados preliminares de uma recente pesquisa conduzida nas comunidades rurais estudadas indicam maiores taxas de sedentarismo nos domínios de lazer e de trabalho no sexo feminino21.

Outros autores ressaltam que em populações com escassos recursos socioeconômicos, como a do presente estudo, as mulheres constituem-se no grupo mais vulnerável para a ocorrência de doenças crônicas não-transmissíveis por apresentarem maiores taxas de sedentarismo, obesidade e alterações metabólicas2,22.

No presente trabalho, além do sexo feminino, a idade, o consumo moderado de bebida alcoólica, a obesidade global, a resistência à insulina e a inflamação crônica subclínica permaneceram independentemente associados à SM, após o ajuste multivariado dos dados.

Os resultados deste estudo mostram um aumento da prevalência da SM diretamente com a idade. Essa associação foi confirmada em estudos com delineamento transversal23 e longitudinal10. O envelhecimento, naturalmente, ocasiona uma diminuição da taxa metabólica basal, provocando um menor gasto energético e predisposição às obesidades global e abdominal24, que, entre outros fatores, têm papel primordial na fisiopatologia da SM25.

Neste estudo, a prevalência da SM aumentou diretamente com o IMC, atingindo quase 70,0% dos indivíduos com obesidade global (IMC > 30 kg/m2), resultados também encontrados em investigações de delineamento longitudinal, que demonstraram que o IMC é um importante preditor da SM10.

O IMC é uma medida de obesidade global, relacionada aos distúrbios metabólicos. Entretanto, associações mais fortes e independentes são observadas com a obesidade abdominal26.

A CC é uma medida de obesidade abdominal, simples de ser executada e altamente correlacionada à gordura visceral26, que é mais sensível a estímulos lipolíticos e tem uma maior atividade lipogênica que a gordura acumulada nos outros compartimentos corporais. Além disso, os produtos da lipólise da gordura visceral chegam diretamente ao fígado através da veia-porta hepática, ao contrário de outros depósitos de gordura que drenam para a circulação sistêmica. O fluxo de substâncias liberadas pelo tecido adiposo visceral para o fígado acarreta mais rapidamente num aumento da gliconeogênese e da secreção de VLDL-c, numa diminuição da depuração hepática de insulina e da RI25.

Diante desse quadro, alguns grupos internacionais optaram por incorporar a medida da CC como componente da SM, caso da NCEP-ATP III19, cuja definição foi usada neste estudo.

Por outro lado, em alguns trabalhos foi mostrado que a obesidade abdominal aferida pela CC está fortemente correlacionada à adiposidade global identificada pelo IMC. Dessa maneira, na mais recente definição da SM sugerida pela IDF é preconizado o uso dos níveis altos da CC e/ou o IMC > 30 kg/m2 como componente obesidade27.

Neste estudo, a correlação entre a obesidade abdominal aferida com a CC e a obesidade global foi de apenas 54,4% (p<0,001), e a concordância entre esses critérios diagnósticos de obesidade foi moderada (índice Kappa = 0,50; p<0,001) (dados não apresentados).

Além disso, 41,0% dos indivíduos sem obesidade abdominal tinham SM, e a prevalência desse agravo aumentou conforme o IMC, sendo particularmente alta nas pessoas com sobrepeso (17,9%) (dados não apresentados). Esses resultados são corroborados por St-Onge et al.28, que também observam frequentemente a SM em indivíduos com sobrepeso ou obesidade global e níveis normais de CC.

Na Itália, indivíduos com obesidade global e que também tinham obesidade central apresentavam um risco muito maior de desenvolver a SM em cinco anos comparados com as pessoas que tinham somente obesidade abdominal ou obesidade global29. Dessa forma, verifica-se que os efeitos da obesidade global e da obesidade abdominal são aditivos para a ocorrência da SM.

A associação independente entre a RI e a SM observada neste estudo é altamente relevante, pois a alteração da sensibilidade à insulina é considerada elemento central na etiologia da síndrome25 e a definição da NCEP-ATP III não incorpora nenhuma medida capaz de detectar essa anormalidade. Assim, demonstra-se que uma definição simples da SM não fundamentalmente necessita da inclusão de testes clínicos e laboratoriais complexos.

Resultados de estudos de delineamento longitudinal apontaram que o índice HOMA-IR é capaz de predizer a ocorrência da SM segundo a definição da NCEP-ATP III. Essa medida de RI já foi validada diante do padrão-ouro, clamp euglicêmico hiperinsulinêmico30.

Na presente investigação, a prevalência da SM foi maior nos indivíduos com inflamação crônica subclínica. Investigações com desenho prospectivo têm apontado os níveis altos de PCR como um preditor independente para a ocorrência da SM11.

A PCR é uma proteína de fase aguda, cálcio-dependente, da família das pentraxinas. Ela apresenta meia-vida longa e eleva-se rapidamente no plasma em resposta ao trauma, à inflamação e à infecção. Sua síntese ocorre primariamente no fígado devido ao estímulo desencadeado pela IL-6, TNF-α e outras citocinas pró-inflamatórias. Dessa maneira, a PCR é considera um importante marcador inflamatório1.

A complexa rede de associações entre a inflamação, a RI e a SM baseia-se no fato de que citocinas pró-inflamatórias liberadas em grande quantidade pelo tecido adiposo expandido, particularmente a IL-6 e o TNF-α, estão interligadas no quadro fisiopatológico da SM1.

O TNF-α e a IL-6 aumentam a fosforilação dos substratos IRS-1 e IRS-2 em resíduos de serina, reduzindo a capacidade de ambos em interagir com o receptor da insulina e bloqueando a associação dos mesmos com a PI 3-quinase. Assim, ocorre uma diminuição no translocamento do GLUT-4 para a membrana celular, e, consequentemente, decréscimo na captação da glicose e RI1,11,31. O TNF-α e a IL-6 também reduzem a atividade da lipase lipoprotéica, levando à diminuição na captação de ácidos graxos pelos adipócitos, e aumenta a atividade da lipase hormônio sensível, elevando a mobilização de ácidos graxos das células do tecido adiposo. Dessa maneira, o TNF-α e a IL-6 contribuem para a hiperlipidemia presente na SM31.

Neste trabalho, as pessoas que tinham um consumo moderado de bebida alcoólica apresentaram menores prevalências da SM.

Resultados de estudos com delineamento longitudinal indicam que o consumo moderado de bebida alcoólica diminui o risco de ocorrência da SM10,32. Uma das explicações para esse achado é o fato do consumo de álcool associar-se independentemente com o aumento dos níveis plasmáticos de HDL-c32. No presente trabalho, as pessoas que consumiam bebida alcoólica moderadamente apresentavam menores proporções de baixos níveis de HDL-c, RI e SM do que indivíduos que não a ingeriam ou a consumiam em excesso (dados não apresentados).

Este estudo apresenta algumas limitações que devem ser apreciadas para a interpretação e a validade de seus resultados: a) a validade externa de nossos achados deve ser interpretada cautelosamente, porque as comunidades rurais estudadas podem não representar a população rural brasileira, pelo fato da amostra não ter um caráter probabilístico; b) por se tratar de um estudo transversal, a segurança na relação de temporalidade e causalidade entre as variáveis envolvidas fica diminuída, caráter intrínseco desse tipo de delineamento.

Por outro lado, podem ser destacados alguns pontos que favorecem a validade deste estudo: a) medidas aferidas por técnicas apropriadas, confiáveis e realizadas por entrevistadores treinados rigorosamente; b) ajuste de variáveis por meio de técnica de análise multivariada adequada para o tipo de delineamento do estudo; c) níveis de força de associação altos.

Por fim, vale ressaltar que, em virtude da associação entre fatores modificáveis e a SM, medidas preventivas primárias podem ser usadas de maneira efetiva para diminuir a prevalência desse agravo e o seu impacto na saúde dos moradores das comunidades rurais estudadas, tais como o aumento da incidência de diabetes mellitus tipo 2 e das doenças cardiovasculares. Entre essas ações, destaca-se o controle da obesidade que, potencialmente, melhoraria o perfil lipídico, inflamatório e de resistência à insulina.

 

Colaboradores

AM Pimenta, A Gazzinelli e G Velásquez-Meléndez participaram igualmente de todas as etapas da elaboração do artigo.

 

Agradecimentos

Agradecemos à Fundação de Amparo à Pesquisa de Minas Gerais (FAPEMIG) e ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) pelo apoio financeiro para a realização deste estudo.

 

Referências

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Artigo apresentado em 21/07/2009
Aprovado em 21/12/2009
Versão final apresentada em 11/01/2010

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