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Ciência & Saúde Coletiva

Print version ISSN 1413-8123

Ciênc. saúde coletiva vol.16 no.8 Rio de Janeiro Aug. 2011

http://dx.doi.org/10.1590/S1413-81232011000900026 

REVISÃO

 

A poluição do ar em ambientes internos e a síndrome dos edifícios doentes

 

Air pollution in internal environments and sick building syndrome

 

 

Waldir Nagel Schirmer; Lucas Bischof Pian; Mariani Sílvia Ester Szymanski; Mayara Ananda Gauer

Departamento de Engenharia Ambiental, Universidade Estadual do Centro-oeste. Rodovia PR 153 Km 07, Bairro Riozinho. 84500-000 Irati PR. wanasch@yahoo.com.br

 

 


RESUMO

A Qualidade do Ar Interno (QAI) surgiu como ciência a partir da década de 70 com a crise energética e a consequente construção dos edifícios selados (desprovidos de ventilação natural), principalmente nos países desenvolvidos, e se destacou após a descoberta de que a diminuição das taxas de troca de ar nesses ambientes era a grande responsável pelo aumento da concentração de poluentes no ar interno. Admite-se que a ventilação seja um dos principais fatores que interferem na qualidade do ar interno e que os próprios ocupantes dos edifícios contribuem substancialmente com a poluição destes ambientes através de suas atividades. Sabe-se ainda que a má qualidade do ar interno está associada a doenças (como tosse, rinite, alergia, etc.) e à Síndrome dos Edifícios Doentes (SED). Para amostragem de substâncias gasosas no ar de ambientes internos dispõe-se de diversas metodologias, sendo as principais: sistemas passivos de monitoramento, sistemas ativos e automáticos. Para a efetiva promoção de um ambiente saudável, deve-se conciliar a aplicação de legislações específicas com pesquisas e conscientização dos ocupantes dos edifícios. Essa revisão objetiva relacionar os diferentes contaminantes encontrados em ambientes internos, seus efeitos à saúde humana e suas metodologias de amostragem.

Palavras-chave Poluição do ar, Qualidade do ar interno, Síndrome dos edifícios doentes


ABSTRACT

Indoor Air Quality (IAQ) emerged as a science from the 1970s onwards with the energy crisis and the subsequent construction of sealed buildings (without natural ventilation). This mainly occurred in developed countries and it soon came to public attention that lower levels of air exchange in these environments was the main culprit for the increase in concentration of indoor air pollutants. It is common knowledge that ventilation is one of the principal factors that interfere with air quality in indoor environments and that the occupants contribute to the pollution of these environments with their activities. Furthermore, poor indoor air quality is associated with some diseases (cough, rhinitis, allergy, etc.) and with Sick Building Syndrome (SBS). For sampling of the indoor contaminants there are several methodologies, available including passive monitoring systems, active and automatic systems. To ensure a healthy indoor environment, the application of specific legislation needs to be reconciled with research and fostering awareness among the occupants of such buildings. This survey seeks to identify the different contaminants found in internal environments, their effects on human health and the methodologies available for sampling them.

Key words Air pollution, Indoor air quality, Sick building syndrome


 

 

Introdução

Entende-se por ar interno aquele de áreas não industriais, como habitações, escritórios, escolas e hospitais1. O estudo de sua qualidade é importante para garantir saúde aos ocupantes dos diferentes edifícios, bem como o ótimo desempenho de suas atividades2.

A preocupação com a Qualidade do Ar Inter-no (QAI) surgiu principalmente com a tendência em se construir edifícios selados por motivos estéticos, controle de ruído e mesmo climatização, o que acabou provocando um aumento nos casos de problemas relacionados à qualidade do ar de tais ambientes3.

O interesse por estudos sobre a QAI surgiu após a descoberta de que a diminuição das taxas de troca de ar nesses ambientes era a grande responsável pelo aumento da concentração de poluentes biológicos e não biológicos no ar interno. Essa preocupação se justifica uma vez que grande parte das pessoas (em torno de 80-90%) passa a maior parte do seu tempo dentro destes edifícios e, consequentemente, exposta aos poluentes destes ambientes4-6.

Estudos da Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos (EPA) indicam que os níveis de concentração de poluentes podem ser de duas a cinco vezes maiores em ambientes internos do que nos externos, mesmo em cidades altamente industrializadas. Esse fato, juntamente com o tempo de permanência em ambientes internos, faz com que os riscos à saúde humana sejam muito maiores nesses locais7.

De acordo com os padrões da Organização Mundial de Saúde (OMS), mais da metade dos locais fechados como empresas, escolas, cinemas, residências e até hospitais tem ar de má qualidade. Essa baixa qualidade é causada, principalmente, pela má higienização dos aparelhos de ar condicionado e pela falta de controle periódico sobre as possíveis fontes de contaminação8.

Conforme Carmo e Prado9, vários poluentes como monóxido e dióxido de carbono, amônia, óxido de enxofre e nitrogênio, são produzidos dentro do edifício por materiais de construção, materiais de limpeza, mofo, atividades domésticas (cozinhar, lavar e secar roupas), entre outros. Os próprios ocupantes dos edifícios contribuem substancialmente com a poluição de ambientes internos, tanto pela respiração e transpiração, como pelo transporte de microorganismos potencialmente causadores de doenças. Isso sem falar no cigarro, um dos principais vilões de qualquer ambiente6. Brickus e Aquino Neto6, salientam ainda que a importância da qualidade do ar interno ganhou projeção na mídia brasileira, principalmente depois que o Governo Federal, em 1996, proibiu o fumo em lugares fechados de uso coletivo, tendo por base estudos realizados por agências internacionais10. Mas ressaltam o fato de que essa preocupação pode levar a crer que a fumaça do tabaco é a grande e única culpada pela má qualidade do ar interno.

Segundo Jones11, admite-se que a ventilação seja um dos principais fatores que interferem na qualidade do ar interno. Sendo uma das principais ferramentas no controle da qualidade do ar desse ambientes, a ventilação é definida como a combinação de processos que resultam não só no fornecimento de ar externo, mas também na retirada do ar viciado, carregado de poluentes, de dentro do edifício. Basicamente os processos que envolvem a ventilação são: a entrada do ar externo, condicionamento e mistura do ar por todo o edifício e exaustão9.

Sabe-se ainda que sistemas de ventilação, quando mal operados e sem manutenção adequada, tornam-se fontes potenciais de poluentes, principalmente de materiais particulados e microrganismos (decorrentes do acúmulo de umidade nesses sistemas).

Sendo assim, para se ter um edifício saudável deve-se ter uma boa qualidade do ar interior, através do uso de adequadas taxas de ventilação, de sistemas de automação predial e, principalmente, de um monitoramento contínuo dessas instalações9.

A síndrome dos edifícios doentes (SED) pode ser definida, de acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS), como uma situação na qual os ocupantes ou usuários de um prédio específico apresentam sintomas sem origem determinada e sem a possibilidade de constatação de uma determinada etiologia, sendo, portanto, desconhecida12.

Para que um edifício seja considerado doente, é necessário que pelo menos 20% de seus ocupantes apresentem sintomas como: irritação das mucosas, efeitos neurotóxicos, sintomas respiratórios e cutâneos e alterações dos sentidos, por no mínimo duas semanas, sendo que estes desaparecem quando o indivíduo se afasta do edifício2.

Admite-se que os principais fatores relacionados à SED são: aerodispersoides (poeira, fibras); bioaerossois (fungos, bactérias, vírus); contaminantes químicos como COV (Compostos Orgânicos Voláteis) e formaldeído; contaminantes gerados pelo metabolismo humano; ventilação inadequada, entre outros13.

Assim, dada a importância da QAI, esta revisão objetiva relacionar os diferentes contaminantes encontrados em ambientes internos (de diferentes origens, biológica e não-biológica), seus efeitos à saúde humana e suas respectivas metodologias de amostragem.

 

Principais poluentes relacionados à qualidade do ar interno

É fato que o ar externo pode ser a principal fonte de poluentes (nesse caso, físicos, químicos e biológicos) para o ambiente interno. Apesar disso se evidenciar principalmente em locais de intensa circulação de veículos e em zonas industriais, as fontes de tais contaminantes podem ser as mais diversas, como a própria atividade humana (microrganismos, CO2, etc.) e até mesmo estruturas de alvenaria (caso do radônio).

Dentre os principais poluentes do ar interno, destacam-se tanto contaminantes de origem nãobiológica [como o monóxido e o dióxido de car-bono, o óxido e dióxido de nitrogênio, dióxido de enxofre, ozônio, materiais particulados, fumaça de cigarro (environmental tobacco smoke) e os compostos orgânicos voláteis] quanto biológica (bactérias, fungos, etc.).

O termo material particulado (ou simplesmente MP) designa uma mistura física e química de diversos compostos presentes em suspensão no ar, tanto sólidos como líquidos (gotículas, aerossol, névoa, fumaça, etc.). Atividades como varrer, tirar pó e cozinhar contribuem para a suspensão das partículas. Os particulados produzidos em ambientes internos são, em geral, menores que os externos, e contêm uma quantidade maior de compostos orgânicos devido às características das suas fontes (fogão, cigarro) e da natureza das atividades realizadas dentro do prédio. Essas características fazem dos particulados internos potencialmente mais perigosos9. Além disso, é o tamanho do particulado que vai determinar seu destino, podendo este se depositar em superfícies, ficar suspenso no ar, ser retirado pelo sistema de ventilação, ou ainda ser inalado pelos ocupantes, acumulando-se nas vias aéreas superiores ou mesmo nos alvéolos6.

A fumaça do cigarro é um aerossol formado pela mistura de diversas substâncias distribuídas em particulados, vapores e gases. É considerada como o principal poluente de ambientes internos, principalmente pela quantidade de pessoas expostas. A fumaça de cigarro afeta também não fumantes que convivem com fumantes, os chamados fumantes passivos. Em alguns casos, os níveis de exposição a certos compostos são maiores em não fumantes do que em fu-mantes, como a N-nitrosodimetilamina, um potente cancerígeno que se encontra em concentrações de 20 a 100 vezes maiores para fumantes passivos do que para fumantes ativos11.

Os principais COV encontrados em ambientes internos são: benzeno, tolueno, etilbenzeno, xileno, formaldeído, acetaldeído12,14. Os níveis de COV são maiores internamente, pois, apesar da entrada de COV a partir do ar externo também ser significativa, as fontes internas são mais importantes, principalmente em edifícios novos onde os materiais de construção apresentam taxas mais altas de emissão, que vão diminuindo com o tempo. O formaldeído é o COV mais encontrado em ambientes internos, chegando a ser considerado por certos autores como um dos mais importantes15. Também vale ressaltar que os COV estão diretamente relacionados aos sintomas da SED, detalhada a seguir1.

Quanto aos contaminantes de origem biológica, os principais são bactérias, fungos, grãos de pólen, ácaros e esporos. Sua importância no ar interno está no fato de serem responsáveis por causar inúmeras doenças infecciosas e alérgicas, provocadas por toxinas produzidas pelos microorganismos que crescem nos sistemas de ventilação. A principal forma de combater os problemas relacionados é evitando (ou pelo menos controlando) o crescimento destes a um nível mínimo. Pode-se alcançar esse objetivo através de medidas como: remoção de fontes de água que permitam o crescimento dos fungos; manutenção da umidade relativa do ar menor que 60%; remoção de materiais orgânicos porosos claramente infectados, como tapetes embolorados; umidificadores portáteis de ar devem ser evitados em escritórios porque raramente são mantidos em condições próprias de uso e acabam se tornando fontes em potencial; uso de filtros eficientes no sistema de tomada de ar externo e manutenção constante destes9.

 

Doenças associadas à qualidade do ar interno

Doenças causadas por contaminantes biológicos

Alguns microrganismos ocasionam reações alérgicas, cujos sintomas incluem espirros, olhos lacrimejantes, tosse, deficiência respiratória, letargia, febre e problemas digestivos, além de se-rem causadores de pneumonia, rinite e asma15. De modo geral, as principais doenças associadas a poluentes biológicos são o Mal dos Legionários (ou legionelose, pois tem como agente a bactéria gram-negativa do gênero Legionella); a febre do umidificador (doença que se desenvolve a partir de exposições a toxinas de microorganismos, especialmente daqueles que crescem nos sistemas de ventilação dos edifícios); asma brônquica (espasmos associados à inalação de aerossol biológico); pneumonite alérgica ou alveolite extrínseca; pneumonia (infecção pulmonar associada a bactérias como Streptococcus pneumoniae, Mycoplasma pneumoniae, Staphylococcus aureus, Legionella e Haemophilus influenzae, vírus e alguns tipos de fungos)16,17.

Doenças causadas por contaminantes não biológicos

Dióxido de carbono

O dióxido de carbono não apresenta grandes problemas de toxicidade aos seres humanos. Entretanto, à medida que aumentam os níveis de concentração no ambiente, "a pessoa sente como se não houvesse ar suficiente". De acordo com a Associação de Saúde do Canadá, exposições contínuas podem conduzir à desmineralização dos ossos.

Monóxido de carbono

A afinidade do monóxido de carbono (CO) pela hemoglobina leva à formação de carboxihemoglobina, substituindo o oxigênio e ocasionando numa diminuição de seus níveis no sangue. Sendo assim, seus efeitos mais tóxicos são observados em órgãos como cérebro e coração, que demandam mais oxigênio.

Dióxido de nitrogênio

É um agente oxidante que compromete a função pulmonar, podendo causar infecções respiratórias e, em casos mais graves, enfisema pulmonar15.

Óxido de nitrogênio

Pode interferir no transporte de oxigênio para os tecidos produzindo efeitos parecidos como os do CO; pode provocar ainda edema pulmonar quando em elevadas concentrações9.

Dióxido de enxofre

Age principalmente como irritante, afetando a mucosa do olhos, nariz, garganta e trato respiratório. Sua inalação em doses elevadas causa danos ao sistema respiratório inferior; em casos de exposições crônicas, pode levar à diminuição da função pulmonar9,18.

Material particulado

Conforme Jones11, a inalação de material particulado causa irritação nas vias respiratórias, levando à constrição das mesmas. Outro grave problema é que estas partículas absorvem muitos gases prejudiciais, removendo-os do ar. Quando estas partículas são inaladas, os gases são juntamente aspirados, atingindo os pulmões19.

Fumaça de cigarro

Os principais sintomas da exposição à fumaça do cigarro em indivíduos adultos são rinite, faringite, tosse, dor de cabeça, irritação dos olhos e constrição dos brônquios. Crianças podem desenvolver asma, infecções respiratórias, bronquite e pneumonia18. Evidências mostram que essa fumaça tem potencial carcinogênico11, sendo a nicotina a responsável por elevar esse potencial20.

Compostos orgânicos voláteis

Segundo Schirmer21, a maioria dos COV são narcóticos e depressores do sistema nervoso central. São também causadores de irritações nos olhos, nas vias respiratórias e na pele. Exposições a alguns COV, em concentrações muito elevadas, podem alterar as funções neurocomportamentais e também levar ao desenvolvimento de câncer. Os COV podem ainda interagir uns com os outros, potencializando os efeitos adversos causados à saúde (sinergia)9.

 

Amostragem de contaminantes em ambientes internos

Apenas na década de 80 é que foram estipuladas as primeiras normas pela Organização Mundial da Saúde relacionadas à qualidade do ar interno. Já no Brasil, a qualidade de ar de interiores foi regulamentada inicialmente pela Resolução 176 de 24 de outubro de 2000 da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA)22 e, posteriormente, pela Resolução 09 de 16 de janeiro de 200323, a qual publicou Orientação Técnica sobre Padrões Referenciais da Qualidade do Ar de Interiores em ambientes climatizados artificialmente de uso público e coletivo.

A Resolução 9, de 16 de janeiro de 2003 da ANVISA, normatiza as metodologias que devem ser empregadas quando da determinação de CO2, temperatura, umidade relativa do ar, bioaerossois e aerodispersoides, em ambientes não industriais. No entanto, como existem outros compostos que exercem influência na qualidade do ar interno, o Ministério do Trabalho instituiu a NR - 15 quando se tratar da análise em ambientes industriais. Além destas, a título de comparação, já que não apresentam valor legal no Brasil, podem-se utilizar padrões de referência internacionais, como a NIOSH e ASHRAE24, que também trazem valores máximos de exposição para compostos tóxicos (para jornadas de trabalho de 48 horas semanais).

Ao se realizar a avaliação da QAI, existem al-guns parâmetros básicos que merecem especial atenção, entre eles: material particulado (incluindo material finamente particulado, PM10 ou PM2,5), óxidos de enxofre e nitrogênio, poeira, ozônio, COV e ácidos aerossois25 .

No entanto, antes de se efetuar a tomada de amostras, deve-se atentar a alguns fatores relacionados à escolha do método de amostragem, entre eles confiança, exatidão, facilidade de operação e custo25.

Tipos de amostradores

Para a amostragem de substâncias gasosas no ar de ambientes internos dispõe-se de diversas metodologias, entre as quais pode-se destacar como mais importantes26:

  • Sistemas passivos de monitoramento
  • Sistemas ativos de monitoramento
  • Sistemas automáticos de monitoramento

Sistemas passivos de monitoramento

Em amostradores passivos, a coleta de espécies gasosas presentes na atmosfera é baseada na capacidade de difusão molecular das mesmas e sua reação com os meios absorventes (ou adsorventes) do amostrador27.

Quando se faz referência às vantagens do uso de amostradores passivos, Andrés et al.26 destacam que uma das principais reside no fato de que este tipo de amostrador apresenta, inicialmente, custo muito baixo; além disto, são sistemas simples, desde a tomada de amostras até sua análise em laboratório, sendo dispensável a utilização de pessoal altamente qualificado. Amostradores passivos são projetados para mensurar, na maioria dos casos, concentrações em níveis de ppm, por um período médio de 8 horas, em ambientes ocupacionais. Porém, este nível de detecção pode ser menor que 1 ppb, quando aplicado na determinação de compostos específicos em ambientes internos28,29.

Para a amostragem da exposição individual a compostos tóxicos, os dispositivos passivos são geralmente fixados na roupa, próximos ao rosto do operador. No entanto, quando se deseja obter uma avaliação da qualidade do ar em ambientes internos, os amostradores devem ser posicionados a uma altura média de 1,5 metros, próximo à zona de respiração dos indivíduos expostos29.

De acordo com Cruz e Campos30, para se realizar a coleta de poluentes gasosos, utiliza-se como meio coletor (ou fixador) sólidos com elevada capacidade de adsorção de poluentes gasosos. Nesse caso, admite-se que o adsorvente adequado é aquele capaz de amostrar grandes volumes de ar poluído, sem causar interferências no resultado da amostragem. Além destas propriedades, deve optar por adsorventes não higroscópicos e resistentes a altas temperaturas.

A amostragem pode ainda se dar por absorção. Nesse caso, a escolha do meio absorvente para tomada de amostras deve ser condicionada, principalmente, pela afinidade entre o absorvente e os compostos a serem amostrados29.

Sistemas ativos de monitoramento

Diferentemente dos sistemas passivos de amostragem, Andrés et al.26 definem sistemas ativos como aqueles que, mediante a utilização de uma bomba de aspiração, forçam a passagem de ar através de um meio de coleta, seja ele químico ou físico.

Devido à utilização de uma bomba de aspiração, verifica-se que o volume de ar amostrado é maior, em comparação com sistemas passivos. Sendo assim, pode-se admitir que a confiabilidade do dispositivo ativo é maior, uma vez que se conhece o volume amostrado e, consequentemente, a concentração do meio26.

Analisadores automáticos (sensores)

Segundo Andrés et al.26, os dispositivos automáticos, ou sensores, baseiam-se em alguma propriedade do contaminante, seja ela física ou química, que pode ser, por meio de métodos óptico-eletrônicos, detectada e quantificada continuamente. Gioda e Aquino Neto24 afirmam que esta propriedade característica do contaminante é responsável pela produção de sinais em uma câmara de reação, tais como, mudança de cor, emissão de luz fluorescente, mudança do potencial elétrico na superfície, fluxo de elétrons, produção de aquecimento, ou mudança na frequência de oscilação de um cristal. Estes estímulos são então percebidos por uma fotocélula, a qual produz um sinal eletrônico proporcional à concentração do contaminante.

Sensores químicos fornecem a concentração de uma espécie ou classe especifica de analitos em uma amostra, desconsiderando as demais espécies presentes na amostra analisada24.

Amostragem de poluentes de ar interno

Bioaerossois

No Brasil utiliza-se como metodologia para determinação deste marcador epidemiológico, a Resolução ANVISA nº 9 de 16 de janeiro de 03, que estabelece a Norma Técnica 001 (NT 001), a qual normatiza os critérios, método de amostragem e análise de bioaerossol em ambientes interiores.

Segundo a NT 001, para a coleta de amostras, utiliza-se um impactador linear de 1, 2 ou 6 estágios. A norma estabelece que o ar deve ser coletado a uma vazão de 28,3 L.min-¹, durante um período de 5 a 15 minutos. Após aspirado, o ar passa através de um meio filtrante, sendo forçado a depositar-se em uma placa de petri, onde está contido o meio de cultura. A legislação estabelece que, para coleta de fungos, deve-se, preferencialmente, utilizar o Agar Extrato de Malte, Agar Sabourad ou o Agar Batata como meio de cultura16.

Para determinação do número de amostras a serem efetuadas, deve-se observar a área construída do edifício (ver Tabela 1). Além disto, in-dica-se que as amostras sejam coletadas a 1,5 metros de distância do chão17.

 

 

Segundo a Resolução nº 9, o tempo mínimo de incubação para fungos é de 7 dias, à temperatura de 25ºC, enquanto que para bactérias é de no mínimo 2 dias, à temperatura de 37ºC23.

Dióxido de carbono (CO2)

No Brasil, a Resolução ANVISA nº 9 apresenta a Norma Técnica 002 (NT 002), que estabelece a metodologia de amostragem e análise de CO em ambientes interiores. De acordo com a legislação, o processo para determinação da concentração de CO2 consiste na leitura direta, mediante utilização de sensor infravermelho não dispersivo, ou célula eletroquímica, devidamente calibrado. Deve-se observar, durante a escolha do sensor, que sua faixa de sensibilidade seja de 0 a 5.000 ppm. Além disso, sugere-se que as medições sejam realizadas nos períodos em que o ambiente se encontra com maior utilização, a uma distância de 1,5 metros do chão. O número de amostras é aquele definido pela Tabela 123.

De acordo com Basto16, devido à produção de CO2 em ambientes internos ser, em sua quase totalidade, devido à atividade metabólica dos ocupantes, pode-se afirmar que em sua amostragem serão determinados os níveis residuais deste poluente e, indiretamente, pode-se verificar as condições de renovação de ar externo.

Aerodispersoides

A amostragem de aerodispersoides no Brasil também é normatizada pela Resolução ANVISA nº 9 (Norma Técnica 004).

O processo de amostragem consiste na utilização de uma bomba de aspiração que coleta o ar, a uma vazão recomendada de 2 L.min-1, forçando sua passagem por uma unidade filtrante, de 37 mm de diâmetro, com porosidade de 5 µm e constituída por uma mistura de ésteres de celulose. A amostragem deve ser realizada por um tempo determinado em função do volume de ar a ser amostrado, o qual pode variar de 50 a 400L16,23. Segundo o mesmo autor, por meio da amostragem de aerodispersoides, pode-se verificar tanto a eficiência da filtragem nos sistemas de ventilação quanto à presença de sujeira nos dutos de ventilação.

Para determinação da massa de aerodispersoides, é realizada a pesagem dos filtros, em balança de precisão, durante a preparação dos mesmos e após a amostragem16. A concentração de aerodispersoides é então determinada procedendo-se ao cálculo do quociente entre diferença das massas e o volume de ar amostrado19.

Área construída

Número mínimo de Compostos orgânicos voláteis (m2) amostras a serem coletadas Comparando-se as técnicas de amostragem de COV, verifica-se que a que mais se destaca, em termos de praticidade, simplicidade e custo de operação é a amostragem passiva em tubos com difusão do poluente no ar a ser amostrado. No entanto, verifica-se que, na prática, algumas condições ambientais, entre elas temperatura ambiente, pressão, umidade relativa e natureza do material absorvente, podem tornar variável esta taxa. Sendo assim, devido a estas interferências, torna-se importante, além da determinação da taxa de amostragem local, a utilização simultânea de outro método de amostragem, por exemplo, amostragem ativa (validação da amostragem passiva), o que pode vir a constituir uma dificuldade ao emprego da amostragem passiva31-34.

 

Conclusões

Apesar da crescente preocupação em relação à QAI, em nível de Brasil, são poucos os estudos realizados em torno do tema. A maior parte das pesquisas, em Engenharia Ambiental, ainda apoia-se sobre tratamento de resíduos sólidos e líquidos bem como águas de abastecimento. Entretanto, similarmente ao que já vem se observando em âmbito internacional, a expectativa é de que, também no Brasil, ocorra um aumento no controle da qualidade do ar de ambientes internos, bem como a adoção de medidas mais rigorosas específicas para fontes de diferentes naturezas e a inclusão de um programa de medida e controle/abatimento desses contaminantes.

Entretanto, admite-se que dentre os fatores limitantes ao desenvolvimento da QAI no Brasil, pode-se destacar a falta de legislação específica que estabeleça padrões e metodologias de amostragem para compostos orgânicos (como por exemplo COV, BTEX e HPA) em ambientes internos não industriais e a falta de incentivo à pesquisas na área.

O maior controle e rigor na manutenção dos sistemas de ventilação e de outros fatores intervenientes na QAI diminuiria os riscos de contaminação do ar o que, por conseguinte, diminuiria os gastos com saúde dos ocupantes e as taxas de absenteísmo. Sendo assim, para a efetiva promoção de um ambiente interno saudável, deve-se conciliar a aplicação da legislação com pesquisas e conscientização dos ocupantes dos edifícios.

 

Colaboradores

MA Gauer, LB Pian e MSE Szymanski participaram da pesquisa bibliográfica e da redação do artigo, e WN Schirmer orientou os acadêmicos (os demais autores) na elaboração do artigo, revisão do trabalho durante e após seu término e formatação para as normas da revista Ciência & Saúde Coletiva.

 

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Artigo apresentado em 07/04/2008
Aprovado em 13/11/2008
Versão final apresentada em 22/11/2008

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