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Ciência & Saúde Coletiva

Print version ISSN 1413-8123

Ciênc. saúde coletiva vol.17 no.3 Rio de Janeiro Mar. 2012

http://dx.doi.org/10.1590/S1413-81232012000300023 

TEMAS LIVRES FREE THEMES

 

Indicadores do Serviço de Atenção Farmacêutica (SAF) da Universidade do Sul de Santa Catarina

 

Indicators of the pharmaceutical care service at the University of Southern Santa Catarina

 

 

Graziela Modolon Alano; Taís dos Santos Corrêa; Dayani Galato

Curso de Farmácia, Departamento de Ciências Biológicas e da Saúde e de Ciências Sociais Aplicadas, Universidade do Sul de Santa Catarina. Avenida José Acácio Moreira787, Dehon. 88704-900 Tubarão SC. graziela.alano@unisul.br

 

 


RESUMO

A Atenção Farmacêutica tem se constituído numa nova prática clínica para o farmacêutico. O estudo tem por objetivo apresentar os indicadores do Serviço de Atenção Farmacêutica da Universidade do Sul de Santa Catarina. Foi realizada a análise documental dos prontuários farmacêuticos de 58 pacientes entre setembro de 2007 a março de 2008. A maioria dos pacientes eram mulheres (77,6%) com idade média de 54 anos. Identificou-se no primeiro encontro a média de 4,6 problemas de saúde por paciente e no último 4,3. As classes farmacológicas mais prevalentes foram a cardiovascular (30,2%) e no sistema nervoso (27,5%). Detectou-se média de 2,7 problemas relacionados com medicamentos por paciente, sendo os mais comuns aqueles relacionados à efetividade e à segurança. Dos problemas identificados 82,2% foram classificados como evitáveis e 63,7% como manifestados. Das intervenções farmacêuticas registradas soube-se da aceitação de 79,0% com 78,9% de resultados positivos. Encontrou-se média de 2,6 necessidades relacionadas ao paciente sendo, principalmente, dúvidas quanto à terapia farmacológica (30,4%) sendo em 84,8% dos casos supridas.

Palavras-chave: Atenção farmacêutica, Necessidade relacionada ao paciente (NRP), Problema relacionado ao medicamento (PRM), Serviço voltado ao paciente


ABSTRACT

Pharmaceutical Care has represented a new clinical practice for pharmacists. This study aims to show the indicators of the Pharmaceutical Care Service at the University of Southern Santa Catarina. Documentary analysis of pharmaceutical records of 58 patients was conducted between September 2007 and March 2008 to identify the indicators. Most patients were women (77.6%), with a mean age of 54 years. Average number of health problems per patient was 4.6 in the first visit and 4.3 in the last one. The most widely used drug classes were cardiovascular (30.2%) and nervous system (27.5%). On average, 2.7 drug-related problems per patient were detected, the most common being those related to effectiveness and safety. Of the problems identified, 82.2% were classified as preventable and 63.7% as manifested. Pharmaceutical interventions registered 79.0% of acceptance, of which 78.9% had positive results. On average, there were 2.6 patient-related needs, especially regarding questions about drug therapy (30.4%), which were positively answered in 84.8% of cases. These indicators show that the pharmaceutical care service is very active in promoting health education.

Key words: Pharmaceutical care, Patient-related needs, Drug-related problems, Patient-oriented services


 

 

Introdução

O uso de terapia farmacológica não está isenta de problemas. Os tratamentos com medicamentos podem gerar diversos efeitos indesejados e fica evidente que a segurança dos medicamentos é uma questão bastante estudada. Além disso, há problemas advindos do uso dos medicamentos relativos à efetividade dos tratamentos, pois, em diversos casos, não se consegue alcançar o objetivo terapêutico para os quais foram prescritos, seja por causas relacionadas ao paciente, aos profissionais de saúde ou ao próprio medicamento1.

Ao conjunto de todas essas experiências indesejáveis denomina-se de Problema Relacionado ao Medicamento (PRM) definido pelo Terceiro Consenso de Granada2 como aquelas situações em que o processo de uso de medicamentos causa ou pode causar a aparição de um resultado negativo associado à medicação. Este pode ser relacionado à segurança, à efetividade ou à necessidade da terapia farmacológica. Portanto, o PRM caracteriza-se como um problema de saúde, derivado do tratamento farmacológico que, produzido por diversas causas têm como consequência o não alcance do objetivo terapêutico desejado ou o aparecimento de efeitos indesejáveis3.

A participação do farmacêutico na atenção individualizada dos pacientes tem aumentado em diversos ambientes assistenciais (comunitário e hospitalar) e tem mostrado um impacto positivo na melhora da saúde dos pacientes4. Esta ação individualizada tem sido denominada Atenção Farmacêutica que, no Brasil, começou a ser implementada desde 2000 e passou a ser divulgada, principalmente, a partir das oficinas desenvolvidas pela Organização Pan-Americana de Saúde junto de outras entidades Nacionais (2001-2002)5.

O processo de atenção farmacêutica envolve entrevistas com o paciente tendo por objetivo prevenir, identificar e resolver o PRM. O farmacêutico, então, busca solucionar o PRM identificado por meio de uma intervenção farmacêutica. Entende-se por intervenção farmacêutica a atuação ou a recomendação do farmacêutico, direcionada ao paciente ou ao profissional de saúde, para resolver ou prevenir um ou mais PRM6. Nas intervenções que compreendem interrupção do uso do medicamento, mudança de forma farmacêutica ou princípio ativo, dose e intervalo de administração, o farmacêutico deverá, impreterivelmente, entrar em contato com o prescritor e, assim comunicá-lo da necessidade identificada, solicitando auxílio para a intervenção. Por outro lado, há intervenções como, o incentivo à mudança de estilo de vida, que podem ser feitas diretamente pelo farmacêutico7.

Diversos estudos tentam determinar a prevalência dos problemas relacionados aos medicamentos devido a sua relevância em termos financeiros para o Sistema de Saúde do País, ressaltando que estes podem ser a causa de cerca de 30% das assistências hospitalares1. Segundo Mota8, os resultados alcançados por meio de intervenções farmacêuticas podem contribuir para a diminuição dos gastos em internações hospitalares, em prescrições de medicamentos adicionais e em ganho na qualidade de vida dos pacientes. Portanto, dentre as medidas orientadas a reduzir os gastos em farmácia e outros serviços relacionados à saúde do paciente, destacam-se o fortalecimento da atenção farmacêutica e a realização de estudos de avaliação destes serviços.

O serviço de atenção farmacêutica compreende o acompanhamento farmacoterapêutico9 do paciente, que deve ser provido de forma contínua, sistematizada e documentada, em colaboração com o próprio e com os profissionais do sistema de saúde, com o fim de alcançar resultados concretos que melhorem a qualidade de vida dele2.

O Serviço de Atenção Farmacêutica (SAF) do Curso de Farmácia da Universidade do Sul de Santa Catarina foi criado em março de 2006 a partir da aprovação de um projeto pelo CNPq/MS e, atualmente, funciona em uma clínica escola multidisciplinar. Suas ações são voltadas para o uso racional de medicamentos, sendo desenvolvidas ações com a comunidade. Estas podem ser de ampla abrangência, como palestras a grupos de pacientes constituídos10, ou envolver atendimentos individuais, que têm como foco principal as orientações sobre o uso correto de medicamentos utilizados pelos pacientes.

Dados do projeto de Atenção Farmacêutica de Minnesota, Estados Unidos, indicam que essa prática não somente melhora a evolução real dos pacientes como também se constitui de um investimento economicamente favorável, o que pode refletir em um ganho de qualidade de vida desses pacientes5. Desta forma, este trabalho teve o objetivo de identificar os indicadores do SAF de forma a quantificar e qualificar3 os PRM identificados, as intervenções farmacêuticas realizadas e as necessidades de atenção à saúde manifestadas pelos pacientes, denominadas, neste estudo, de Necessidades Relacionadas ao Paciente (NRP). A NRP compreende dúvidas ou carências dos pacientes relacionadas ao problema de saúde, à terapia farmacológica ou à necessidade de encaminhamento a outros profissionais de saúde percebidas pelo profissional farmacêutico, entre outros.

A NRP é uma necessidade identificada pelo paciente ou pela equipe de saúde, que está relacionada a uma falta de informação, bem como à compreensão ou à internalização de uma informação transmitida. As necessidades não incluem somente as que correspondem a uma classe de medicamentos ou a uma patologia concreta6, mas implicam orientações sobre o sistema de saúde, a alimentação, o monitoramento laboratorial, o encaminhamento a outro profissional, as orientações sobre automedicação responsável, sobre formas de tratamento dos problemas de saúde e demais orientações não farmacológicas11. Sendo assim, a ação sobre as Necessidades identificadas não é específica dos farmacêuticos. Porém, naquelas que envolvam a terapia farmacológica, o farmacêutico representa o profissional mais habilitado para atuar nesta situação, fornecendo informações, reforçando as já existentes e incentivando a sua implementação.

 

Métodos

Realizou-se um estudo transversal por meio da análise documental dos prontuários farmacêuticos de 58 pacientes atendidos pelo Serviço de Atenção Farmacêutica do curso de Farmácia da Unisul.

O levantamento dos dados foi realizado entre setembro de 2007 a março de 2008. Foi realizada a análise individual dos prontuários farmacêuticos dos pacientes atendidos nos primeiros dois anos de funcionamento do SAF que continham as informações coletadas na primeira entrevista com o farmacêutico, bem como dos encontros seguintes, quando ocorridos. Foram levantados os dados epidemiológicos dos pacientes como a idade, o estado civil e a classificação econômica12.

Além disso, foram investigados os indicadores do serviço: número total de problemas de saúde e de medicamentos utilizados na data de entrada no serviço e no encontro anterior à data da análise da ficha por meio da classificação farmacológica segundo Anatomic Therapeutic Chemistry13, classificação esta proposta pela Organização Mundial da Saúde e amplamente adotada em Estudos de Utilização de Medicamentos. Foi identificado o número de Problemas Relacionados ao Medicamento (PRM), bem como sua classificação em manifestado ou não9. Exemplificando, se um paciente apresentar tosse seca com o uso de captopril, o PRM será considerado manifestado. Classificaram-se os PRM ainda, em evitável ou não14. Da mesma forma, se o paciente utilizar captopril concomitante às refeições, diminuindo a eficácia do tratamento, este será um PRM evitável por meio da alteração do horário de administração do medicamento. Por fim, adotou-se a classificação do Segundo Consenso de Granada3 em problema de necessidade, de efetividade ou de segurança. Foram investigadas as intervenções realizadas para a prevenção ou a resolução do PRM identificado quanto ao tipo de intervenção, à aceitação e ao resultado alcançado. As Necessidades Relacionadas aos Pacientes (NRP) também foram identificadas e categorizadas, além de investigados os tipos de orientações realizadas para atendê-las.

Os dados coletados foram registrados em um banco de dados criado no programa EpiData versão 3.115 para posterior análise das informações coletadas no Programa Epi Info versão 3.3216, determinando o perfil dos pacientes e dos serviços prestados no SAF. Para estudar a associação entre os dados utilizou-se o teste estatístico da análise de variância para comparação entre médias. Adotou-se um nível de significância de 5% (p < 0,05).

Este trabalho foi norteado pela Resolução 196 do Conselho Nacional de Saúde17, sendo aprovado pelo Comitê de Ética da Universidade do Sul de Santa Catarina.

 

Resultados

Durante o período de análise de dados, 58 fichas de pacientes assistidos pelo Serviço de Atenção Farmacêutica da Unisul foram analisadas. A maioria dos pacientes pertencia ao sexo feminino, 77,6%, com média de idade de 54,2(±19,48) anos, sendo principalmente casados (67,2%). Do total, 86,2% dos pacientes moravam com a família, apenas 32,8% possuíam planos de saúde e 43,1% pertenciam à classe C de acordo com a Classificação ABEP12.

O número de problemas de saúde por paciente variou na entrada ao serviço entre 1 a 10, com média de 4,6 (± 1,83), e até o último encontro analisado entre 0 e 11 problemas e média de 4,3 (± 1,86), não representando uma diferença significativa (p = 0,2441).

As classes farmacológicas e seus principais representantes utilizados pelos pacientes no início dos acompanhamentos e no último encontro estão apresentados na Tabela 1. O consumo de medicamentos na entrada ao serviço variou de 1 a 13 por paciente (5,8 ± 2,76) e no último encontro variaram de 0 a 13 medicamentos (6,0 ± 2,93), não demonstrando um aumento significativo do número de medicamentos (p = 0,7058). Ambos os momentos, predominaram medicamentos dos sistemas cardiovascular e nervoso, sendo que estes foram também os medicamentos que mais estiveram relacionados à ocorrência de problema relacionado ao medicamento.

Foram identificados 157 PRM, com média de 2,7(± 1,73) por paciente. A frequência e a classificação dos PRM são apresentadas na Tabela 2. Foram observados com maior frequência entre os pacientes atendidos pelo SAF os PRM 4 e 5, os quais relacionam-se a efetividade e a segurança no uso dos medicamentos, respectivamente. Do total de PRM identificados, 82,2 % eram evitáveis e 63,7% eram manifestados. Destes, 85,5% eram causados por apenas um medicamento, o restante deveu-se às interações medicamentosas. Houve 163 medicamentos envolvidos com PRMs, a maioria pertencente aos sistemas: cardiovascular (30,7%), sendo o captopril responsável pela ocorrência de 11,0% do total e; nervoso (33,1%), sendo o clonazepam responsável por 3,7% do total.

 

 

Das 114 intervenções registradas, 62,8% foram repassadas verbalmente e 71,1% foram destinadas aos pacientes. Houve situações em que não foi realizada qualquer intervenção como, por exemplo, quando o paciente não retornou ao serviço. Além disso, determinou-se que não seriam realizadas intervenções em situações cujos benefícios do tratamento superassem os riscos (PRM identificado). Houve a aceitação de 79% das intervenções realizadas pelo farmacêutico destinadas ao paciente, cuidador ou profissional de saúde, sendo que em 71,7% destes casos, a aceitação foi total e nas demais a aceitação foi parcial. Considerou-se aceitação parcial quando, por exemplo, a intervenção sugeria a substituição do medicamento devido a este ser causa do PRM identificado, mas o prescritor considerou melhor opção a retirada da medicação, sem substituí-la. Dos 90 resultados conhecidos, 47,8% levaram à estabilidade do caso, evitando o progresso do problema de saúde, e 31,1% levaram à melhora.

Dos 58 pacientes acompanhados, 54 possuíam necessidade relacionada ao paciente (NRP), que totalizaram 151, média de 2,6 (± 2,60) necessidades por paciente. A maioria dos pacientes buscava informações adicionais sobre a terapia farmacológica utilizada, como pode ser observado na Tabela 3. A orientação foi realizada, principalmente, de forma verbal em 71,5% dos casos e 84,8% das necessidades foram supridas.

 

 

Discussão

Pôde-se observar um elevado uso de medicamentos por parte dos pacientes assistidos pelo serviço quando comparado ao perfil farmacológico dos pacientes incluídos nos estudos de Dall'Agnol et al.18 e Correr et al.19 cujo valor médio foi de 3,6 e 3,0 medicamentos por paciente, respectivamente. A idade avançada e a utilização de elevado número de medicamentos podem ser considerados como fatores condicionantes para o número expressivo de PRM identificado, assim como afirmado por Baena et al.20. Além disso, pelo fato do SAF localizar-se em uma clínica multidisciplinar, os pacientes atendidos nesse serviço eram encaminhados, muitas vezes, por outros profissionais de saúde que, ao perceberem o número elevado de medicamentos usado pelo paciente, sentiam a necessidade de conduzi-los para uma análise dessa situação.

Em relação às classes farmacológicas mais envolvidas com problemas identificados nos pacientes prevaleceram os medicamentos que atuam nos sistemas nervoso e cardiovascular, cujo resultado assemelha-se ao descrito na literatura19,21. Castro et al.22 identificaram em pacientes hipertensos, 66 problemas relacionados ao uso de medicamentos anti-hipertensivos, principalmente, referentes à segurança e à efetividade, assim como no presente estudo.

Segundo a classificação proposta pelo Segundo Consenso de Granada3 os PRM mais prevalentes neste estudo foram os 4 e 5. O PRM 4 consiste na utilização do medicamento obtendo-se uma efetividade inferior à desejada3 podendo ocorrer devido a interações entre o medicamento e a alimentação ou outro medicamento. Neste caso, o captopril foi o principal envolvido neste tipo de PRM pelo fato de ser usado com grande frequência concomitante à alimentação. Nesta situação as intervenções ocorreram para ajustar o horário de administração do medicamento com o objetivo de aumentar a efetividade do tratamento farmacológico23. Corroborando com os resultados encontrados no presente estudo, Dall'Agnol et al.18 e Baena et al.20 identificaram PRM relacionados à efetividade do medicamento, respectivamente em 66,7% e 62,7% dos casos estudados.

No presente estudo também houve a ocorrência de PRM 5, o qual diz respeito a inseguridade qualitativa do medicamento3 como, por exemplo, no caso de surgimento de reações adversas. Situação bastante frequente, neste estudo, entre os medicamentos que agem no sistema nervoso central, como os benzodiazepínicos, e no sistema cardiovascular, como os inibidores da Enzima Conversora de Angiotensina (ECA). Os benzodiazepínicos, como o bromazepam e o diazepam, foram responsáveis pela ocorrência de prejuízos da atividade motora e sonolência, enquanto os medicamentos inibidores da ECA, como o captopril, causaram, principalmente, tosse seca23. Resultados semelhantes foram encontrados por Piá4, com aproximadamente 20,5% dos casos de PRM tendo sido associados ao aparecimento de efeitos adversos.

No presente estudo, as interações medicamentosas foram responsáveis por 14,5% dos PRMs estando relacionadas, na maioria dos casos, à efetividade do tratamento, representadas, principalmente, pelo captopril e sua interação com alimentos, e à segurança, representadas por medicamentos atuantes no sistema nervoso central, como a interação entre paroxetina e risperidona, assim como a imipramina e o ácido valpróico23. Correr et al.19 encontraram que a maioria das interações medicamentosas (66%) relacionava-se ao comprometimento da efetividade da terapêutica, sendo, principalmente, entre captopril e alimento.

Quanto à possibilidade de se evitar problemas advindos do uso de medicamentos, Netto et al.24 também encontraram, ao analisar um serviço de emergência, no mesmo município onde foi realizado este estudo, quantidade elevada de PRM passível de ser evitado (72,7%). Fato este importante quando se analisa o custo econômico devido aos atendimentos médicos causados por problemas que podem ser evitados a partir de uma assistência primária em saúde efetiva e de qualidade. Baena et al.1 destacam que cerca de 30% dos atendimentos hospitalares ocorrem devido a problemas que estão relacionados ao uso de medicamentos.

Cabe neste momento ressaltar a necessidade da atuação efetiva dos profissionais de saúde, especialmente farmacêuticos, envolvidos com os pacientes e seus medicamentos com vistas à redução de custos com a farmacoterapia25. Procedimentos aplicáveis à prática na farmácia comunitária, como a orientação sobre a forma de administração, intervalo e dosagem, são capazes de prevenir diversos problemas envolvidos com medicamentos.

Desta forma, as intervenções farmacêuticas para prevenção e resolução de PRM demonstraram ser bastante efetivas na resolução desses problemas, sejam elas destinadas diretamente ao paciente ou a outro profissional de saúde26. Destaca-se que, faz-se necessário o contato com o médico somente nos casos em que há necessidade de modificações no regime terapêutico de medicamentos que exigem prescrição7. Para Gérvas et al.7 a identificação de problemas relacionados a medicamentos torna-se mais fácil para os farmacêuticos por alguns motivos como, por exemplo, a maior acessibilidade geográfica e temporal, motivada pela existência de farmácias na maioria das regiões do país onde se pode conversar com um farmacêutico, na maioria das vezes, sem a necessidade prévia de agendamento, ao contrário do que ocorre na consulta médica.

Além disso, o elevado número de NRP identificado neste estudo revela a carência de informação dos pacientes na atenção primária em saúde. A NRP é uma necessidade identificada pelo paciente ou pela equipe de saúde, relacionada com a falta ou a deficiência de informação que reflete na compreensão desta por parte do paciente. Desta forma, estas necessidades podem incluir orientações sobre o problema de saúde, a terapêutica e o sistema de saúde.

Baena et al.1 afirmam que cada vez mais se faz necessário a implantação do acompanhamento farmacoterapêutico na atenção primária, a fim de obter o máximo benefício das medicações e estimular o desenvolvimento de políticas de saúde de caráter integral.

Para isto, a criação de equipes de saúde multidisciplinares e a necessidade de colaboração entre profissionais de saúde parecem ser primordiais para que as ações de saúde tenham a maior possibilidade de êxito, facilitando a atuação de um farmacêutico que trabalhe conjuntamente para a melhor qualidade da assistência1. No presente estudo, ficou evidente a inserção do Serviço de Atenção Farmacêutica na equipe multiprofissional de saúde quando do encaminhamento dos pacientes para outros profissionais de saúde ou mesmo destes para o SAF.

Ressalta-se que o Serviço de Atenção farmacêutica, aqui descrito, representa uma nova forma de atuação do farmacêutico que pode ser desenvolvida junto à equipe do Núcleo de Apoio à Saúde da Família (NASF), quando este profissional puder ser inserido nesse contexto. Segundo Araújo et al.27, a Atenção Farmacêutica pode ser considerada como uma especialidade da tecnologia do uso do medicamento, privativa do farmacêutico, porém ainda incipiente no Sistema Público de Saúde. Neste, o profissional farmacêutico poderá prestar atendimento a grupos especiais de pacientes, como diabéticos e hipertensos ou de acordo com a necessidade da região de sua atuação. Através da atenção farmacêutica, será possível proporcionar o uso racional de medicamentos, consequentemente, maior qualidade de vida aos pacientes, além de interagir com a equipe multiprofissional, o que se mostrou extremamente necessário neste estudo.

 

Conclusões

Durante a realização deste estudo foram identificados, principalmente, problemas relacionados aos medicamentos relacionados à efetividade e à segurança, sendo a maioria evitáveis e manifestados. As intervenções realizadas pelos farmacêuticos, na maioria dos casos, destinaram-se aos próprios pacientes e foram comunicadas verbalmente, contribuindo para o alcance de melhores resultados na terapia farmacológica e, por outro lado, para a estabilidade do problema de saúde.

Além desses indicadores, foram percebidas, principalmente, necessidades do paciente sobre informações acerca da terapia farmacológica, que foram supridas por meio das orientações farmacêuticas e culminaram por contribuir para melhorar a adesão ao tratamento.

Houve adequada interação entre paciente e farmacêutico e outros profissionais de saúde, trabalhando de fato como uma equipe de saúde, o que resultou em um grande número de intervenções aceitas.

 

Colaboradores

GM Alano, TS Corrêa e D Galato participaram igualmente de todas as etapas de elaboração do artigo.

 

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Apresentado em 10/05/2010
Aprovado em 20/07/2010
Versão final apresentada em 20/08/2010