SciELO - Scientific Electronic Library Online

 
vol.17 issue8Psychological Autopsy: an important strategy for retrospective evaluationTalking about suicide is also talking about life and quality of life author indexsubject indexarticles search
Home Pagealphabetic serial listing  

Services on Demand

Article

Indicators

Related links

  • Have no similar articlesSimilars in SciELO

Share


Ciência & Saúde Coletiva

Print version ISSN 1413-8123

Ciênc. saúde coletiva vol.17 no.8 Rio de Janeiro Aug. 2012

http://dx.doi.org/10.1590/S1413-81232012000800004 

DEBATEDORES DISCUSSANTS

 

À espera do nada

 

Waiting for nothing

 

 

Ligia Py; José Francisco Pinto de Almeida Oliveira

Comissão Permanente de Cuidados Paliativos (SBGG). ligiapy@gmail.com

 

 

O tempo de vida, a história pessoal de cada um, é também uma criação social que se integra à história da coletividade humana. Para os idosos, no mais das vezes, esse processo transcorre através de um envelhecimento regido pela apreensão das significações negativas que o social usa para marcar a velhice.

Na inexorabilidade das mudanças, o idoso se percebe na sucessão de perdas de capacidades e confronta a sua atualidade psicossocial de ser idoso. Não raro, ele próprio acaba por descuidar da sua autonomia, desestimula-se para investimentos novos, deixando sobrepor-se à sua autoimagem os estereótipos sociais que abominam os mais velhos. A velhice, ao se traduzir no contexto social como negatividade, agrava no idoso o que é sentido como perda e fragiliza os seus recursos internos construídos ao longo de toda a vida.

Quando acontece ao idoso uma doença incapacitante e dependência, o que não é incomum no avanço dos anos, o sentimento das perdas pode chegar a transformar-se em fantasias jamais decifráveis, intensificando a tensão diante dos limites ameaçadores que passam a impor-se a ele com força esmagadora. Assim, ele tende a chegar a um lugar subjetivo, onde não mais consiga dominar as tensões e, então, nelas submergir em profundo e irreversível estado de desamparo.

Sozinho, atormentado pela ameaça, vê-se diante da fatalidade, onde inexistem possibilidades de investimento na vida como um projeto que lhe aponte alguma saída1.

Nessa circunstância, escutamos uma 'quase' voz, abafada e sumida, que expressa com eloquência o universo significativo da solidão do idoso.

Na verdade, muito antes da ideia de solidão afirmada pelos antropólogos e cientistas da alma, tocam-nos as vivências das solidões cotidianas, iguais à do José do poeta: "sozinho no escuro / sem cavalo preto / que fuja a galope". Um José igual a todos nós, que "com a chave na mão / quer abrir a porta, / não existe porta". Restando a pergunta: "E agora, José?2"

Cada um de nós tem seu próprio 'fundo do poço', túnel escuro e vazio que esconde muita história, incontáveis segredos e tantas mágoas. A noção de fundo do poço fica muito próxima do conteúdo do 'mito da caverna' de Platão. Caverna que é ponto de convergência do mundo real sentido por nossas mãos, sempre em transformação e do mundo ideal gravado de modo imutável na nossa mente. Caverna que, ao mesmo tempo em que esconde, revela a verdade profunda da realidade, numa oscilação entre a verdade e as ilusões. Sem respostas.

A solidão, nesse plano, pode ser uma experiência produtiva de silêncio e reflexão, ou uma experiência de fracasso que nos empurra para o nada.

É também oportuno destacar uma outra dimensão da solidão, talvez a mais cruelmente vivida no processo de envelhecimento. A que amplia o horizonte do desamparo e insere o homem na perspectiva do nada. A do "José", "sozinho no escuro". Aquela que nos faz pedir, com pouca esperança de que nos deem a mão. A que provém do modo como "a dor e o sofrimento físico desempenham papel importante na fragilização do idoso e no desencadeamento do suicídio, associada ao agravamento de transtornos físicos", como aponta a pesquisa da Fátima Cavalcante e Maria Cecília Minayo: aquela que acomete os idosos "impactados por doenças, deficiências e dores crônicas"; aquela que indica que "homens e mulheres estão igualmente em risco, quando se isolam, se fecham, permanecem calados, deprimidos, introspectivos, solitários e tristes".

Estamos falando de solidão que não gera impulso de libertação, nem promove encontro, mas a que faz o idoso constatar-se ausente do seio familiar, fora do ninho da sociedade. Solidão que expressa os vestígios mais frágeis da sua humanidade e só se deixa mostrar através dos fragmentos do sofrimento. Solidão vinculada ao sentimento de dolorosa e inútil espera de coisa alguma: a espera do nada3.

Inserida na desesperança, essa solidão escorrega perigosamente pelos limites do desespero. Apodera-se do idoso quando ele não tem mais a quem ou a que se apegar. Quando desaparecem os pontos de referência. Quando não há sinais que mostrem os caminhos. Quando os ombros enfraquecidos pela idade não suportam o peso do abandono. Então, o idoso abdica. Perde a força crítica e a condição de reagir.

Pensando nos idosos referidos na pesquisa em tela, a fala da Delia Goldfarb4 é nos convida à reflexão sobre o desamparo e a dependência: "A maior ameaça então será a fragilidade dos vínculos e a possível perda do amor do outro que o deixará no maior desamparo e sem proteção ante uma série de perigos e sofrimentos".

Pensamos que, para o idoso atormentado pela desesperança, se radicalize o desafio à continuidade da sua vida. Abalam-se as crenças e vulnera-se o sentido da existência. A ruína do mundo interno mostra toda a fragilidade e neutraliza as possibilidades. Diante do que se torna insuportável, o idoso revela a verdade que ilumina a existência de todos nós: precisamos uns dos outros, na segurança da afeição que nos une nos laços familiares, comunitários e sociais. É assim que José Carlos Rodrigues5 traduz a nossa precária condição de seres humanos: "a ruptura dos laços afetivos é a mais verossímil metáfora do nada".

Se vemos a velhice como uma curva na trajetória humana que possibilita resgatar sonhos e interesses, a vemos também na dimensão biológica como um tempo em que o corpo se torna mais suscetível a doenças, pela suscetibilidade do idoso ao envelhecimento do seu organismo6.

De todo modo, saudável ou não, o idoso continua sendo o que se fizer de si mesmo, jamais definido ou definitivo. Sua liberdade envolve a necessidade de responder ao fato de que está vivo e deve buscar a satisfação dos seus desejos, num mundo onde as estruturas estão para sempre inacabadas, à espera de persistente criação7.

Sim! Mas e se ele estiver "sozinho no escuro", à espera do nada? Quem o procura? Quem o encontra? Quem o acolhe? Quem o ajuda? Quem o guia até onde ele possa retomar o seu rumo próprio para seguir a sua própria estrada?

O isolamento a que o idoso é insistentemente relegado se refere à solidão última do ser humano. Nas suas buscas solitárias e tensas de um sentido para a vida, por onde irá conduzir-se se não houver a referência solidária de um outro que o acolha e o compreenda? Como irá deparar-se com a ausência de sentido do mundo que, inabalável e fria, aponta o desapontamento humano frente ao vazio, ao nada? Para além de todas as verdades, há aquela que afirma o homem como um ser de relação. Nosso mais original compromisso ético é entender o viver como conviver.

Um tema fundamental da fenomenologia é a consideração da vida humana como "ser-no-mundo", "ser-com-o-outro". No fundo das cartas de princípios, vigora um apelo de uma nova visão ética: ninguém é ético para si mesmo, mas é ético quando estende a mão ao outro. Aqui se destaca a visão do sofrimento com os olhos de quem sofre: precisamos olhar a solidão, a dor, o sofrimento, o abandono, as incertezas que os outros sentem, buscando vislumbrar a perspectiva dos olhos deles, a partir do ponto de vista do seu padecimento.

Ninguém decide por ninguém. Nenhum de nós decidirá sobre a vida de um idoso. A mão estendida, porém, apoia e até fundamenta uma decisão. As crises humanas se inserem na trajetória do tempo humano. Velhice é um tempo de crise. Tempo singular de um idoso, à espera daqueles que se destinem a, solidariamente, compartilhar com ele caminhos de saída da crise.

O encontro humano expressa a esfera do sagrado que o homem pode experimentar, pois nesse encontro cada um percebe os limites da suficiência humana e a sua finitude. De mãos estendidas, cada um pode ajudar o outro a transcender a desolação e a sair do poço escuro do abandono.

Dizemos que o encontro com o idoso atormentado pelo desespero é sagrado e a profanação desse encontro acontece quando consentimos o descaso, o escárnio, a humilhação, a exploração, os abusos físicos e verbais, a doença não tratada, a dor não mitigada, a decadência mental, a invalidez, o isolamento social, o abandono familiar, o silêncio opressor.

Temos diante dos nossos olhos a realidade de um idoso habitante da realidade concreta de um corpo velho, aflito, solitário, desesperançado. Corpo desprendido das possibilidades de superação do horror que o aniquila. Enfraquecido pela doença, despedaçado pelo sofrimento, desistente da vida. No olhar, nenhuma expressão que não a do desespero. Vale a pena lembrar de que, quando o corpo já não responde, o coração há de ser tocado.

 

Referências

1. Birman J. Futuro de todos nós: temporalidade, memória e terceira idade na psicanálise. In: Veras RP, organizador. Terceira idade: um envelhecimento digno para o cidadão do futuro. Rio de Janeiro: Relume-Dumará, UNATI-UERJ; 1995. p. 29-48.         [ Links ]

2. Andrade CD. José. In: Nova reunião. V. 1. Rio de Janeiro: José Olympio; 1983. p. 101-103.         [ Links ]

3. Oliveira JFP. Fundamentando o conceito de solidão. In: Pacheco JL, Sá JLM, Py L, Goldman SN, organizadores. Tempo: rio que arrebata. Holambra (SP): Setembro; 2005. p. 219-226.         [ Links ]

4. Goldfarb DC. Demências: clínica psicanalítica. 2ª ed. São Paulo: Casa do Psicólogo; 2006. p. 36.         [ Links ]

5. Rodrigues JC. A morte numa perspectiva antropológica. In: Incontri D, Santos FS, organizadores. A arte de morrer: visões plurais. Bragança Paulista: Comenius; 2007. p. 129-136.         [ Links ]

6. Cunha GL. Mecanismos biológicos do envelhecimento. In: Freitas EV, Xavier FA, organizadores. Tratado de geriatria e gerontologia. 3ª ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan; 2011. p. 14-33.         [ Links ]

7. Py L, Pacheco JL, Oliveira JFP. Morte na velhice. In: Santos FS, organizador. Cuidados paliativos: discutindo a vida, a morte e o morrer. São Paulo: Atheneu; 2009. p. 179-191.         [ Links ]