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Ciência & Saúde Coletiva

Print version ISSN 1413-8123

Ciênc. saúde coletiva vol.17 no.8 Rio de Janeiro Aug. 2012

http://dx.doi.org/10.1590/S1413-81232012000800032 

RESENHAS BOOK REVIEWS

 

Fabiela Bigossi

Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social, Universidade Federal do Rio Grande do Sul

 

 

Billé M, Martz D. Vale a pena envelhecer? Lormont: Le Bord de L'eau; 2010.

 

 

O prefácio de François Dagognet é claro na ideia central da obra de Michel Billé e Didier Martz: a necessidade de conformar as pessoas idosas seja qual for o preço, aos modos inexistentes de um envelhecer bem. Como esses indivíduos nos enviam a imagem do que teremos à nossa frente, isso nos incita a destruir essa imagem, transformá-la ou rejuvenescê-la. O conceito de "Bien Vieillir", considerado pelos autores contraditório ou, no mínimo, ambivalente na sua insistência de envelhecer sem tornar-se velho, é analisado na obra 'La Tyrannie du "Bien Vieillir"' como um estratagema para encobrir o nosso destino e dissimulado pela ideia de organizar a saúde e mesmo de prolongar a vida.

'La Tyrannie du "Bien Vieillir"', publicado pela editora Le Bord de L'eau em agosto de 2010 e de autoria de Michel Billé e Didier Martz traz em cinco capítulos, em formato de diálogo entre os autores, a problemática do envelhecimento em uma sociedade que se esforça em renegar a passagem do tempo. O cruzamento entre a vivência da velhice, a morte e a autonomia do sujeito na sociedade é debatido ao longo de 151 páginas que mantêm um ponto importante para o estudo do envelhecimento: a interdisciplinaridade. Michel Billé é sociólogo e Didier Martz é filósofo, permitindo o cruzamento de disciplinas, de referências e de olhares necessários para o estudo de um fenômeno complexo como o envelhecer.

Entre exemplos objetivos de tratamento aos idosos e questionamentos de ordem subjetiva os autores apresentam a indagação de qual o sentido de envelhecer em uma sociedade do efêmero, criticando a imposição de um saber biomédico para prolongar a vida sem perdas ou carências. Envelhecer é durar e durar forçosamente leva tempo. Numa obra repleta de questionamentos sobre os paradoxos do envelhecer, os autores criticam o modo contemporâneo de perceber e tratar o envelhecimento pelos diferentes domínios e buscam explicações e contradições na maneira de conceber o processo e assim introduzem o conceito de envelhecer bem e seu primeiro paradoxo, de que nós podemos durar, mas a duração não tem mais valor, então, envelheça, mas não evidencie sua idade.

A característica da ideologia do envelhecer bem é de evacuar a questão do tempo, porque o tempo, não em si mesmo, mas o tempo que passa, o tempo que resta para viver não é compatível com a ideia de que possamos, apesar dele, envelhecer bem. Fundado sobre o medo, o envelhecer bem é uma determinação que exerce uma verdadeira tirania sobre quem envelhece, que inculca uma ideologia de prevenção, de precaução e de performance que visa demonstrar o sucesso do programa de envelhecer bem.

Se o envelhecimento é um fenômeno natural porque hoje ele transformou-se em um problema? Para os autores há duas explicações: uma econômica-política e a outra antropológica, ligadas conforme as conjunturas. A primeira é parte do liberalismo que repousa sobre as leis do mercado e sobre uma doutrina utilitarista, que não se concilia com quem não é útil. O utilitarismo demanda um sacrifício necessário e, repousando essencialmente na liberdade individual, o liberalismo não pode se conciliar com a igualdade de todos. A segunda é a exclusão como condição necessária ao funcionamento das sociedades, dos grupos, dos indivíduos e ao seu equilíbrio e o que resta é encontrar quem são os indivíduos que apresentam os sinais de fraqueza, de vulnerabilidade e de diferença marcada, que são as principais características dos excluídos. Através de qual mecanismo eles são excluídos? Da produção de normas, que tem a função de traçar as linhas de separação, marginalizar, isolar e excluir.

A normalização do corpo é o principal exemplo, onde não se diz precisamente como deve ser o corpo normal, pois seria uma questão de direito e mesmo imoral atualmente, mas as imagens, a publicidade, os discursos sobre a nutrição do corpo, o esporte, a saúde, a estética, para dar o exemplo de alguns dispositivos, tratam de nos fazer compreender o que é um corpo dentro da normalidade.

A ideologia do envelhecer bem toma forma quando a simples representação composta de opiniões, de saberes, de experiências, de pensamentos passa a uma visão mais elaborada do mundo. Ela torna-se coletiva, transforma-se em verdade e tende a transformar-se em um princípio explicativo dominante e único e a formar um sistema de interpretações definitivas, ou quase, do mundo, um sistema de valores, dizendo o que convém fazer e pensar e a partir do qual se afirma o que é uma boa ou má vida, mais ou menos digna.

A aplicação do conceito de envelhecer bem se transforma em um projeto individual e coletivo e mesmo político, que considera o custo que pode ter o envelhecer mal para si e para a sociedade. Por que desejar a longevidade se ela é associada ao avanço da idade? Ao fundo desse paradoxo mais uma característica da ideologia do envelhecer bem: envelhecer e permanecer jovem, ou envelhecer sem tornar-se velho, é isso que é imposto através do que os autores denominam tirania do envelhecer bem.

Na medida em que a longevidade tornou-se um indicador dominante da saúde de uma população, durar a todo preço é a palavra de ordem dos pesquisadores, médicos, políticos e em parte dos indivíduos, frente a outros valores como a dignidade e a liberdade dos indivíduos. A ideologia de prevenção e da busca pelo risco zero faz parte do envelhecer bem e para isso é necessário que aceitemos viver sob a vigilância médica para minimizar riscos.

O envelhecer bem, enquanto conceito, vai se apoiar na criação da necessidade de ter projetos de vida para normalizar os indivíduos, com o objetivo de morrer o mais tarde possível e com boa saúde. Envelhecer bem é inicialmente ter um bom comportamento e isso significa não estar doente, o que explica o aumento da medicalização da velhice. O exterior, a aparência do corpo, fica por conta da indústria de cosméticos. Produtos antirrugas, antienvelhecimento e anti-idade por pouco não se tornam produtos "antivelhos". Outra regra é a adoção de uma maneira de se vestir, de um penteado ou corte de cabelo. O envelhecer bem mostra dessa forma sua relação com o corpo estruturado no modo de gestão econômica do mesmo. O corpo é um capital que é necessário gerenciar e investir.

Envelhecer bem é também uma performance, especialmente sexual. É importante seduzir, manter relações amorosas e sexuais mesmo se o corpo não corresponde. Para isso foram criados subterfúgios e o medicamento Viagra é o melhor exemplo de como manter-se performático.

Paradoxalmente o tempo da velhice e da aposentadoria, comunicado como um período de relaxamento e de diminuição das atividades acaba sucumbindo à tirania do envelhecer bem, mais opressor à medida que o tempo passa: seja autônomo, tenha um projeto, faça seus orçamentos, sociabilize-se. Isso é o que os manuais de psicologia e gerontologia incitam. A injunção ao envelhecer bem torna a vida ainda mais cruel e mais difícil de viver e o aumento da pressão para "estar conforme" corresponde ao numeroso aumento do suicídio entre os idosos que é visto como um meio de esquivar-se do sofrimento, da perda de sua autonomia e também de evitar o controle dos poderes (políticos, medicais, jurídicos, psicológicos, filosóficos...) que se ocupam de gerar as suas vidas, de alguma forma, uma maneira de resistência.

Os autores são enfáticos ao dizer que a sociedade atual faz com que os idosos paguem pelo preço da nossa finitude. Quando a velhice é vista como o período que nos separa da morte, nós acabamos por perder a capacidade de pensar também que a velhice é o tempo que nos permite ainda viver. A presença massiva dos idosos na sociedade faz com que tenhamos que conviver iminentemente com a morte, na medida em que o outro é também um constitutivo de mim. Mesmo que empenhemos todas as nossas energias para distanciarmo-nos da morte os velhos mostram que nossa tentativa é inútil, testemunhando em seus corpos o futuro que nos espera. A percepção de qualquer sinal disforme faz com que objetivemos o outro e comecemos a olhar para ele no que lhe falta em relação a nós. O termo 'bem' nos introduz no mundo do valor, onde as coisas, as ações e os seres valem uns mais do que os outros, um mundo enfim do que deve ser e do que é obrigatório ser e que faz com que nos submetamos a essa tirania para não correr o risco do estigma ou de um tratamento social indesejável.

Os autores enfatizam a necessidade e a urgência de encontrar uma via de reflexão sobre o envelhecimento, com o objetivo não somente de compreender esse processo, mas também de aprender como ser velho. A velhice não é somente um estado, mas sim uma maneira de ser que tem suas exigências. A repercussão da obra entre sociólogos, psicanalistas, psicólogos e fóruns organizados e mantidos por idosos em sites de internet mostram uma congruência desses grupos com os questionamentos de Michel Billé e Didier Martz.

O envelhecer bem, colocado simplesmente, conforme os autores, não enfrenta nenhuma oposição, mas quando se apresenta sob a forma de norma com todas as características apresentadas acaba tornando a velhice cada vez mais intolerável, especialmente nas sociedades ocidentais onde o valor do trabalho e da performance, do desejo e da potência, da ação e do êxito são dominantes. A proposta final é do combate à ideologia do envelhecer bem incutida no discurso de medicalização e de nutrição, nas roupas e na relação que nós temos com nosso próprio corpo, nas múltiplas publicações sobre o envelhecimento e na mídia, no medo que temos da morte e nas ideologias nas quais nos apoiamos.