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Ciência & Saúde Coletiva

Print version ISSN 1413-8123

Ciênc. saúde coletiva vol.19 no.6 Rio de Janeiro June 2014

http://dx.doi.org/10.1590/1413-81232014196.06332013 

Temas Livres

Antidepressivos: uso, adesão e conhecimento entre estudantes de medicina

Antidepressants: use, adherence and awareness among medical students

Aline Granada Ribeiro1 

Ligiane Paula da Cruz1 

Kátia Colombo Marchi1 

Carlos Renato Tirapelli2 

Adriana Inocenti Miasso2 

1Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto, Universidade de São Paulo (USP). Av. Bandeirantes 3900 Campus Universitário, Monte Alegre. 14.040-902 Ribeirão Preto SP Brasil. aline_r@yahoo.com

2Departamento de Enfermagem Psiquiátrica e Ciências Humanas, Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto, USP


RESUMO

Este estudo avaliou em estudantes de medicina que usam antidepressivos, o grau de adesão e conhecimento relacionados ao medicamento e a opinião sobre a importância da orientação no tratamento. Trata-se de estudo transversal e descritivo, realizado em uma Faculdade de Medicina pública paulista. Dos 289 alunos entrevistados, 33 (11,4%) utilizam ou já utilizaram antidepressivos, sendo a fluoxetina o mais prescrito. O enfermeiro não foi citado como responsável pela orientação sobre o antidepressivo. Embora a maioria dos estudantes tenha recebido orientações sobre antidepressivo, a maioria não aderia ao mesmo havendo, ainda, dúvidas quanto ao seu uso. Houve associação estatisticamente significativa quanto ao consumo de outros medicamentos além do antidepressivo e presença de efeitos colaterais e quanto ao aumento da dose sem consulta médica e presença dos referidos efeitos. São necessárias ações para valorização do ensino da psicofarmacologia na formação do profissional de medicina e para maior articulação entre teoria e prática profissional.

Palavras-Chave: Antidepressivos; Enfermagem psiquiátrica; Estudantes de medicina

ABSTRACT

This study assessed the degree of adherence and drug-related awareness and opinions regarding the importance of guidance with respect to treatment among medical students who use antidepressants. It is a cross-sectional descriptive study, carried out in a public Medical School in the state of Sao Paulo, Brazil. Of the 289 students interviewed, 33 (11.4%) use or had already used antidepressants, with fluoxetine being the most prescribed. The nurse was not cited as being responsible for guidance on the antidepressant. Although most students had received guidance on antidepressants, they did not heed guidance and still had doubts regarding their use. There was a statistically significant association regarding the consumption of other drugs in addition to antidepressants and the existence of side effects, as well as regarding an increase of the dosage without medical consultation and the existence of such side effects. Actions are necessary to acknowledge the importance of the teaching of psychopharmacology in the training of the medical professional and for greater harmony between theory and practice.

Key words: Antidepressants; Psychiatric nursing; Medical students

Introdução

A depressão é um transtorno de humor crônico e recorrente, que ocasiona forte impacto na qualidade de vida do paciente e de seus familiares. Considerando o aumento no número de casos e suas consequências sociais, constitui sério problema de saúde pública1. É um transtorno que caracteriza-se por sentimentos de tristeza, culpa, pessimismo, perda de apetite, dificuldade de concentração, diminuição da libido e aumento da irritabilidade2.

Aproximadamente 50% dos pacientes com um primeiro episódio depressivo apresentará pelo menos um segundo. Esse risco aumenta com o número de episódios3. Por isso a depressão é a quarta causa mais importante de inaptidão mundial e é esperado que se torne a segunda causa mais importante até 20204. É, ainda, potencialmente letal, pois, em casos graves, existe o risco contínuo de suicídio5.

No Brasil, algumas pesquisas têm relatado os sintomas depressivos em estudantes universitários. Estima-se que durante sua formação acadêmica, 15 a 25% dos estudantes universitários apresentem algum transtorno psíquico6. Nesse contexto, destacam-se os estudantes da área de saúde, incluindo aqueles do curso de medicina, os quais convivem precocemente com a dor humana durante a sua formação, o que pode resultar em maior probabilidade de desenvolver quadros depressivos7.

Estudo realizado em estado brasileiro, com estudantes de Medicina, demonstrou prevalência de sintomas depressivos em 27% dos pesquisados8. Essa maior predisposição parece estar relacionada a diferentes fatores ao longo do curso. A depressão, além de causar grande sofrimento psíquico, pode levar a prejuízos no desempenho acadêmico e nos relacionamentos sociais7.

Destaca-se que dois tipos de abordagens terapêuticas têm sido empregadas para tratar pessoas com transtornos depressivos, incluindo os jovens: psicoterapia e terapia medicamentosa com antidepressivos. Em casos de depressão severa ou resistente à psicoterapia, o tratamento farmacológico é necessário9. A esse repeito a literatura revela que o uso de psicofármacos tem aumentado nas últimas décadas, principalmente dos antidepressivos10. Nesse sentido destaca-se estudo que identificou prevalência de 3,1% no uso de antidepressivos em indivíduos com 15 anos ou mais11.

O aumento do consumo de antidepressivos, nesta década, possivelmente está relacionado com o surgimento de novas medicações, com a ampliação das indicações terapêuticas, bem como com o crescimento do diagnóstico das doenças depressivas na população em geral, em especial nas mais jovens12. Destaca-se que a classe de antidepressivos mais utilizada no tratamento de jovens, incluindo estudantes, é a dos Inibidores seletivos da receptação de serotonina (ISRS) devido a sua ação seletiva apresentar um perfil mais tolerável de efeitos colaterais13.

Apesar de os antidepressivos apresentarem resultados positivos não é incomum a dificuldade de adesão aos mesmos devido, principalmente, ao tempo de latência para início dos seus efeitos terapêuticos e o surgimento dos efeitos colaterais logo no início do tratamento2. Nesse contexto, os profissionais da saúde, incluindo o enfermeiro, desempenham papel fundamental na orientação do usuário de antidepressivos, visando uma terapia medicamentosa segura e efetiva.

Considerando o aumento da prevalência de depressão entre a população jovem e o fato de que há grande incidência desse transtorno entre universitários, incluindo aqueles do curso de medicina, os objetivos deste estudo foram: identificar o uso de medicamentos antidepressivos em alunos do curso de medicina de uma universidade estadual paulista e avaliar, naqueles estudantes que usam medicamentos antidepressivos, o grau de adesão à terapêutica medicamentosa, a opinião sobre a importância da orientação no tratamento e o conhecimento sobre as ações dos antidepressivos. Acredita-se que os resultados desse estudo possam fornecer subsídios para intervenções que minimizem lacunas de conhecimento e as consequências da não adesão ao tratamento.

Metodologia

Trata-se de estudo transversal e descritivo, realizado em uma Faculdade de Medicina pública do Estado de São Paulo, entre os meses de maio e novembro de 2010. A referida instituição possuía, na ocasião da coleta dos dados, 608 alunos matriculados. Destes, 289 manifestaram interesse em participar da pesquisa, dos quais 33 disseram fazer uso de antidepressivos e constituíram a amostra deste estudo.

Para coleta dos dados foi empregada a técnica de autorrelato estruturada, utilizando um questionário composto por cinco partes. Na primeira parte do questionário foram coletados dados de identificação dos sujeitos, na segunda parte o objetivo foi avaliar a opinião do usuário de antidepressivo quanto à orientação sobre o uso do medicamento, na terceira parte foram coletados dados a respeito do conhecimento do usuário sobre o medicamento antidepressivo, na quarta parte do questionário foi caracterizado o padrão de consumo dos antidepressivos (tipo de antidepressivo, frequência de consumo, acompanhamento médico e motivo do consumo) e, na última parte foi investigado o grau de adesão ao tratamento medicamentoso pelo Teste de Morisky-Green14. As informações eram registradas pelos sujeitos, mas eles tinham a oportunidade de esclarecer dúvidas com o entrevistador. Não era obrigatório o preenchimento, dando-se a opção de devolvê-lo em branco.

O teste de Morisky e Green14 foi utilizado para identificar o grau de adesão ao tratamento medicamentoso e permitiu avaliar o comportamento do estudante quanto ao uso diário do medicamento. Este teste consiste de quatro perguntas: "Você, alguma vez, se esquece de tomar o seu remédio?"; "Você, às vezes, é descuidado quanto ao horário de tomar seu remédio?"; "Quando você se sente bem, alguma vez, você deixa de tomar seu remédio?" e "Quando você se sente mal, com o remédio, às vezes, deixa de tomá-lo?". Pela natureza destas questões, pode-se discriminar se a eventual não adesão é devida ao comportamento intencional ou não intencional, ou, ainda, a ambos os tipos de comportamentos.

A adesão foi avaliada por respostas dicotomizadas nos valores de 0 (zero) ou 1. Assim, as respostas às perguntas do teste foram pontuadas, atribuindo-se o valor 1 a cada resposta positiva em que a frequência admitida foi de uma vez por mês ou menos e o valor 0 (zero) para as outras possibilidades de frequência. Para comparar e discutir os resultados deste estudo foi adotado como critério para classificar o grau de adesão: "mais aderente" os que obtiveram 4 pontos no TMG e como "menos aderentes" os que obtiveram de 0 a 3 pontos.

Para análise dos dados foi utilizada abordagem quantitativa. Após a codificação de cada uma das variáveis, foi elaborado um dicionário de dados para construção de uma planilha de dados no programa EXCEL. Posteriormente, os dados foram transportados para serem analisados no programa Statistical Package for the Social Science (SPSS, versão 17.0). Foram investigadas associações estatísticas entre as variáveis categóricas usando o teste Qui-quadrado (χ2), sendo a hipótese de associação aceita quando p encontrado foi menor ou igual a 0,05. A comparação das variáveis quantitativas foi feita pelo teste não paramétrico de Mann-Whitney. O projeto foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade em estudo. Os participantes assinaram o termo de consentimento livre e esclarecido, de acordo com a Resolução do Conselho Nacional de Saúde (CNS 196/96)15.

Resultados

Dentre os 289 estudantes que responderam à pesquisa, 33 (11,4%) afirmaram que fazem ou já fizeram uso de medicamentos antidepressivos. Os dados de identificação e socioeconômicos dos participantes são apresentados na Tabela 1.

Tabela 1 Frequência e porcentagem das características socioeconômicas dos estudantes que usam ou usaram medicamentos antidepressivos. Ribeirão Preto (SP), Brasil, 2010 . 

Variáveis f (n = 33) %
Curso
1º ano 06 18,2
2º ano 08 24,2
3º ano 05 15,2
4º ano 06 18,2
5º ano 03 9,1
6º ano 05 15,2
Gênero
Masculino 16 48,5
Feminino 17 51,5
Idade
18-22 anos 18 54,5
23-27 anos 15 45,5
Estado civil
Solteiro(a) 33 100,0
Casado(a) 00 0,0
Número de filhos
Sem filhos 33 100,0
1 filho 00 0,0
2-3 filhos 00 0,0
Trabalha
Sim 00 0,0
Não 33 100,0
Renda familiar
Menos de 1 salário 00 0,0
2-5 salários 05 15,2
6-10 salários 05 15,2
11 ou mais salários 21 63,6
Sem resposta 02 6,1
Última consulta médica
Menos de 3 meses 20 60,6
4 a 6 meses 05 15,2
7 meses a 1 ano 03 9,1
Mais de 1 ano 04 12,1
Sem resposta 01 3,0

A Tabela 1 revela que todos os alunos deste estudo que utilizam ou já utilizaram antidepressivos são solteiros, não têm filhos e não trabalham. Verifica-se que a maior porcentagem destes alunos (24,2%) era do segundo ano. A maioria possuía renda familiar igual ou superior a 11 salários mínimos (63,6%) e tiveram a última consulta médica a menos de três meses (60,6%). Observa-se, ainda, maior porcentagem de consumo de antidepressivos entre os alunos do sexo feminino (51,5%) e na faixa etária de 18 a 22 anos (54,5%).

Observa-se, na Tabela 2, que apenas um participante não recebeu orientações sobre o uso dos antidepressivos, seus efeitos colaterais e interações medicamentosas (χ2 = 29,12; p < 0,05). A maioria (97%) apontou o médico como o responsável pelas orientações, sendo citado uma vez o psicólogo (χ2 = 29,12; p < 0,05). Os 33 sujeitos também afirmaram considerar as orientações importantes, principalmente por aumentar a confiança (51,5%), a segurança (42,4%) e a efetividade (36,4%) da terapia, como também a redução dos efeitos colaterais e interações medicamentosas (12,1%).

Tabela 2 Distribuição dos participantes do estudo de acordo com a opinião sobre a importância da orientação no tratamento. Ribeirão Preto (SP), Brasil, 2010 

Variáveis f (n = 33) % χ2
Recebeu orientação quanto ao uso do antidepressivo?
Sim 32 97,0 χ2 = 29,12; p < 0,05
Não 01 3,0
Quem orientou?
Médico 32 97,0 χ2 = 29,12; p < 0,05
Outro 01 3,0
Considera a orientação importante?
Sim 33 100,0
Não 00 0,0
Não sabe 00 0,0
Qual a importância da orientação?
Aumenta confiança na terapia 17 51,5
Aumenta a segurança da terapia 14 42,4
Aumenta a efetividade da terapia 12 36,4
Reduz efeitos colaterais e interações medicamentosas 07 21,2
Outros 02 6,1
Dúvidas quanto ao tratamento?
Sim 07 21,2 χ2 = 10,93; p < 0,05
Não 26 78,8

Destaca-se que embora a grande maioria dos alunos (97%) tenha recebido orientações quanto ao uso dos antidepressivos, 21,2% deles ainda apresentavam dúvidas em relação aos mecanismos de ação destes fármacos, tempo de tratamento, dependência causada pelos mesmos, efeitos colaterais e interação com outros fármacos.

Observa-se, na Tabela 3, que apesar das orientações recebidas, 24,3% dos participantes não tinham conhecimento do período para que seja observado o início dos efeitos antidepressivos. Ainda, a maioria dos usuários acreditava que estas medicações causam dependência (54,5%) e tolerância (51,5%).

Tabela 3 Distribuição dos participantes do estudo de acordo com o conhecimento a respeito das ações dos antidepressivos. Ribeirão Preto (SP), Brasil, 2010. 

Variáveis f (n = 33) % χ2
Período para que seja observado o início dos efeitos antidepressivos
12 horas 02 6,1 χ2 = 45,42; p < 0,05
1 dia 00 0,0
1 semana 03 9,1
2 semanas ou mais 25 75,8
Não sabe 03 9,1
Já aumentou a dose sem consultar o médico?
Nunca 29 87,9 χ2 = 69,66; p < 0,05
Uma vez 02 6,1
Frequentemente 01 3,0
Sem resposta 01 3,0
Está apresentando efeitos colaterais devido ao uso dos antidepressivos?
Sim 08 24,2 χ2= 24,81; p < 0,05
Não 20 60,6
Não sabe 02 6,1
Sem resposta 03 9,1
Antidepressivos podem causar dependência?
Sim 18 54,5 χ2 = 17,06; p < 0,05
Não 06 18,2
Não sabe 07 21,2
Sem resposta 02 6,1
Antidepressivos podem causar tolerância?
Sim 17 51,5 χ2 = 15,36; p < 0,05
Não 05 15,2
Não sabe 09 27,3
Sem resposta 02 6,1
A remoção do medicamento no final do tratamento deve ser feita de
maneira gradual?
Sim 24 72,7 χ2 = 40,81; p < 0,05
Não 02 6,1
Não sabe 05 15,2
Sem resposta 02 6,1
Você interrompeu o tratamento sem consultar o médico?
Sim 15 45,4 χ2 = 0,03; p > 0,05
Não 16 48,5
Sem resposta 02 6,1
Faz uso de outro(s) medicamento(s) além do antidepressivo?
Sim 08 24,2 χ2 = 21,27; p < 0,05
Não 23 69,7
Sem resposta 02 6,1

Constata-se que os participantes não aumentaram a dose da medicação sem consentimento médico. No entanto, não houve diferença estatisticamente significativa (χ2 = 0,03; p > 0,05) no que diz respeito ao número de participantes que interromperam o tratamento com (48,5%) e sem o consentimento médico (45,4%).

Vinte participantes (60,6%) dos trinta e três que usam ou já usaram alguma medicação antidepressiva afirmaram não estar apresentando efeitos colaterais devido ao seu uso e oito (24,2%) reportaram tais efeitos. Entre os principais efeitos, destacaram-se vômito, diarreia, tontura e redução do interesse sexual (33,3%). Identificou-se que 24,2% dos participantes utilizam outros medicamentos concomitantemente com as medicações antidepressivas e os principais medicamentos referidos foram propanolol, carbamazepina, lorazepam e alprazolam.

Foi encontrada associação no que diz respeito ao consumo de outros medicamentos além do antidepressivo e a presença de efeitos colaterais (p < 0,05). Da mesma forma o aumento da dose sem consulta médica e a presença de efeitos colaterais também estiveram associados estatisticamente (p < 0,05).

A fluoxetina foi a medicação mais usada pelos participantes da pesquisa (Figure 1).

Figura 1 Frequência do uso de diferentes antidepressivos. 

A idade em que a medicação foi consumida pela primeira vez variou de 15 a 24 anos. Dos 33 participantes, 24 (72,7%) referiram ter tido acompanhamento médico durante o uso de antidepressivos e as principais razões relatadas para o uso incluíram transtornos de ansiedade e depressão.

Os dados mostraram que apenas 10 estudantes (30,3%) apresentaram adesão à terapia quando avaliados pelo teste, 18 (54,5%) não tiveram adesão e 5 (15,2%) não responderam ao teste. Um dado que chamou atenção foi que dos 33 estudantes, 16 (48,5%) reportaram que são descuidados quanto ao horário de administração de sua medicação e 11 (33,3%) já se esqueceram de tomar sua medicação alguma vez (Tabela 4). Não foram encontradas correlações entre a presença de dúvidas, efeitos colaterais, uso de outras medicações e acompanhamento médico com a adesão ao tratamento (p > 0,05).

Tabela 4 Distribuição dos estudantes usuários de antidepressivos de acordo com os resultados apresentados no teste de Morisky e Green. 

Itens (n = 33) Sim (%) Não (%) Teste χ2
Você alguma vez, esquece de tomar seu remédio? 33,3 51,5 1,81
p > 0,05
Você, às vezes, é descuidado quanto ao horário de tomar seu remédio? 48,5 36,4 0,33
p > 0,05
Quando você se sente bem, alguma vez, você deixa de tomar o remédio? 24,2 60,6 4,41
p < 0,05
Quando você se sente mal com o remédio, às vezes, deixa de tomá-lo? 15,2 69,7 13,37
p < 0,05

Discussão

É estimado que o uso de medicamentos antidepressivos por jovens chegue a 8,3%16 e de acordo com os resultados desta investigação, foi identificado que essa porcentagem pode ser maior em estudantes de medicina, uma vez que 11,4% dos participantes afirmaram utilizar ou já terem utilizado esse tipo de medicação. Este resultado vem ao encontro da literatura sobre a temática, que aponta maior prevalência de depressão entre jovens universitários, inclusive entre aqueles do curso de medicina.

No Brasil, em uma universidade privada, a prevalência dos sintomas depressivos nos estudantes de Medicina foi de 40,7%17. Em 2007, estudo realizado na cidade de Tubarão, Santa Catarina, demonstrou prevalência de sintomas depressivos em 27% dos estudantes de Medicina pesquisados8. Essa maior predisposição, tanto à depressão como à ansiedade, pode estar relacionada a uma variedade de estressores ao longo do curso de medicina, incluindo a perda da liberdade pessoal, o alto nível de exigência do curso, a falta de tempo para o lazer, a forte competição entre colegas e o próprio contato com pacientes17.

Estudos18 indicam maior prevalência de consumo de antidepressivos entre o sexo feminino, corroborando os resultados da presente pesquisa que também identificou maior consumo deste tipo de medicamento por estudantes do sexo feminino (51,5%).

Neste estudo, 100% dos participantes consideraram importantes as orientações sobre os antidepressivos, entretanto, a maioria foi considerada como não aderente ao medicamento. Este aspecto é relevante, pois a não adesão ao tratamento pode resultar no agravamento da doença piorando as condições clinicas do paciente e diminuindo sua qualidade de vida, o que pode ocasionar ainda um aumento nos custos terapêuticos. Especialmente no caso da depressão, a não adesão ao tratamento medicamentoso pode trazer sérias consequências, pois trata-se de um transtorno altamente incapacitante. É, ainda, potencialmente letal, considerando o risco contínuo de suicídio5.

Constatou-se, ainda, que a não adesão foi principalmente por comportamento não intencional, ou seja, o estudante se esquecia de tomar o medicamento ou era descuidado em relação ao horário de utilizá-lo. Entretanto, outros resultados identificados neste estudo, embora não tenham apresentado associação estatisticamente significativa com a adesão, podem ter contribuído para a baixa porcentagem da mesma.

Nesse sentido, destaca-se que apesar de a maioria (97,0%) dos sujeitos terem recebido orientações quanto ao uso do antidepressivo, 21,2% deles ainda apresentavam dúvidas em relação aos mecanismos de ação dos fármacos, tempo de tratamento, dependência causada pelas medicações, efeitos colaterais e interação com outros fármacos. Estudo19 destaca como barreira para seguimento da terapêutica medicamentosa a falta de iniciativa dos pacientes em questionar os profissionais sobre a mesma em consequência, principalmente, da hegemonia do modelo biomédico, o qual não prevê espaço para questionamentos e coparticipação dos pacientes na definição da proposta terapêutica. A literatura aponta, ainda, que frequentemente os pacientes tomam decisões sobre tomar ou não um medicamento baseado nas informações recebidas acerca dos mesmos20, sendo as dúvidas um fator que pode ter contribuído para a baixa adesão nessa clientela.

Ainda, 24,3% dos alunos não tinham conhecimento sobre o período para que seja observado o início dos efeitos antidepressivos. É fato que apesar dos resultados positivos, os antidepressivos apresentam algumas limitações, pois seus efeitos terapêuticos começam apenas depois de duas a seis semanas e os efeitos colaterais surgem no início do tratamento2. Desse modo, na prática terapêutica, o tempo de latência para o início do efeito antidepressivo está associado à redução da adesão do paciente ao tratamento, figurando como um importante fator na desistência do tratamento com esse tipo de medicamento, principalmente na presença de efeitos colaterais21. Vale ressaltar que os resultados deste estudo mostraram que 45,4% dos estudantes já interromperam o tratamento sem consultar o médico.

Ao não conhecer o tempo de latência para início dos efeitos terapêuticos dos antidepressivos, o usuário pode, também, aumentar a dose do medicamento a fim de observar os efeitos desejados18. Assim, a educação do usuário é de fundamental importância para não gerar falsas expectativas, otimizando a adesão ao medicamento22,23. Nesse contexto, o enfermeiro tem importante papel na educação do cliente, todavia, nenhum participante o citou como responsável pela sua orientação, sendo esta responsabilidade quase totalmente atribuída ao médico.

Verificou-se, também, que a maioria dos entrevistados acreditava que os antidepressivos podem causar dependência (54,5%) e tolerância (51,5%), sendo que tais aspectos não estão associados ao uso destes medicamentos2, revelando a falta de conhecimento dos estudantes a esse respeito.

No que se refere aos efeitos colaterais, faz-se importante mencionar a associação identificada entre a presença dos referidos efeitos e o consumo de outros medicamentos além do antidepressivo (p < 0,05). Neste estudo constatou-se que 24,2% dos participantes utilizavam outro medicamento além do antidepressivo. Em tratamento ambulatorial, as interações medicamentosas ocorrem em 5 a 20% das situações, sendo causa frequente dos efeitos adversos, incluindo os efeitos colaterais24. Embora muitos destes efeitos sejam previsíveis, tendo em vista o conhecimento da farmacodinâmica e farmacocinética dos medicamentos, alguns podem ser inesperados, sendo fundamental a orientação do usuário em relação à observação e relato dos mesmos à equipe visando à revisão da prescrição medicamentosa.

Constatou-se que a fluoxetina foi o medicamento antidepressivo mais utilizado pelos estudantes (33,3%). Ressalta-se a relevância da identificação das classes farmacológicas utilizadas, pois alguns grupos de fármacos apresentam maior índice de interações medicamentosas possíveis, especialmente os anticonvulsivantes, benzodiazepínicos e antidepressivos25. Neste estudo há estudantes que utilizam concomitantemente o antidepressivo tanto com benzodiazepínicos como com anticonvulsivantes. Desse modo, as pessoas que utilizam antidepressivos devem receber acompanhamento farmacoterapêutico caso haja necessidade de utilizar qualquer outro medicamento.

Conclusões

Este estudo identificou que 11,4% dos estudantes de medicina entrevistados utilizam ou já utilizaram medicamento antidepressivo, sendo a fluoxetina a medicação mais prescrita. Na amostra estudada, o enfermeiro não foi citado como profissional responsável pela orientação relacionada à utilização do antidepressivo, ficando esta função restrita ao médico.

Embora quase todos os estudantes tenham recebido orientações em relação ao uso do antidepressivo, a maioria não aderia ao mesmo e há aqueles que ainda apresentavam dúvidas quanto aos mecanismos de ação dos referidos fármacos, tempo de tratamento, dependência e tolerância causadas pelos mesmos, efeitos colaterais e interação com outros fármacos.

Foi identificada associação estatisticamente significativa no que se refere ao consumo de outros medicamentos além do antidepressivo e a presença de efeitos colaterais bem como em relação ao aumento da dose sem consulta médica e a presença dos referidos efeitos.

Considerando que a amostra deste estudo é composta por estudantes de medicina, chama a atenção o desconhecimento dos mesmos a respeito dos vários aspectos relacionados aos antidepressivos, mesmo utilizando tais medicamentos. A partir do quinto ano do curso de medicina, todos deveriam estar preparados para prescrever os referidos medicamentos. Tal achado aponta para a necessidade de ações voltadas para a valorização do ensino da psicofarmacologia na formação do profissional de medicina bem como para a maior articulação entre a teoria e a prática profissional.

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Recebido: 16 de Março de 2013; Revisado: 27 de Abril de 2013; Aceito: 07 de Maio de 2013

Colaboradores AG Ribeiro trabalhou na concepção do projeto de pesquisa e na coleta dos dados. LP Cruz trabalhou na coleta de dados e na redação do artigo. KC Marchi trabalhou na análise dos dados. CR Tirapelli e AI Miasso trabalharam na concepção e na redação do artigo.

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