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Ciência & Saúde Coletiva

versão impressa ISSN 1413-8123

Ciênc. saúde coletiva vol.20 no.3 Rio de Janeiro mar. 2015

http://dx.doi.org/10.1590/1413-81232015203.20092014 

Editorial

Avanços na vigilância da Saúde Pública brasileira

James Macinko

2Departments of Health Policy and Management and Community Health Sciences, UCLA Fielding School of Public Health

Enquanto o conceito de utilização de dados para rastrear epidemias data do antigo Egito, o uso de dados de mortalidade e morbidade para orientar explicitamente ações de Saúde Pública levou mais tempo para ser realizado. Algumas estimativas avaliam seu surgimento no século 14 com a invenção da quarentena, para evitar a propagação da peste negra. Apesar dessa longa história, o desafio enfrentado por muitos países (independentemente do nível de renda) tem sido o de equilibrar os investimentos na infraestrutura e nos recursos humanos necessários para: proceder a vigilância, fornecer os serviços essenciais para responder às necessidades de saúde atuais e investir em ações de prevenção.

O Brasil tem uma rica história de vigilância epidemiológica e de Saúde Pública e vem experimentando uma significativa aceleração dos esforços desde o início dos anos 2000. Investimentos essenciais têm sido feitos para melhorar a integridade e a exatidão das estatísticas vitais, juntamente com o lançamento de novos métodos e abordagens para monitorar as doenças não transmissíveis, as violências e os fatores de risco comportamentais. Os artigos desta edição demonstram a amplitude e o alcance desses esforços, ilustram como tais dados podem ser trazidos para analisar uma série de questões importantes e expõem a sofisticação crescente dos métodos e das abordagens, especialmente na última década.

Entre as conquistas recentes, as principais incluem o uso sistemático e regular de pesquisas de fatores de risco comportamentais, como o Vigitel, para captar mudanças nas taxas de prevalência de comportamentos e nos riscos para a saúde, a notificação universal de eventos significativos (como a violência interpessoal), o uso de dados administrativos (de emergência e hospitalares, para rastrear lesões), assim como as técnicas de ligação de dados (linkage) e de captura e recaptura para permitir a apreciação de processos em sistemas de informação. Os artigos mostram claramente como tais esforços de vigilância fazem parte das estratégias nacionais para identificar e enfrentar as desigualdades sociais e da saúde.

As experiências nos Estados Unidos e em outros lugares sugerem que o sucesso dessas conquistas só permanece se forem ativamente apoiadas. Muito frequentemente, esforços bem sucedidos na área de Saúde Pública, em todo o mundo, têm sido comprometidos - paradoxalmente como uma reação a uma sensação de que já cumpriram sua finalidade - em função de outras prioridades políticas e financeiras. De fato, contra o pano de fundo de rápido envelhecimento da população brasileira, com o aumento nos fatores de risco de doenças crônicas, como obesidade, e as crescentes taxas de lesões relacionadas ao transporte e a outros tipos de violências, é provável que mais recursos se tornarão necessários.

Portanto, entre os principais desafios da vigilância da Saúde Pública no Brasil está a necessidade de se poder continuar combinando-a com outros dados de rotina para o monitoramento, a avaliação e a melhoria das políticas e dos programas. Esta ligação demonstra a natureza essencial da vigilância no funcionamento eficiente e eficaz de um sistema nacional de Saúde Pública, como o SUS. O desenvolvimento de novos sistemas de informação (como registos de saúde eletrônicos) exigirá uma construção em termos de comparabilidade e interoperabilidade para ampliar seu potencial de melhorar a saúde. Também é provável que novas abordagens sejam necessárias para coletar dados de vigilância em tempo real, por meio da mídia social, crowd-sourcing e análise de "big data". Essas abordagens têm sido particularmente úteis em grandes eventos e para alcançar populações-chave vulneráveis, assim como outros que não podem ser facilmente identificados através de variáveis demográficas padronizadas. Enquanto isso, poderão ser necessários novos sistemas para lidar com os desafios emergentes, como o rastreamento de medicamentos prescritos (e com mau uso), enquanto os sistemas existentes podem precisar se expandir para incorporar a vigilância de outras condições, como a saúde mental. Finalmente, é provável que haja uma necessidade de se aprimorar a ligação entre as abordagens reforçadas de vigilância e a disseminação de informações para as autoridades de Saúde Pública e para o público em geral. Estes esforços serão essenciais para manter os investimentos nos próprios sistemas de vigilância, bem como os recursos humanos e as tecnologias necessárias para a concepção, a coleta, a análise e a ação sobre os dados de vigilância de Saúde Pública de uma forma eficaz e a tempo.

Enquanto desafios como as alterações climáticas globais e seus efeitos associados ameaçarem a saúde com novos perigos, os investimentos realizados numa vigilância forte e ágil em ações de Saúde Pública terão um papel significativo a desempenhar na trajetória contínua do Brasil rumo a um futuro mais justo, próspero e sustentável.

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