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Ciência & Saúde Coletiva

versão impressa ISSN 1413-8123versão On-line ISSN 1678-4561

Ciênc. saúde coletiva vol.20 no.7 Rio de Janeiro jul. 2015

http://dx.doi.org/10.1590/1413-81232015207.02672015 

Artigo

Desafıos editoriais da Revista de Saúde Pública

José Leopoldo Ferreira Antunes 1  

Ivan França Júnior 1  

Maria Teresinha Dias de Andrade 1  

Rita de Cássia Barradas Barata 2  

Carlos Augusto Monteiro 1  

1Faculdade de Saúde Pública, Universidade de São Paulo. Av. Dr. Arnaldo 715, Cerqueira Cezar. 01246-904 São Paulo SP Brasil. leopoldo@usp.br

2Faculdade de Ciências Médicas, Santa Casa de São Paulo

Resumo

Os editores da Revista de Saúde Pública descrevem o perfil editorial da revista e discutem os desafios da publicação científica na área. É apresentada uma síntese histórica dos quase 50 anos da revista, com a projeção temporal de seus indicadores bibliométricos. São relacionados parâmetros qualitativos e quantitativos de seu perfil editorial e indexações. São discutidas as restrições orçamentárias e as ações que vêm sendo tomadas para enfrentá-las. Também se discute a dificuldade na alocação de revisores para os manuscritos submetidos ao processo de avaliação editorial; uma questão que afeta a publicação científica em muitas áreas de conhecimento. Em especial, buscou-se refletir sobre a proposição de medidas que visem dinamizar o processo editorial, atenuando a escassez de revisores e suas possíveis consequências prejudiciais para o processo editorial.

Palavras-chave Publicações seriadas; Indicadores de produção científica; Bibliometria; Revisão da pesquisa por pares

Introdução

A Revista de Saúde Pública - RSP tem como objetivo contribuir para o desenvolvimento do conhecimento científico, por meio da divulgação dos resultados de pesquisa original, estudos de revisão da literatura, comentários e notas técnicas sobre as várias áreas temáticas e campos interdisciplinares englobados na saúde coletiva. Para melhor servir a essa finalidade, sua equipe editorial se esforça em manter o elevado reconhecimento que a revista cativou em suas muitas décadas.

A RSP convida a submissão de trabalhos em todas as áreas temáticas de interesse para a saúde coletiva e procura oferecer o melhor de nossos esforços editoriais para os autores e leitores. Todos os manuscritos submetidos à RSP passam por um cuidadoso processo de avaliação, visando selecionar as melhores contribuições e aprimorar os manuscritos por meio do intercâmbio e da reflexão conjunta entre os pares. Quando submetidos em português ou espanhol, os artigos aprovados para publicação são vertidos para o inglês e publicados nos dois idiomas. Os artigos publicados passam por leitura técnica e revisão ortográfica e gramatical, e são indexados nas principais bases de dados bibliográficos.

Congratulamos Ciência & Saúde Coletiva por seus vinte anos e saudamos a iniciativa de organizar uma síntese do campo editorial da área no país. Neste artigo, apresentamos a Revista de Saúde Pública, revisando seus quase cinquenta anos de história e discutindo questões editoriais que definem o campo da comunicação científica em saúde coletiva na atualidade.

Síntese histórica

A Revista de Saúde Pública foi criada em 1967, como sucedânea da publicação Arquivos da Faculdade de Higiene e Saúde Pública da Universidade de São Paulo, que foi mantida de 1947 a 1966. Fruto do protagonismo da Faculdade de Saúde Pública no movimento sanitário em diferentes conjunturas históricas, essa linha de publicações teve seu início em 1919, pouco tempo após a fundação do então Instituto de Higiene e Saúde Pública, com o título de Boletins do Instituto de Higiene. Apesar das enormes modificações formais, funcionais e organizacionais que ocorreram na transição das três configurações históricas do periódico, a produção de conhecimentos especializados, a comunicação científica e a formação de recursos humanos na área da saúde pública sempre estiveram em pauta na perspectiva de seus proponentes.

Os estudos para a criação da Revista de Saúde Pública, e o planejamento de seu funcionamento inicial foram dirigidos por Elza Salvatori Berquó, então presidente da Comissão de Redação, da qual também participavam Armando Piovesan, Flávio Wagner Rodrigues, Oswaldo Paulo Forattini, Paulo S. Nogami e Reinaldo Ramos, além de Odair Pacheco Pedroso, que foi nomeado primeiro Diretor Responsável pela RSP.

É relevante notar que a criação da Revista de Saúde Pública em 1967, em substituição aos Arquivos da Faculdade… foi justificada pela perspectiva de ampliar e atualizar os recursos de comunicação científica na área da saúde pública1. Em especial, seus proponentes pretendiam oferecer ao campo profissional um veículo para divulgar os resultados dos trabalhos de pesquisa que não fosse restrito à própria Faculdade, uma condição que não havia sido propiciada pela antiga publicação dos Arquivos da Faculdade… Queria-se romper com o caráter “paroquiano” que o próprio nome Arquivos da Faculdade… indicava; de fato, a publicação anterior restringiu-se à divulgação dos trabalhos realizados na própria Faculdade.

Ao avaliar esta meta, vinte anos após sua proposição, Oswaldo Paulo Forattini2, então presidente da Comissão de Publicações, considerou-a plenamente atingida, em função do grande número de artigos publicados (de 194 artigos durante os vinte anos de Arquivos da Faculdade… para 846 nos primeiros vinte anos da Revista de Saúde Pública); da mudança de sua periodicidade (de semestral desde sua criação para trimestral em 1972, e bimestral em 1981); e da obtenção das principais indexações de âmbito nacional e internacional. Para esses fins, teriam concorrido de modo importante, a subvenção obtida pelo CNPq e Fapesp, a partir de 1979, e pelo Programa de Apoio aos Periódicos Científicos Publicados na Universidade de São Paulo, a partir de 1985.

Outro importante ingrediente para o sucesso editorial da RSP em seus primeiros anos foi a adoção do sistema de avaliação pelos pares para a seleção dos manuscritos. Apesar de a literatura já discutir falhas no sistema de “referees,” este procedimento foi reconhecido pela Comissão de Publicações como sendo o mais recomendado; e sua implantação desde a criação da Revista foi apontado como tendo sido preponderante para a “avaliação qualitativa dos trabalhos submetidos à publicação”2. Em meados dos anos 1980, a Revista de Saúde Pública contava com 227 especialistas cadastrados como assessores para a emissão de pareceres sobre os artigos submetidos, e uma taxa de rejeição de 40,9% dos manuscritos3.

A questão do idioma de publicação esteve em pauta na Revista de Saúde Pública desde os anos 1980; tanto para sublinhar a importância da publicação em inglês como estratégia de internacionalização, como para ressaltar a necessidade de se manter a comunicação em português3. Dos trabalhos publicados no quadriênio 1984-7, houve participação de coautores estrangeiros em 4,1%; esse número foi interpretado como sendo um indicador de que a Revista, ainda que timidamente, já começava a atrair interesse internacional.

Na década seguinte, a avaliação dos 30 anos da Revista propunha a adoção do espanhol e a integração regional do cone sul como novas estratégias para a internacionalização4. Luiz Jacintho da Silva propugnava que uma revista científica devia, a um só tempo, ser trator e tracionada no processo social; testemunhar uma época e intervir sobre ela. Ele antevia que a constituição do Mercosul implicaria a integração de normas e regulamentos sanitários entre os países, assim como ocorrera com a legislação comercial. Essa integração, entretanto, demandaria que as medidas de saúde fossem homogeneizadas, o que só poderia ocorrer mediante intensa reflexão e debate da comunidade latino-americana.

Nessa ótica, o autor revisou a história da Revista de Saúde Pública por meio dos processos de saúde que ela teria assistido e discutido em suas três primeiras décadas. A Revista teria sido cronista da evolução da agenda tradicional da saúde pública; até meados dos anos 1990, seus artigos haviam acompanhado:

“a reintrodução do Aedes aegypti, o crescimento da morbidade e da mortalidade por doenças ocupacionais, o crescimento da participação das doenças não transmissíveis na morbidade, assim como da violência (…) a redução da mortalidade materna e infantil e o crescimento da prática do aleitamento materno4”.

Em 1997, outro marco importante na história da Revista é representado por sua entrada para a coleção Scielo. A divulgação pela Internet de seus manuscritos era um importante passo adiante na relevância da Revista, propiciando uma interação mais dinâmica com o meio acadêmico e com os profissionais ligados aos serviços de saúde. A entrada da Revista de Saúde Pública na Scielo foi acompanhada de modificações editoriais, como a redução de tamanho para os manuscritos e a adoção integral do estilo Vancouver. Essas modificações também tinham por escopo aumentar o dinamismo da publicação5.

Em meados dos anos 2000, ao completar seus 40 anos, a Revista de Saúde Pública foi novamente avaliada, sendo mais uma vez destacado seu sucesso editorial em termos de reconhecimento e impacto. Nesse período, a RSP era a única revista da área de saúde coletiva já indexada na Web of Science e contabilizava crescimento exponencial do número de citações de seus artigos6; havia recebido a qualificação Internacional A no primeiro sistema de avaliação dos periódicos científicos promovida pela CAPES, e era a quarta revista mais bem quantificada no fator de impacto aferido pelo sistema Scielo7, dentre todas as revistas incluídas nessa coleção. Além disso, possivelmente impulsionada pela publicação na Internet da versão em inglês de seus artigos desde 2003, a taxa de manuscritos com autores provenientes do exterior aumentou para 17,6% no período de 2002 a 20066.

Também é relevante notar que a modificação da pauta temática dos artigos publicados na Revista, de algum modo, continuou seguindo as mudanças da agenda de prioridades em saúde pública. O tema de “doenças infecciosas e vigilância epidemiológica,” que correspondeu a 61,7% dos artigos publicados de 1967 a 1973, passou a 30,1% de 2002 a 2006. Já temas emergentes da saúde coletiva, que praticamente não apareceram no primeiro período, passaram a ocupar 25,7% dos artigos publicados no segundo: saúde do trabalhador, saúde mental, nutrição e saúde bucal. Mantiveram participação percentual praticamente constante os temas de “promoção, política e gestão de saúde” (oscilando de 19,4% a 18,0% dos artigos entre os dois períodos); “saúde e meio ambiente” (de 6,5% a 6,0%) e “ciências sociais em saúde” (de 6,5% a 5,3%)6.

A análise das estatísticas de acesso da coleção Scielo propiciou novas possibilidades para a avaliação de impacto da Revista de Saúde Pública. De 1996 a 2003, a RSP foi o periódico da área com maior número de consultas, tanto na média por fascículo, como na média por artigos publicados8. Epidemiologia, saúde do trabalhador, nutrição e política de saúde foram as áreas temáticas mais prevalentes dos artigos mais acessados. “Inquérito de prevalência” foi o tipo de estudo mais foi acessado pelos usuários do sistema Scielo; os manuscritos utilizando técnicas de análise quantitativa receberam mais de três vezes o número de acessos dos estudos qualitativos8. Ainda por ocasião de seu quadragésimo aniversário, a Revista lançou um suplemento temático9 sobre a produção e a comunicação científica em saúde pública, no qual nomes proeminentes do campo profissional avaliaram o perfil dos artigos publicados nas diferentes áreas temáticas e disciplinares abrangidas na saúde coletiva e outros temas como a ética na comunicação científica e aspectos editoriais e bibliométricos de interesse.

O Quadro 1 sintetiza os marcos histórico-institucionais da Revista de Saúde Pública em seus quase cinquenta anos de história; quase cem, se somarmos o tempo de suas precursoras. Os marcos institucionais mais recentes são a entrada, em 2014, da revista no PMC (PubMed Central, o repositório de artigos científicos mantido pela Biblioteca Nacional de Medicina dos EUA) e a adoção, em 2015, do sistema rolling pass, que permite a publicação online dos artigos logo após sua aprovação, sem ter de aguardar a organização de fascículos. Estamos programando atividades editoriais para marcar, em 2016, o cinquentenário da Revista, sugestões serão bem vindas!

Quadro 1 Marcos histórico-institucionais da Revista de Saúde Pública. 

Ano Marcos histórico-institucionais
1919 Criação do Boletim do Instituto de Higiene, primeira configuração institucional do veículo de comunicação científica da Faculdade de Saúde Pública.
1947 Criação de Arquivos da Faculdade de Higiene e Saúde Pública, sucedâneo do Boletim e precursora da Revista de Saúde Pública.
1967 Criação da Revista de Saúde Pública em substituição à publicação anterior, já adotando critérios editoriais contemporâneos, como a avaliação pelos pares e amplitude temática e disciplinar, e não ter restrições quanto à procedência institucional dos manuscritos.
1972 A Revista de Saúde Pública passa a ser publicada trimestralmente.
1981 A Revista de Saúde Pública passa a ser publicada bimestralmente.
1998 A Revista de Saúde Pública passa a integrar a coleção Scielo.
2003 A Revista de Saúde Pública passa a publicar a versão em inglês de seus artigos.
2009 A Revista de Saúde Pública ultrapassa, pela primeira vez, o fator de impacto igual a um na Web o f Science.
2014 A Revista de Saúde Pública passa a integrar a coleção PMC (PubMed Central), o repositório de publicações mantido pela Biblioteca Nacional de Medicina dos EUA (National Library of Medicine, U.S. National Institutes of Health).
2015 A Revista de Saúde Pública adota o sistema rolling pass; isto é, os artigos são publicados sequencialmente, sem a divisão por fascículos dos volumes anuais.

Perfıl editorial

A Revista de Saúde Pública é dirigida por três editores científicos, uma editora executiva e dezesseis editores associados. A análise pelos pares envolve mais de dois mil especialistas do Brasil e do exterior, cadastrados como revisores no sistema de submissão online da Revista para a emissão de pareceres. Este é um ingrediente importantíssimo para o sucesso dos veículos de comunicação científica. A qualidade da avaliação editorial dos manuscritos é o que garante a escolha das melhores contribuições e o seu aprimoramento durante o processo de avaliação. A qualidade da avaliação editorial é também um fator importante para a decisão dos pesquisadores, quando vão escolher o periódico ao qual submeterão suas contribuições. E todo esse processo tem como pilar de sustentação o trabalho não remunerado dos editores e assessores ad hoc.

A Revista de Saúde Pública é A2 na área de saúde coletiva, segundo o sistema atual da CAPES para a classificação dos periódicos científicos, o que significa que faz parte do grupo de periódicos que apresentam indicadores bibliométricos (fator de impacto, índice h e citações por documento) correspondentes aos 10% mais bem colocados dentre os periódicos indexados da área em todo o mundo. Os artigos publicados na RSP são indexados nas principais bases de dados bibliográficos: Web of Science, EMBASE, Lilacs, Scopus, PubMed, PubMed Central, dentre outras.

Sintetizando as informações sobre a avaliação bibliométrica da Revista, a Figura 1 mostra a série histórica do fator de impacto na Web of Science, de 1997 a 2013, e o número de citações por documento na base Scopus, medida similar ao fator de impacto, de 1999 a 2013. É possível notar que durante todo o período analisado as medidas obtidas na base Scopus são sistematicamente mais altas em função da maior amplitude dessa base de indexação. Possivelmente, a elevação do fator de impacto no período de 2006 a 2008 corresponda à indexação na Web of Science de uma base mais extensa de periódicos sediados no Brasil e que tem uma interlocução importante com a RSP. A proporção da autocitação, ou seja, citações de outros artigos publicados pela própria RSP tem se mantido em valores aceitáveis durante esse período, entre 8% e 12%, de modo que a exclusão das autocitações afetaria pouco os valores das medidas apresentadas na Figura 1.

Fonte: Journal Citation Reports (Web of Science) e Scientific Journal Rank - SCImago (Scopus).

Figura 1 Série histórica do fator de impacto (Web of Science) e do número de citações por artigo (Scopus) da Revista de Saúde Pública

A Figura 2 mostra a distribuição percentual das citações na Web of Science aos artigos publicados na Revista de Saúde Pública de 1997 a 2012, segundo procedência nacional ou estrangeira dos periódicos cujos artigos citaram a RSP. Nota-se que quase metade dessas citações provém de periódicos estrangeiros, o que pode ser interpretado como sinal de internacionalização do meio profissional em que se insere a Revista.

Fonte: Journal Citation Reports.

Figura 2 Distribuição percentual das citações na Web of Science aos artigos publicados na Revista de Saúde Pública de 1997 a 2012, segundo procedência nacional ou estrangeira dos periódicos. 

A Figura 3 mostra quais são os periódicos que mais se relacionaram com a Revista de Saúde Pública em 2013, em termos das citações de seus artigos. A informação visual é discreta; ela se refere apenas ao ano de 2013, e somente revistas indexadas na Web of Science aparecem na estatística. Tanto sob o ponto de vista das revistas que mais citam a RSP, como na avaliação das revistas que mais são citadas pela RSP, salta aos olhos a forte relação da Revista de Saúde Pública com suas coirmãs Cadernos de Saúde Pública e Ciência & Saúde Coletiva.

Fonte: Journal Citation Reports.

Figura 3 Periódicos mais relacionados à Revista de Saúde Pública, segundo citações efetuadas e citações recebidas na Web of Science em 2013 pelos artigos publicados na Revista. 

A Figura 4 mostra a proporção de artigos que receberam pelo menos uma citação no portal Scientific Journal Ranking, que trabalha a partir da base Scopus, considerando-se períodos de três anos, desde 1996 até 2012. Há um aumento notável de artigos que receberam ao menos uma citação passando de 15,6% no triênio 1996-1998 para 57,4% no triênio 2010-2012 havendo chegado a 62,6% nos triênios 2008-2010 e 2009-2011. Estes dados demonstram mais uma vez relevância e a visibilidade crescente dos artigos publicados na RSP.

Fonte: Scientific Journal Rank - SCImago (Scopus).

Figura 4 Proporção de artigos da RSP com pelo menos uma citação na base de dados Scopus (blocos em cinza) e proporção de artigos com cooperação entre autores sediados no Brasil e no exterior (linha em preto). 

A Figura 4 mostra, ainda, o aumento paulatino do número de artigos produzidos em cooperação entre autores sediados no Brasil e no exterior ao longo do período analisado. Essa proporção passou de 5,7% em 1999 para 10,8% em 2013. Na Figura 4, essa medida foi apresentada como média por triênios (linha). Essa proporção também indica progressiva internacionalização do meio profissional que veicula seus trabalhos na RSP. Mesmo assim, observa-se que os valores dessa série podem ser considerados baixos quando comparados a periódicos editados nos Estados Unidos ou na Europa. Essa diferença pode indicar que ainda é relativamente pequeno o intercâmbio científico dos pesquisadores da área com grupos no exterior; mas essa diferença também reflete fatores como a preferência por publicar no país quando os artigos são realizados em parceria apenas com pesquisadores brasileiros ou quando são pesquisadas questões locais de interesse preferencialmente nacional.

Difıculdades orçamentárias

Sem contabilizar os suplementos (doze nos últimos dez anos, de 2005 a 2014), a RSP publica cerca de 120 artigos por ano, em média, 20 artigos por fascículo, seis fascículos por ano. No início dos anos 2010, a RSP recebia, em média, vinte artigos por semana, mais de mil artigos submetidos por ano, sendo cerca de 87% sua taxa de rejeição. O processamento editorial da RSP consumia cerca de 65% de seu orçamento em custos de produção (editoração e publicação, impressão, versão em inglês e publicação online) e 35% em recursos humanos (administração e operação do sistema de submissão online de manuscritos; coordenação e execução da revisão técnica e provas tipográficas; serviços de terceiros).

É importante notar que a contabilidade dos custos da RSP não incluiu o trabalho não remunerado de editores e revisores ad hoc. Tampouco incluiu custos arcados diretamente pela Faculdade de Saúde Pública, como a remessa pelo correio dos exemplares impressos e a distribuição gratuita da RSP para órgãos de saúde e bibliotecas universitárias; a remuneração de pessoal de apoio contratada diretamente pela Faculdade; infraestrutura e insumos de informática e de papelaria; além da manutenção de um amplo escritório em região nobre da cidade de São Paulo.

Mesmo assim, os custos de produção e de recursos humanos da RSP correspondiam a 82% de sua dotação orçamentária, a qual tem sido proveniente do Programa de Apoio às Publicações Científicas Periódicas da Universidade de São Paulo, do Ministério da Saúde e da Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo, das agências CAPES, CNPq e FAPESP. Esse descompasso vinha sendo enfrentado com medidas paliativas e temporárias, num esforço de não prejudicar o padrão de qualidade dos trabalhos editoriais. A RSP adotou medidas com o intuito de restringir e adiar gastos, como a redução da equipe de apoio editorial, com a dispensa de funcionários. Em 2012, foi efetuada uma redução de 80% na tiragem impressa; em 2014, essa redução atingiu 100%, pois a RSP passou a circular exclusivamente pela Internet. Foi temporariamente suspensa a realização de press releases sobre os artigos publicados e sua divulgação para os órgãos de imprensa e redes sociais. Além disso, tivemos de enfrentar algum atraso na publicação dos fascículos, para tentar compatibilizar a entrada de recursos com a realização de pagamentos.

Para enfrentar essas dificuldades, implantamos em 2012 a cobrança aos autores de uma taxa por manuscrito aprovado para publicação. O valor dessa taxa (R$1500,00, sem reajuste nos três anos subsequentes) subsidia apenas parcialmente os custos envolvidos na publicação dos artigos. Mesmo assim, representam uma fonte valiosa de recursos para a manutenção do padrão de qualidade do serviço editorial tradicionalmente oferecido pela Revista de Saúde Pública.

Convocar os autores para se integrarem ainda mais no sistema de esforços que viabiliza a comunicação científica tem sido uma medida crescentemente utilizada no país e no exterior. Os artigos publicados na RSP têm, em média, três autores. Muitos desses autores têm responsabilidade em atrair recursos institucionais para a realização de pesquisas e também para a divulgação de seus trabalhos. Além disso, autores com dificuldades podem considerar requerer isenção ou abatimento dessa taxa.

Avaliação pelos pares

No campo da saúde coletiva, a publicação de artigos científicos em periódicos indexados é um dos mais importantes recursos para comunicar o conhecimento obtido por meio de pesquisa. A publicação em revistas científicas pressupõe a seleção dos melhores trabalhos para publicação, sua avaliação por profissionais competentes e especializados, e a emissão de sugestões para aprimoramento e eventual correção dos originais. Para essas finalidades, a publicação científica depende fortemente da avaliação pelos pares, o mesmo sistema utilizado na concessão de verbas para pesquisa e para ingresso e promoção nas carreiras acadêmicas.

A avaliação pelos pares é um processo colaborativo entre pesquisadores, que se esforçam por avaliar mutuamente e sem vieses seus próprios trabalhos. A dinamização do meio profissional, tanto no Brasil como no contexto internacional, tem gerado uma crescente produção científica, interpondo um enorme desafio para o processo de avaliação pelos pares. Os periódicos costumam solicitar dois, três ou até mais pareceres por artigo publicado. Nem todos os artigos escritos chegam a ser publicados, e nem todos os artigos publicados são aceitos pela primeira revista para a qual são submetidos.

Muitas revistas têm enfrentado dificuldades em convencer seus pares para investir parte do seu tempo para revisar os manuscritos10,11. Os pesquisadores recebem uma demanda crescente para revisar os artigos escritos por seus colegas; muitos se recusam devido ao excesso de trabalho. A situação é tendencialmente paradoxal; os pesquisadores continuam se aplicando como autores de mais e mais artigos, mas estão ocupados demais e dedicam cada vez menos tempo para ler os trabalhos dos outros. Os profissionais mais experientes tendem a ser também os mais atarefados, e são substituídos por jovens pesquisadores no trabalho de revisão.

Mais afortunados, os editores de uma revista negaram haver crise de escassez na provisão de avaliadores12. Mesmo assim, a dificuldade em obter pareceres de revisão de boa qualidade para os artigos submetidos está nos corações e mentes de editores de revistas em diferentes ramos do conhecimento13,14.

Submeter artigos sem fazer, de modo proporcional, o trabalho de revisão foi interpretado como sendo uma forma de trapaça15. Esta situação foi descrita como uma “tragédia coletiva”16; estamos todos fadados à ruína quando cada indivíduo procura seu próprio interesse egoisticamente, sem o devido cuidado ao interesse coletivo. Entretanto, o apelo a argumentos morais é pouco eficaz e só contribui para respostas pontuais e temporárias. Mais em linha com soluções do tipo “cenoura” do que do tipo “chicote” para fazer andar a carruagem, várias medidas foram propostas para atribuir crédito ao trabalho de revisão efetivamente realizado. Algumas revistas recompensam o trabalho de revisão com o pagamento de uma pequena taxa, descontos para futuras submissões, acesso a serviços online, um diploma expressando gratidão.

Muitas revistas já publicam o nome dos revisores que contribuíram com a revista a cada ano. No entanto, estas publicações não informam sobre a quantidade e a qualidade das avaliações realizadas. A atribuição de créditos CME (Continuing Medical Education) por revisão realizada e recursos de bibliometria para contabilizar o trabalho de revisão também têm sido propostos15,16. Iniciativas inovadoras têm sido adotadas com o intuito de atribuir mais reconhecimento profissional ao trabalho dos revisores. A BMJ e suas publicações afiliadas, como a Journal of Epidemiology & Community Health, inovaram ao identificar o nome dos revisores para os autores. Coleções de publicações mais recentes, que já começaram a circular em base exclusivamente digital, como a PLoS One e a BMC, também adotaram a medida, além de oferecer acesso público aos pareceres emitidos para cada artigo publicado, bem como para o debate editorial subsequente, as respostas dos autores e as modificações efetuadas. A Nature implantou, experimentalmente, um sistema de open peer-review, no qual as submissões ficavam disponíveis durante certo tempo para quem quisesse revisar, mesmo sem ter sido individualmente convidado. E a The Lancet realizou um seminário de avaliação, no qual autores e revisores debateram presencialmente os manuscritos submetidos ao suplemento “Saúde no Brasil”17.

A Revista de Saúde Pública é pouco afeita a experimentações de ordem organizacional; essas novas modalidades de revisão pelos pares terão de se consolidar antes de serem adotadas pela RSP. Mesmo assim, sentimo-nos obrigados a trazer esse assunto para a consideração do meio acadêmico e profissional da pesquisa em saúde coletiva. A dificuldade em obter pareceres tem sido fator importante para a demora no processo de avaliação e publicação dos originais; receamos que este problema possa se agravar a curto e médio prazo.

Referências

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Recebido: 10 de Março de 2015; Revisado: 07 de Abril de 2015; Aceito: 09 de Abril de 2015

Colaboradores

JLF Antunes, I França Júnior, MTD Andrade, RCB Barata e CA Monteiro participaram igualmente de todas as etapas de elaboração do artigo.

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