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Ciência & Saúde Coletiva

versão impressa ISSN 1413-8123versão On-line ISSN 1678-4561

Ciênc. saúde coletiva vol.20 no.10 Rio de Janeiro out. 2015

http://dx.doi.org/10.1590/1413-81232015209.07082015 

Resenhas

Telessaúde no Brasil – conceitos e aplicações

Claudia Cristina Aguiar Pereira 1  

Carla Jorge Machado 2  

1Departamento de Administração e Planejamento em Saúde, Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca, Fiocruz

2Departamento de Medicina Preventiva e Social, Universidade Federal de Minas Gerais

Silva, AB. Telessaúde no Brasil – conceitos e aplicações. Rio de Janeiro: Editora DOC, 2014.

O crescimento da telessaúde no Brasil, bem como de sua importância como são fatos reconhecidos e contribuem para melhorar o acesso aos cuidados de saúde, a qualidade do serviço prestado e a eficácia de diversas intervenções. Contudo, a literatura científica sobre o tema no Brasil ainda é escassa1.

O livro Telessaúde no Brasil - conceitos e aplicações, de Angélica Baptista Silva é um dos primeiros sobre o assunto no Brasil e cobre uma lacuna importante. A obra avalia as iniciativas de telessaúde no País, principalmente na saúde coletiva e é fruto do projeto de pesquisa de doutorado em Saúde Pública na Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca da Fiocruz (ENSP/Fiocruz), cujo intuito foi compreender se a telessaúde no Brasil seria uma política pública ou abarcaria apenas iniciativas pontuais.

O capítulo 1 (Telessaúde ou telemedicina?) apresenta a linha de tempo da telemedicina, relatando os acontecimentos mais importantes e ressaltando o primeiro registro documentado em 1897. Deixa clara a a importância do uso do áudio, vídeo, e outros recursos tecnológicos para transmissão de dados para diagnose e tratamento médico. Define o termo telessaúde como uma nova maneira de pensar os processos de saúde, quebrando a barreira da distância, usando as tecnologias da informação e telecomunicação. Estabelece a diferença entre os termos telessaúde, mais abrangente, e telemedicina, mais específico. Enquanto o termo telessaúde é intrinsecamente associado à incorporação de tecnologias de informação e de comunicação nos sistemas de saúde, a telemedicina está inclusa dentro de um construto maior – telessaúde – no qual estão incluídos também teleducação sanitária ou em saúde; redes de investigação e telepidemiologia; redes de administração e gestão em saúde. Tal conceito de telessaúde é amplo e estruturado. A autora deixa explícito que esses conceitos são amplamente difundidos nas Américas.

O capítulo 2, (Telessaúde no Brasil), relata a fragmentação do desenvolvimento da telessaúde no País, a partir da década de 1980 e faz uma crítica fundamentada ao fato das iniciativas governamentais não estarem suficientemente pautadas em instâncias como o Conselho Nacional de Saúde e as Conferências de Saúde, a despeito da busca por integração com as políticas de saúde. A autora define ainda os termos teleconsultoria, telediagnóstico (ambos relacionados a registros eletrônicos de seus atendimentos) tele-educação, e segunda opinião formativa. Finalmente, é identificada como problema a falta de regras explícitas sobre a telessaúde no SUS, pois há vários interesses envolvidos: do Estado, de grupos específicos e da indústria privada.

No capítulo 3 (Diretrizes para monitoramento e avaliação de núcleos de telessaúde), são abordadas as principais experiências de avaliação em telessaúde no Brasil e algumas do exterior. O ponto alto do capítulo é a apresentação e discussão sobre linhas de pesquisa que contribuíram para a proposta de avaliação feita pela autora, as quais possibilitaram a criação de indicadores para melhoria das práticas em telessaúde. Fica evidenciada a influência da pesquisa etnográfica e cibercultural da internet, com influências do interacionismo simbólico, conforme definido por Blumer, da Escola Sociológica de Chicago, cujo foco são os processos de interação social mediados por relações simbólicas. Outras teorias e escolas de pensamento também são discutidas, como a cibernética. A cibernética influenciou campos da ciência, deu origem a novas áreas, como as ciências cognitivas, a informática e a robótica, disciplinas estas que permeiam o estudo da telessaúde.

O capítulo 4 (Construção de critérios de avaliação para melhores práticas em saúde: o painel de especialistas), descreve os métodos utilizados na pesquisa qualitativa através da técnica de previsão Delfos, que busca conhecer com antecipação a probabilidade de efeitos futuros por meio da coleta sistemática da opinião de especialistas. O painel foi formado por cinco especialistas de instituições que participaram da implantação da Rede Universitária de Telemedicina, da Rede Nacional de Pesquisa Clínica e do Telessaúde Brasil com base em um total de dez especialistas. As dimensões avaliadas foram pautadas nas matrizes conceituais de avaliação do Metodologia de Avaliação do Desempenho do Sistema de Saúde (PRO-ADESS) e pelo modelo National Telehealth Outcome Indicators Project (NTOIP) do Canadá, que utiliza técnicas participativas e de ausculta para tratar a questão da telessaúde. Com base nesses dois modelos, os temas definidos foram: acesso, aceitabilidade, qualidade e custo. Estes temas levaram a autora à definição das seguintes dimensões: inovação que o serviço de telessaúde introduziu ou aperfeiçoou; inclusão digital dos atores envolvidos no serviço; interoperabilidade dos sistemas utilizados no serviço de telessaúde. O capítulo fornece os instrumentos utilizados na consulta a especialistas conforme a técnica Delfos, que a autora sumariza como atividade interativa desenhada para combinar opiniões de um conjunto de especialistas para encontro de um consenso e se baseia em um processo de comunicação entre grupos para exploração de um problema complexo.

O capítulo 5, Resultados, apresenta as execuções da técnica Delfos e o software de análise qualitativa (Weft QDA), que foi utilizado pela autora com o intuito principal de auxiliar na organização das categorias de análise do discurso, na busca por palavras específicas e mais frequentes e no cruzamento destes resultados entre si. Apresenta ainda os processos empreendidos na pesquisa. Quanto às categorias de análise identificadas, foram as seguintes: visões sobre a inclusão digital; tecnologia; educação; organização da rede de atenção; informação para gestão e política pública. Assim, são apresentadas consolidações das categorias de análise bem como suas descrições. Na parte final do capítulo, a autora empreende uma discussão sobre comunicação e informação na avaliação de qualidade do serviço de telessaúde, conectando-a às dimensões da telessaúde consideradas no estudo. A telessaúde, conclui a autora, pode atuar melhorando a qualidade do sistema público de saúde no Brasil, afinado com a inovação e a pesquisa em saúde. Um exemplo apresentado no livro refere-se às visões expressas sobre as ações necessárias para a inclusão digital: promoção de campanhas que estimulem gestores, profissionais e usuários a usarem os portais de saúde como fonte de informações e para demandar serviços; e realização de pesquisas para avaliar o nível de utilização dos serviços relacionados à saúde que se utilizaram da internet.

No último capítulo, Pistas para um serviço de telessaúde com qualidade, a autora explicita que seu percurso teórico e empírico buscou responder sobre como a telessaúde pode ajudar o SUS. Ela conclui que após a entrada da telessaúde na agenda pública foi possível constatar que esta nova abordagem agregou qualidade às diversas faces da promoção à saúde coletiva e consubstancia sua conclusão teoricamente e com exemplos. Pode-se mencionar o fato de que a tecnologia de acesso remoto às bases de dados, se bem planejada em termos de interface e se for interoperável, pode auxiliar a Vigilância em Saúde e outros pontos na gestão do cuidado – a autora destaca o serviço de telecardiologia que cobre mais de 800 localidades no estado de Minas Gerais.

A autora finaliza o capítulo apresentando dezesseis indagações úteis, sob a forma de checklist, para qualquer equipe que queira planejar ou executar uma avaliação de serviços de telessaúde no SUS ou na saúde suplementar. Relaciona cada item do checklist a uma ou mais dimensões: inovação, inclusão digital, interoperabilidade.

Apesar da obra ter em seu cerne a abordagem metodológica Delfos de consulta a apenas cinco especialistas conforme critérios definidos na pesquisa, o que aparentemente poderia ser uma limitação dos achados, fornece um panorama detalhado da atual situação da telessaúde no Brasil, com destaque aos seus dilemas frente ao SUS, apresentando possibilidades de avanços para o sistema de saúde. O livro merece ser lido por todos aqueles que desejam aprofundar seus conhecimentos sobre telessaúde ou telemedicina e obter informações históricas e atuais sobre esta área no Brasil.

Referências

1. Santos AF, D'Agostino M, Bouskela MS, Fernandéz A, Messina LA, Alves HJ. Uma visão panorâmica das ações de telessaúde na América Latina. Rev Panam Salud Publica 2014; 35(5-6):465-470. [ Links ]

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