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Ciência & Saúde Coletiva

Print version ISSN 1413-8123On-line version ISSN 1678-4561

Ciênc. saúde coletiva vol.20 no.11 Rio de Janeiro Nov. 2015

http://dx.doi.org/10.1590/1413-812320152011.02912015 

ARTIGO

Adaptação transcultural do inventário Parcours Amoureux des Jeunes – PAJ de origem canadense para o contexto brasileiro

Ohana Cunha do Nascimento1 

Maria Conceição Oliveira Costa1 

Kátia Santana Freitas1 

Martine Hebért2 

Catherine Moreau2 

1Núcleo de Estudos e Pesquisas na Infância e Adolescência, Universidade Estadual de Feira de Santana Campus Universitário, Km 03, BR 116. 44031460, Feira de Santana, BA Brasil. ohana.cunha@hotmail.com

2Grupo de pesquisa Violência e Saúde/EVISSA,Université du Québec à Montreal, Montréal, Quebec, Canada.

RESUMO

Analisar eventos violentos no percurso amoroso de jovens mobiliza estudiosos em nível mundial. O objetivo deste estudo é realizar a adaptação transcultural e validação de conteúdo do inventário PAJ Parcours Amourex des Jeunes, do Canadá, para o contexto brasileiro. Estudo metodológico envolvendo etapas: (a) Tradução e Retrotradução; (b) Comitê de Especialistas (10) – análise da equivalência, clareza e porcentagens de concordância; (c) Cálculo do Índice de Validade de Conteúdo/IVC. Esta análise originou a versão Piloto III: (d) Submissão ao Pré-teste com grupo de 36 jovens, de 14 a 24 anos, ambos os sexos, visando obter equivalências cultural, conceitual, semântica, idiomática. O PAJ apresentou adequada validade de conteúdo (IVC 0,97). Na seção 1 (aspectos sociodemográficos de jovens e famílias, inerentes ao contexto canadense), as questões foram adequadas ao contexto brasileiro pelo baixo valor do IVC. Os processos de adaptação transcultural e validação de conteúdo apontaram que o PAJ apresentou adequação nas propriedades de clareza e equivalência. Esta etapa viabiliza as análises psicométricas visando à reprodutibilidade e confiabilidade do instrumento a ser aplicado no contexto brasileiro.

Palavras-Chave: Comparação transcultural; PAJ; Estudos de validação; Adolescência

Introdução

A diversidade sociocultural de um país continental, como o Brasil, requer o entendimento da dinâmica das relações sociais e afetivas dos jovens com seus familiares e entre seus pares, tornando a violência uma temática complexa por integrar múltiplos fatores ligados aos relacionamentos dos jovens. Sob esta perspectiva, faz-se necessário estudar o percurso amoroso dos adolescentes, a fim de compreender como estabelecem e mantêm seus vínculos, diante das múltiplas possibilidades e interferências para a consolidação desses elos.

Diversas formas de relacionamentos e padrões socialmente impostos são capazes de intervir na estruturação da afetividade entre os jovens, o que pode repercutir na sua qualidade de vida, nas habilidades sociais, na saúde e na sobrevida desses grupos. Na infância, crianças que convivem e têm participação em meios adequados de socialização executam atividades grupais e criam laços de amizade permanentes, fatores esses de extrema importância no aprendizado colaborativo, solidário e discriminante das escolhas. Na fase da adolescência, os relacionamentos entre amigos corroboram no processo de desenvolvimento psicossocial, com estímulo a trocas de informações, apoio social, bem como a convivência com pessoas do mesmo contexto de transformação. Nesta etapa verifica-se que constituir laços oferece proteção social contra adversidades e conflitos advindos deste período, favorecendo à construção da personalidade de forma mais estável e segura1.

A literatura atual tem apontado que os relacionamentos amorosos mostram menor durabilidade dos vínculos, pouca ou nenhuma tolerância aos conflitos, mínima paciência e a constante exigência de resultados imediatos2. Face ao crescimento populacional e modernização dos meios de comunicação, o número de vínculos entre pessoas desconhecidas se ampliou, criando outras formas de interação e, consequentemente, maior oportunidade para a ocorrência de atos violentos, muito embora a maioria dos crimes sejam cometidos por pessoas conhecidas. Nos Estados Unidos, no período entre 1998 e 2002, estudo realizado pelo Bureau of Justice Statistics (2006) mostrou que cerca de 54% de todos os crimes violentos ocorreram entre conhecidos3. Em um estudo realizado no Brasil, em 2013, em 10 capitais, observou-se que sessenta adolescentes (19,9%) afirmaram praticar a violência física com seus parceiros, sendo 37 do sexo feminino (21,8%) e 23 do sexo masculino (17,4%). Em relação à violência psicológica, a prevalência foi de 82,8%, sendo 80,6% no sexo feminino e 85,6% no sexo masculino4,5.

Considerando o panorama atual de relacionamentos, a violência no percurso amoroso e amigável entre jovens vem ganhando enfoque crescente, justificado pelos efeitos cumulativos dos maus tratos que podem trazer consequências negativas problemáticas durante a formação dos elos e relações íntimas futuras6.

Distintos instrumentos de pesquisas são utilizados para estudar a violência, analisando o fenômeno sob diferentes perspectivas, como exemplo o Conflict in Adolescent Dating Relationships Inventory (CADRI)6, que avalia a violência entre parceiros íntimos na adolescência, baseado no Conflict Tatics Scale(CTS)7 e noPsychological Maltreatment of Women Inventory (PMWI)8; O Sexual Experiences Survey, que identifica distintos graus de agressão sexual e vitimização9; O Early Trauma Inventory–Self Report (ETI)10, instrumento clínico para avaliação dos aspectos emocionais do abuso físico e sexual e negligência, na infância11; O Domestic Violence Screening Instrument (DVSI), que rastreia o comportamento criminoso, diferenciando infratores por escores de possível risco12,13, dentre eles o PAJ - Enquete sur les Parcours Amoureux des Jeunes.

A opção de realizar a adaptação transcultural e validação do PAJ - Enquete sur les Parcours Amoureux des Jeunes, inventário estruturado por universidades de Montreal: Université du Québec à Montréal – UQAM, Université de Montréal – UM, e Université de Laval – UL, têm como perspectiva ampliar conhecimentos nesta área, considerando que este inventário analisa distintos aspectos envolvidos com eventos violentos entre casais jovens e as possíveis ligações com situações cotidianas dos seus relacionamentos familiares, amigáveis e amorosos. O instrumento está estruturado em seções, cujos domínios e itens são apresentados no formato de questões com suas respectivas escalas. Para a elaboração das questões do PAJ, a equipe de pesquisadores do Canadá utilizou itens específicos de instrumentos de diferentes contextos, em nível mundial, já validados, assim como inquéritos populacionais, os quais tratam, individualmente, das diversas temáticas relacionadas à inserção da violência no percurso amoroso de jovens, contempla uma ampla investigação sobre a violência interpessoal, envolvendo casais jovens, causas, consequências e influência dos seus relacionamentos5,6,13,14.

Dessa forma, o objetivo deste estudo está pautado na adaptação transcultural do PAJ, através das etapas metodológicas protocolares recomendadas, buscando a validação e adequação para aplicação no contexto brasileiro.

Metodologia

Trata-se de estudo metodológico que utiliza os procedimentos sistemáticos para a adaptação transcultural do inventário PAJ, realizado o município de Feira de Santana, segunda maior cidade do Estado da Bahia (cerca de 600 mil habitantes), situado no centro de um importante entroncamento rodoviário de interligação entre as regiões norte, nordeste e sudeste15. A Universidade Estadual de Feira de Santana - UEFS estabelece intercâmbio com a UQAM desde 2010, através do Núcleo de Estudos e Pesquisas na Infância e Adolescência-NNEPA.

Descrição do Inventário

O PAJ consta de 64 questões distribuídas em sete seções: 1. Dados Sociodemográficos de jovens e seus pais ou responsáveis; 2. Relações Afetivas e Amorosas, que abordam comportamento antissocial de amigos; situação amorosa (namoro) atual e pregressa, comportamento de parceiros, violência psicológica, física, sexual, questões de gênero, homossexualidade; 3. Difíceis Experiências, aborda a violência moral, psicológica, sexual, estresse pós-traumático, ideação suicida; 4. Comportamentos Sexuais, o inventário questiona sobre o desempenho e a prática sexual, relação entre os gêneros, parceiros sexuais, vulnerabilidade nas relações sexuais, prostituição; 5. Seção de Família, trata dos relacionamentos e eventos no contexto familiar, rede de apoio dos pais; 6. Comportamentos e Hábitos de vida, contempla transgressão e obediência aos pais; consumo de substâncias psicoativas; 7. Sentimentos e Emoções, engloba consequências das violências, estresse pós-traumático, autoestima, amizades e relacionamentos de confiança, participação em atividades recreativas e esportivas que envolvem a coletividade.

Adaptação Transcultural do Inventário

a) Etapa I – Tradução

Realizada individualmente, por dois pesquisadores brasileiros, habilitados na língua francesa. Após as duas traduções, obteve-se as versões T1 e T2, na língua portuguesa. Este processo originou a primeira versão de consenso do PAJ, denominada Piloto I.

b) Etapa II – Back-Translation

A versão Piloto I foi submetida à apreciação de dois pesquisadores nativos do Canadá, habilitados na língua portuguesa, obtendo-se então duas novas versões na língua francesa, denominadas B1 e B2. Essas versões foram avaliadas por dois pesquisadores canadenses da área de violência, adolescência, juventude, resultando na versão síntese back translation B12.

Posteriormente, a versão B12 foi retraduzida para o português, sendo comparada com a versão T12. Após o consenso entre pesquisadores brasileiros, as devidas adaptações foram realizadas e então finalizada a versão síntese na língua portuguesa, originando a versão de consenso, denominada Piloto II, que foi utilizada na etapa de análise das propriedades de equivalência de clareza pelo comitê de especialistas.

c) Etapa III – Avaliação pelo comitê de Especialistas

A versão Piloto II do PAJ foi analisada por 10 profissionais especialistas, com conhecimento específico acerca do construto avaliado, neste caso, envolvendo as áreas de violência, adolescência e juventude, validação e psicometria, com o propósito de realizar a validação de conteúdo (clareza e equivalências - conceitual, cultural, idiomática e semântica).

Os especialistas participantes da avaliação foram instruídos, a partir de um manual de procedimentos, cujo conteúdo fornecia orientações nos aspectos da estrutura e conteúdo das seções, questões, itens, domínios, e respectivas escalas. Cada questão do PAJ foi analisada quanto ao grau de clareza, através da escala: “(1) Não está claro”; “(2) Está um pouco claro”; “(3) Está quase tudo claro”; “(4) Está claro e não tenho dúvidas”; e quanto ao grau de equivalência, “(1) Não equivalente”; “(2) Pouco equivalente”; “(3) Equivalente”. Os especialistas podiam opinar e sugerir modificações, cuja pertinência foi analisada pela equipe.

Para avaliar a proporção de concordância entre os avaliadores, para cada questão do PAJ, considerou-se adequadas, para clareza e equivalência, aquelas cuja pontuação pelo especialista alcançou os níveis 3 e 4 (está quase tudo claro, está claro e não tenho dúvida), cujo parâmetro de concordância apontou valor maior ou igual a 80%.

O Índice de Validade de Conteúdo (IVC) de cada questão foi calculado pela divisão do somatório de questões com graduação 3 e 4, pelo total de especialistas (10). O IVC geral do instrumento foi calculado pela divisão do somatório de questões graduadas em 3 e 4 pelo total de questões, considerando IVC adequado quando os valores são superiores a 0,78, segundo a literatura para estudos com mais de seis especialistas16. Os itens discriminados nas categorias “1” e “2” foram revistos ou excluídos16. As propostas sugeridas pelos especialistas foram acrescidas e inseridas, visando ajustar o conteúdo, linguagem e interpretação das questões do PAJ para a língua portuguesa17 (Quadro 1). Esse processo originou a versão Piloto III.

Quadro 1  Apresentação do PAJ, para Adaptação Transcultural segundo seções, questões e domínios estudados, no conjunto de itens. Feira de Santana/Bahia/Brasil, 2014. 

d) Etapa IV – Pré-teste

Durante o pré-teste foi aplicada a versão Piloto III entre 40 alunos de uma escola pública de grande porte de Feira de Santana-BA.

Os jovens foram esclarecidos sobre o propósito da pesquisa e orientados a responder de forma crítica cada questão. No caso de dúvidas e dificuldades, quanto ao desconhecimento de termos, conceitos, formato das escalas, pouca compreensão dos itens. Os jovens foram instruídos a solicitar esclarecimentos aos pesquisadores responsáveis pelo processo de aplicação. Nesta situação, os pesquisadores sinalizavam nos questionários de controle os itens e questões que mais apresentaram problemas de compreensão, assinalando o item e a questão, visando modificações posteriores.

O objetivo desta etapa foi identificar problemas de ordem interpretativa, quanto às equivalências operacional, conceitual, semântica e idiomática dos itens, na perspectiva de aprimorar o inventário, suas particularidades, cujas questões duvidosas foram revisadas e modificadas.

Figura 1  Etapas da adaptação transcultural do PAJ. 

e) Etapa V - Formulação da versão final

A partir da avaliação dos especialistas e adequações propostas pelos jovens no pré-teste, formulou-se a versão final do PAJ, nomeada Piloto IV, a ser utilizada na fase empírica das análises psicométricas.

Aspectos éticos

O projeto foi submetido à apreciação do comitê de ética em pesquisa da Universidade Estadual de Feira de Santana.

Resultados

Etapa I – Tradução e Retradução do PAJ

A versão em português denominada Piloto I resultou de adaptações e modificações consensuais, considerando os itens discordantes entre as línguas, nos aspectos semânticos, culturais e conceituais. As questões da seção de Informações Gerais foram ajustadas para o contexto do Brasil. As questões 2 e 3 foram agrupadas para Qual a sua data de nascimento? Na questão sobre a língua falada na família foram retirados os itens japonês e chinês, visando manter a adequação contextual. O nível de escolaridade foi modificado para primário, ginasial e ensino médio, conforme o Ministério da Educação do Brasil. As etnias, africana, americana e do caribe, entre outras, foram modificadas. Considerando a raça/cor de pele da população brasileira, foram acrescentados os itens Mestiço/ Pardo/ Moreno, Negro, Indígena, Outro. Na Seção 2, Relações Afetivas e Amorosas (questão 20), que aborda comportamentos delinquentes dos amigos, aos itens Quantos dos seus bons amigos (a) abandonaram os estudos, fumam ou fumaram cigarro, utilizam ou utilizaram bebida alcoólica, fumaram ou fumam maconha foram adaptados e adicionados os termos usaram ou usam crack, cocaína. A partir dessas modificações, a versão Piloto I foi submetida à retrotradução, que não apresentou alterações significativas. A versão Piloto II do PAJ foi encaminhada para avaliação pelo comitê de especialistas e pelo grupo de jovens que participaram do pré-teste.

Etapa II – Avaliação pelo comitê de especialistas

Os especialistas foram selecionados conforme experiência na área de abrangência do objeto de estudo, os quais analisaram os níveis de clareza e equivalência de cada questão do inventário. Na Tabela 1, estão apresentados esses índices para as questões que evidenciaram concordância entre os especialistas, sendo consideradas adequadas quando a proporção mostrou-se acima de 80%, e inadequadas quando abaixo deste percentual, devendo ser modificadas ou suprimidas.

Tabela 1  Indicadores de Validade de Conteúdo (proporção de concordância para clareza e equivalência abaixo de 80%) e cálculo do Índice de Validade de Conteúdo/IVC, segundo análise da versão Piloto III do PAJ pelo comitê de especialistas, Feira de Santana/Bahia/Brasil, 2014. 

De modo geral, com exceção da seção 1, em todas as demais seções do PAJ a maioria das questões e itens apresentaram níveis de concordância acima de 80% (nos atributos de clareza e equivalência).

Na seção 1, algumas questões mostraram baixo nível de concordância para clareza; na questão 4, o item Seus pais sãodo mesmo sexo (sim e não) foi substituído por Homem/ homem, Mulher/mulher; nas questões 5 e 6, o item nível de instrução dos pais foi modificado paraescolaridade. Estas mesmas questões apresentaram equivalência de 70%, entre os especialistas. O item Cursou apenas o primário, apenas o ginasial foi modificado para Analfabeto, Cursou da 1ª a 4ª série, da 5ª a 8ª série. Já a questão 18No presente ano você concluirá, foi suprimida, considerando que a questão 16 demandava resposta idêntica a Em qual nível de estudos você está?

Na Seção 2, Relações Afetivas e Amorosas, a questão 21, que investiga a situação amorosa atual do jovem, apresentou 30% de concordância para clareza, por isso sofreu modificações: o termo agora foi substituído por no momento. Na questão 22, que analisa o jovem na condição de vítima ou agressor, cujos itens são apresentados em formato de tabelas e respostas em colunas graduadas em escalas de frequência, a análise dos especialistas apontou 50% de concordância para clareza. Assim, o itemProvocou com palavras grosseiras foi modificado para Disse coisas que provocaram raiva, as expressõessem sua permissão, sem que desejasse foram modificadas parasem consentimento. A questão 26, que trata da opinião dos jovens quanto às agressões entre casais homossexuais, apresentou 55,6% de concordância para clareza e 77,8% de concordância para equivalência. O foco do problema apontado pelos especialistas foi a escala tipo Likert,considerada confusa, sendo modificada sem causar alteração nos valores da mesma; Os Itens Não concordo, Nem sempre concordo, Às vezes concordo e Sempre concordo, foram modificados para Totalmente em desacordo, Às vezes em desacordo, Às vezes concordo, Totalmente em acordo. A baixa clareza identificada nessa questão relacionou-se também à dificuldade dos jovens em opinar sobre o relacionamento homossexual ou se identificar como um dos parceiros.

Na Seção 3, que aborda as Experiências difíceis, a questão 38 (60% de concordância para clareza) sofreu modificação no item Você já foi tocado, acariciado sexualmente sem consentimento (chantagem ou força física)? em que a opção G (Um membro da família)foi subdividida em G1 (Um membro próximo da família - pai/ padrasto, mãe/ madrasta, irmão(ã)) e G2 (Parentes (tio(a), avô e avó).

Em relação às análises de equivalências, foi observado bom nível de concordância entre os especialistas para cada questão, segundo definições propostas pela literatura16. Vale sinalizar que a Seção 1 do PAJ (informações sociodemográficas) foi considerada com baixa equivalência (≤ 80%), assim como na análise de clareza, portanto, sofreu modificações sugeridas e pertinentes: na questão 11, sobre frequentar uma religião (60% de concordância para equivalência), as opções mulçumana, budista, hindu ou sikh foram modificadas para católica, evangélica, espírita, candomblé, umbanda, ateia (não acredita em Deus), outra (especificar), nenhuma. Em todas as questões que abordam relacionamentos dos jovens, foi acrescentado a categoriaficante, considerando aspectos culturais e ampla utilização do termo pelos jovens, no Brasil.

O cálculo do Índice de Validade de Conteúdo (IVC) geral do inventário PAJ (após a análise dos especialistas e o pré-teste), mostrou resultado de 0,97, considerado adequado e relevante16. A avaliação individual do IVC, mostrou que apenas as questões 4 e 20 apresentaram IVC menor que 0,80.

Etapa III – Pré-teste – Piloto III

Os jovens, estudantes de uma escola de grande porte de Feira de Santana, foram selecionados aleatoriamente, compondo uma amostra de conveniência de 36 estudantes, cuja distribuição de sexo e faixa etária foi: cerca de 72% na faixa de 14 a 18 anos e 28%, de 19 a 24 anos. Em relação ao sexo, cerca de 55,5% mulheres e 44,5% homens.

As principais dificuldades apontadas pelos jovens estavam relacionadas às questões 20, 23, 26, 27, 29, 48 e 58. Na questão 20, o item H mostrou-se confuso, com mais de uma ação para a mesma questão. Assim, o itemDesrespeitam ou desrespeitaram a lei do trânsito provocando acidentes ou praticando vandalismo foi subdividido em H1 (Desrespeitaram a lei do trânsito), H2 (Provocaram acidentes) e H3 (Praticaram vandalismo). Em relação aos acontecimentos com namorado, parceiro e ficante, na questão 23, o item D (Você se sente distante das outras pessoas e perdeu o interesse pelas coisas) foi subdividido em D1 (Você se sente distante das outras pessoas) eD2 (Perdeu o interesse pelas coisas). Na questão 26, a escala foi novamente revisada, sendo sugerido Discordo totalmente; Discordo às vezes; Concordo às vezes; Concordo totalmente. Sobre a abordagem da convivência, apoio, resiliência (questão 27), o item C (Essa pessoa lhe incentivou a buscar novas coisas que você teria gostado de fazer, mas que lhe deixavam nervoso(a)), foi substituído por Essa pessoa te encorajou a fazer coisas que você gostaria de fazer, mas que você sentia medo de tentar. A questão 29, em formato de resposta livre, que solicita relato de acontecimento difícil da vida, o enunciado foi dividido em sub questões, para facilitar categorização posterior. A questão 48, sobre Comportamento sexual, sofreu alteração, no item que abordarelacionamento sexual foi adicionado, enquanto opção de resposta, a categoria orientador religioso. A questão 58 (sobre consumo de bebida alcoólica) foi considerada ambígua pelos jovens, sendo então subdividida em: 58a) quantidade de bebida alcoólica, e 58b)frequência de 5 doses ou mais em uma mesma ocasião.

Discussão

No contexto de um país continental, como o Brasil, a abordagem metodológica que abrange a adaptação transcultural e análise psicométrica de um instrumento para aferição de um fenômeno deve contemplar particularidades relacionadas à diversidade cultural. Valores, costumes, opinião pessoal, hábitos de vida, bem como algumas práticas e atitudes podem ser consideradas inerentes ao cotidiano de um grupo populacional, no entanto podem ser desconhecidos e pouco frequentes em outro contexto. Ao se tratar de instrumentos de medida, essas diferenças podem comprometer a fase da aplicabilidade da pesquisa, considerando que pode interferir na compreensão e padrão de respostas dos sujeitos, com a consequente emissão de resultados produzidos a partir de vieses18.

A adaptação transcultural do PAJ representou um passo importante para diversas áreas do conhecimento, visto que esse instrumento proporciona uma análise ampliada dos eventos violentos que envolvem adolescentes e jovens nas suas relações familiares, afetivas e amorosas, analisados sob múltiplas dimensões, sendo, portanto, classificado como um inventário multidimensional.

As propostas metodológicas que convergem para a efetivação do processo de adaptação transcultural de instrumentos obedecem a critérios sistemáticos, embasados na experiência mundial19-21. Nessa perspectiva, a validação de conteúdo do PAJ, utilizou procedimentos, cuja meta foi verificar se os diferentes itens, de fato, possuíam representatividade, frente ao conteúdo a ser mensurado, visto que, além da adequada tradução, os itens alcançaram o ajuste conceitual, de clareza e equivalência, assim como proximidade cultural com o contexto e público-alvo a ser aplicado19-21.

Nas etapas de tradução e retradução, que se constituem em tarefas complexas, pode haver modificações no formato do instrumento original, como a adição ou exclusão de itens, bem como serem realizadas mudanças nos critérios de pontuação das questões. Entretanto, essas modificações devem ser operacionalizadas com cautela, visto que podem comprometer a equivalência entre o instrumento original e a versão traduzida, com consequente repercussão nas suas características bem como nos resultados das aplicações16.

Para a tradução e retrotradução do PAJ, foi considerado de extrema importância a avaliação das adequações contextuais e modificações. Foram necessárias a substituição e a exclusão de algumas terminologias específicas do Canadá, buscando a adaptação do texto à realidade brasileira. Decorrente dessa abordagem, alguns ajustes foram necessários, como a adição dos itens “crack e cocaína”, na questão sobre uso de drogas, em virtude do crescente consumo dessas substâncias em nosso meio, especialmente por se tratar de um estudo na faixa etária da adolescência e juventude.

Ressalta-se que a participação de diferentes tradutores e retrotradutores, nas etapas iniciais da adaptação transcultural do PAJ, foi uma estratégia importante para a tradução cega, buscando diminuir a possibilidade de vieses em relação aos domínios e respectivos itens estudados. O PAJ é um inventário extenso que contempla diversos aspectos dos relacionamentos de jovens com familiares, amigos e parceiros. Aos aspectos que não se adequaram à cultura brasileira, foram realizadas todas as considerações pertinentes apontadas pelos profissionais responsáveis pela tradução e retrotradução, na primeira versão de consenso do PAJ, a versão Piloto I.

Em se tratando de estudo metodológico, a literatura da área enfatiza a importância de considerar aspectos que podem influenciar a análise das propriedades psicométricas do instrumento, como o número de questões, o tempo necessário para conclusão e a linguagem utilizada, os quais podem interferir na qualidade das respostas e na fidelidade do processo de adaptação, comprometendo as etapas posteriores da validação22. O consenso dos estudos nessa temática ratificou a importância dos rigorosos processos metodológicos utilizados na adaptação transcultural do PAJ, cujos critérios e modificações visaram preservar as características do instrumento original, quanto à equivalência e clareza, buscando, através da validação de conteúdo, ajustar a versão traduzida ao contexto do Brasil.

Considerando a multiplicidade de domínios e a totalidade de questões do PAJ, foi necessário o envolvimento de dez especialistas, com diversificadas experiências, ampliando assim o universo de sugestões e críticas para alcançar a validade de conteúdo, através das análises de equivalência e clareza. A experiência acumulada mostrou que a participação de uma equipe de especialistas em estudos dessa natureza foi decisiva para a obtenção dessa análise aprofundada, que resultou em adequações em alguns itens e estrutura (layout) do inventário.

Na perspectiva da validação, foi verificado que a equivalência cultural se manteve presente em todo o processo de estruturação da versão brasileira do PAJ, tradução, retrotradução e pré-teste, constituindo pilar de sustentação para as análises de equivalências semântica, idiomática e conceitual, sem que houvesse modificação da essência do instrumento original. Os especialistas analisaram de forma crítica as questões e itens das diferentes seções, fundamentadas na teoria das equivalências14,16,18.

Ficou evidente que, de maneira geral, o PAJ apresentou adequação (versão Piloto III) e validade de conteúdo em todas as seções, exceto na Seção 1, referente às informações gerais, do jovem e família, sendo justificada pelas distintas formas de classificar ou categorizar características sociodemográficas, como escolaridade, entre outras, nos contextos do Brasil e Canadá.

O cálculo dos Índices de Validade de Conteúdo (IVC), para a questão 20, na Seção 2 –Relações Afetivas e Amorosas, apresentaram valor de 0,70, apontando a necessidade de adaptações e modificações na versão Piloto III. A expertise nesta área considera pouco relevante os valores de IVC abaixo de 0,78, e recomenda adequações e modificações às questões que se encontram abaixo deste escore16.

Quanto ao pré-teste, participaram 36 jovens, com as mesmas características da população-alvo, que fizeram parte da amostragem utilizada para as análises psicométricas posteriores. Esta estratégia favoreceu as análises de adequação da validade de conteúdo, considerando múltiplas possibilidades de questionamentos e contribuições no processo.

Os jovens que participaram dessa etapa dedicaram-se a detalhar os itens através da leitura crítica, analisando as questões que estavam de acordo com a sua realidade sociocultural, bem como adequadamente compreensíveis pelos jovens. As principais definições apontadas para o PAJ foram as expressões: um pouco grande; bem elaborado; interessante; fácil e simples de responder; grande. Assim, esta abordagem evidencia o quão ampla é a proposta do PAJ.

Considerações finais

Os procedimentos metodológicos que envolveram a adaptação transcultural e validação de conteúdo constituíram um desafio, considerando a complexidade que envolve o processo de validação de um inventário extenso e complexo, como o PAJ. Os principais desafios foram a multiplicidade de questões e de escalas, assim como a necessidade de obedecer aos critérios e procedimentos rigorosos recomendados, principalmente em se tratando de instrumento original de contexto sociocultural distinto.

A experiência pioneira de adaptação transcultural e validação do PAJ para aplicação em outro país foi necessária e importante para a disseminação do conhecimento nesta área. Vale ressaltar que a equipe do EVISSA, formada por pesquisadores de diversas Universidades do Canadá contribuíram com a execução deste trabalho, disponibilizando documentos que autorizavam a utilização do PAJ, bem como nos processos de revisão de literatura para cada questão do instrumento, que serviram de base para o processo de conclusão da etapa de adaptação transcultural, fundamental à validação e posterior aplicação em nível nacional. Considera-se que estudos metodológicos, como este, corroboram para que o conhecimento original de contexto distinto possa ser replicado e divulgado em outros contextos.

A validação de conteúdo do PAJ, obtida a partir da análise dos especialistas e grupo de jovens, que permitiu avaliar os atributos de clareza, equivalência e cálculo do IVC, apontaram que o inventário encontra-se adaptado, uma vez que os procedimentos metodológicos e a criteriosa avaliação das suas estruturas certificaram que os domínios e respectivos itens contemplavam o arcabouço teórico do objeto de estudo.

Nesta perspectiva, o estudo contribuiu para apresentar à comunidade científica possibilidades de replicação de um instrumento abrangente, que avalia as diversas manifestações de um evento multifacetado, como a violência, especialmente entre grupos populacionais vulneráveis nas suas relações amorosas. Dessa forma, o fortalecimento de pesquisas nesta área poderá promover maior atenção aos vários fatores intervenientes nos relacionamentos, subsidiando análises psicométricas, posterior avaliação do fenômeno no contexto nacional e, por consequência, fundamentar políticas, programas de proteção das distintas formas de violência inseridas no percurso amoroso de jovens.

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Recebido: 11 de Março de 2015; Revisado: 18 de Maio de 2015; Aceito: 20 de Maio de 2015

Colaboradores

OC Nascimento contribuiu na elaboração, concepção e redação do artigo; MCO Costa colaborou com subsídios para a construção, elaboração e redação do artigo; KS Freitas colaborou na redação do artigo e revisão final; M Hebért participou na revisão final do artigo; C Moreau contribuiu para a avaliação final.

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