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Ciência & Saúde Coletiva

Print version ISSN 1413-8123On-line version ISSN 1678-4561

Ciênc. saúde coletiva vol.22 no.1 Rio de Janeiro Jan. 2017

http://dx.doi.org/10.1590/1413-81232017221.24302016 

Debate

Balizas do conhecimento: análise das instruções aos autores das revistas brasileiras da área de saúde

Stella Regina Taquette1 

Wilza Vieira Villela2 

1Faculdade de Ciências Médicas, Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Av. Professor Manuel de Abreu, Maracanã. 20550-170 Rio de Janeiro RJ Brasil. stella.taquette@gmail.com

2Universidade Federal de São Paulo. São Paulo SP Brasil

Resumo

Pesquisadores da área da saúde referem que a dificuldade em publicar é uma barreira à realização de estudos qualitativos. Buscou-se identificar que periódicos brasileiros indexados no SciELO na área de ciências da saúde incluem instruções aos autores que possibilitam a publicação de estudos originais realizados com métodos qualitativos. Dos 88 títulos analisados, mais da metade (52) impõem condições incompatíveis com a pesquisa qualitativa, sendo a maioria revistas médicas. Alguns periódicos (19) não disponibilizam informações relativas ao tipo de estudo, mas não fazem exigências típicas de pesquisas quantitativas, como testes estatísticos e reprodutibilidade. Revistas que demonstram aceitar investigações qualitativas (17) permitem textos mais longos, desenhos de estudo que incluem entrevistas e algumas explicitam a aceitação de estudos com abordagens qualitativas. Em geral estas são da área de saúde coletiva ou enfermagem, e têm pontuações mais altas na CAPES. A falta de instruções claras para manuscritos de natureza qualitativa e a exigência de quantificação são barreiras à publicação de estudos qualitativos, não favorecendo a ampliação do olhar do clínico para os fenômenos humanos relacionados à saúde. Critérios de cientificidade e rigor devem ser revistos.

Palavras-chave Pesquisa qualitativa; Conhecimento científico; Epistemologia; Formatos de publicação

Introdução

A pesquisa qualitativa em saúde, e mais especificamente em medicina, tem potencial para dar respostas a problemas que não são solucionados com abordagens epidemiológicas, experimentais e outros desenhos de base quantitativa1. Ela oferece a possibilidade de produção de conhecimento mais aprofundado sobre fenômenos humanos, contribuindo para o entendimento da dimensão subjetiva presente no adoecimento e na dinâmica do processo saúde-doença, não traduzível em números. A investigação de natureza qualitativa se ocupa do nível subjetivo e relacional da realidade social, se apropriando das histórias, experiências, significados, motivos, crenças e valores dos atores sociais2.

Apesar do seu potencial, a utilização do método qualitativo na área de saúde ainda é tímida, principalmente em se tratando de pesquisadores médicos e da abordagem de temas relevantes para a prática clínica. Ademais, esta abordagem metodológica é quase desconhecida ou pouco valorizada pelos médicos, sob o pretexto de que a produção qualitativa se presta pouco à reprodutibilidade e à generalização dos resultados3.

A divulgação de estudos qualitativos também é dificultada pelo pouco espaço editorial que os periódicos científicos destinam a pesquisas desta natureza. E os médicos, apesar de serem, em teoria, atores privilegiados para a realização de investigações compreensivas graças à sua proximidade com as pessoas4 são minoria entre os autores de estudos científicos que utilizam tal abordagem5.

Apesar de revistas médicas e da área de saúde de elevado impacto como JAMA e Lancet terem aberto a possibilidade de submissão de estudos qualitativos, o número de artigos publicados ainda é pequeno. Segundo van Teijlingen et al.6, o número de publicações de estudos qualitativos em periódicos da área de saúde é bem menor do que os múltiplos artigos com abordagens quantitativas.

Essa abertura que alguns periódicos da área médica tem oferecido para a publicação de artigos de cunho qualitativo acontece por vários motivos. Entre eles, podem ser citados o reconhecimento da relevância das questões sociais, psicológicas e subjetivas no desenvolvimento das doenças e a consciência dos sujeitos sobre seus direitos, associada à pressão para que sejam ouvidos na solução de seus problemas79. Shuval et al.10 concordam, contudo, ressaltam que o percentual de incremento de estudos e publicações com enfoque qualitativo ainda é muito pequeno. Nesse sentido, os editores científicos têm papel fundamental, ao estabelecer normas e critérios de avaliação que estimulem a produção de manuscritos elaborados nessa perspectiva. Devers11 destaca que os critérios tradicionais de avaliação da qualidade dos textos científicos ainda estão enraizados na perspectiva filosófica positivista, estreitamente associada a exigências estatísticas e matemáticas. O autor sugere que orientações adequadas para induzir e avaliar as pesquisas qualitativas reforçarão esse campo e facilitarão uma disposição maior de financiamento e publicação do conhecimento gerado por elas. Os periódicos que adotam política editorial inclusiva de artigos qualitativos publicam mais pesquisas desta natureza e oferecem maiores chances de aperfeiçoamento aos autores. Estas revistas que publicam estudos qualitativos são desafiadas a lidar com diferentes posições epistemológicas, ressalta Corradi-Webster12 em artigo editorial do periódico científico Saúde & Transformação Social. Porém, sem abrir mão dos critérios de rigor da pesquisa qualitativa, como a explicitação dos passos dados, dentro de um contexto, levando em conta a reflexão sobre a participação do pesquisador em coerência com o referencial teórico-metodológico.

Estudos de revisão evidenciam essa parca e quase insignificante presença. Pesquisa bibliográfica sobre os artigos publicados nas 170 principais revistas clínicas no ano 2000 revelaram que de 60.330 artigos analisados, apenas 355 (0,5%) eram qualitativos, tendo sido divulgados em 48 diferentes periódicos. Mas, esses, em maioria, eram da área de enfermagem. Somente quatro trabalhos haviam sido publicados em revistas de alto impacto13. Outro estudo, também de revisão sistemática sobre artigos referentes a serviços de saúde e gestão, divulgados nos nove principais periódicos internacionais num período de três anos (de 1995 a 1997) mostrou que apenas um em cada sete utilizou abordagem qualitativa14.

Yamazaki et al.15 revisaram artigos publicados entre 2000 e 2004 nas revistas de medicina geral de maior fator de impacto no mundo, BMJ, Lancet, Jama, Annals of Internal Medicine e New England Journal of Medicine. Desses, apenas 11% foram baseados em estudos qualitativos. De acordo com Meneghini16, coordenador do SciELO do Brasil, nos últimos anos houve grande aumento da produção brasileira nas ciências da saúde que ocupou o 3º lugar mundial em 2008, sendo superada apenas pelos EUA e Inglaterra. Apesar desse grande incremento que inclui também as publicações no campo da saúde coletiva17, os estudos qualitativos não tiveram grande visibilidade. Por isso, segundo Morse18, editora da revista Qualitative Health Research, as investigações qualitativas continuam à margem da ciência. Em sua opinião, médicos teimam em considerar as abordagens qualitativas tendenciosas, não replicáveis, sem apresentação de evidências, portanto, inaceitáveis.

Diante deste quadro, o objetivo deste estudo é conhecer as normas editoriais dos periódicos científicos brasileiros da área da saúde e verificar como elas se situam em relação à aceitação de publicações de artigos originais que utilizam métodos qualitativos.

Material e métodos

Para atender aos objetivos propostos foram analisadas as instruções aos autores dos títulos correntes de periódicos da área de Ciências da Saúde indexados no Scientific Electronic Library Online (SciELO) do Brasil, com foco na publicação de artigos originais resultantes de pesquisa.

Dos 93 periódicos identificados no SciELO cinco foram excluídos por não se voltarem a pesquisas envolvendo seres humanos ou por terem um caráter interdisciplinar, não sendo específicos da área de saúde.

Os 88 periódicos restantes foram então classificados segundo as áreas de conhecimento e as melhores pontuações obtidas no webqualis da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) do Ministério da Educação. Ressalte-se que a pontuação da CAPES foi assumida como proxy de qualidade e relevância no cenário acadêmico nacional. Em seguida foi realizada a análise das instruções aos autores para artigos originais buscando orientações adequadas aos estudos qualitativos, como a não exigência de testes estatísticos, reprodutibilidade ou generalização dos resultados. Aspectos como limites ao tamanho do manuscrito, do número de autores e do delineamento do estudo, quando presentes, também foram considerados. A partir da leitura e releitura das instruções aos autores, emergiram as categorias para classificação da postura editorial do periódico frente a estudos originais de cunho qualitativo: favoráveis, indiferentes/dúbias, e não favoráveis. Foram consideradas favoráveis as revistas que em suas instruções aos autores especificam textualmente o aceite de qualquer tipo de pesquisa original e as que fazem alguma referência ao método qualitativo ou a desenhos de estudo que incluem entrevistas, grupos focais ou observação participante. Os periódicos classificados como não favoráveis a estudos qualitativos praticam exigências típicas de estudos quantitativos, como testes estatísticos, reprodutibilidade, resultados que permitam generalização e textos de extensão muito limitada. As posturas editoriais consideradas indiferentes ou dúbias foram aquelas que apesar de não terem orientações favoráveis a estudos qualitativos também não impõem condições próprias de estudos quantitativos ou quando ao mesmo tempo em que incluem estas imposições abrem a possibilidade de aceite de outros formatos de estudo.

Após a classificação, o conteúdo das revistas incluídas em cada um dos grupos foi examinado, visando assegurar que as instruções de fato são seguidas nos trabalhos publicados.

Resultados e discussão

Conforme se pode observar na Tabela 1, a distribuição dos periódicos de acordo com as áreas temáticas mostra a predomínio de revistas médicas, seguido pelas revistas classificadas como do campo da saúde coletiva. As revistas de enfermagem, seguidas pelas da saúde coletiva, apresentam as melhores pontuações no webqualis.

Tabela 1 Distribuição dos periódicos por área e maior Qualis Capes. 

Área Qualis A1/A2 Qualis B1/B2 Qualis B3
Medicina 49 8 32 8
Saúde Coletiva 11 6 5 0
Enfermagem 7 5 2 0
Odontologia 7 3 2 2
Educação Física 5 0 5 0
Fisioterapia 3 1 2 0
Farmácia 2 0 2 0
Fonoaudiologia 3 0 3 0
Nutrição 1 0 1 0
Totais 88 25 57 11

Cabe ressaltar que a Revista Brasileira de Geriatria e Gerontologia (RBGG), e ainda a Revista Brasileira de Bioética (RBB), foram classificadas como sendo da área de medicina, embora seus conteúdos não sejam típicos desta área, seja pela dimensão filosófica que embasa a bioética, seja pelo caráter multiprofissional que caracteriza tanto a Geriatria quanto a Gerontologia.

Considerando a distribuição dos periódicos por área, segundo instruções aos autores mais ou menos favoráveis à publicação de artigos baseados em pesquisas qualitativas, observa-se que as revistas médicas são as que apresentam as normas de publicação menos amigáveis. O quadro também mostra que algumas revistas, mesmo tendo normas favoráveis à publicação de estudos qualitativos, de fato não os publicam. O contrário também ocorre, pois pode acontecer a divulgação de algum artigo baseado em pesquisa qualitativa mesmo em revistas cujas normas não são favoráveis a esse tipo de abordagem. No entanto, estas duas situações não são típicas, havendo, no conjunto das revistas analisadas, um claro predomínio daquelas que publicam exclusivamente ou predominantemente estudos baseados em quantificações e análises estatísticas (Tabela 2).

Tabela 2 Distribuição dos periódicos por área, postura editorial frente a estudos originais de cunho qualitativo e número de artigos quali publicados no último ano. 

Área Favorável Não favorável Indiferente/ambíguo Publicou artigos quali no último ano
Medicina 49 02* 35 12 3
Saúde Coletiva 11 07 1 3 10
Enfermagem 7 5 0 2 7
Odontologia 7 0 6 1 1
Ed. Física 5 2 2 1 2
Fisioterapia 3 1 2 0 0
Farmácia 2 0 2 0 0
Fonoaudiologia 3 0 3 0 1
Nutrição 1 0 1 0 1
Totais 88 17 52 19 25

*Inclui a RBB e a RBGG.

Na leitura das instruções observa-se que as revistas que demonstram em suas normas serem favoráveis à inclusão de estudos qualitativos o fazem permitindo textos mais longos, sem exigências de testes estatísticos, ou afirmando textualmente o aceite deste tipo de pesquisa. Há informações sobre a inclusão de artigos completos cujo foco seja a discussão, comparação e avaliação de aspectos metodológicos importantes para o campo, seja na área de desenho de estudos, análise de dados ou método. Esses periódicos foram classificados como favoráveis.

Alguns desses aceitam manuscritos com até seis mil palavras ou mesmo mais longos. Outros orientam que são aceitos textos cujos temas sejam relacionados à compreensão das necessidades, motivações e comportamentos humanos. Nesses casos, o objeto do estudo é construído por meio da análise aprofundada de uma questão específica, o que inclui a compreensão e a interpretação de opiniões, atitudes, motivações e padrões de comportamento. Essas revistas assinalam também aceitar pesquisa documental e estudos etnográficos.

Uma parte dos periódicos analisados, classificados como indiferentes ou dúbios, demonstra certa ambiguidade nas instruções aos autores, ou não trazem informações ou exigências específicas em relação ao método.

Tais revistas, apesar da exigência da replicabilidade ou de generalização, informam permitir outros formatos de artigo. Nestes casos o número de palavras máximo, em geral, é em torno de 3 a 4 mil. Porém nada falam sobre delineamentos de estudos, técnicas de coleta de dados ou sobre a necessidade de testes estatísticos. Alguns destes periódicos exigem a apresentação de tratamento estatístico e generalização dos resultados ao mesmo tempo em que admitem categorização de dados.

Os periódicos cujas instruções foram avaliadas como não favoráveis à publicação de estudos originais qualitativos têm como características exigências incompatíveis com estudos dessa natureza, como: informações sobre as análises estatísticas realizadas, descrição detalhada para que permita a replicação do estudo ou que seus resultados sejam generalizáveis. Ou seja, mesmo não apresentando em suas instruções informações explícitas de rejeição de estudos qualitativos, impõem restrições claras à sua submissão. Os excertos retirados das instruções aos autores de dois periódicos analisados ilustram esta situação:

Procedimentos devem ser descritos com detalhes suficientes para permitir a reprodução do estudo. […] Nos resultados devem-se informar os principais dados, intervalos de confiança e significância estatística.

Defendemos que os estudos qualitativos permitem replicabilidade, embora isto não signifique que os resultados sejam semelhantes. As dessemelhanças entre os resultados são consideradas elementos para o enriquecimento da compreensão do fenômeno estudado e catalisadoras da formulação de novas hipóteses19. Da mesma forma, a ideia de generalização nos estudos qualitativos de fato não se aplica, pois a intenção não é produzir uma afirmação que possa ser válida em geral, e sim produzir informações sobre dimensões da experiência humana marcadas pelo contexto sociocultural que as produz. O pressuposto é que as experiências singulares são possibilidades humanas histórica e socialmente circunscritas, passíveis de serem vivenciadas por diferentes sujeitos, embora não de forma determinística ou linear. Assim, não se trata de generalizar, mas de identificar como as normas socioculturais podem se inscrever na vida dos sujeitos. Uma das características importantes do método qualitativo consiste na heterodoxia no momento de análise dos dados, que depende de intuição e criatividade. Mais do que generalizações, a diversidade e o aprofundamento são bem vindos!20,21.

Nos periódicos classificados como apresentando instruções não favoráveis aos estudos qualitativos há ainda limitações de tamanho (em geral, no máximo 3 mil palavras). Outras informações que parecem dificultar a submissão de estudos qualitativos se referem ao controle da subjetividade do estudo e a necessidade de imparcialidade do pesquisador, como exemplificado nos trechos abaixo retirados das instruções aos autores de outros periódicos deste grupo.

Os resultados devem apresentar os dados obtidos com o mínimo julgamento pessoal. […] Deve-se descrever como a subjetividade das observações foi controlada. […] O manuscrito deve ser escrito na 3ª pessoa.

A preocupação com o controle da subjetividade demonstra a lógica positivista de ciência desses periódicos, fundada na concepção da existência de uma realidade estável e independente do observador. Nesta perspectiva, a ciência teria como missão desvendar esta realidade, dentro da sua objetividade. Este posicionamento, hoje inclusive já bastante superado pelo avanço da ciência em várias áreas, ignora a impossibilidade de existência de um mundo estático e sem interferência contínua dos observadores/pesquisadores2,22. Ademais, parece que não consideram que mesmo a produção acadêmica é pautada por interesses políticos, sociais e econômicos que acabam direcionando a pesquisa para alguns objetos, e delineamentos em detrimento de outros2325.

Há periódicos que não aceitam que a discussão seja apresentada junto com os resultados, como é frequente nos estudos qualitativos. Outros exigem que se descreva o nível de evidência baseado no Centro de Medicina Baseada em Evidência de Oxford, Reino Unido.

Cerca de metade dos periódicos estudados informa que baseia suas instruções nas recomendações do International Committee of Medical Journal Editors26. Esse documento, na parte referente ao método, pontua que seu princípio orientador é a clareza sobre como e por que o estudo foi feito, e que o trabalho deve procurar ser suficientemente detalhado para que outros pesquisadores sejam capazes de reproduzir os resultados. Como visto, poder reproduzir o estudo e encontrar os mesmos resultados é uma premissa dos estudos quantitativos, pois, como já apontado, a reprodução dos resultados não é um requisito dos estudos qualitativos. Nestes, a garantias da cientificidade se deriva do rigor na análise e interpretação dos resultados, e da sua consistência teórica.

Entretanto, nem todos os periódicos assumem as instruções aos autores como uma diretriz que explicita e consolida sua política editorial. Em alguns periódicos estas instruções aos autores são reduzidas e com poucas exigências metodológicas ou de formato. Em outros, além das imposições referentes ao detalhamento do método utilizado, há orientações quanto à formatação do manuscrito. Há também normas que aparentam estar muito defasadas, pois requerem o envio de cópias impressas e disquetes via correio.

Vale mencionar também que alguns periódicos (34 dentre os 88) exigem a submissão de manuscritos em inglês, e a cobrança de taxas de submissão, de publicação e de tradução para a língua inglesa. Um periódico, inclusive proíbe referências bibliográficas em português. Ou seja, não apenas as imposições metodológicas formatam o conhecimento que pode ser disseminado por meio da publicação em periódicos indexados, como outras exigências também contribuem para selecionar o tipo de informação a ser disponibilizada, seus autores e seus leitores.

Assim, os resultados desta análise evidenciam que a divulgação de pesquisas qualitativas é dificultada pelo pouco espaço editorial nos periódicos científicos para pesquisas desta natureza. Além da não inclusão destes estudos nas instruções aos autores, os textos que utilizam essa abordagem costumam ser rejeitados por pareceristas que os consideram não científicos, de qualidade duvidosa, como se fossem apenas histórias curiosas sobre eventos vividos, sem rigor na coleta e na análise das informações, pouco avançando além do senso comum4. Em estudo realizado por Taquette et al.3, pesquisadores médicos apontam a pouca ressonância desse tipo de estudos na literatura mundial.

Ressalta-se que os periódicos com política editorial que inclui estudos qualitativos publicam mais pesquisas dessa natureza, o que é confirmado pelos dados deste estudo: as revistas com instruções favoráveis de fato publicaram bem mais artigos qualitativos que as revistas com normas não favoráveis ou dúbias5.

Apesar do crescente reconhecimento da importância da pesquisa qualitativa para a prática clínica, a evidência empírica é de que os artigos com abordagens qualitativas quase não receberam apoio dos periódicos mais importantes: em 10 anos houve aumento de 3,4 vezes de publicações qualitativas internacionais: 1,2% em 1998 e 4,1% em 200710.

Um dos pontos mais criticados a respeito da cientificidade do método é a sua não pretensão de generalização de seus dados. Entretanto, baseado no pressuposto, já abordado anteriormente, de que a experiência singular é matizada e significada socioculturalmente, Collingride e Gantt27 destacam que é possível generalizar resultados de estudos em contextos semelhantes com certo grau de confiança. E compara com a jurisprudência na área de direito, onde num precedente aplicável, a generalização é estabelecida através da análise das características semelhantes entre casos particulares.

Conclusões

Concluímos que a falta de instruções claras sobre a possibilidade de submissão de artigos de natureza qualitativa assim como as exigências de reprodutibilidade do estudo se configuram em barreiras impostas pelos periódicos aos estudos qualitativos e são grande impeditivo da ampliação deste tipo de pesquisa nas ciências da saúde. Com isso, muitas questões da assistência à saúde ficam sem resposta. Por outro lado, a maior participação de médicos em estudos de natureza qualitativa junto com pesquisadores de outras áreas pode contribuir para a redução do distanciamento que existe entre a saúde coletiva e a prática clínica e também para a formulação e implementação de políticas de saúde.

Vale mencionar que as exigências próprias de estudos quantitativos que a maioria dos periódicos científicos da área da saúde fazem aos autores que pretendem submeter manuscritos para publicação, também estão presentes nos editais de fomento a pesquisa de algumas agências de financiamento. Entre elas destacamos a principal agência brasileira, o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) do Ministério de Ciência e Tecnologia, que em seu último edital Universal obrigou os proponentes a incluir metas quantitativas em seus projetos. Sem elas não era possível submeter a proposta de investigação científica. Isso demonstra que a visão hegemônica e quase unívoca no meio científico é a de que ciência é sinônimo de pesquisa quantitativa, o que deixa clara a necessidade de refletirmos e de revisarmos os critérios de cientificidade e de rigor.

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Recebido: 10 de Junho de 2016; Revisado: 29 de Agosto de 2016; Aceito: 31 de Agosto de 2016

Colaboradores

SR Taquette e WV Villela contribuíram igualmente na realização do estudo, análise dos dados e redação do manuscrito.

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