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Ciência & Saúde Coletiva

Print version ISSN 1413-8123On-line version ISSN 1678-4561

Ciênc. saúde coletiva vol.22 no.5 Rio de Janeiro May 2017

http://dx.doi.org/10.1590/1413-81232017225.14102015 

TEMAS LIVRES

Viabilidade do uso de pergunta simplificada na avaliação da qualidade da dieta de adolescentes

Paulo Rogério Melo Rodrigues1 

Regina Maria Veras Gonçalves-Silva1 

Márcia Gonçalves Ferreira1 

Rosangela Alves Pereira2 

1Faculdade de Nutrição, Universidade Federal de Mato Grosso. Av. Fernando Corrêa da Costa 2367/Faculdade de Nutrição, Boa Esperança. 78060-900 Cuiabá MT Brasil. roapereira@ufrj.br

2Departamento de Nutrição Social e Aplicada, Universidade Federal do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro RJ Brasil.

Resumo

Analisou-se a aplicabilidade de pergunta simplificada na avaliação da qualidade da alimentação de adolescentes em estudo transversal de base escolar, com estudantes do ensino médio. A autopercepção da qualidade da alimentação foi obtida ao inquirir o participante se considerava sua alimentação muito boa, boa, regular ou ruim. Foram avaliados os hábitos de refeições e o consumo alimentar por meio de questionário de frequência de consumo. Estimou-se o Índice de Qualidade da Dieta-Revisado (IQD-R) e foram identificados três padrões alimentares com o uso de análise fatorial. A autopercepção da qualidade da alimentação como “boa” foi referida por 56% dos adolescentes, associando-se ao consumo regular de frutas, hortaliças, das refeições principais e escores elevados do IQD-R. Contudo, o consumo de alimentos deletérios à saúde não foi percebido como característica que afeta a qualidade da dieta. A pergunta avaliada apresentou sensibilidade de 28% para detectar dietas de boa qualidade e especificidade de 79% para identificar dietas de baixa qualidade nutricional. O uso de pergunta simplificada para avaliar hábitos alimentares de adolescentes é limitada, dado que o consumo de alimentos com alto teor de gordura, açúcar e sódio não foi reconhecido como indicador de dieta de baixa qualidade.

Palavras-Chave: Autopercepção da dieta; Qualidade da dieta; Hábitos alimentares; Adolescente

Introdução

Hábitos alimentares adotados na adolescência têm sido caracterizados pelo alto consumo de marcadores de alimentação não saudável, tais como bebidas com adição de açúcar, alimentos processados, ricos em gorduras saturadas, açúcar de adição e sódio, assim como baixa ingestão de frutas e hortaliças1,2. Esses hábitos, característicos da transição nutricional contemporânea2, estão associados ao aumento do risco de obesidade, doenças cardiovasculares e diabetes3,4.

Considerando que a obesidade na infância e adolescência é um dos principais problemas de saúde pública no mundo5 torna-se necessária a implementação de indicadores simplificados visando monitorar esse quadro e seus principais determinantes, entre eles o consumo alimentar, uma vez que é sabido que os hábitos alimentares dos adolescentes incluem alimentos considerados não saudáveis e de alta densidade energética6.

De forma semelhante ao que ocorre com a autopercepção do estado de saúde, atributo para o qual estudos revelam associação significativa entre a autopercepção de boa saúde e comportamentos saudáveis relacionados ao estilo de vida dos adolescentes7,8, a percepção em relação à qualidade da alimentação pode ser uma ferramenta útil em inquéritos epidemiológicos, fornecendo, por meio de uma pergunta simples, uma avaliação subjetiva e uma medida resumo da qualidade da dieta. Tal suposição se baseia no fato de que modelos teóricos para escolhas alimentares sugerem que características individuais como conhecimento e percepção da alimentação são determinantes chaves para a seleção dos alimentos1,9.

A percepção da qualidade da alimentação pode estar relacionada a conhecimentos sobre nutrição, para os quais foi observada associação significativa com a qualidade da dieta10-12. Porém, a autopercepção da qualidade da alimentação ainda tem sido um indicador pouco explorado, apesar do seu potencial para identificar grupos alvo de intervenções, visando à promoção de estilo de vida saudável, similarmente ao que ocorre com o indicador de autopercepção da saúde.

O objetivo deste estudo foi avaliar a aplicabilidade de uma pergunta simplificada na avaliação da qualidade da alimentação de adolescentes, explorando a associação entre autopercepção da qualidade da alimentação e indicadores de hábitos alimentares.

Métodos

Trata-se de estudo transversal, de base escolar, com adolescentes de ambos os sexos, na faixa etária de 14 a 19 anos, regularmente matriculados na rede de ensino médio público e privado na área urbana do município de Cuiabá, Mato Grosso, no ano de 2008, cujo objetivo inicial foi avaliar comportamentos de risco para transtornos alimentares.

Para o cálculo do tamanho da amostra considerou-se nível de 95% de confiança, erro amostral de 3% e dado que não eram conhecidos estudos específicos sobre comportamentos de risco para transtornos alimentares em adolescentes no munícipio estudado, para efeito de cálculo da amostra, considerou-se prevalência de 0,50. O tamanho amostral foi estimado em 1067 adolescentes, sendo corrigido em 20% para considerar o efeito do desenho da amostra em conglomerados (deff = 1,2), totalizando 1280 adolescentes. Maiores detalhes estão descritos em Rodrigues et al.13.

A pesquisa foi aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa do Hospital Universitário Júlio Muller da Universidade Federal de Mato Grosso. Todos os adolescentes e/ou os seus pais/responsáveis assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido firmando anuência em participar da pesquisa, sendo obtida também autorização dos diretores das escolas para a coleta de dados.

Coleta de dados

Foi realizado treinamento padronizado para a coleta de dados, a qual contou com a aplicação de um questionário autorrespondido, pré-testado, contendo questões sobre características demográficas, socioeconômicas, de estilo de vida, hábitos alimentares e Questionário de Frequência Alimentar (QFA) semiquantitativo. Para diminuir a taxa de não resposta, foram realizados pelo menos três retornos às escolas, com o intuito de encontrar os alunos faltosos nas visitas anteriores.

Autopercepção da qualidade da alimentação

A autopercepção da qualidade da alimentação foi obtida por meio da pergunta: “Em sua opinião, a qualidade da sua alimentação é?”, tendo como opções de resposta: “Ótima”, “Boa”, “Regular”, “Ruim” ou “Péssima”. Nas análises estatísticas as respostas foram agrupadas em: 1) Percepção da qualidade da alimentação como Boa (“Ótima” e “Boa”) e 2) Percepção da qualidade da alimentação como Ruim (“Regular”, “Ruim” e “Péssima”).

Informações sobre hábitos alimentares e conhecimentos sobre alimentação saudável

Para avaliar o consumo alimentar aplicou-se QFA modificado para adolescentes13, composto por 76 itens alimentares, oito opções de resposta para relato da frequência de consumo, variando de mais de 3 vezes por dia até nunca ou quase nunca e até três opções de porções.

O hábito de consumir regularmente frutas e hortaliças foi avaliado por meio das perguntas: “Você costuma comer frutas pelo menos 5 vezes por semana? (não considerando sucos e refrescos)” e “Você costuma comer verduras e legumes pelo menos 5 vezes por semana? (não considerando batata, inhame, mandioca…)”, ambas tendo como opções de resposta: Sim ou Não.

De forma semelhante, o hábito de consumir pele de frango e gordura visível da carne foi avaliado utilizando as perguntas: “Quando você come frango, com que frequência come a pele?” e “Quando você come carne, com que frequência come a gordura visível?”, ambas tendo como opções de resposta: Nunca, Algumas vezes e Sempre, sendo para as análises agrupadas em “Sim” (Sempre e Algumas vezes) e “Não” (Nunca).

O conhecimento sobre alimentação saudável foi avaliado por meio da pergunta: “Você tem conhecimentos sobre uma alimentação saudável?”, tendo como opções de resposta: “Sim” ou “Não”.

Cabe destacar que, tanto essa pergunta sobre alimentação saudável quanto a questão referente à autopercepção da qualidade da alimentação estavam localizadas, no questionário aplicado na pesquisa, após o QFA, de modo a não influenciar o relato do consumo.

Foi utilizado o software Nutwin para avaliar o consumo alimentar dos adolescentes em relação ao seu conteúdo em nutrientes14. Os alimentos foram agrupados de acordo com os grupos apresentados no Guia Alimentar para População Brasileira15. As preparações que envolviam mais de um grupo de alimentos, como sanduíches, pizzas, massas recheadas e outras misturas, foram desmembradas e seus ingredientes, classificados nos grupos correspondentes. Para os alimentos que não estavam disponíveis no banco de dados do programa, as informações foram obtidas do Nutrition Data System for Research - NDSR16 e da Tabela Brasileira de Composição de Alimentos - TACO17.

Avaliação da qualidade da dieta

Foi utilizado o Índice de Qualidade da Dieta – Revisado (IQD-R)18 para avaliar a qualidade da dieta dos adolescentes. Este índice é baseado em recomendações relacionadas com aspectos protetores da alimentação, principalmente no Guia Alimentar para População Brasileira15, sendo estimado por 12 componentes que caracterizam diferentes aspectos da dieta, como o consumo de vegetais, gorduras benéficas e calorias fornecidas por “gorduras sólidas, açúcar de adição e bebidas alcoólicas (componente “Calorias vazias”)”. Os componentes IQD-R são baseados em grupos de alimentos (frutas totais; frutas inteiras; vegetais totais; vegetais verdes-escuros e alaranjados e Leguminosas; cereais totais; grãos integrais; carnes, ovos e legumes, leite e derivados, óleos, oleaginosas e gordura de peixe), nutrientes (gordura saturada e sódio), e nutrientes combinados com alimentos (componente “Calorias vazias”). A pontuação atribuída a cada componente é expressa em três níveis: máximo, intermediário e mínimo. A pontuação total do IQD- R é de 100 pontos, e altos escores indicam uma dieta que está mais próxima do ideal, enquanto que pontuações baixas caracterizam uma dieta que está longe de ser ideal. No presente estudo, o IQD- R incluiu apenas 11 componentes, devido à falta de especificações sobre o tipo de cereais no QFA; assim, os pontos atribuídos ao componente “grãos integrais” foram adicionados ao componente “cereais totais”. A descrição detalhada dos critérios para pontuação mínima, intermediária e máxima de cada componente pode ser encontrada em Previdelli et al.18.

No presente estudo, a pontuação total do IQD-R e de seus componentes foi dicotomizada em acima e abaixo do percentil 75 (P75). Valores iguais ou superiores ao P75 foram considerados elevados por representar o quartil com maior pontuação, indicando melhor qualidade da dieta, uma vez que o IQD-R avalia em que medida a dieta apresenta aderência às recomendações nutricionais.

Consumo de refeições

A frequência de consumo de refeições (desjejum, lanche da manhã, almoço, lanche da tarde e jantar) foi obtida pela pergunta “Em média, com que frequência você fez estas refeições nos últimos seis meses” tendo como opções de resposta: todos os dias, 3-6 vezes/semana, 1-2 vezes/semana e nunca.

O perfil de consumo de refeições foi categorizado em quatro grupos: Desejável, Satisfatório, Irregular e Insatisfatório. O perfil Desejável foi considerado quando o adolescente referiu realizar as cinco refeições diariamente, conforme preconizado pelo Guia Alimentar15. O perfil Satisfatório foi dado quando o adolescente realizava pelo menos as três refeições principais (desjejum, almoço e jantar) diariamente. O perfil Irregular foi considerado quando o adolescente realizava apenas uma ou duas das três refeições principais diariamente. O perfil Insatisfatório foi classificado quando o adolescente não realizava nenhuma das três refeições principais diariamente. Cabe destacar que, tanto o perfil Satisfatório quanto os Irregular e Insatisfatório podem incluir ou não um dos dois lanches diariamente.

Identificação dos padrões alimentares

A identificação dos padrões alimentares está descrita em Rodrigues et al.13, mas de forma resumida foi baseada na frequência de consumo de 22 grupos alimentares, empregando-se a análise fatorial exploratória, e para a extração dos fatores procedeu-se a análise de componentes principais, seguida da rotação Varimax. A determinação do número de fatores a serem extraídos foi baseada no teste gráfico de Cattel (scree plot), sendo os padrões identificados nomeados com base na interpretabilidade e características dos itens retidos em cada padrão.

Os três padrões identificados foram classificados como: padrão “Ocidental”, contendo bolos e biscoitos, produtos industrializados, laticínios, carnes preservadas, bebidas adoçadas, fast-food, banana da terra frita e doces; padrão “Tradicional”, composto pelos itens arroz, feijão, pães, leite, carne bovina, café, manteiga e margarina, e padrão “Misto”, caracterizado pelo consumo de macarrão, tubérculos e raízes, outras carnes, peixes, ovos, frutas, legumes e verduras.

Dados demográficos e socioeconômicos

O nível socioeconômico das famílias foi avaliado utilizando-se os critérios da Associação Brasileira de Empresas de Pesquisa19 que considera a escolaridade do chefe da família, a presença de bens (eletrodomésticos e carros) e empregados domésticos mensalistas no domicílio, sendo as famílias classificadas em categorias que variaram de A (nível mais elevado) até E (nível mais baixo).

A idade foi obtida por meio do cálculo da diferença entre a data da aplicação do questionário e a data de nascimento, sendo o resultado expresso em anos completos de vida e classificada em 2 categorias: 14 e 15 anos e entre 16 a 19 anos. Foi avaliada também a característica escolar, considerando o tipo de escola (particular e pública estadual e federal).

Informações sobre estilo de vida e status de peso

A prática de atividade física foi investigada quanto ao tipo, frequência e duração de cada atividade praticada. Para classificar o nível de atividade física, estimou-se o tempo semanal dedicado às atividades físicas, multiplicando-se tempo diário (em minutos) pela frequência semanal com que as atividades eram realizadas. Adotou-se a categorização sugerida por Currie et al.20, a qual define como fisicamente inativo o adolescente que não relata a pratica de atividade física, insuficientemente ativo, aquele que pratica até 299 minutos de atividade física por semana e ativo, o adolescente que pratica pelo menos 300 minutos de atividade física semanalmente.

Os dados sobre consumo de bebidas alcoólicas (cerveja, vinho e/ou destilados) foram obtidos por meio de questionário de frequência alimentar e eram relativos aos seis meses anteriores à pesquisa, sendo os adolescentes classificados de acordo com a ingestão ou não de bebida alcoólica, independente da quantidade, frequência e tipo relatado. O tabagismo foi avaliado segundo os critérios da World Health Organization21, que considera fumante o indivíduo que referiu ter fumado pelo menos um dia nos últimos 30 dias.

O índice de massa corporal (IMC = kg/m2) foi estimado para classificar o perfil de peso dos adolescentes utilizando os escores Z do IMC22, sendo categorizados como sem excesso de peso os que apresentaram IMC/idade ≤ +1 escore-Z; e com excesso de peso corporal aqueles que apresentaram IMC/idade > +1 escore-Z, englobando nessa categoria o sobrepeso e a obesidade. Cabe destacar que o IMC foi calculado com base nas medidas de peso e estatura autorreferidas pelos adolescentes e que o relato destas medidas foi validado por Rodrigues et al.23 para sua utilização em estudos epidemiológicos com adolescentes do município avaliado no presente estudo.

Análise dos dados

As análises estatísticas foram desenvolvidas considerando-se os fatores de ponderação e o desenho amostral, utilizando-se o comando weight cases do programa estatístico Statistical Package for Social Science versão 17.0 (SPSS Inc., Chicago, IL, USA) e do software WIN PEPI versão 11.7.

As análises foram conduzidas separadamente por sexo devido às diferenças significativas no relato da autopercepção da qualidade da alimentação entre meninos e meninas. Na análise univariada foi utilizado o teste do qui-quadrado para avaliar a relação entre a autopercepção da qualidade da alimentação e as variáveis demográficas, socioeconômicas, de estilo de vida, perfil de peso, conhecimentos sobre alimentação saudável, hábitos alimentares e indicadores de qualidade da dieta.

Em seguida, foram desenvolvidos modelos de regressão logística multivariada, utilizando-se a Odds Ratio (OR) e os respectivos Intervalos de Confiança de 95% (IC95%) como medida de associação, considerando como variável desfecho a autopercepção da qualidade da alimentação como boa e testando como fatores preditivos as variáveis independentes com valor de p < 0,20 na análise univariada. Primeiramente foram desenvolvidos modelos brutos, ou seja, incluindo cada variável independente separadamente e posteriormente foi desenvolvido modelo ajustado por idade, nível de atividade física e tipo de escola.

Adicionalmente, desenvolveu-se análise de sensibilidade, especificidade e acurácia da pergunta avaliada na classificação da qualidade da dieta dos adolescentes considerando como referência de dieta de melhor qualidade, o IQD-R total acima do percentil 75.

Resultados

Dos adolescentes elegíveis para participar do estudo (n = 1344), foram entrevistados 1296 (96,4%), destes, 87 não foram incluídos na análise devido a informações incompletas e outros 70 adolescentes que reportaram consumo energético considerado pouco plausível (acima ou abaixo de 2 desvios-padrão da média) também não foram considerados. Dessa forma, as análises foram conduzidas com 1139 adolescentes (84,7% do total de adolescentes elegíveis).

Dentre os adolescentes avaliados, 56% eram do sexo feminino, 66% estavam na faixa etária de 16 a 19 anos, 77% eram estudantes de escolas da rede pública estadual e federal de ensino e 53% pertenciam às classes sociais mais favorecidas (Tabela 1).

Tabela 1 Autopercepção da qualidade da alimentação segundo características demográficas, socioeconômicas, de estilo de vida e o status de peso de adolescentes (n = 1.139). Cuiabá, Mato Grosso, 2008. 

Variáveis Total Autopercepção da qualidade da alimentação Valor de p*

Boa (n = 640) Ruim (n = 499)

N (%) %
Sexo < 0,01
Masculino 501 (44) 64 36
Feminino 638 (56) 50 50
Idade 0,48
14 - 15 anos 389 (34) 55 45
16 - 19 anos 750 (66) 57 43
Tipo de escola 0,06
Pública federal 53 (5) 40 60
Particular 266 (23) 57 43
Pública estadual 821 (72) 57 43
Categoria socioeconômica 0,92
A + B 603 (53) 56 44
C + D 536 (47) 56 44
Tabagismo 0,59
Sim 67 (6) 53 47
Não 1072 (94) 56 44
Etilismo 0,50
Sim 442 (39) 58 42
Não 697 (61) 55 45
Atividade física < 0,01
Fisicamente inativo 246 (22) 47 53
Insuficientemente ativo 427 (37) 53 47
Ativo 467 (41) 64 36
Status de peso 0,40
Sem excesso de peso 949 (83) 57 43
Com excesso de peso 190 (17) 53 47

* Valor de p pelo teste do qui-quadrado.

A autopercepção da qualidade da alimentação como boa foi relatada por 56% dos adolescentes (64% dos meninos e 50% das meninas; p < 0,01). Estudantes das escolas particulares e das escolas estaduais relataram dieta de boa qualidade em maior proporção quando comparados aos estudantes da escola pública federal (p = 0,06). A autopercepção da qualidade da dieta também foi associada com a atividade física, uma vez que dos adolescentes ativos 64% consideraram sua dieta de boa qualidade, enquanto que entre os insuficientemente ativos, 53% relataram dieta de boa qualidade, e entre os fisicamente inativos, essa proporção foi de 47% (p < 0,01) (Tabela 1).

Verificou-se que entre os adolescentes que referiram consumo de frutas ≥ 5 vezes/semana, a autopercepção da dieta como de boa qualidade foi observada em 63% dos adolescentes (p < 0,01) e para o consumo de hortaliças ≥ 5 vezes/semana, essa proporção foi de 62% (p < 0,01). Entre os adolescentes que referiram ter conhecimentos sobre alimentação saudável, 59% relataram dieta como de boa qualidade (p < 0,01). A autopercepção da dieta como boa foi observada em 69% dos adolescentes com perfil de refeições satisfatório, em 56% dos adolescentes daqueles com perfil de refeições irregular e em 31% dos que apresentavam perfil de refeição insatisfatório (p < 0,01). A autopercepção da qualidade da dieta também se associou com o padrão alimentar “Misto” (p < 0,01) (Tabela 2).

Tabela 2 Autopercepção da qualidade da alimentação segundo hábitos alimentares e conhecimento sobre alimentação saudável de adolescentes (n = 1.139). Cuiabá, Mato Grosso, 2008. 

Variáveis Total Autopercepção da qualidade da alimentação Valor de p*

Boa (n = 640) Ruim (n = 499)

N (%) %
Consumo de frutas pelo menos 5 x/semana < 0,01
Sim 585 (51) 63 37
Não 554 (49) 49 51
Consumo de hortaliças pelo menos 5 x/semana < 0,01
Sim 652 (57) 62 38
Não 487 (43) 48 52
Consumo de pele de frango 0,79
Sim 657 (58) 57 43
Não 482 (42) 56 44
Consumo de gordura visível de carnes 1,00
Sim 687 (60) 56 44
Não 452 (40) 56 44
Tem conhecimentos sobre uma alimentação saudável < 0,01
Sim 1000 (88) 59 41
Não 139 (12) 34 66
Perfil de refeições < 0,01
Satisfatório 322 (28) 69 31
Irregular 653 (57) 56 44
Insatisfatório 164 (15) 31 69
Padrão alimentar “Ocidental” 0,17
Acima P75 291 (25) 60 40
Abaixo P75 848 (75) 55 45
Padrão alimentar “Tradicional” 0,24
Acima P75 280 (25) 59 41
Abaixo P75 859 (75) 55 45
Padrão alimentar “Misto” 0,01
Acima P75 294 (25) 63 37
Abaixo P75 845 (75) 54 46

*Valor de p pelo teste do qui-quadrado.

Contudo, não se observou associação entre autopercepção da qualidade da dieta com marcadores de alimentação não saudável, como o consumo de pele de frango (p = 0,79) e de gordura visível de carnes (p = 1,00) e nem com os padrões alimentares “Ocidental” e “Tradicional” (Tabela 2).

Os adolescentes com autopercepção da qualidade da alimentação como boa apresentaram pontuação mais elevada para os seguintes componentes do IQD-R: “Frutas totais”, “Frutas inteiras”, “Vegetais totais” e “Vegetais verdes-escuros e alaranjados e Leguminosas” (p ≤ 0,01) e para “Leite e derivados”, “Óleos, oleaginosas e gordura de peixe” e “Sódio” (p < 0,05) (Tabela 3). Porém, os componentes marcadores de alimentação de risco à saúde, tais como “Gordura saturada” e “Calorias vazias” não se associaram à autopercepção da qualidade da alimentação (Tabela 3).

Tabela 3 Autopercepção da qualidade da alimentação segundo Índice de Qualidade da Dieta e seus componentes de adolescentes (n = 1.139). Cuiabá, Mato Grosso, 2008 

Componentes Total Autopercepção da qualidade da alimentação Valor de p*

Boa (n = 640) Ruim (n = 499)

N (%) %
Índice de Qualidade da Dieta 0,01
Acima P75 284 (25) 63 37
Abaixo P75 855 (75) 54 46
Frutas totais < 0,01
Acima P75 293 (26) 64 36
Abaixo P75 846 (74) 54 46
Frutas inteiras < 0,01
Acima P75 295 (26) 65 35
Abaixo P75 844 (74) 53 47
Vegetais totais < 0,01
Acima P75 281 (25) 64 36
Abaixo P75 858 (75) 54 46
VeveaL** 0,01
Acima P75 282 (25) 63 37
Abaixo P75 857 (75) 54 46
Cereais totais 0,59
Acima P75 289 (25) 58 42
Abaixo P75 850 (75) 56 44
Carne, ovos e leguminosas 0,09
Acima P75 291 (26) 61 39
Abaixo P75 848 (74) 55 45
Leite e derivados 0,03
Acima P75 291 (25) 62 38
Abaixo P75 848 (75) 54 46
Óleos, oleaginosas e gordura de peixe 0,02
Acima P75 290 (25) 62 38
Abaixo P75 849 (75) 54 46
Gordura saturada 0,17
Acima P75 295 (26) 60 40
Abaixo P75 844 (74) 55 45
Sódio 0,04
Acima P75 291 (26) 62 38
Abaixo P75 848 (74) 54 46
Calorias vazias*** 0,62
Acima P75 292 (26) 58 42
Abaixo P75 847 (74) 56 44

* Valor de p pelo teste do qui-quadrado. ** VeveaL = Vegetais verdes-escuros e alaranjados e Leguminosas.

*** Calorias vazias = Calorias provenientes da gordura sólida, álcool e açúcar de adição.

Nos modelos de regressão logística multivariada ajustados, para os meninos, a probabilidade de autoperceber a qualidade da alimentação como boa foi mais elevada para os adolescentes fisicamente ativos (Odds Ratio [OR] = 2,38), os que relataram consumo de hortaliças ≥5 vezes/semana (OR = 1,94), os que tinham conhecimentos sobre alimentação saudável (OR = 4,87), perfil de refeições satisfatório (OR = 5,15) e irregular (OR = 2,92) e os que tiveram escores acima do percentil 75 para o IQD-R total (OR = 1,59) (Tabela 4).

Tabela 4 Razão de chances (Odds Ratio [OR] e Intervalo de Confiança de 95% [IC95%]) entre características dos adolescentes e indicadores da qualidade da dieta e a autopercepção da qualidade da alimentação em adolescentes do sexo masculino (n = 501). Cuiabá, Mato Grosso, 2008. 

Características Meninos (n = 501)

Bruto Ajustadoa

Odds Ratio (Intervalo de Confiança de 95%)
Tipo de escola
Pública federal 1,0 1,0
Particular 2,22 (0,95; 5,20) 2,21 (0,92; 5,30)
Pública estadual 2,06 (0,92; 4,62) 1,87 (0,82; 4,26)
Atividade física
Fisicamente inativo 1,0 1,0
Insuficientemente ativo 1,26 (0,64; 2,47) 1,39 (0,70; 2,76)
Ativo 2,26 (1,19; 4,31)** 2,38 (1,25; 4,55)**
Consumo de frutas ≥ 5 x/semana
Não 1,0 1,0
Sim 1,45 (1,00; 2,09) 1,38 (0,95; 2,00)
Consumo de hortaliças ≥ 5 x/semana
Não 1,0 1,0
Sim 1,93 (1,33; 2,78)** 1,94 (1,33; 2,83)**
Conhecimentos sobre alimentação saudável
Não 1,0 1,0
Sim 5,28 (2,86; 9,76)** 4,87 (2,60; 9,11)**
Perfil de refeições
Insatisfatório 1,0 1,0
Irregular 2,98 (1,52; 5,86)** 2,92 (1,47; 5,82)**
Satisfatório 5,10 (2,50; 10,38)** 5,15 (2,49; 10,65)**
Padrão alimentar “Ocidental”
Abaixo P75 1,0 1,0
Acima P75 0,90 (0,58; 1,38) 0,86 (0,55; 1,33)
Padrão alimentar “Misto”
Abaixo P75 1,0 1,0
Acima P75 1,03 (0,69; 1,52) 0,93 (0,62; 1,40)
Índice de Qualidade da Dieta
Abaixo P75 1,0 1,0
Acima P75 1,64 (1,05; 2,57)* 1,59 (1,01; 2,51)*
Frutas totais
Abaixo P75 1,0 1,0
Acima P75 1,43 (0,93; 2,19) 1,32 (0,85; 2,04)
Frutas inteiras
Abaixo P75 1,0 1,0
Acima P75 1,31 (0,86; 1,99) 1,17 (0,76; 1,80)
Vegetais totais
Abaixo P75 1,0 1,0
Acima P75 1,27 (0,82; 1,98) 1,27 (0,81; 1,99)
VeveaLb
Abaixo P75 1,0 1,0
Acima P75 1,16 (0,74; 1,80) 1,09 (0,69; 1,72)
Carne, ovos e leguminosas
Abaixo P75 1,0 1,0
Acima P75 0,88 (0,59; 1,30) 0,86 (0,58; 1,29)
Leite e derivados
Abaixo P75 1,0 1,0
Acima P75 0,85 (0,57; 1,28) 0,78 (0,51; 1,17)
Óleos, oleaginosas e gordura de peixe
Abaixo P75 1,0 1,0
Acima P75 1,03 (0,70; 1,51) 0,95 (0,64; 1,41)
Gordura saturada
Abaixo P75 1,0 1,0
Acima P75 0,90 (0,60; 1,34) 0,81 (0,54; 1,22)
Sódio
Abaixo P75 1,0 1,0
Acima P75 0,95 (0,65; 1,39) 0,88 (0,59; 1,30)

*Valor de p < 0,05; **Valor de p ≤ 0,01. P75 = Percentil 75. a Ajustado por idade, nível de atividade física e tipo de escola. b VeveaL = Vegetais verdes-escuros e alaranjados e Leguminosas.

Para as meninas, a chance de autopercepção da qualidade da alimentação como boa também foi mais elevada para aquelas que consumiam frutas (OR = 1,94) e hortaliças (OR = 1,74) ≥ 5 vezes/semana, tinham conhecimentos sobre alimentação saudável (OR = 1,78), perfil de refeições satisfatório (OR = 4,10) e irregular (OR = 2,73) e escores fatoriais acima do percentil 75 para o padrão alimentar “Ocidental” (OR = 1,47) e “Misto” (OR = 1,79). Além disso, a probabilidade de autopercepção da qualidade da alimentação como boa foi mais elevada para aquelas que apresentavam escores acima de percentil 75 para diversos componentes do IQD-R: Frutas totais (OR = 1,55), Frutas inteiras (OR = 1,77), Vegetais totais (OR = 1,71), Vegetais verdes-escuros e alaranjados e leguminosas (OR = 1,71), Carnes, ovos e leguminosas (OR = 1,55), Leite e derivados (OR = 1,80) e Óleos, oleaginosas e gordura de peixe (OR = 1,55) (Tabela 5).

Tabela 5 Razão de chances (Odds Ratio [OR] e Intervalo de Confiança de 95% [IC95%]) entre características dos adolescentes e indicadores da qualidade da dieta e a autopercepção da qualidade da alimentação em adolescentes do sexo feminino (n = 638). Cuiabá, Mato Grosso, 2008 

Características Meninas (n = 638)

Bruto Ajustadoa

Odds Ratio (Intervalo de Confiança de 95%)
Tipo de escola
Pública federal 1,0 1,0
Particular 1,68 (0,71; 3,99) 1,82 (0,76; 4,35)
Pública estadual 1,94 (0,87; 4,37) 2,07 (0,91; 4,69)
Atividade física
Fisicamente inativo 1,0 1,0
Insuficientemente ativo 1,22 (0,85; 1,76) 1,28 (0,88; 1,85)
Ativo 1,42 (0,94; 2,15) 1,45 (0,95; 2,20)
Consumo de frutas ≥ 5 x/semana
Não 1,0 1,0
Sim 1,99 (1,46; 2,73)** 1,94 (1,40; 2,70)**
Consumo de hortaliças ≥ 5 x/semana
Não 1,0 1,0
Sim 1,74 (1,26; 2,39)** 1,74 (1,26; 2,40)**
Conhecimentos sobre alimentação saudável
Não 1,0 1,0
Sim 1,78 (1,11; 2,86)* 1,78 (1,10; 2,89)*
Perfil de refeições
Insatisfatório 1,0 1,0
Irregular 2,69 (1,73; 4,18)** 2,73 (1,75; 4,25)**
Satisfatório 4,10 (2,44; 6,88)** 4,10 (2,43; 6,93)**
Padrão alimentar “Ocidental”
Abaixo P75 1,0 1,0
Acima P75 1,54 (1,09; 2,19)* 1,47 (1,03; 2,10)*
Padrão alimentar “Misto”
Abaixo P75 1,0 1,0
Acima P75 1,83 (1,25; 2,68)** 1,79 (1,22; 2,64)**
Índice de Qualidade da Dieta
Abaixo P75 1,0 1,0
Acima P75 1,45 (1,01; 2,07)* 1,44 (1,00; 2,06)
Frutas totais
Abaixo P75 1,0 1,0
Acima P75 1,60 (1,12; 2,30)** 1,55 (1,07; 2,23)*
Frutas inteiras
Abaixo P75 1,0 1,0
Acima P75 1,86 (1,29; 2,68)** 1,77 (1,21; 2,58)**
Vegetais totais
Abaixo P75 1,0 1,0
Acima P75 1,74 (1,21; 2,49)** 1,71 (1,19; 2,46)**
VeveaLb
Abaixo P75 1,0 1,0
Acima P75 1,74 (1,22; 2,48)** 1,71 (1,19; 2,46)**
Carne, ovos e leguminosas
Abaixo P75 1,0 1,0
Acima P75 1,62 (1,11; 2,36)** 1,55 (1,06; 2,28)*
Leite e derivados
Abaixo P75 1,0 1,0
Acima P75 1,89 (1,30; 2,75)** 1,80 (1,23; 2,63)**
Óleos, oleaginosas e gordura de peixe
Abaixo P75 1,0 1,0
Acima P75 1,61 (1,08; 2,39)* 1,55 (1,04; 2,33)*
Gordura saturada
Abaixo P75 1,0 1,0
Acima P75 1,45 (1,00; 2,09) 1,37 (0,94; 1,99)
Sódio
Abaixo P75 1,0 1,0
Acima P75 1,56 (1,04; 2,33) 1,48 (0,98; 2,22)

*Valor de p < 0,05; **Valor de p ≤ 0,01. P75 = Percentil 75. a Ajustado por idade, nível de atividade física e tipo de escola. b VeveaL = Vegetais verdes-escuros e alaranjados e Leguminosas.

Para detectar dietas de boa qualidade considerando o percentil 75 do IQD-R como referência, a pergunta simplificada apresentou sensibilidade de 28,1% (Intervalo de Confiança de 95% [IC95%] = 24,9; 31,7) e especificidade de 79,2% (IC95% = 75,4; 82,5). Diferenças sutis na sensibilidade e especificidade para meninos e meninas não foram estatisticamente significativas (Tabela 6).

Tabela 6 Sensibilidade e especificidade de pergunta simplificada empregada na avaliação da qualidade da alimentação de adolescentes. Cuiabá, Mato Grosso, 2008 

Escore do IQD-R* total Sensibilidade (IC 95%) Especificidade (IC 95%)

≥ P75 < P75

N (%)

Total
Autopercepção da qualidade da alimentação
Boa 180 (28,1) 460 (71,9) 28,1 79,2
Ruim 104 (20,8) 395 (79,2) (24,9; 31,7) (75,4; 82,5)
Meninos
Autopercepção da qualidade da alimentação
Boa 86 (27,0) 232 (73,0) 27,0 81,4
Ruim 34 (18,6) 149 (81,4) (22,5; 32,2) (75,2; 86,4)
Meninas
Autopercepção da qualidade da alimentação
Boa 94 (29,2) 228 (70,8) 29,2 77,9
Ruim 70 (22,2) 246 (77,8) (24,5; 34,4) (73,0; 82,1)

* IQD-R = Índice de Qualidade da Dieta – Revisado. P75 = Percentil 75. IC95% = Intervalo de Confiança de 95%.

Discussão

Entre os adolescentes estudados, a autopercepção da qualidade da alimentação associou-se aos hábitos alimentares, ao consumo de refeições e a diversos aspectos da qualidade da dieta, especialmente entre as meninas. O relato de ter conhecimentos sobre alimentação saudável foi fortemente associado ao autorrelato de boa qualidade da dieta. Os adolescentes que consideraram sua alimentação de boa qualidade apresentaram consumo de frutas, legumes e verduras mais elevado, consumo regular das refeições principais e melhor qualidade da dieta avaliada segundo diferentes componentes do IQD-R. Por outro lado, o consumo de gordura saturada, de pele do frango, de gordura visível da carne, de “Calorias vazias” e de alimentos como bolos e biscoitos, produtos industrializados, bebidas adoçadas, doces e fast-food, representados pelo padrão alimentar “Ocidental”, não foi percebido pelos adolescentes como característica de dietas de baixa qualidade. Adicionalmente, observou-se que a pergunta avaliada apresentou elevada especificidade para detectar adolescentes com dietas de baixa qualidade, facilitando a triagem para inclusão de adolescentes em propostas de intervenções nutricionais. Contudo, a baixa sensibilidade apresentada pela pergunta para detectar dietas de boa qualidade indica que elevada proporção dos adolescentes que relataram ter dietas de boa qualidade, na realidade apresentavam consumo alimentar inadequado, incompatível com percepção da sua alimentação.

De modo geral, apesar do limitado número de estudos avaliando a autopercepção da qualidade da alimentação em adolescentes, a associação entre o consumo de frutas e verduras e a percepção de boa alimentação tem sido consistentemente relatada, sendo verificada em crianças e adolescentes americanos6,24, irlandeses25 e brasileiros1.

No presente estudo, o consumo satisfatório das refeições principais, foi positivamente associado à autopercepção de boa qualidade da alimentação. Contudo, a adesão ao padrão alimentar “Tradicional”, caracterizado pelo consumo de arroz e feijão, combinação típica das refeições brasileiras, não se associou à percepção da qualidade da alimentação como boa, evidenciando que, possivelmente, o consumo desses alimentos básicos não é percebido como componente de alimentação saudável. O consumo desses alimentos tem sido associado a desfechos positivos em estudos observacionais e de intervenção com adultos26,27 e adolescentes13, porém, é possível que os adolescentes não associem o seu consumo à alimentação saudável.

Além disso, destaca-se a ausência de associação entre a autopercepção da qualidade da alimentação e a ingestão excessiva de componentes de risco, como as gorduras saturadas, açúcar e sódio. Deve ser ressaltado que tais componentes são encontrados em preparações que nem sempre são identificadas como “não saudáveis”, não sendo intuitivamente associadas a efeitos deletérios sobre a saúde. Para alimentos processados, é necessária a leitura das informações nos rótulos dos produtos, o que nem sempre é o hábito de muitos adolescentes; além disso, a compreensão das informações ali contidas não é simples28. Assim, é compreensível que adolescentes deixem de associar o consumo de alimentos com excesso de gordura saturada, açúcar e sódio e a qualidade da alimentação. No entanto, esse achado indica a necessidade de reforçar tais aspectos nas propostas de promoção da alimentação saudável e nas atividades de educação nutricional, visando restringir a ingestão desses alimentos.

De forma semelhante ao observado entre os indivíduos deste estudo, Velazquez et al.6 ao avaliarem adolescentes do Texas, com idade média de 15 anos, verificaram que aqueles com autopercepção de hábitos alimentares saudáveis foram mais propensos a relatar maior consumo de alimentos como grãos, frutas, verduras e legumes. Por outro lado, o grupo que relatou ter conhecimento sobre o teor de gordura dos alimentos, não apresentou reflexo desse conhecimento nas escolhas alimentares, havendo preferência pelos alimentos menos saudáveis6.

Nesse contexto, Fitzgerald et al.12 apontam que as preferências alimentares, particularmente o sabor, a textura e a aparência dos alimentos, foram fatores mais importantes na escolha dos alimentos consumidos por crianças e adolescentes galeses, entre 9 e 18 anos de idade, em substituição aos conhecimentos sobre alimentação saudável. Além disso, barreiras adicionais foram: disponibilidade de alimentos em casa, presença dos amigos, alimentação escolar, comer fora de casa, atividades extracurriculares e horário de trabalho dos pais12.

Paquette29 aponta que a evolução da ciência nutricional tem tornado complexa a definição de alimentos saudáveis, como, por exemplo, a determinação do tipo de gordura. Essa complexidade pode dificultar o entendimento das recomendações nutricionais e, consequentemente, refletir na ausência de associação entre o que os jovens percebem como não saudável e o seu consumo habitual.

Dessa forma, seria importante fomentar iniciativas que proporcionem maior compreensão, por parte dos adolescentes, da importância da alimentação e seus efeitos sobre a saúde, como demonstrado por Cunha et al.30, que observaram redução significativa no consumo de bebidas adoçadas e biscoitos e aumento no de frutas em estudo de intervenção com adolescentes de escolas públicas de Duque de Caxias, Rio de Janeiro. Adicionalmente, crianças e adolescentes do Distrito Federal, entre 10 e 19 anos de idade, relataram que materiais educativos para promoção de alimentação saudável devem reforçar os benefícios imediatos, utilizando mensagens alarmantes sobre os riscos à saúde advindos de uma alimentação inadequada1.

Algumas limitações do presente estudo podem ser destacadas, dentre elas, o instrumento utilizado para avaliar o consumo alimentar, o QFA, elaborado para estimar o consumo usual dos indivíduos, que apresenta vantagens para estudos epidemiológicos, tais como não estar sujeito ao efeito da variação intrapessoal e a praticidade e o baixo custo na coleta de dados. Todavia, esse método também apresenta limitações, especialmente as relacionadas à cognição, à memória e às preferências alimentares individuais31.

Outra limitação inerente ao QFA utilizado, é que o mesmo não apresentava questões sobre a ingestão de cereais integrais, impossibilitando a pontuação desse componente, como previsto por Previdelli et al.18. Dessa forma, a pontuação referente ao componente “grãos integrais” foi redistribuída para o componente “cereais totais”. Além disso, a própria complexidade e multidimensionalidade do constructo qualidade da alimentação são fatores que podem explicar a dificuldade de observar associação entre a autopercepção e o consumo de determinados alimentos, assim como, a influência a própria percepção do adolescente.

Cabe destacar como um aspecto favorável deste estudo que o IQD-R, considerado como referência na análise da capacidade diagnóstica da pergunta simplificada empregada para avaliar a qualidade da dieta, é indicador global que se baseia em componentes que caracterizam diferentes aspectos da dieta, tanto saudáveis como não saudáveis e é considerado um índice confiável e válido para avaliar e monitorar a qualidade da dieta de brasileiros32.

Estudos que proporcionem melhor entendimento da percepção dos adolescentes em relação à qualidade da alimentação, buscando identificar até que ponto a compreensão dos conhecimentos adquiridos é refletida nas práticas alimentares, pode auxiliar na construção e validação de instrumentos simplificados, otimizando sua utilização em inquéritos alimentares, como uma medida resumo da qualidade da dieta. Destaca-se que são necessários estudos para compreender de forma mais adequada a associação entre a percepção dos adolescentes a respeito dos seus hábitos alimentares e o consumo alimentar.

Conclusão

Neste estudo, a autopercepção da qualidade da alimentação como boa associou-se a hábitos satisfatórios de realização de refeições, ao escore elevado do IQD-R e ao consumo regular de frutas e vegetais em adolescentes. No entanto, o consumo de componentes considerados deletérios à saúde como a ingestão de gordura saturada, adesão ao padrão “Ocidental” de dieta e à ingestão de calorias provenientes de gordura sólida, álcool e açúcar de adição não foi percebido pelos adolescentes como hábitos que caracterizam dieta de má qualidade. Dessa forma, a maioria dos adolescentes combina alimentos saudáveis e aqueles menos recomendados em sua alimentação e parece não haver compreensão completa dos efeitos deletérios do consumo excessivo de componentes como gorduras, açúcar e sódio.

A aplicação de pergunta simplificada para avaliar qualidade da dieta forneceu elevada proporção de falsos positivos na detecção de adolescentes com dieta de boa qualidade. Por outro lado, essa pergunta demonstrou ser capaz de diagnosticar dietas de baixa qualidade. A aplicação dessa pergunta em inquéritos dietéticos com adolescentes é limitada e deve ser utilizada com cautela, uma vez que fornece apenas uma avaliação parcial da qualidade da dieta desse grupo. Os resultados apresentados sugerem que são necessários estudos buscando aperfeiçoar instrumentos simplificados que permitam identificar de forma válida a qualidade da dieta de adolescentes, englobando o consumo de alimentos saudáveis e também daqueles que incluem componentes que, potencialmente, representam risco para a saúde.

Agradecimentos

À Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Mato Grosso pela bolsa de doutorado de PRM Rodrigues.

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Recebido: 20 de Março de 2015; Revisado: 23 de Outubro de 2015; Aceito: 25 de Outubro de 2015

Colaboradores

PRM Rodrigues contribuiu para a concepção do estudo, coleta de dados, análise estatística e interpretação dos resultados, concepção, redação e revisão final do manuscrito. RMV Gonçalves-Silva colaborou na concepção do estudo, análise e interpretação dos resultados, concepção e revisão final do manuscrito. MG Ferreira colaborou na aquisição e análises estatísticas dos dados, redação e revisão crítica do manuscrito. RA Pereira contribuiu para a concepção do estudo, análise estatística e interpretação dos resultados, concepção, redação e revisão final do manuscrito. Todos os autores leram e aprovaram a versão final do manuscrito.

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