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Ciência & Saúde Coletiva

Print version ISSN 1413-8123On-line version ISSN 1678-4561

Ciênc. saúde coletiva vol.22 no.5 Rio de Janeiro May 2017

https://doi.org/10.1590/1413-81232017225.09682015 

TEMAS LIVRES

Estressores afetando a capacidade para o trabalho em diferentes grupos etários na Enfermagem: seguimento de 2 anos

Maria Carmen Martinez1 

Maria do Rosário Dias de Oliveira Latorre2 

Frida Marina Fischer3 

1WAF informática. São Paulo SP Brasil.

2Departamento de Epidemiologia, Faculdade de Saúde Pública (FSP), Universidade de São Paulo (USP). São Paulo SP Brasil.

3Departamento de Saúde Ambiental, FSP, USP. USP. Av. Dr. Arnaldo 715, Pacaembu. 01246-904 São Paulo SP Brasil. mcmarti@uol.com.br


Resumo

Estressores do trabalho afetam a capacidade para o trabalho (CT) e o aumento da idade associa-se ao envelhecimento funcional. Foi avaliado se diferentes estressores afetam a CT de profissionais de enfermagem jovens e em envelhecimento. Uma coorte (2009-2011) de 304 trabalhadores de um hospital de São Paulo respondeu aos questionários Desequilíbrio Esforço-Recompensa (ERI), Escala Estresse no Trabalho (EET), Atividades que contribuem para dor/lesão (WRAPI) e Índice de Capacidade para o Trabalho (ICT). Mudanças na exposição aos estressores nos grupos etários (< 45 anos e ≥ 45anos) foram comparadas ao delta-ICT (diferença na pontuação inicial e final) pelo teste Mann-Whitney. Houve piora no delta-ICT (p = 0,609), sem diferença entre os dois grupos etários. Nos jovens a intensificação dos estressores ERI (p = 0,004), excesso de comprometimento (p = 0,002), apoio social (p = 0,014) e WRAPI (p = 0,004) associou-se à diminuição da CT e nos mais velhos apenas o ERI (p = 0,047). A CT dos jovens sofreu efeito da intensificação de vários estressores, enquanto a CT dos mais velhos recebeu influência apenas do desequilíbrio esforço-recompensa, indicando que ações de intervenção devem ser diferenciadas para os grupos etários.

Palavras-Chave: Avaliação da capacidade para o trabalho; Carga de trabalho; Ambiente de trabalho; Condições de trabalho; Saúde do trabalhador

Abstract

Work stressors influence work ability – WA - and increasing age is associated with functional aging. We sought to establish whether work stressors differentially influence WA in young and aging nursing professionals. A cohort (2009-2011) composed of 304 workers at a hospital in Sao Paulo responded questionnaires Effort-Reward Imbalance (ERI), Job Stress Scale (JSS), Work-Related Activities That May Contribute To Job-Related Pain and/or Injury (WRAPI) and Work Ability Index (WAI). Changes in perceived exposure to stressors in each age group (< 45 and ≥ 45 years old) were compared to delta-WAI (difference between initial and final WAI score) by means of the Mann-Whitney test. There was a worsening in WAI (p = 0.609) without difference between the groups. WA impairment was associated with intensification of stressors ERI (p = 0.004), overcommitment (p = 0.002), social support (p = 0.014) and WRAPI (p = 0.004) among the younger workers, but with poorer ERI (p = 0.047) only among the older ones. While among the younger workers WA was influenced by the intensification of various stressors, in the case of the older ones it was influenced by effort-reward imbalance only, indicating that interventions should be differentiated according to age groups.

Key words: Work ability evaluation; Workload; Work environment; Working conditions; Occupational health

Introdução

As questões do envelhecimento funcional ganharam relevância a partir da década de 1980 em função do envelhecimento populacional, das mudanças sociais e no mundo do trabalho e do maior tempo de permanência das pessoas no mercado de trabalho1-6. Desta forma, tópicos como a manutenção da empregabilidade de trabalhadores em fase de envelhecimento, a produtividade no trabalho, a sustentabilidade dos sistemas previdenciários e a promoção da saúde do trabalhador impulsionaram os estudos sobre capacidade para o trabalho1-6. A importância da promoção da capacidade para o trabalho como estratégia para promoção da saúde é reconhecida, em especial em sociedades em fase de envelhecimento populacional1-3.

A capacidade para o trabalho é entendida como a condição do trabalhador para desempenhar seu trabalho, em função das exigências deste, de seu estado de saúde e de sua capacidade física e mental1-3,7,8. O envelhecimento funcional, caracterizado pelo comprometimento da capacidade para o trabalho, resulta da interação complexa de diversos fatores, incluindo características sociodemográficas, estado de saúde, valores, competências e características do trabalho1-3,6,9. A elevação da idade é apontada como um fator de risco para a capacidade para o trabalho e as relações entre o envelhecimento cronológico e o funcional são identificadas em diversos estudos, podendo ser mediadas por outros fatores3,6,10-12.

O comprometimento da capacidade para o trabalho tem valor preditivo para afastamento por adoecimento em trabalhadores jovens13 e para abandono precoce da profissão entre trabalhadores com idade mais elevada14. Trabalhadores de diferentes faixas etárias podem estar submetidos a distintos estressores, seja pela posição hierárquica que ocupam nas organizações, seja pelas atividades desenvolvidas durante o trabalho e/ou pelas estratégias de enfrentamento nas situações de constrangimento com que se deparam no trabalho cotidiano3,6,11. A literatura enfatiza a necessidade de prioridades e formas diferenciadas de intervenção para a promoção e proteção da capacidade para o trabalho em trabalhadores em fase de envelhecimento2,3,15.

São escassos os estudos entre trabalhadores com diferentes faixas etárias e/ou com desenho longitudinal e, em especial, entre trabalhadores de enfermagem. O trabalho de enfermagem é caracterizado por estressores decorrentes das cargas físicas e mentais que são associados a desfechos negativos, como abandono da profissão, lesões e adoecimento, absenteísmo, insatisfação no trabalho, prejuízo na qualidade de vida e comprometimento da capacidade para o trabalho4,6,9,16-19. Assim, consideramos que é relevante verificar se a ação dos estressores sobre a capacidade para o trabalho difere segundo faixas etárias.

Este artigo verifica as modificações ocorridas na capacidade de trabalho ao longo de um seguimento de 2 anos, entre trabalhadores de enfermagem, bem como avaliar os estressores e sua associação com as modificações da capacidade de trabalho, segundo a faixa etária dos participantes.

Método

Trata-se de um estudo de coorte com 2 anos de seguimento (2009-2011), conduzido em um hospital filantrópico, de porte médio e alta complexidade, com certificação de qualidade pela Joint Commission International, da cidade de São Paulo, Brasil.

No momento inicial (2009), todos os 613 profissionais de enfermagem ativos do quadro de pessoal foram convidados a participar do estudo. Foram consideradas perdas as situações em que os trabalhadores não participaram por estar em férias, não responderam o questionário ou o fizeram de forma incompleta ou quando não assinaram o termo de compromisso. Dos elegíveis, 514 trabalhadores (83,8%) participaram desta etapa. Não houve diferença entre os participantes e os não participantes em termos de sexo, idade e função. Também não houve diferença quanto ao indicador de capacidade para o trabalho inicial (p = 0,77). Houve diferença estatisticamente significativa quanto à média do tempo de trabalho (6,3 anos vs.7,9 anos, p = 0,013). Participantes também diferiram dos não participantes quanto ao setor de trabalho (p < 0,001): houve menor adesão no Centro de Material e Centro Cirúrgico e nas Unidades de Internação de Crônicos. Do grupo inicial de participantes, 204 trabalhadores não participaram do seguimento em 2011, e foram excluídos 6 trabalhadores que foram transferidos para uma função fora da enfermagem, sendo que a participação final foi de 304 pessoas (59,1% daqueles que participaram no momento inicial).

A coleta de dados foi realizada por meio de um questionário autoaplicável. A primeira parte do instrumento continha questões sobre características sociodemográficas, estilo de vida e características funcionais: sexo, idade, estado conjugal, nível educacional, renda familiar mensal, responsabilidade sobre crianças em fase de crescimento, consumo de álcool, tabagismo, peso e altura (para composição do índice de massa corporal), prática de atividade física, idade de ingresso na força de trabalho, tempo na empresa, tempo de trabalho na enfermagem, turno de trabalho, setor de trabalho, carga horária semanal total (no hospital, em outro emprego e em atividades domésticas), segundo emprego, violência no trabalho, história recente de doença no trabalho e de acidentes no trabalho. A segunda parte do instrumento incluiu a versão do Job Content Questionnaire (Job Stress Scale - JSS), baseado no modelo Demanda-Controle, validada para uso no Brasil20. Por meio das escalas demanda, controle e apoio social, o JSS avalia o desgaste decorrente de estressores do ambiente psicossocial do trabalho. A terceira parte do instrumento incluiu a versão brasileira do Effort-Reward Imbalance Questionnaire – ERI21, cujas variáveis desequilíbrio esforço-recompensa e excesso de comprometimento também são usadas para avaliar estressores do ambiente psicossocial do trabalho. A quarta parte foi a versão validada para uso no Brasil do questionário Work-Related Activities That May Contribute To Job-Related Pain and/or Injury – WRAPI22, um instrumento com objetivo de avaliar situações presentes nos locais de trabalho que podem estar associadas a lesões musculoesqueléticas. A última parte do instrumento incluiu a versão brasileira do Índice de Capacidade para o Trabalho (Work Ability Index) – ICT7,8, que foi usado para avaliar a variável dependente deste estudo – capacidade para o trabalho. O ICT inclui 7 dimensões, fornecendo um escore que varia de 7 a 49 pontos. O escore foi categorizado em ótima, boa, moderada e baixa capacidade para o trabalho com base nos critérios de Tuomi et al.7 para os trabalhadores com idade a partir de 35 anos e de Kujala et al.13 para aquele com idade inferior a 35 anos.

Para caracterização da população de estudo foi feita análise descritiva dos dados por meio de médias, medianas, desvios padrão, valores mínimos e máximos para as variáveis quantitativas e proporções para as variáveis categóricas. A confiabilidade dos questionários foi avaliada por meio do coeficiente alfa de Cronbach.

Os grupos etários foram classificados em jovens (< 45 anos) e trabalhadores em fase de envelhecimento (> 45 anos). Esse ponto de corte foi estabelecido considerando que, em geral, é a partir desta idade que se manifestam a diminuição da capacidade funcional e a elevação da incidência de agravos à saúde relacionados ao envelhecimento2,3,5.

Para caracterização da mudança do nível de capacidade para o trabalho foi estimada a diferença (delta) entre a pontuação no escore do ICT final (2011) e inicial (2009), sendo que valores positivos indicaram melhoria no ICT e valores negativos indicaram piora na capacidade para o trabalho.

Para caracterização da modificação da exposição aos estressores no trabalho foram usados critérios baseados no escore de cada estressor, dado que não há parâmetros na literatura. Foram consideradas como piora na exposição: (a) elevação maior que 1 ponto no escore da demanda no trabalho (1 ponto significa 6,7% no total possível do escore com intervalo de 15 pontos); queda superior a 1 ponto no escore (significa 5,6% no total possível do escore com intervalo de 18 pontos) para (b) controle no trabalho e (c) apoio social no trabalho; (d) aumento maior ou igual a 0,70 pontos no escore de ERI (corte pelo percentil 60, considerando a distribuição da variável; (e) elevação maior que 1 ponto no escore de excesso de comprometimento (significa 5,6% no total possível do escore com intervalo de 18 pontos); e (f) elevação a partir de 15 pontos em WRAPI (representa alteração de 10,0% no total possível escore com intervalo de 150 pontos).

Foi realizado o teste de Kolmogorov-Smirnov para verificar a aderência das variáveis quantitativas à distribuição normal. Os dois grupos etários foram comparados quanto aos resultados do ICT, características demográficas, de estilo de vida e relacionadas ao trabalho, utilizando o teste Mann-Whitney, Qui-quadrado ou exato de Fisher. Estas análises visaram identificar as características dos dois grupos etários e a existência de diferenças entre estes grupos.

Em seguida, foram verificadas diferenças entre os dois grupos etários quanto a mudanças na exposição aos estressores durante o seguimento, utilizando o teste Qui-quadrado. Estas análises visaram verificar se os dois grupos etários tiveram diferentes percepções quanto à exposição aos estressores no decorrer do seguimento.

Por fim, para cada grupo etário, foram comparadas as mudanças no ICT (delta do ICT) segundo percepção de mudanças na da exposição (piora ou não piora) aos estressores do trabalho, utilizando o teste Mann-Whitney. Estas análises visaram verificar se e quais modificações na exposição aos diferentes estressores influenciaram a capacidade para o trabalho de cada grupo etário.

Em todas as análises foi considerada diferença estatisticamente significativa quando p < 0,050.

Quanto à confiabilidade dos instrumentos utilizados, avaliada no início do seguimento, o resultado do coeficiente alfa de Cronbach foi de: 0,64 para demanda; 0,47 para controle; 0,82 para apoio social; 0,74 para esforço; 0,83 para recompensa; 0,73 para excesso de comprometimento; 0,93 para WRAPI; e 0,71 para ICT.

O projeto foi aprovado pelo comitê de ética do Hospital Samaritano e da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo e seguiu os princípios da Declaração de Helsinki. A participação foi voluntária mediante assinatura do termo de consentimento informado, e os resultados individuais foram confidenciais.

Resultados

As Tabelas 1 a 3 mostram os resultados das variáveis contínuas e categóricas. A média de idade dos participantes no início do seguimento foi de 35,9 anos (DP = 9,0) e 16,0% tinham 45 anos ou mais. A maior proporção de participantes foi de mulheres (79,9%), casada ou vivendo com um companheiro (53,3%), e em 43,4% da amostra, a renda familiar mensal foi de até 5 salários mínimos.

Tabela 1 Estatística descritiva das variáveis quantitativas relativas ao Índice de Capacidade para o Trabalho - ICT e às características demográficas, estilo de vida e funcionais segundo grupo etário, Equipe de Enfermagem, São Paulo. 

Variável Média Desvio padrão Valor Valor p(M)
Mínimo Máximo
ICT - 2009 0,465
< 45 anos 255 42,7 4,1 27,0 49,0
> 45 anos 49 42,1 4,7 24,0 49,0
Total 304 42,6 4,2 24,0 49,0
ICT - 2011 0,464
< 45 anos 255 42,4 4,9 26,0 49,0
> 45 anos 49 41,8 5,3 26,0 49,0
Total 304 42,3 5,0 26,0 49,0
Delta-ICT (2009 a 2011)* 0,609
< 45 anos 255 -0,3 4,4 -19,0 11,0
> 45 anos 49 -0,3 4,2 -13,0 12,0
Total 304 -0,3 4,4 -19,0 12,0
Índice de massa corporal 0,103
< 45 anos 251 25,3 4,4 17,7 46,0
> 45 anos 49 26,2 4,2 19,7 42,9
Total 300 25,5 4,4 17,7 46,0
Idade com que começou a trabalhar 0,847
< 45 anos 248 16,7 3,2 8,0 26,0
> 45 anos 47 16,9 3,6 9,0 27,0
Total 295 16,7 3,3 8,0 27,0
Anos de trabalho na profissão atual <0,001
< 45 anos 247 9,4 5,3 1,0 27,0
> 45 anos 48 23,6 7,6 5,0 37,0
Total 295 11,7 7,8 1,0 37,0
Anos na empresa <0,001
< 45 anos 255 4,9 4,7 0,2 19,7
> 45 anos 49 16,7 7,2 0,7 37,4
Total 304 6,8 6,7 0,2 37,4
Carga horária semanal total 0,021
< 45 anos 220 57,0 18,5 30,0 128,0
> 45 anos 39 62,6 17,3 37,0 96,0
Total 259 57,9 18,4 30,0 128,0
Violência no trabalho 0,090
< 45 anos 242 7,7 1,1 7,0 14,0
> 45 anos 48 7,5 1,1 7,0 11,0
Total 290 7,7 1,1 7,0 14,0

M = Teste Mann-Whitney; * Delta-ICT: diferença no valor do escore do ICT entre 2009 a 2011.

Tabela 2 Estatística descritiva das variáveis quantitativas relativas aos estressores do trabalho segundo grupo etário, Equipe de Enfermagem, São Paulo. 

Variável Média Desvio padrão Valor Valor p(M)

Mínimo Máximo
Demandas no trabalho - 2009
< 45 anos 252 14,1 2,2 8,0 19,0 0,646
> 45 anos 47 14,3 2,3 8,0 18,0
Total 299 14,2 2,2 8,0 19,0
Demandas no trabalho - 2011
< 45 anos 255 15,0 2,1 6,0 20,0 0,828
> 45 anos 49 15,0 2,1 10,0 19,0
Total 304 15,0 2,1 6,0 20,0
Controle no trabalho - 2009
< 45 anos 252 17,8 1,9 11,0 24,0 0,497
> 45 anos 45 18,0 2,2 13,0 22,0
Total 297 17,8 1,9 11,0 24,0
Controle no trabalho - 2011
< 45 anos 255 17,7 2,1 10,0 23,0 0,269)
> 45 anos 49 18,0 1,7 13,0 22,0
Total 304 17,8 2,1 10,0 23,0
Apoio social no trabalho - 2009
< 45 anos 254 20,5 2,7 11,0 24,0 0,869
> 45 anos 47 20,4 3,0 13,0 24,0
Total 301 20,5 2,8 11,0 24,0
Apoio social no trabalho - 2011
< 45 anos 255 19,7 3,1 11,0 24,0 0,247
> 45 anos 49 20,3 2,7 14,0 24,0
Total 304 19,8 3,0 11,0 24,0
Desequilíbrio esforço-recompensa - 2009
< 45 anos 252 0,4 0,2 0,2 1,7 0,393
> 45 anos 44 0,5 0,2 0,2 0,9
Total 296 0,4 0,2 0,2 1,7
Desequilíbrio esforço-recompensa - 2011
< 45 anos 254 0,5 0,2 0,2 1,4 0,990
> 45 anos 49 0,5 0,4 0,2 2,3
Total 303 0,5 0,2 0,2 2,3
Excesso de compromisso - 2009
< 45 anos 254 12,2 3,1 6,0 22,0 0,501
> 45 anos 47 12,6 3,3 6,0 21,0
Total 301 12,3 3,1 6,0 22,0
Excesso de compromisso - 2011
< 45 anos 254 12,4 3,4 6,0 24,0 0,867
> 45 anos 49 12,8 4,0 6,0 22,0
Total 303 12,5 3,5 6,0 24,0
WRAPI - 2009
< 45 anos 254 59,9 34,9 0,0 150,0 0,227
> 45 anos 43 53,7 36,8 2,0 127,0
Total 297 59,0 35,2 0,0 150,0
WRAPI - 2011
< 45 anos 252 63,5 34,8 0,0 143,0 0,057
> 45 anos 49 53,7 35,3 0,0 141,0
Total 301 61,9 35,0 0,0 143,0

M = Teste Mann-Whitney; WRAPI – escore sobre situações relacionadas ao trabalho que podem gerar dor ou lesão.

Tabela 3 Estatística descritiva das variáveis qualitativas segundo grupo etário, Equipe de Enfermagem, São Paulo. 

Variável < 45 anos (n = 255) > 45 anos (n = 49) Total (n = 340) p

% % %
Sexo
Feminino 202 79,2 41 83,7 243 79,9 0,475 (Q)
Masculino 53 20,8 8 16,3 61 20,1
Não informado 0 0,0 0 0,0 0 0,0
Estado conjugal
Casado / companheiro 131 51,4 30 61,2 161 53,0 0,164 (Q)
Não casados 123 48,2 18 36,7 141 46,4
Não informado 1 0,4 1 2,0 2 0,7
Renda familiar mensal (em nº de salários mínimos *)
Até 5,0 114 44,7 18 36,7 132 43,4 0,355 (Q)
5,1 e mais 136 53,3 29 59,2 165 54,3
Não informado 5 2,0 2 4,1 7 2,3
Consumo de álcool
Consumo esporádico (0 a 1 dia / semana) 231 90,6 47 95,9 278 91,4 0,232 (F)
Consumo regular (2 ou mais dias / semana) 16 6,3 1 2,0 17 5,6
Não informado 8 3,1 1 2,0 9 3,0
Prática de atividade física (3x/semana nos últimos 12 meses)
Sim 93 36,5 23 46,9 116 38,2 0,169 (Q)
Não 156 61,2 25 51,0 181 59,5
Não informado 6 2,4 1 2,0 7 2,3
Segundo emprego
Não 202 79,2 35 71,4 237 78,0 0,140 (Q)
Sim 44 17,3 13 26,5 57 18,8
Não informado 9 3,5 1 2,0 10 3,3
Trabalho noturno
Não 158 62,0 21 42,9 179 58,9 0,010 (Q)
Sim 90 35,3 27 55,1 117 38,5
Não informado 7 2,7 1 2,0 8 2,6
Cargo
Enfermeiro 80 31,4 18 36,7 98 32,2 0,548 (Q)
Técnico de Enfermagem 135 52,9 26 53,1 161 53,0
Auxiliar de Enfermagem 40 15,7 5 10,2 45 14,8
Não informado 0 0,0 0 0,0 0 0,0
Setor de trabalho
Não assistencial 7 2,7 2 4,1 9 3,0 0,019 (Q)
Unidades de internação não críticas 83 32,5 13 26,5 96 31,6
Unidades de terapia intensiva 94 36,9 15 30,6 109 35,9
Pronto atendimento 50 19,6 7 14,3 57 18,8
Centro Cirúrgico e Centro de Material 21 8,2 12 24,5 33 10,9
Não informado 0 0,0 0 0,0 0 0,0
Acidente de trabalho
Não 215 84,3 41 83,7 256 84,2 1,00 (F)
Sim 27 10,6 5 10,2 32 10,5
Não informado 13 5,1 3 6,1 16 5,3
Doença relacionada ao trabalho
Não 213 83,5 42 85,7 255 83,9 0,797 (F)
Sim 27 10,6 4 8,2 31 10,2
Não informado 15 5,9 3 6,1 18 5,9

Q = Teste Qui-quadrado; F = Teste exato de Fisher. * Salário mínimo em dezembro de 2009 = R$ 465,00. Obs.: resultados são relativos ao baseline (2009).

Consumo regular (2 ou mais dias/semana) de bebidas alcoólicas foi relatado por 5,6% dos participantes e 38,2% dos participantes informaram prática regular de atividade física. Além disso, 44,1% relataram obesidade ou sobrepeso, sendo que a média do índice de massa corporal foi 25,5 (DP = 4,4).

A média etária de ingresso na força de trabalho foi de 16,7 anos (DP = 3,3), o tempo médio na profissão de enfermagem foi de 11,7 anos (DP = 7,8), e o tempo médio de emprego na instituição estudada foi de 6,8 anos (DP = 6,7). A jornada de trabalho semanal (hospital, segundo emprego e atividades domésticas) tinha em média 57,9 horas (DP = 18,4). Trabalho noturno foi relatado por 38,5% dos trabalhadores e 18,8% informaram ter um segundo emprego. Quanto à função, 32,3% eram enfermeiras (assistenciais ou com cargo administrativo ou gerencial), 53,0% eram técnicos de enfermagem, 8,9% eram auxiliares de enfermagem e 5,9% ocupavam outras funções auxiliares. Quanto ao setor de trabalho, 35,9% atuavam em unidades de terapia intensiva, 31,6% em unidades de internação não críticas, 18,8% em Pronto Atendimento, 10,9% em Centro Cirúrgico e Central de Material, e 3,0% em funções não assistenciais. Os trabalhadores relataram baixos níveis de violência no trabalho (média de 7,7 pontos em uma escala de 7,0 a 21,0 pontos, DP = 1,1), 10,5% informaram história pregressa de acidente de trabalho e 10,2% de doença relacionada ao trabalho.

Nas Tabelas 1 a 3 observa-se que as variáveis demográficas, do estilo de vida e as relacionadas ao trabalho em que ocorreram diferenças estatisticamente significativas entre os dois grupos etários foram: anos de trabalho na profissão atual (p < 0,001), anos de trabalho na instituição (p < 0,001), carga horária semanal total (p = 0,021), trabalho noturno (p = 0,010) e setor de trabalho (p = 0,019). Para as duas primeiras variáveis o resultado é esperado em função da correlação com a idade cronológica. Para as demais variáveis, os trabalhadores mais velhos apresentaram: maior carga horária semanal do que os jovens (média semanal de 62,6 X 57,0 horas), maior percentual em trabalho noturno (55,1% X 35,3%) e maior percentual de trabalhadores nos Centros Cirúrgico e de Material (24,5% X 8,2%).

Na Tabela 1 observa-se também que no momento inicial do seguimento (2009), a média do ICT foi de 46,2 pontos (DP = 4,2) e ao final (2011) de 42,3 pontos (DP = 5,0). Ao início do seguimento 49 trabalhadores (16,1%) apresentavam capacidade para o trabalho comprometida (moderada ou baixa) e ao final do seguimento 65 pessoas (21,4%) se enquadravam nesta categoria. No momento inicial do seguimento não havia diferença estatisticamente significativa no ICT dos dois grupos etários (p = 0,465) e ao final do seguimento também não houve diferença estatisticamente significativa (p = 0,464). Quanto à mudança no escore do ICT (delta entre 2009 e 2011), também não ocorreram diferenças estatisticamente significativas entre os dois grupos etários (p = 609).

A Tabela 4 mostra que não ocorreram diferenças estatisticamente significativas na percepção dos trabalhadores entre os dois grupos etários quanto a mudanças na exposição aos estressores do trabalho.

Tabela 4 Percepção de mudança na exposição aos estressores do trabalho segundo grupo etário, Equipe de Enfermagem, São Paulo, 2009 a 2011. 

Estressor < 45 anos (n = 255) > 45 anos (n = 49) Total (n = 304) p(Q)

% % %
Demandas no trabalho
1 - Não piora (sem alteração ou melhora) 160 62,7 30 61,2 190 62,5 0,965
2 - Piora 92 36,1 17 34,7 109 35,9
Não informado 3 1,2 2 4,1 5 1,6
Controle no trabalho
1 - Não piora (sem alteração ou melhora) 194 76,1 35 71,4 229 75,3 0,907
2 - Piora 58 22,7 10 20,4 68 22,4
Não informado 3 1,2 4 8,2 7 2,3
Apoio social no trabalho
1 - Não piora (sem alteração ou melhora) 159 62,4 35 71,4 194 63,8 0,118
2 - Piora 95 37,3 12 24,5 107 35,2
Não informado 1 0,4 2 4,1 3 1,0
Desequilíbrio esforço-recompensa
1 - Não piora (sem alteração ou melhora) 155 60,8 26 53,1 181 59,5 0,738
2 - Piora 96 37,6 18 36,7 114 37,5
Não informado 4 1,6 5 10,2 9 3,0
Excesso de comprometimento
1 - Não piora (sem alteração ou melhora) 170 66,7 31 63,3 201 66,1 0,869
2 - Piora 83 32,5 16 32,7 99 32,6
Não informado 2 0,8 2 4,1 4 1,3
WRAPI
1 - Não piora (sem alteração ou melhora) 156 61,2 28 57,1 184 60,5 0,710
2 - Piora 95 37,3 15 30,6 110 36,2
Não informado 4 1,6 6 12,2 10 3,3

Q = Teste Qui-quadrado; WRAPI – escore sobre situações relacionadas ao trabalho que podem gerar dor ou lesão.

Apesar desta ausência de diferenças na percepção quanto à exposição aos estressores, o efeito destes sobre a capacidade para o trabalho foi diferente entre os dois grupos etários. A Tabela 5 mostra que entre os trabalhadores mais jovens (< 45 anos de idade) a piora na percepção da exposição ao estresse esteve associada a uma na capacidade para o trabalho (maior delta negativo no ICT, ou seja, maior diferença negativa entre a avaliação final e a inicial). Isso ocorreu para o desequilíbrio esforço-recompensa (p < 0,001), o excesso de comprometimento (p < 0,001), o apoio social (p = 0,002) e o WRAPI (p = 0,001). Entre os trabalhadores mais velhos (≥ 45 anos de idade) somente a piora no desequilíbrio esforço-recompensa esteve associada à piora no ICT (p = 0,014). Demanda e controle não apresentaram associação com o ICT em nenhum dos grupos etários.

Tabela 5 Estatística descritiva do Delta-ICT* e exposição aos estressores do trabalho segundo grupos etários, Equipe de Enfermagem, Hospital Samaritano, São Paulo, 2009-2011. 

Exposição aos estressores < 45 anos ≥ 45 anos

Média Desvio padrão Valor Valor p ** Média Desvio padrão Valor Valor p **


Mínimo Máximo Mínimo Máximo
Demandas no trabalho
1 - Não piora (sem alteração ou melhora) 160 0,0 4,2 -12,0 11,0 0,338 30 -0,6 4,7 -13,0 12,0 0,161
2 - Piora 92 -0,9 4,7 -19,0 8,0 17 0,3 3,5 -8,0 5,0
Total 252 -0,3 4,4 -19,0 11,0 47 -0,3 4,2 -13,0 12,0
Controle do trabalho
1 - Não piora (sem alteração ou melhora) 194 0,0 4,5 -19,0 11,0 0,085 35 0,2 4,0 -8,0 12,0 0,272
2 - Piora 58 -1,2 4,0 -11,5 7,0 10 -2,3 5,0 -13,0 4,0
Total 252 -0,3 4,4 -19,0 11,0 45 -0,4 4,3 -13,0 12,0
Apoio social no trabalho
1 - Não piora (sem alteração ou melhora) 159 0,4 4,1 -12,0 9,5 0,014 35 0,0 4,3 -8,0 12,0 0,625
2 - Piora 95 -1,4 4,8 -19,0 11,0 12 -1,3 4,1 -13,0 3,0
Total 254 -0,3 4,4 -19,0 11,0 47 -0,3 4,2 -13,0 12,0
Desequilíbrio esforço-recompensa
1 - Não piora (sem alteração ou melhora) 155 0,7 4,1 -12,0 11,0 0,017 26 0,8 3,5 -7,0 12,0 0,047
2 - Piora 96 -1,9 4,6 -19,0 9,5 18 -2,3 4,3 -13,0 5,0
Total 251 -0,3 4,4 -19,0 11,0 44 -0,5 4,1 -13,0 12,0
Excesso de comprometimento
1 - Não piora (sem alteração ou melhora) 170 0,4 3,7 -11,0 11,0 0,002 31 0,5 4,1 -8,0 12,0 0,114
2 - Piora 83 -1,9 5,3 -19,0 10,0 16 -1,9 3,9 -13,0 5,0
Total 253 -0,3 4,4 -19,0 11,0 47 -0,3 4,1 -13,0 12,0
WRAPI
1 - Não piora (sem alteração ou melhora) 156 0,4 4,2 -18,0 11,0 0,004 28 -0,1 4,3 -8,0 12,0 0,370
2 - Piora 95 -1,5 4,6 -19,0 8,0 15 -0,8 4,3 -13,0 5,0
Total 251 -0,3 4,4 -19,0 11,0 43 -0,3 4,3 -13,0 12,0

* Delta-ICT: diferença no valor do escore do ICT – Índice de Capacidade para o Trabalho entre 2009 a 2011; ** Teste Mann-Whitney; WRAPI – escore sobre situações relacionadas ao trabalho que podem gerar dor ou lesão.

Discussão

Os resultados deste estudo de coorte de 2 anos mostraram que em sua fase inicial (2009) não houve diferença na capacidade para o trabalho comparando trabalhadores mais jovens (< 45 anos) e com mais idade (≥ 45 anos). Ao longo do seguimento observou-se discreta piora na capacidade para o trabalho, e esta redução da capacidade para o trabalho também foi semelhante nos dois grupos. Também não foram observadas diferenças significativas quanto à percepção inicial e final de exposição aos estressores do trabalho.

Entretanto, apesar destas semelhanças observadas, os estressores associados à capacidade para o trabalho foram distintos entre os dois grupos etários: enquanto a capacidade para o trabalho dos participantes com idade até 45 anos foi influenciada por todos os estressores analisados (exceto demandas e controle no trabalho), para os mais velhos esteve associada somente ao desequilíbrio entre esforços e recompensas no trabalho.

A partir dos 45 anos a capacidade funcional física e mental pode começar a deteriorar, influenciada pela diminuição da capacidade cardiorrespiratória e musculoesquelética e das funções cognitivas1-3,5,11,12. Entretanto, neste estudo o perfil de capacidade para o trabalho foi semelhante entre os dois grupos etários estudados. Questões relacionadas aos indivíduos, ao ambiente e às condições de trabalho e ao ambiente macrossocial interferem na relação entre envelhecimento cronológico e funcional2,3,6,11. Essas relações podem em alguma medida ser compensadas pelo aumento do conhecimento, da experiência, da habilidade para trabalhar de forma independente e do maior vínculo ao emprego que trabalhadores com mais idade tendem a apresentar2,3,6,11. Um fator que deve ser considerado é o efeito do trabalhador sadio, que consiste em um processo de seleção progressiva, permanecendo aqueles que tendem a ser mais saudáveis23. É possível que os trabalhadores mais velhos desta população de estudo sejam aqueles que mantiveram melhores condições de higidez e recursos de enfrentamento ao longo de sua trajetória laboral e, portanto, apresentam melhor perfil de capacidade para o trabalho.

Cabe lembrar que quanto mais precoce, intensa e frequente é a exposição a demandas intensas do trabalho, maior é o risco de envelhecimento funcional precoce2,3,17. Neste estudo, nos dois grupos etários, a diminuição da capacidade para o trabalho esteve associada ao aumento da percepção de exposição aos estressores do ambiente de trabalho. Como aponta a literatura, os estressores do ambiente físico e psicossocial do trabalho são consistentemente identificados como fatores atuando negativamente sobre a capacidade para o trabalho, inclusive entre trabalhadores da área hospitalar6,9,17-19.

As percepções de exposição aos estressores do trabalho ao longo dos anos de seguimento neste estudo devem ser entendidas à luz das condições de trabalho na enfermagem. Esse trabalho é caracterizado por demandas vinculadas a questões como responsabilidade pelo trato na vida humana, contato frequente com dor, sofrimento e morte, relacionamentos interpessoais conflituosos, cargas físicas intensas, baixo reconhecimento e/ou valorização, intensificação no uso de novas tecnologias, relações trabalhistas deterioradas e, especificamente para os enfermeiros, também há o aumento nas exigências por competências gerenciais6,16-19,24.

Este estudo evidenciou impacto consistente do desequilíbrio esforço-recompensa sobre a capacidade para o trabalho tanto em trabalhadores mais jovens como entre aqueles com idade mais elevada. Aspectos do contexto social e organizacional do trabalho relativos aos esforços empreendidos e recompensas obtidas podem explicar estes resultados: recompensas financeiras, valorização, oportunidades de carreira e estabilidade no emprego9,14,17. Um estudo entre profissionais de enfermagem no Brasil evidenciou que, quando diversos estressores são considerados, o desequilíbrio esforço-recompensa foi marcadamente o mais importante, em especial entre as enfermeiras16. No Next-Study (Nurses Early Exit) que estudou profissionais de enfermagem de 10 países da Europa, o desequilíbrio esforço-recompensa mostrou ser um forte preditor para desgaste dos trabalhadores de enfermagem, com comprometimento da CT em todas as faixas etárias e em todos os países analisados, levando frequentemente a considerar a possibilidade de abandono da profissão e aposentadoria precoce9.

Neste artigo, entre os trabalhadores mais jovens, além do desequilíbrio esforço-recompensa, a piora na percepção de exposição aos estressores comprometendo a capacidade para o trabalho também foi observada quanto ao excesso de comprometimento, ao apoio social e às situações que podem gerar dor ou lesão. Há evidências que o ICT reflete melhor as alterações da capacidade para o trabalho em atividades com intensas demandas físicas do que em atividades predominantemente mentais1. Se considerarmos que trabalhadores com maior idade tendem a ter uma trajetória profissional com maiores possibilidades de migrar de atividades predominantemente físicas para predominantemente mentais e contam com estratégias que resultam em melhor capacidade de enfrentamento aos estressores no trabalho, estes aspectos podem explicar a menor presença de associações entre os estressores avaliados e a capacidade para o trabalho entre aqueles com mais idade.

Pessoas com excesso de comprometimento podem subestimar demandas e superestimar suas capacidades de enfrentamento, o que pode potencializar o desgaste do trabalhador25, justificando a redução da capacidade para o trabalho observada entre os mais jovens.

O apoio social está relacionado ao apoio e à interação entre colegas e superiores, e tem um efeito moderador entre os estressores psicossociais do trabalho e suas consequências deletérias, também se associando ao estado de saúde e ao bem-estar26. O NEXT-Study identificou o apoio social como um fator importante para retenção no trabalho entre profissionais de enfermagem com capacidade para o trabalho comprometida9.

O impacto da piora do WRAPI (atividades relacionadas ao trabalho que podem contribuir para a ocorrência de dor ou lesão) sobre a capacidade para o trabalho evidenciou o papel das cargas físicas do trabalho. As condições de trabalho na enfermagem frequentemente estão associadas à ocorrência de distúrbios musculoesqueléticos, decorrentes do transporte e movimentação inadequados de pacientes, equipamentos e mobiliários não apropriados, movimentos e posturas inadequados do ponto de vista da biomecânica6,17-19,24.

Um estudo entre profissionais de enfermagem no Brasil mostrou que tanto a demanda como o controle tiveram menor relevância entre os profissionais de enfermagem quando avaliados em conjunto com outros estressores psicossociais16. No presente estudo estes dois estressores não afetaram a capacidade para o trabalho. Quanto à demanda, uma possível explicação para este resultado é que houve elevada prevalência de percepção de demandas intensas, o que pode ter homogeneizado a amostra, com perda do efeito da variável.

Para o controle sobre o trabalho, a ausência de associações com a capacidade para o trabalho pode ser decorrente da estrutura da escala que é composta somente por 6 itens, com limitações para captar o construto a ser avaliado. A análise da confiabilidade da escala mostrou baixa consistência interna (α = 0,47), situação identificada em outros estudos10,20.

O estudo teve, em seu momento inicial uma taxa de resposta de 83,8% – acima dos 75,0% que são considerados como minimamente adequados27. Neste momento houve diferença entre participantes e não participantes quanto ao tempo de trabalho na instituição e setor de trabalho. Ao final do seguimento, 59,1% dos trabalhadores permaneceram no estudo A validade interna deste estudo pode ser considerada aceitável. A validade externa pode ser aceita para instituições hospitalares com semelhantes características demográficas e de organização e condições do trabalho.

Apesar da taxa de participação inicial elevada no início deste estudo, o já citado efeito do trabalhador sadio pode estar presente, causando disparidades entre as proporções de participantes no início e no final do seguimento. Em sendo assim, as relações entre estressores do trabalho e capacidade para o trabalho podem estar subestimadas. Salienta-se, também como limitação, que a diferença no número de participantes nas duas faixas etárias consideradas neste estudo, pode ter contribuído para reduzir o poder estatístico no grupo com maior idade, ou seja, 255 trabalhadores mais jovens (< 45 anos) e apenas 49 trabalhadores com mais idade (≥ 45 anos).

Capacidade para o trabalho é a base para a saúde e o bem-estar do trabalhador e para a sua empregabilidade, e estas questões vêm ganhando relevância no mundo do trabalho, em especial em sociedades caracterizadas pelo envelhecimento demográfico2-4. A empregabilidade também vem se tornando uma questão atual importante para prevenir a discriminação contra profissionais de enfermagem em fase de envelhecimento28. O desenho longitudinal deste estudo nos permitiu estabelecer relações causais, evidenciando que os estressores do trabalho são fatores que afetam a capacidade para o trabalho dos profissionais de enfermagem, muito embora diferentes estressores tenham diferentes papéis nas duas faixas etárias avaliada.

Esses achados trazem implicações para as políticas institucionais e sociais de promoção da saúde no trabalho, uma vez que apontam para a pertinência do desenvolvimento de ações para controle dos estressores decorrentes das condições e da organização do trabalho. A literatura mostra resultados positivos em termos de custo-efetividade das intervenções para controle do estresse no trabalho, ressaltando a importância de ações de caráter continuado para manutenção de resultados de longo prazo29,30.

Ainda não há conhecimento suficiente sobre o desempenho de trabalhadores em fase de envelhecimento, em especial em trabalhos com altas demandas4,31. Assim, mais pesquisas longitudinais ainda são necessárias para avaliar a progressão do comprometimento da capacidade para o trabalho, prover estimativas do envelhecimento funcional e avaliar intervenções que podem influenciar os resultados.

Conclusões

Os resultados mostraram que, ao longo do seguimento de 2 anos, houve associação entre a piora na exposição aos estressores do trabalho e o comprometimento da capacidade para o trabalho. O impacto dos estressores sobre a capacidade para o trabalho foi diferente entre os dois grupos etários: enquanto a capacidade para o trabalho dos mais jovens sofreu efeito de vários estressores analisados (piora no apoio social, elevação do desequilíbrio esforço-recompensa, aumento do excesso de comprometimento e aumento de situações que podem gerar dor/lesão), a capacidade para o trabalho dos mais velhos recebeu influência somente da elevação do desequilíbrio entre esforços e recompensas.

Esses resultados apontam para a necessidade de ações preventivas e corretivas visando à promoção da capacidade para o trabalho, ações estas que devem ser adequadas e diferenciadas para diferentes grupos etários.

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Recebido: 04 de Junho de 2015; Revisado: 26 de Outubro de 2015; Aceito: 28 de Outubro de 2015

Colaboradores

MC Martinez, MRDO Latorre e FM Fischer participaram igualmente de todas as etapas de elaboração do artigo.

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