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Ciência & Saúde Coletiva

versão impressa ISSN 1413-8123versão On-line ISSN 1678-4561

Ciênc. saúde coletiva vol.22 no.11 Rio de Janeiro nov. 2017

http://dx.doi.org/10.1590/1413-812320172211.22552017 

Artigo

Desigualdades sociais nas limitações causadas por doenças crônicas e deficiências no Brasil: Pesquisa Nacional de Saúde – 2013

Patricia de Moraes Mello Boccolini1 

Cristina Maria Rabelais Duarte1 

Miguel Abud Marcelino1  2 

Cristiano Siqueira Boccolini3 

1Núcleo de Informação, Políticas Públicas e Inclusão Social (NIPPIS), LIS/ICICT/FIO CRUZ/FMP/FASE. R. Barão do Rio Branco 1003, Centro. 25680-120 Petrópolis RJ Brasil. patriciaboccolini@yahoo.com.br

2Instituto Nacional do Seguro Social no Rio de Janeiro. Petrópolis RJ Brasil.

3Laboratório de Informação em Saúde, ICICT/Fiocruz. Rio de Janeiro RJ Brasil.

Resumo

O objetivo deste artigo é avaliar a associação entre desigualdades sociais e autorrelato de limitações para a realização de atividades diárias, causadas por doenças crônicas ou deficiências. Inquérito nacional (Pesquisa Nacional de Saúde, 2013) que avaliou amostra de brasileiros com 18+ anos. O desfecho foi o indivíduo relatar ter suas atividades habituais limitadas moderadamente ou intensamente ou muito intensamente (Limit) devido a uma ou mais doenças crônicas, ou ainda por deficiência mental, física, auditiva ou motora. A exposição principal foi a classe econômica, classificada em cinco categorias, indo de A (mais rica) até E (mais pobre). Foi estimado um modelo de regressão logística ajustado por classe econômica e variáveis de confundimento, considerando o desenho complexo da amostra e alfa = 5%. 15,5% dos indivíduos relataram ter Limit. Comparando as classes sociais, 19,5%, 21,9%, 16,1%, 11,1%, e 7,7% indivíduos pertencentes à classe E, D, C, B e A relataram o desfecho. O modelo ajustado evidenciou maior chance dos indivíduos da classe D+E, e D, relatarem Limit do que indivíduos da classe A+B (referência). Políticas públicas de assistência à saúde e assistência social para pessoas com deficiências devem focar nas classes sociais E e D.

Palavras-chave Pessoas com deficiência; Atividades cotidianas; Autorrelato; Inquéritos epidemiológicos; Desigualdades em saúde

Introdução

Nos últimos cinquenta anos o Brasil vem apresentando uma mudança na composição e no perfil sanitário da sua população. O processo de transição demográfica tornou-se notório principalmente depois da década de 1970, com a diminuição dos coeficientes de natalidade e mortalidade, que acarretaram o envelhecimento populacional. Concomitantemente, alterações nos padrões de adoecimento caracterizaram a transição epidemiológica, que, segundo Frederiksen1 e Omran2, engloba três mudanças básicas: transição de uma situação de alta mortalidade para outra de baixa, diminuição das doenças transmissíveis e incremento das crônico-degenerativas e deslocamento da maior carga de morbimortalidade dos grupos mais jovens aos mais idosos.

Esses autores pontuam também que a definição de transição epidemiológica deve ser considerada parte integrante de um conceito mais amplo de transição da saúde que pode se resumir a dois aspectos principais: a transição das condições de saúde (mudanças na frequência, magnitude e distribuição destas, expressas através das mortes, doenças e incapacidades) e a transição da atenção sanitária, que se instrumenta por meio dos sistemas de atenção à saúde1,2.

O conceito de transição de saúde, compartilhado por autores contemporâneos3,4, sublinha a necessidade de transformação também das políticas, de modo a darem conta de atender às novas necessidades impostas pelas mudanças nas condições de saúde. Não apenas as políticas de atenção sanitária, mas as públicas de modo geral, precisam enfrentar os desafios trazidos pelo envelhecimento populacional e, em especial, pelo aumento do número de pessoas vivendo com níveis de funcionalidade reduzidos em decorrência do envelhecimento, do modo de vida moderno e do desenvolvimento tecnológico.

Uma das consequências da transição de saúde é a necessidade de desenvolvimento de indicadores mais apropriados à revelação tanto das condições de saúde das populações, como da capacidade de resposta social organizada a estas condições. Por este motivo, tem crescido o esforço de construção de medidas e desenvolvimento de estudos focados na morbidade, especialmente nas doenças crônicas, e nos efeitos da condição de saúde sobre a capacidade de desempenhar as atividades do dia a dia, como aqueles relacionados à carga global de doenças3,5-11. O indicador “anos de vida ajustados por incapacidade” (Disability-Adjusted Life Year - DALY) é um exemplo, pois permite medir a importância de doenças, acidentes e fatores de risco que causem tanto a morte prematura quanto a perda de saúde e deficiências no nível populacional. Nos países de renda média e baixa, cerca de 80% de toda a carga de mortalidade é atribuída a doenças crônicas12. No Brasil, 69,9% de todos os DALYs em 2012 foram devido às doenças crônicas, sendo que essa proporção aumenta com a idade, chegando a quase 90% de todo o DALY entre idosos com 70 anos ou mais13.

Para o desenvolvimento de novos indicadores que incorporem a questão da perda precoce da vida ou da saúde, têm se avolumado os debates em torno de conceitos como deficiência, incapacidade e funcionalidade. Por um lado, abordagens da deficiência têm transcendido modelos biomédicos focados estritamente nas alterações corporais. Por outro, e não menos importante, tem-se buscado evitar os termos adotados para fazer referência à deficiência, impregnados de significados pejorativos e estigmatizantes, como deficientes, incapazes ou inválidos na língua portuguesa.

Diante disso, o objetivo deste artigo é avaliar a associação entre desigualdades sociais e autorrelato de limitações para a realização de atividades diárias, causadas por doenças crônicas ou deficiências, na população, a partir de dados da Pesquisa Nacional de Saúde (PNS) de 2013. No contexto do envelhecimento populacional, da atualização da abordagem da deficiência enquanto uma questão social e da dificuldade de se dispor de medidas e indicadores populacionais, a PNS oferece elementos para, numa concepção mais avançada, produzir um panorama da população com funcionalidade reduzida no Brasil.

Seus resultados buscam contribuir para subsidiar o planejamento de políticas voltadas para este segmento, mais especificamente o Benefício de Prestação Continuada da Assistência Social (BPC) - voltado para pessoas com deficiência e idosos pobres - que, desde 2009, utiliza um modelo médico social de avaliação da deficiência para acesso ao benefício.

Metodologia

A Pesquisa Nacional de Saúde (PNS) foi um estudo transversal de âmbito nacional e base domiciliar, realizada pela Fundação Oswaldo Cruz e pelo Ministério da Saúde, em parceria com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, utilizando uma subamostra da Amostra Mestre do IBGE14. Foi selecionada uma amostra por conglomerados em três estágios: a unidade primária foram os setores censitários, os domicílios as unidades secundárias e um morador com mais 18 anos selecionado aleatoriamente em cada domicílio a unidade terciária. Foram visitados 81.254 domicílios, destes, 69.994 estavam ocupados. Foram realizadas 64.348 entrevistas domiciliares e 60.202 com o morador selecionado. As entrevistas foram feitas entre agosto de 2013 e fevereiro de 2014. Outros detalhes sobre a pesquisa estão disponíveis em publicações prévias14,15.

Inicialmente foram obtidas as prevalências de diagnóstico médico autorreferido de doenças crônicas, sendo possíveis respostas a uma ou mais das seguintes doenças ou condições: hipertensão arterial (HAS), diabetes mellitus (DM), colesterol alto, doenças cardiovasculares (DCV), acidente vascular cerebral (AVC) ou derrame, asma ou bronquite asmática, artrite ou reumatismo, dor na coluna, distúrbio osteomuscular relacionado ao trabalho (DORT), depressão, doenças mentais esquizofrenia, transtorno bipolar, psicose ou Transtorno Obsessivo Compulsivo (TOC), Doença Pulmonar Obstrutiva Crônica (DPOC), câncer, insuficiência renal crônica (IRC) e outra doença crônica, física ou mental, ou doença de longa duração (de mais de 6 meses de duração). Foram obtidas, também, as prevalências autorrelatadas de uma ou mais deficiências: intelectual, física, auditiva e visual.

Em seguida, para os que responderam terem sido diagnosticados por doenças crônicas, foi relatado o grau de limitação que a referida doença trazia para o indivíduo, por meio da pergunta: “em geral, em que grau a ou alguma complicação da ___ limita as suas atividades habituais (como trabalhar, estudar, realizar afazeres domésticos, etc)?”, com resposta tipo “likert”: “não limita”, “um pouco”, “moderadamente”, “intensamente”, e “muito intensamente”. A mesma gradação de respostas foi obtida para os que relataram deficiências, porém, com a seguinte pergunta: “em geral, em que grau a deficiência ____ limita as atividades habituais (como ir à escola, brincar, trabalhar etc.)?”. Para a obtenção das prevalências e limitações foi considerado o desenho complexo da amostra e intervalo de 95% de confiança.

Foram considerados dois desfechos derivados das limitações autorrelatadas devido a doenças ou deficiências: o primeiro desfecho considerou indivíduos que responderam ter limitações “moderadas”, “intensas” ou “muito intensas” das atividades habituais (Limit_MOD+) devido a uma ou mais doenças ou deficiências; o segundo desfecho agregou apenas as limitações “intensas” ou “muito intensas” (Limit_INT+) no intuito de considerar apenas as situações de limitação mais graves, excluindo as moderadas.

A exposição principal foi o “Critério Brasil”, um indicador de classe econômica do indivíduo proposto pela “Associação Brasileira de Empresas de Pesquisa”. Esse indicador é composto pela avaliação da quantidade e tipo de bens presentes na residência do indivíduo, bem como o nível educacional do chefe da família e a presença de empregada doméstica. O “Critério Brasil” classifica os indivíduos em cinco categorias socioeconômicas, indo de A (mais rica) até E (mais pobre). Posteriormente, para fins de análise, essas categorias foram agrupadas em A+B (referência), C, e D+E16.

As variáveis de confundimento consideradas para o presente estudo, bem como suas categorias e categoria de referência, foram: sexo: masculino (referência) e feminino; cor da pele/raça autorreferidas em branca, parda, preta, amarela e indígena e, posteriormente, categorizadas em branca (referência) e não branca; escolaridade, categorizada em fundamental incompleto, médio incompleto, médio completo e superior ou mais (referência); faixa etária, categorizada em 18 a 29 anos (referência), seguida de faixas etárias de dez anos e chegando até 60 anos ou mais; e região de residência: norte, nordeste, sudeste (referência), centro-oeste e sul.

A próxima etapa do estudo consistiu na estimação de Odds Ratio bruta e ajustada para os dois desfechos (Limit_MOD+ e Limit_INT+) por meio de regressão logística com intervalo de 95% de confiança e considerando o desenho complexo da amostra.

Resultados

Na Tabela 1 foi observada a prevalência de diagnóstico médico autorrelatado de doenças crônicas e decorrentes limitações de atividades habituais. Hipertensão arterial e dor na coluna são as doenças mais prevalentes sendo AVC, câncer e IRC as menos. A prevalência de uma ou mais doenças de longa duração (mais de 6 meses) foi de quase 50%. Em relação à prevalência da limitação das atividades habituais foi observado que as doenças que mais limitam moderadamente são: asma, dor na coluna, artrite, DORT bem como outras doenças mentais; as que mais limitam intensamente são: AVC, asma, dor na coluna, artrite, DORT e outras doenças mentais; já as doenças que limitam as atividades habituais muito intensamente são: AVC, outras doenças mentais, e outras doenças crônicas de longa duração.

Tabela 1 Prevalência de diagnóstico médico auto relatado de doenças crônicas e decorrentes limitações de atividades habituais. Brasil, 2013. 

Doença ou condição Prevalência IC95% Limitação das atividades habituais (%)
n % Não limita Um pouco Moderadamente Intensamente Muito Intensamente
HAS 12500 21,4 (20,8-22,0) 69,3 18,6 7,4 3,9 0,8
DM 3636 6,2 (5,9-6,6) 66,5 17,5 9,0 5,1 2,0
DCV 2233 4,2 (3,9-4,5) 49,0 24,0 13,5 10,7 2,8
AVC 966 1,5 (1,4-1,7) 41,9 19,5 13,1 16,0 9,5
Asma 2620 4,4 (4,1-4,7) 37,9 26,6 19,7 13,4 2,4
Dor na coluna 10578 18,5 (17,8-19,1) 32,7 32,6 18,3 13,1 3,3
Artrite 3976 6,4 (6,1-6,8) 36,3 28,8 17,8 13,3 3,8
DORT 1149 2,4 (2,2-2,7) 41,8 27,9 14,6 13,1 2,6
Depressão 4235 7,6 (7,2-8,1) 57,9 19,0 11,3 8,7 3,2
Outras mentais 552 0,9 (0,8-1,1) 27,4 17,0 17,9 25,1 12,6
DPOC 934 1,8 (1,6-2,0) 56,3 19,7 14,0 7,1 2,9
Câncer 1023 1,8 (1,6-2,0) 66,0 14,5 9,2 7,7 2,7
IRC 839 1,4 (1,3-1,6) 59,1 20,0 9,0 8,4 3,4
Outras 2997 5,5 (5,1-5,9) 43,7 23,6 13,4 13,3 6,0
Uma ou mais 29097 49,8 (49,0-50,6)
doenças
Total 62202 100,0

Diagnóstico médico auto relatado de doença ou condição. n = Contagem não ponderada. Prevalência: levando em consideração o desenho complexo da amostra. IC95%: Intervalo de 95% de confiança levando em consideração o desenho complexo da amostra. Limitação das suas atividades habituais, como: trabalhar, estudar, realizar afazeres domésticos, etc. HAS: hipertensão arterial. DM: diabetes mellitus. DCV: doenças cardiovasculares. AVC: acidente vascular cerebral ou derrame. Asma ou bronquite asmática. Artrite ou reumatismo. DORT: distúrbio osteomuscular relacionado ao trabalho. Doenças mentais: esquizofrenia, transtorno bipolar, psicose ou Transtorno Obsessivo Compulsivo. DPOC: doença pulmonar obstrutiva crônica. IRC: insuficiência renal crônica. Outras: outra doença crônica, física ou mental, ou doença de longa duração (de mais de 6 meses de duração). Uma ou mais doenças: relato de uma ou mais doenças ou condições.

Na Tabela 2 foi descrita a prevalência de deficiência autorrelatada e decorrentes limitações de atividades habituais. As deficiências mais prevalentes são a visual, a auditiva e a categoria “uma ou mais deficiências”. A deficiência intelectual é a que mais limita moderadamente, intensamente e muito intensamente as atividades habituais seguida da deficiência física e auditiva.

Tabela 2 Prevalência de deficiência auto relatada e decorrentes limitações de atividades habituais. Brasil, 2013. 

Deficiência n Prevalência % IC95% Limitação das atividades habituais (%)
Não limita Um pouco Moderadamente Intensamente Muito Intensamente
Intelectual 339 0,6 (0,5-0,7) 7,4 10,1 24,2 33,0 25,2
Física 1068 1,7 (1,6-1,9) 12,1 16,9 22,4 32,1 16,5
Auditiva 1464 2,6 (2,3-2,8) 37,0 31,2 18,9 10,2 2,7
Visual 3372 5,5 (5,1-5,9) 43,4 27,0 14,9 10,9 3,9
Uma ou mais deficiências 5524 9,2 (8,7-9,7)
Total 60202

Prevalência de deficiência autorrelatada. n = Contagem não ponderada. Prevalência: levando em consideração o desenho complexo da amostra. IC95%: Intervalo de 95% de confiança levando em consideração o desenho complexo da amostra. Limitação das suas atividades habituais, como: trabalhar, estudar, realizar afazeres domésticos, etc. Uma ou mais deficiências: prevalência de indivíduos que relatou uma ou mais deficiências.

Na Tabela 3 foram verificadas as limitações de atividades habituais decorrentes de doenças crônicas ou deficiências de acordo com características sociodemográficas. As mulheres apresentaram maior prevalência de limitação Limit_MOD+ e limitação Limit_INT+ das atividades habituais. Em relação à escolaridade foi observado que quanto menor o grau de escolaridade maior a limitação Limit_MOD+ e Limit_INT+ nas atividades habituais. Em relação ao escore social foi observado que quanto menor este, classes D + E, maior a prevalência de limitação das atividades Limit_MOD+ e Limit_INT+. Em relação à faixa etária foi constatado que a limitação Limit_MOD+ e Limit_INT+ das atividades habituais são mais prevalentes entre os indivíduos mais idosos e é possível ver o gradiente com o aumento da idade. Em relação à região de residência foi observado que na região norte a prevalência de indivíduos com limitação Limit_MOD+ e Limit_INT+ foi a menor quando comparada com as demais regiões e a região sul foi a que apresentou maior prevalência de indivíduos com limitação Limit_MOD+ e Limit_INT+ nas atividades habituais.

Tabela 3 Limitações de atividades habituais decorrentes de doenças crónicas ou deficiências, conforme características populacionais. Brasil, 2013. 

Variável n % IC95% Limitação das atividades habituais (%)
Limitação Moderada+ Limitação Intensa+
n % IC95% n % IC95%
Sexo
masculino 25920 47,1 (46,4-47,9) 3444 13,5 (12,7-14,2) 1801 7,2 (6,7-7,8)
feminino 34282 52,9 (52,1-53,6) 5881 17,7 (17,0-18,5) 2993 9,3 (8,8-9,9)
Cor da pele/raça
branca 24106 47,5 (46,7-48,3) 3816 15,8 (15,0-16,7) 1939 8,1 (7,5-8,7)
não branca 36096 52,5 (51,7-53,3) 5509 15,6 (14,9-16,4) 2855 8,6 (8,0-9,1)
Escolaridade
fundamental incompleto 26927 46,5 (45,6-47,4) 5577 20,7 (19,8-21,7) 3011 11,5 (10,9-12,3)
médio incompleto 8562 14,0 (13,5-14,6) 1150 13,8 (12,5-15,2) 575 7,3 (6,4-8,3)
médio completo 16922 27,0 (26,3-27,7) 1812 10,6 (9,8-11,4) 874 5,3 (4,7-5,9)
superior 7791 12,5 (11,8-13,2) 786 10,3 (9,0-11,7) 334 4,2 (3,4-5,0)
Escore social
D+E 18173 24,6 (23,9-25,3) 3765 21,6 (20,4-22,8) 2057 12,3 (11,4-13,3)
C 25818 43,0 (42,1-43,9) 3890 16,1 (15,3-17,0) 1991 8,7 (8,1-9,3)
A+B 16211 32,4 (31,4-33,5) 1670 10,7 (9,9-11,6) 746 4,9 (4,3-5,5)
Faixa etária
18 a 29 anos 14321 26,1 (25,4-26,7) 775 5,4 (4,8-6,1) 363 2,5 (2,1-3,0)
30 a 39 anos 14269 21,6 (21,0-22,2) 1339 9,7 (8,8-10,7) 678 5,3 (4,7-6,1)
40 a 49 anos 11405 18,1 (17,5-18,6) 1854 17,1 (15,8-18,4) 999 9,8 (8,8-10,9)
50 a 59 anos 9030 16,2 (15,7-16,7) 2062 22,9 (21,3-24,6) 1114 12,8 (11,6-14,1)
60 anos ou mais 11177 18,0 (17,5-18,7) 3295 30,1 (28,5-31,6) 1640 14,9 (13,7-16,1)
Região
Norte 12536 7,4 (7,2-7,6) 1703 12,5 (11,4-13,8) 830 6,2 (5,4-7,0)
Nordeste 18305 26,6 (26,1-27,1) 3060 16,6 (15,7-17,6) 1615 9,0 (8,3-9,7)
Sudeste 14294 43,8 (43,1-44,4) 2059 14,6 (13,6-15,7) 1056 7,6 (6,9-8,4)
Sul 7548 14,8 (14,4-15,2) 1353 18,9 (17,4-20,6) 690 10,1 (9,1-11,2)
Centro-oeste 7519 7,4 (7,2-7,6) 1150 15,9 (14,7-17,2) 603 8,9 (7,9-10,0)
TOTAL 60202 100,0 - 16,0 (15,1-16,3) 8,3 (7,9-8,8)

n = Contagem não ponderada. Limitação Moderada+: relato de uma ou mais limitações moderadas, intensas ou muito intensas decorrentes de doenças crônicas ou deficiências. Limitação Intensa+: relato de uma ou mais limitações intensas ou muito intensas decorrentes de doenças crônicas ou deficiências. Prevalência%: levando em consideração o desenho complexo da amostra. IC95%: Intervalo de 95% de confiança levando em consideração o desenho complexo da amostra. Limitação das suas atividades habituais, como: trabalhar, estudar, realizar afazeres domésticos, etc. Cor da pele/raça: obtida por auto classificação conforme as categorias do IBGE; posteriormente categorizada em branca e não branca (preto, pardo, amarelo ou indígena). Escolaridade: categorizada em fundamental incompleto (sem instrução ou fundamental incompleto), médio incompleto (fundamental completo e médio incompleto), médio completo (médio completo e superior incompleto) e superior (completo). Escore social: classificação proposta pela Associação Brasileira de Estudos Populacionais (http://www.abep.org/criterio-brasil), onde a população é dividida em cinco categorias, indo de A (mais rica) até E (mais pobre).

Na Tabela 4 foram observados os fatores associados com as limitações das atividades habituais decorrentes de doenças crônicas ou deficiências. Estiveram positivamente associados com os desfechos limitação Limit_MOD+ e Limit_INT+: sexo feminino, ensino fundamental incompleto, faixa etária crescente e Regiões Nordeste e Sul. Indivíduos da classe D+E e C também estiveram positivamente associados com maior chance de relatar limitações Limit_MOD+ e Limit_INT+ nas atividades habituais.

Tabela 4 Fatores associados com as limitações de atividades habituais decorrentes de doenças crónicas ou deficiências. Brasil, 2013. 

Variável Limitação das atividades habituais (%)
Moderada+ Intensamente+
OR IC95% AOR IC95% OR IC95% AOR IC95%
Sexo
masculino 1,00 - 1,00 - 1,00 - 1,00 -
feminino 1,39 (1,28-1,50) 1,36 (1,25-1,47) 1,32 (1,20-1,46) 1,28 (1,16-1,42)
Cor da pele/raça
branca 1,00 - 1,00 - 1,00 - 1,00 -
não branca 1,01 (0,94-1,10) 0,98 (0,90-1,08) 0,94 (0,85-1,03) 1,02 (0,91-1,15)
Escolaridade
fundamental incompleto 2,28 (1,96-2,66) 1,51 (1,25-1,82) 3,01 (2,45-3,69) 1,84 (1,43-2,37)
médio incompleto 1,40 (1,18-1,67) 1,29 (1,06-1,58) 1,82 (1,43-2,32) 1,54 (1,16-2,03)
médio completo 1,04 (0,88-1,22) 1,10 (0,92-1,31) 1,28 (1,02-1,61) 1,28 (1,01-1,63)
superior 1,00 - 1,00 - 1,00 - 1,00 -
Escore social
D+E 2,30 (2,05-2,58) 1,67 (1,43-1,95) 2,74 (2,36-3,18) 1,89 (1,54-2,32)
C 1,60 (1,44-1,78) 1,40 (1,23-1,59) 1,86 (1,62-2,14) 1,52 (1,28-1,81)
A+B 1,00 - 1,00 - 1,00 - 1,00 -
Faixa etária
18 a 29 anos 1,00 - 1,00 - 1,00 - 1,00 -
30 a 39 anos 1,89 (1,61-2,23) 1,99 (1,69-2,34) 2,18 (1,75-2,70) 2,31 (1,86-2,87)
40 a 49 anos 3,62 (3,10-4,22) 3,69 (3,15-4,31) 4,18 (3,38-5,18) 4,28 (3,45-5,31)
50 a 59 anos 5,22 (4,50-6,06) 5,17 (4,44-6,02) 5,66 (4,61-6,94) 5,55 (4,51-6,83)
60 anos ou mais 7,56 (6,54-8,73) 6,81 (5,84-7,93) 6,75 (5,53-8,23) 5,90 (4,81-7,24)
Região
Norte 0,84 (0,73-0,96) 0,87 (0,75-1,02) 0,80 (0,67-0,96) 0,78 (0,65-0,94)
Nordeste 1,17 (1,05-1,30) 1,09 (0,97-1,24) 1,20 (1,05-1,38) 1,06 (0,91-1,23)
Sudeste 1,00 - 1,00 - 1,00 - 1,00 -
Sul 1,37 (1,20-1,56) 1,41 (1,22-1,62) 1,37 (1,17-1,60) 1,39 (1,18-1,63)
Centro-oeste 1,11 (0,97-1,26) 1,17 (1,02-1,33) 1,19 (1,01-1,41) 1,21 (1,02-1,44)

n = Contagem não ponderada. Limitação Moderada+ (desfecho): relato de uma ou mais limitações moderadas, intensas ou muito intensas decorrentes de doenças crônicas ou deficiências. Limitação Intensa+ (desfecho): relato de uma ou mais limitações intensas ou muito intensas decorrentes de doenças crônicas ou deficiências. Prevalência%: levando em consideração o desenho complexo da amostra. IC95%: Intervalo de 95% de confiança levando em consideração o desenho complexo da amostra. Limitação das suas atividades habituais, como: trabalhar, estudar, realizar afazeres domésticos, etc. Cor da pele/raça: obtida por auto classificação conforme as categorias do IBGE; posteriormente categorizada em branca e não branca (preto, pardo, amarelo ou indígena). Escolaridade: categorizada em fundamental incompleto (sem instrução ou fundamental incompleto), médio incompleto (fundamental completo e médio incompleto), médio completo (médio completo e superior incompleto) e superior (completo). Escore social: classificação proposta pela Associação Brasileira de Estudos Populacionais (http://www.abep.org/criterio-brasil), onde a população é dividida em cinco categorias, indo de A (mais rica) até E (mais pobre). OR: Odds ratio, ou razão de chance, não ajustada, considerando o desenho complexo da amostra. AOR: Odds ratio ajustada, ou razão de chance ajustada, obtida por modelo de regressão logística, considerando o desenho complexo da amostra.

Discussão

Na Pesquisa Nacional de Saúde de 2013 quase a metade da população adulta brasileira relatou possuir diagnóstico de alguma doença crônica e cerca de 20 milhões informaram ter alguma deficiência, ocasionando a limitação moderada, intensa ou muito intensa da realização de atividades habituais de cerca de 30 milhões de cidadãos. A população mais pobre, com menor grau de escolaridade, mais idosa e as mulheres são os que mais sofrem com limitações de suas atividades decorrentes de doenças crônicas ou deficiências, indicando um gradiente social que atinge a população mais vulnerável.

A prevalência de deficiências de cerca de 10% encontrada no presente estudo, com destaque para a deficiência visual, foi maior que o encontrado por Malta et al. (6,2%)17 utilizando a mesma base de dados: isso se deve à categorização de deficiência adotada. Enquanto Malta et al.17 utilizaram a legislação brasileira18 para categorizar os tipos de deficiências, o presente estudo considerou a resposta simples do indivíduo (possui deficiência_____?), o que decorre em maior prevalência de deficiências autorrelatadas. Outros estudos locais encontraram prevalências semelhantes: um estudo realizado no estado de São Paulo em 2003 encontrou prevalência de 11,1% de deficiência, sendo mais frequentes as visuais (6,2%), as auditivas (4,4%) e as físicas (1,3%). Apesar da prevalência ligeiramente superior, as limitações decorrentes dessas deficiências, em ordem decrescente, foram as físicas (62%), as visuais (33,9%) e as auditivas (24,5%)19.

O grau de escolaridade teve papel relevante nas limitações decorrentes de deficiências e doenças crônicas na população brasileira, sendo a chance dos indivíduos com o menor grau quase duas vezes maior que os com mais escolaridade. Resultados similares foram encontrados em um estudo longitudinal europeu no qual foi demonstrado que indivíduos com elevados níveis educacionais não somente vivem mais, como também têm melhor qualidade de vida quando comparados com aqueles com baixo grau de escolaridade20.

As principais doenças crônicas que mais limitaram as atividades cotidianas, em ordem decrescente de prevalência, foram: doenças mentais (exceto depressão), AVC, artrite, dor na coluna, insuficiência renal crônica e depressão. As doenças crônicas não transmissíveis, além de causarem limitações das atividades cotidianas, também estão associadas com pior autoavaliação em saúde na população brasileira21. O estudo de Theme Filha21 et al. utiliza a mesma base de dados da Pesquisa Nacional de Saúde de 2013 e apresenta resultados descritivos semelhantes ao presente. Contudo, diferentemente de Theme Filha et al.21, que tratou as limitações em uma única categoria (moderada, intensa e muito intensa), as limitações decorrentes de doenças crônicas no presente estudo foram desmembradas, adicionadas das limitações por deficiências, além de serem estimadas suas associações com o nível socioeconômico e demais variáveis de confundimento.

O gradiente socioeconômico parece exercer um papel central na determinação de deficiências e limitações, no qual as populações mais pobres apresentam maiores chances de desenvolver deficiências relacionadas a doenças crônicas22 e a perceber maiores barreiras para acessar os serviços de saúde23, incluindo as físicas presentes em muitas unidades de saúde24. Esse gradiente pode ser observado inter e intrapaíses, sendo a prevalência das deficiências mais alta em países mais pobres, assim como entre as populações mais pobres de todos os 49 países com dados comparáveis25.

Uma meta análise com 160 estudos conduzidos em países desenvolvidos concluiu que o baixo nível socioeconômico esteve associado com maiores chances de desenvolver algum tipo de deficiência devido a doenças ou condições crônicas (OR = 1,72 (IC95% = 1,48-2,01), incluindo desordens psicológicas, deficiência intelectual, paralisia cerebral, malformações congênitas, epilepsia e deficiências sensoriais26.

Hosseinpoor et al.25 utilizaram dados representativos de 49 países de todas as regiões do mundo, coletados entre 2002 e 2004 e comparáveis, totalizando 218.737 indivíduos; e observaram que os países com baixa renda ou renda intermediária possuíam maior prevalência ajustada de deficiências do que países ricos, e em todos os países a população mais pobre também possuía maior prevalência de deficiências.

As deficiências físicas relacionadas a doenças crônicas podem se agravar, uma vez que as pessoas que as portam elencam algumas barreiras para acessar os serviços de saúde, incluindo a falta de transporte adequado, indisponibilidade de serviços e equipamentos especializados e custos associados23. Essas barreiras são mais frequentemente relatadas entre as pessoas mais pobres, e o nível educacional só parece reduzir as barreiras na medida em que maiores níveis educacionais representem maior renda familiar23.

Embora os questionários da PNS não tenham sido construídos a partir da abordagem proposta pela Classificação Internacional de Funcionalidade, Incapacidade e Saúde (CIF)27, publicada pela Organização Mundial da Saúde em 2001, os resultados deste estudo podem fornecer elementos para se aproximar desta concepção. Na CIF, incapacidade é entendida como “fenômeno multidimensional que resulta da interação entre pessoas e seu ambiente físico e social”. Diferentes gradações de funcionalidade ou incapacidade são frutos da interação entre uma condição de saúde (doença, trauma, lesão) e os fatores do contexto (fatores ambientais e pessoais). Para caracterizar esta interação, a CIF propõe um sistema de classificação que considera três componentes: funções e estruturas do corpo, atividades e participação e fatores ambientais. Vale frisar que, na CIF, incapacidade não se restringe a pessoas com deficiência.

Em 2007, a Convenção Internacional sobre os Direitos da Pessoa com Deficiência28 consolidou o modelo biopsicossocial de deficiência, estabelecendo que pessoas com deficiência têm impedimentos físicos, mentais, intelectuais ou sensoriais de longo prazo, que, em interação com várias barreiras, obstruem sua plena e efetiva participação na sociedade, em igualdade de condições com as demais pessoas.

Assim, deficiência e funcionalidade transcendem as alterações corpóreas, centrando-se no que as pessoas conseguem ou não fazer, em relação a atividades básicas do dia a dia e ao desempenho de papéis socialmente esperados. Em outras palavras, segundo a perspectiva biopsicossocial, deficiência nasce de contextos sociais específicos e pode ser definida pelas barreias encontradas pelo indivíduo ao executar tarefas cotidianas básicas ou mais complexas necessárias para uma vida in- dependente28.

A principal limitação deste estudo está relacionada com a estrutura das perguntas realizadas para a obtenção do desfecho das doenças crônicas e que as deficiências foram autorrelatadas. A validade das respostas autorreferidas pode variar conforme a doença relacionada: um estudo identificou que informações autorelatadas sobre diabetes, hipertensão, e doenças cardíacas foram altamente correlacionadas com as de prontuários e exames, enquanto a acurácia para o acidente vascular cerebral e doenças pulmonares foi intermediária, e nos relatos de artrites a acurácia foi considerada baixa29.

Além disso, existe um viés de informação, com possível tendência a superestimação ou subestimação do autorrelato de doenças crônicas de acordo com características individuais: homens tendem a subestimar o autorrelato de doenças crônicas, enquanto mulheres, indivíduos com saúde autorrelatada ruim ou com disfunções físicas tendem a superestimar o relato dessas doenças. Os idosos tendem a ter menor acurácia no autorrelato de doenças crônicas29. Contudo, os resultados apresentados são semelhantes aos encontrados em países com distintos graus de desenvolvimento econômico, onde as populações mais pobres e vulneráveis relatam maior grau de limitação de suas atividades cotidianas22,23,26.

Conclusões

Os desafios de se elaborar e executar uma política de inclusão e proteção social para pessoas com deficiência em uma realidade de cerca de 30 milhões de brasileiros que relataram alguma limitação ou restrição de suas atividades habituais devido às doenças crônicas ou deficiências requer um nível de focalização que ao mesmo tempo torne mais socialmente eficaz o uso dos recursos disponíveis e não exclua os cidadãos que necessitem de proteção social estatal. O Benefício de Prestação Continuada (BPC) é um exemplo de política que contempla uma avaliação biopsicossocial associado a critérios de renda familiar, atendendo as camadas mais pobres da população brasileira.

O conhecimento da condição de vulnerabilidade social da população é essencial para a efetividade das políticas públicas. A constatação de que pessoas em situações socioeconômicas desfavoráveis mais relataram limitações para as atividades diárias reforça a importância de políticas como o BPC, que transcendem o paradigma biomédico e incluem o biopsicossocial da OMS.

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Referências

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Recebido: 15 de Maio de 2017; Revisado: 03 de Julho de 2017; Aceito: 04 de Setembro de 2017

Colaboradores

PMM Boccolini e CS Boccolini participaram concepção e delineamento, análise e interpretação dos dados, redação final e revisão. CMR Duarte participou da concepção, redação e revisão crítica e MA Marcelino participou da concepção e revisão crítica. Todos aprovaram a versão final do manuscrito.

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