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Ciência & Saúde Coletiva

Print version ISSN 1413-8123On-line version ISSN 1678-4561

Ciênc. saúde coletiva vol.22 no.11 Rio de Janeiro Nov. 2017

http://dx.doi.org/10.1590/1413-812320172211.277872016 

Artigo

Percepção da perda auditiva: utilização da escala subjetiva de faces para triagem auditiva em idosos

Letícia Pimenta Costa-Guarisco1 

Daniela Dalpubel2 

Ludimila Labanca3 

Marcos Hortes Nisihara Chagas1 

1Departamento de Gerontologia, Centro de Ciências Biológicas e da Saúde, Universidade Federal de São Carlos (UFSCar). Rodovia Washington Luís Km 235, Jardim Guanabara. 13565-905 São Carlos SP Brasil. lepcosta@hotmail.com

2Programa de Pós-Graduação em Enfermagem, Centro de Ciências Biológicas e da Saúde, UFSCar. São Carlos SP Brasil.

3Faculdade de Medicina, Universidade Federal de Minas Gerais. Belo Horizonte MG Brasil.


Resumo

A presbiacusia é uma alteração prevalente na população idosa, porém subdiagnosticada, desta forma, é importante aprimorar instrumentos de triagem simples. A escala subjetiva de faces foi proposta como forma de avaliar a autopercepção auditiva do idoso e sua correlação com exames audiológicos. Foram avaliados todos os pacientes encaminhados para o serviço de audiologia de um centro de referência de atenção à saúde do idoso no período de fevereiro a novembro de 2013. Os pacientes foram examinados por meatoscopia, audiometria tonal e vocal e responderam a escala subjetiva de faces e o teste do sussurro. Participaram 164 idosos com média de idade de 77 anos. Encontrou-se boa correlação entre a escala subjetiva de faces e o limiar audiométrico (r = 0,66). Houve correspondência entre as faces e o grau da perda auditiva, sendo a face 1 correspondente a audição normal, face 2 a perda auditiva leve e face 3 a perda auditiva moderada grau I. Ao avaliar as qualidades psicométricas da escala subjetiva de faces, verificou-se que as faces 2 e 3 apresentam bons índices de sensibilidade e especificidade, com área sob a curva ROC de 0,81. A escala subjetiva de faces parece ser um bom instrumento complementar de triagem auditiva em serviços gerontológicos, de fácil aplicação e baixo custo.

Palavras-chave Presbiacusia; Idoso; Perda auditiva; Diagnóstico

Abstract

Presbycusis is a disorder present among the elderly. However, it is under-diagnosed, making it important to develop and enhance simple screening tools. Objective: The subjective faces scale has been proposed as a method to assess auditory self-perception among the elderly, and its correlation with audiological tests. Methods: We looked at elderly patients referred to the audiology service of a reference center for the care of the elderly in a public university hospital between February and November 2013. Patients were submitted to meatoscopy, tonal and vocal audiometry and the whisper test. They also answered the subjective faces scale. A total of 164 elderly individuals participated, and the average age was 77. Results: We found a good correlation between the subjective faces scale and audiometry thresholds (r = 0.66). Our results show that the faces and hearing loss correlate, with face 1 corresponding to normal hearing, face 2 to mild hearing loss, and face 3 to Grade I moderate hearing loss. When evaluating the psychometric qualities of the subjective faces scale, we found that faces 2 or 3 have good sensitivity and specificity, with the area under the ROC curve being 0.81. Conclusion: The subjective faces scale seems to be a good, low-cost and easy to use supplementary tool for auditory screening in geriatric services.

Key words Presbycusis; Elderly; Hearing loss; Diagnostic

Introdução

O envelhecimento populacional é uma realidade antiga nos países desenvolvidos, porém um novo desafio naqueles em desenvolvimento, como o Brasil. Segundo último censo do IBGE1, 12,6% da população brasileira apresenta 60 anos ou mais e estima-se que a pirâmide etária contará com 29% de idosos em 2050. Diante deste fato, há uma preocupação de ordem política, econômica e social para encarar essa nova realidade, entendendo o envelhecimento como um processo natural e desejável, apesar de suas especificidades. Desde o final do século XX e principalmente no início do século XXI políticas públicas em prol do envelhecimento digno e sustentável têm sido discutidas e implementadas no Brasil2. Nos últimos 10 anos, novos cursos voltados para o estudo do envelhecimento foram reconhecidos no país, bem como especialidades em gerontologia na área da saúde e da gestão. A promoção da velhice saudável, plena e sobretudo com qualidade de vida é fundamental neste panorama. Desta forma, patologias relacionadas ao processo de envelhecimento3, que comprometem funções biopsicossociais, como é o caso da presbiacusia, deverão ser enfrentadas de forma ampla e responsável.

A presbiacusia é caracterizada por alteração no órgão auditivo e/ou vias auditivas decorrentes do processo de envelhecimento. Na presbiacusia, ocorre a perda auditiva do tipo neurossensorial, bilateral e simétrica, comprometendo inicialmente frequências altas (detecção dos sons agudos) e a discriminação da fala. Por seu caráter lento, gradual e progressivo, o início da doença é silencioso e pouco perceptível, evoluindo para perdas auditivas mais acentuadas, envolvendo também frequências baixas e médias4. Neste estágio, o idoso já apresenta comprometimentos de ordem biopsicossocial uma vez que apresenta dificuldades de comunicação, com consequente isolamento social, baixa autoestima, sintomas depressivos e risco aumentado de declínio cognitivo5. Apesar de não ameaçar a sobrevida do idoso, a presbiacusia causa grande impacto na qualidade de vida do idoso e sua família, apontando para necessidade do diagnóstico precoce.

A prevalência de deficiência auditiva em idosos varia de 30 a 90%, aumentando sua incidência e grau de comprometimento com o avançar da idade6. A presbiacusia é a terceira patologia mais prevalente nesta faixa etária, perdendo apenas para artrite e hipertensão arterial7. Essa alta prevalência da perda auditiva nesta população pode ser explicada por inúmeros fatores como: mutação no DNA mitocondrial, desordens genéticas, hipertensão, diabetes, doença metabólica dentre outras doenças sistêmicas, excesso de ruído e dieta de má qualidade ao longo dos anos e uso de alguns medicamentos810, todos associados e potencializados pelo processo de envelhecimento.

Desde 2004, pela Política Nacional de Atenção à Saúde Auditiva, a população brasileira tem acesso a uma rede de atenção auditiva onde é feito o atendimento integral e universal para o diagnóstico de perdas auditivas, seleção e adaptação de aparelho de amplificação sonora individual (AASI) e reabilitação auditiva, quando necessário11. Para que possam ter o direto ao diagnóstico e tratamento adequados, é um dever de todo profissional que lida com o idoso se atentar à possibilidade de perda auditiva e encaminhá-lo para avaliação detalhada quando houver suspeita. No entanto, identificar a possibilidade de perda auditiva ainda representa um problema, uma vez que o idoso muitas vezes não reconhece o seu problema ou não o manifesta.

O diagnóstico das perdas auditivas é feito por meio da audiometria tonal liminar, exame realizado por fonoaudiólogos ou médicos, que permite estabelecer o tipo e o grau da perda auditiva. Além da audiometria tonal liminar, o diagnóstico é complementado pela audiometria de fala, em que é possível avaliar a discriminação e a detecção da fala e classificar o prejuízo para comunicação decorrente da perda auditiva. No entanto, a avaliação audiológica considerada padrão ouro para o diagnóstico da perda auditiva exige equipamentos de alto custo, profissionais especializados e ambiente adequado12, o que dificulta sua implementação na atenção básica, principalmente quando nos afastamos dos grandes centros urbanos. Por esse motivo, milhares de idosos assistidos na atenção básica são subdiagnosticados em relação à presbiacusia e passam a sofrer as consequências da perda auditiva, como isolamento social, incompreensão, depressão, declínios cognitivos, muitas vezes evitáveis se tivessem a oportunidade de diagnóstico e reabilitação5. Além disso, raramente os idosos são avaliados quanto ao impacto da perda auditiva na qualidade de vida.

Uma possível forma de avaliar a autopercepção auditiva do idoso seria por meio da escala subjetiva de faces, no entanto, esse método nunca foi estudado para avaliar a presbiacusia. A escala subjetiva de faces tornou-se um instrumento comum de medida da dor a partir dos anos 1980, especialmente em populações pediátricas por conta de sua simplicidade e aplicabilidade13,14. Normalmente, essas escalas possuem de cinco a sete faces estilizadas, e cada figura consiste em um círculo com olhos que não mudam, e uma boca que varia desde um sorriso de quase meio-círculo para cima, que indica sentimento de felicidade ou extrema satisfação, até um outro meio-círculo semelhante voltado para baixo, sentimento de tristeza ou extrema insatisfação15. É solicitado ao paciente que aponte a face que melhor representa sua autopercepção ou sentimento sobre o problema que está sendo avaliado.

Por ser um instrumento simples, de fácil aplicação e rápido, o presente estudo se propôs a avaliar a correlação existente entre a escala subjetiva de faces com os limiares auditivos e com o índice percentual de reconhecimento de fala, além de avaliar as qualidades psicométricas da escala subjetiva de faces como novo instrumento de triagem auditiva em idosos.

Método

Esta pesquisa foi aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Instituição onde foi realizada.

Trata-se de estudo transversal com avaliação da correlação entre os resultados de exames audiológicos realizados em uma população idosa e a percepção subjetiva da perda auditiva avaliada por meio da escala de faces. Além disso, o estudo apresenta medidas da acurácia do teste subjetivo de faces e do teste do sussurro para rastreamento de perda auditiva nesta população.

Foram avaliados todos os pacientes encaminhados para o serviço de audiologia de um centro de referência de atenção à saúde do idoso, de um hospital universitário público no período de fevereiro a novembro de 2013. Conforme a rotina do serviço, todos os pacientes encaminhados para avaliação audiológica realizaram anamnese, meatoscopia, audiometria tonal e vocal.

Foram incluídos neste estudo todos os idosos com idade superior a 60 anos que consentiram participar da pesquisa mediante assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido. Neste caso, além da avaliação audiológica de rotina para a qual foram encaminhados, os idosos também foram submetidos à Escala Subjetiva de Faces e teste do sussurro.

Os critérios de exclusão foram indivíduos incapazes de entender os procedimentos, não completar a avaliação audiológica proposta, obstrução de meato acústico externo, comprometimento auditivo condutivo ou misto, perda auditiva assimétrica ou que possuíam classificação de grau de perda auditiva diferente para cada orelha. Estes critérios visaram a identificação adequada de quadro neurossensorial e simétrico característico da presbiacusia.

Assim, foram convidados para participar do estudo 185 idosos, sendo excluídos 21. A amostra final foi composta por 164 participantes, sendo 104 do sexo feminino (63%) e 60 do sexo masculino (37%), com média de idade de 77 anos (± 8,129), sendo 83% com 4 anos ou menos de escolaridade.

Os testes foram realizados em uma sala silenciosa, com o paciente sentado. A avaliação audiológica bem como o teste do sussurro e a escala subjetiva de faces foram realizados por fonoaudióloga experiente. Os procedimentos foram realizados na seguinte ordem: anamnese, meatoscopia, escala subjetiva de faces, teste do sussurro, audiometria tonal e vocal. Foram utilizados os seguintes instrumentos:

  1. Escala subjetiva de faces para avaliação da autopercepção da audição: a partir de uma figura grande e visível, que apresenta cinco faces estilizadas (Figura 1), o avaliador realizou uma breve explicação das faces e suas diferenças, certificando-se que o idoso era capaz de perceber visualmente a diferença entre as elas e solicitou: escolha um rosto que represente a sua satisfação com a sua audição. Caso não houvesse compreensão da solicitação a pergunta era refeita a fim de garantir a compreensão do idoso.

  2. Teste do sussurro: a apresentação do estímulo foi realizada por meio da fala sussurrada do examinador, posicionado a uma distância de aproximadamente 33 centímetros da orelha do participante, fora de seu campo visual, utilizando-se a frase padrão: “Qual é o seu nome?” Classificou-se o resultado como teste positivo ou negativo para perda auditiva. Considerou-se como teste positivo para perda auditiva quando o idoso não foi capaz de compreender ou responder corretamente a pergunta feita.

  3. Avaliação audiológica: realizou-se avaliação audiológica em audiômetro AVS - 500 - Vibra Som, por fonoaudióloga, pesquisadora deste estudo, utilizando-se o mesmo método de coleta dos limiares nas frequências de 250 a 8000 Hz por via aérea e de 500 a 4000 Hz por via óssea. Classificou-se o grau da perda auditiva segundo o valor médio dos limiares auditivos tonais de via aérea nas frequências de 500, 1000, 2000 e 4000 Hz. Considerou-se como ausência de perda auditiva média < 21dB, perda auditiva leve média entre 21 - 40 dBNA, perda auditiva moderada de grau I média entre 41-55 dBNA, perda auditiva de grau II média entre 56-70 dBNA e perda auditiva severa a profunda média > 70 dBNA16.

Figura 1 Escala Subjetiva de Faces. 

O teste de reconhecimento de fala foi realizado apresentando-se uma lista de 25 palavras monossilábicas em cada uma das orelhas a 40 dB acima da média dos limiares de audibilidade de 500, 1000 e 2000 Hz. Posteriormente calculou-se o IPRF (Índice percentual de reconhecimento de fala), sendo valores superiores a 92% considerados normais.

O teste de Kolmogorov-Smirnov foi realizado para avaliar a normalidade das variáveis. Aplicou-se o teste Kruskal-Wallis para avaliar a diferença entre as medianas do limiar auditivo e IPRF em relação a cada face e a correlação de Spearman para avaliar a existência de correlação entre o grau da perda auditiva e o IPRF com a escala subjetiva de faces. Para determinar o quão boa foi a relação, utilizou-se a seguinte escala de classificação:0 – 0,2: Correlação péssima; 0,21 – 0,4: Correlação ruim; 0,41 – 0,6: Correlação regular; 0,61 – 0,8: Correlação boa; 0,8 – 1,0: Correlação ótima17.

Foram calculados os valores de sensibilidade, especificidade, valor preditivo positivo (VPP) e valor preditivo negativo (VPN) para todos os pontos de corte da escala subjetiva de faces com a finalidade de verificar a habilidade da escala subjetiva de faces de diferenciar idosos com e sem presbiacusia. Assim como, foi determinada a área sob a curva ROC para a escala subjetiva de faces e do teste do sussurro.

Resultados

A Figura 2 apresenta o perfil audiométrico dos participantes do estudo indicando a mediana das intensidades (dBNA) por frequência (Hz) e orelha. A mediana do IPRF foi 80 dBNA tanto para orelha direita quanto para a esquerda (mínimo 0 e máximo 100). O valor p para análise pareada (teste Wilcoxon) foi de p = 0,664 para IPRF e p > 0,05 para os limiares da audiometria, indicando simetria do perfil audiológico entre as orelhas. Diante disso, para a análise dos dados realizou-se a média dos resultados obtidos entre a orelha direita e a esquerda para cada participante e, dessa forma, cada idoso apresentou um resultado para o limiar auditivo médio e um resultado para o IPRF.

Figura 2 Perfil audiométrico dos participantes do estudo: mediana dos limiares auditivos da orelha direita e esquerda. 

A Figura 3 apresenta a correlação entre a escala subjetiva de faces com o limiar auditivo dos idosos (Figura 3A) e com o percentual de reconhecimento de fala (Figura 3B). As correlações entre a escala subjetiva de faces com o limiar auditivo (r = 0,66) e com o percentual de reconhecimento de fala (r = −0,70) indicaram que quanto maior a insatisfação em relação à audição maior é o limiar auditivo (ou seja, maior o grau da perda auditiva) e menor é o percentual de reconhecimento de fala (ou seja, pior o desempenho no reconhecimento de fala).

Figura 3 (A) Correlação entre a escala subjetiva de faces com o limiar auditivo dos idosos. (B) Correlação entre a escala subjetiva de faces com o resultado do percentual de reconhecimento de fala. r = grau de correlação (Spearman). 

Na Figura 4, está descrita a análise comparativa entre cada face e as medianas do limiar auditivo e do IPRF. Em relação ao limiar audiológico, os resultados indicam que houve diferença com relevância estatística ao comparar todas as faces, exceto entre as faces 4 x 5 (Figura 4A). Quanto ao IPRF, os resultados indicam que houve diferença com relevância estatística ao comparar todas as faces exceto entre as faces 1 x 2 e 4 x 5 (Figura 4B).

Figura 4 (A) Análise comparativa entre as medianas do limiar auditivo em relação a cada face. (B) Análise comparativa entre as medianas do índice percentual de reconhecimento de fala em relação a cada face. p = probabilidade de significância (teste Kruskal-Wallis). 

A Tabela 1 mostra os valores de sensibilidade, especificidade, valores preditivos e acurácia da escala subjetiva de faces e do teste do sussurro. As áreas sob a curva ROC foram 0,80 para o teste do sussurro e 0,81 para o teste subjetivo de faces.

Tabela 1 Sensibilidade, especificidade e valores preditivos da escala subjetiva de faces e do teste do sussurro em relação à perda auditiva. 

Pontos de corte Teste do sussurro
Sensibilidade 88,9% 71,4% 27,0% 12,7% 76,2%
Especificidade 52,6% 78,9% 100% 100% 84,2%
Valor preditivo positivo 86,6% 91,8% 100% 100% 94,1%
Valor preditivo negativo 58,8% 45,4 % 29,2% 25,7% 51,6%

Discussão

Este estudo foi motivado pela importância de se avaliar testes de triagem auditiva para aplicação principalmente na atenção básica. É esperado que os testes de rastreamento apresentem boa acurácia, sejam rápidos e de fácil aplicação, não necessitando de equipamentos, locais ou treinamentos específicos para aplicá-los.

O estudo foi realizado em um ambulatório de audiologia com população encaminhada após consulta geriátrica. Desta forma, a prevalência de perda auditiva foi encontrada em 76,8% dos idosos, condizente com outros estudos que utilizaram amostras ambulatoriais18,19, porém superior a estudos que utilizaram amostras populacionais20.

Com base na avaliação audiométrica, as perdas auditivas foram classificadas e, como esperado21, os graus leve e moderado grau I foram os mais frequentes, com prevalência de 35% e 36% respectivamente, confirmando a característica da presbiacusia de início lento e gradual, também demonstrado no perfil audiométrico mediano da amostra (Figura 2). Estas características fazem com que esta dificuldade muitas vezes seja percebida tardiamente pelos idosos e negligenciada por seus familiares, muitas vezes não sendo referidas nas consultas de geriatria/gerontologia22. A Figura 3 demonstra uma boa correlação entre a escala subjetiva de faces e o limiar audiométrico e o reconhecimento de fala. Estes resultados somados aos achados da Figura 4 permitem dizer que há correspondência entre as faces e o grau da perda auditiva, sendo a face 1 correspondente a audição normal (até 20dB NA), a face 2 a perda auditiva leve (entre 25 e 40 dBNA) e a face 3 a perda auditiva moderada grau I (entre 40 e 55 dBNA). A diferença entre as faces foi comprovada estatisticamente, conforme os valores de p apresentados na Figura 4. As faces 4 e 5, apesar de não se diferenciaram entre si (p < 0,44), também estão correlacionadas a perda auditiva moderada grau II.

Quando se analisa a escala subjetiva de faces em relação à discriminação da fala, observa-se uma correlação negativa boa (r = −0,70) indicando que a dificuldade em reconhecer a fala influencia a avaliação subjetiva de faces. Na Figura 4, verifica-se que não há diferença estatisticamente significantes entre as faces 1 e 2, sendo que ambas podem representar nenhuma dificuldade ou dificuldade discreta em relação à compreensão da fala. No entanto, a partir da face 3 (neutra), pode-se associar a presença de dificuldade na compreensão de fala com discriminação inferior a 80%. As faces 4 e 5 também refletem o comprometimento comunicativo, sendo que valores inferiores a 50% comprometem a capacidade de acompanhar a conversação23.

Estes resultados permitem afirmar que o impacto da perda auditiva é influenciado por sua magnitude, ou seja, quanto mais acentuada a perda, maiores são os prejuízos auditivos e comunicativos. A escala subjetiva de faces foi utilizada neste estudo com o objetivo de avaliar sua acurácia e capacidade de representação da dificuldade auditiva autopercebida. Apesar de se tratar de uma avaliação subjetiva altamente influenciada por expectativas e experiências de vida individuais, a escala se mostrou condizente com a realidade auditiva dos sujeitos avaliados.

De maneira geral, as perdas auditivas leves (até 40 dBNA) são bem sutis, muitas vezes imperceptíveis ao sujeito, que continua capaz de compreender a fala em ambientes silenciosos e perceber a maioria dos sons ambientais familiares. Sua dificuldade fica restrita à percepção da fala em fraca intensidade ou distante, sem prejuízo social. Já as perdas auditivas moderadas (grau I – até 55 dBNA e grau II- até 70 dBNA) têm impacto um pouco maior, uma vez que a fala precisa ser dita em intensidade mais elevada com necessidade de leitura labial para complementar a informação ouvida e acompanhar a conversação23. Desta forma, ambientes ruidosos são extremamente prejudiciais para uma boa comunicação. Neste caso, há dificuldade para conversação em grupo, incomodando não apenas o idoso, mas também seus familiares. O mesmo acontece com o volume da televisão que necessita ser aumentado provocando irritação e desentendimentos entre os que convivem com este idoso24,25. A partir desse ponto, a perda auditiva tem potencial para afastar o idoso de seu convívio social e familiar. Neste estudo, o maior grau de perda auditiva correlacionou-se positivamente com pior satisfação na escala subjetiva de faces.

Ao avaliar a capacidade discriminativa da escala subjetiva de faces, verifica-se que face 3 (neutra) apresenta bons índices de sensibilidade (71,4%) e especificidade (78,9%). Além disso, deve-se destacar a alta sensibilidade da face 2 (88,9%) que também deve ser aventada em situações de rastreamento (Tabela 1). No entanto, não há na literatura pesquisada outros estudos que utilizaram a escala de faces como instrumento de triagem auditiva que permitam discutir com os resultados aqui encontrados. Dessa forma, utilizou-se o teste do sussurro, tradicionalmente utilizado em serviços de gerontologia para discussão dos resultados. Assim, em comparação ao teste do sussurro, o teste subjetivo de faces apresentou valores de sensibilidade e especificidade semelhantes (Tabela 1), indicando que o teste de faces tem propriedades psicométricas discriminativas similares ao teste mais comumente indicado para rastreamento na atenção básica e em serviços especializados de Geriatria e Gerontologia. Deve-se ressaltar ainda que apesar de ser um teste simples, o teste do sussurro precisa ser aplicado com cautela, uma vez que exige ambiente silencioso e alguma prática do avaliador pois não há padronização da técnica para aplicá-lo. Além disso, o teste do sussurro não considera na avaliação a percepção do idoso em relação à perda auditiva, prejuízos, funcionalidade e impacto social, familiar e psicológico. Desta forma, a escala subjetiva de faces pode representar um importante instrumento complementar de triagem funcional da audição, considerando suas características psicométricas (área sob curva ROC = 0,81), sua simplicidade e facilidade de aplicação, uma vez que é um instrumento originalmente desenvolvido para a população com dificuldade de comunicação como a pediátrica13,14.

Na tentativa de identificar perdas auditivas nos idosos e avaliar a magnitude das dificuldades, questionários de autopercepção, como o Hearing Handcap Inventory for Elderly (HHIE)25,26 têm sido utilizados em estudos nacionais e internacionais com resultados satisfatórios quando comparados aos testes de diagnóstico audiológico27,28. No Brasil, o HHIE se mostrou um instrumento de triagem auditiva com alta sensibilidade e especificidade na identificação de perdas auditivas em idosos que procuram serviços de saúde29. Na índia, um estudo com 175 idosos demonstrou que o HHIE possui melhor desempenho para as perdas auditivas mais acentuadas30.

Outras formas de autorrelato da percepção auditiva têm sido consideradas indicativas de presença/ausência de perda auditiva. Um grande estudo japonês realizado com 12.495 funcionários de uma empresa de tecnologia relatou uma concordância entre o autorrelato da deficiência auditiva por meio de uma pergunta e resultado da audiometria tonal em 83% dos idosos, concluindo que a avaliação subjetiva da deficiência auditiva pode ser utilizada como instrumento de triagem auditiva31.

A percepção do idoso em relação à sua audição pode estar sujeita a diversas questões que envolvem a experiência de vida, a cultura, a escolaridade, a cognição e o contexto em que está inserido, que poderão influenciar na capacidade de adaptação e aceitação da deficiência e do processo de envelhecimento. Além disso, o caráter lento, gradual e progressivo da presbiacusia faz com que o idoso desenvolva mecanismos de adaptação, como reorganização do ambiente, utilização de recursos alternativos e afastamento de situações que possam representar obstáculos à sua comunicação, diminuindo o impacto da deficiência auditiva no seu contexto de vida e, possivelmente, aumentando seus prejuízos sociais32.

Apesar dos resultados favoráveis ao uso da escala subjetiva de faces como instrumento de triagem em idosos, deve-se considerar mais estudos para explorar as relações entre satisfação, percepção da perda e deficiência auditiva para avaliar suas qualidades psicométricas na atenção básica.

Por fim, não é demais alertar que apesar de seu caráter irreversível, a presbiacusia é progressiva e pode ser tratada e reabilitada com excelentes dispositivos eletrônicos de amplificação sonora disponibilizados pelos Serviços de Atenção à Saúde Auditiva na Saúde Pública11. É importante destacar que, a despeito da presença da queixa, o diagnóstico e a intervenção devem ocorrer o quanto antes para o sucesso na adaptação e uso destes dispositivos, pois quanto menor a privação auditiva, mais preservada estarão as habilidades do processamento auditivo e, consequentemente, melhor será a readaptação do idoso ao universo sonoro33.

Conclusão

Pelo presente estudo, a escala subjetiva de faces se mostrou um instrumento de triagem auditiva auxiliar em serviços gerontológicos, de fácil aplicação e baixo custo. Futuros estudos devem ser realizados para determinar suas características psicométricas na atenção básica.

Referências

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Recebido: 25 de Julho de 2016; Revisado: 08 de Dezembro de 2016; Aceito: 10 de Dezembro de 2016

Colaboradores

LP Costa-Guarisco trabalhou na concepção do trabalho e na coleta de dados, na redação do manuscrito, na análise dos dados e revisão final do manuscrito. D Dalpubel, L Labanca e MHN Chagas trabalharam na redação do manuscrito, na análise dos dados e revisão final do manuscrito.

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