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Ciência & Saúde Coletiva

Print version ISSN 1413-8123On-line version ISSN 1678-4561

Ciênc. saúde coletiva vol.22 no.12 Rio de Janeiro Dec. 2017

http://dx.doi.org/10.1590/1413-812320172212.04492016 

Temas Livres

Uso de serviços odontológicos de forma regular na população de Montes Claros, MG, Brasil

The use of dental services on a regular basis in the population of Montes Claros in the State of Minas Gerais, Brazil

Danilo Lima Carreiro1 

João Gabriel Silva Souza2 

Wagner Luiz Mineiro Coutinho3 

Raquel Conceição Ferreira4 

Efigênia Ferreira e Ferreira4 

Andrea Maria Eleutério de Barros Lima Martins5 

1Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Norte de Minas. R. Cel. Luís Píres 202, Centro. 39400-106 Montes Claros MG Brasil. danilolimacarreiro@gmail.com

2Faculdade de Odontologia de Piracicaba, Universidade Estadual de Campinas. Piracicaba SP Brasil

3Instituto de Ciências da Saúde, Associação Educativa do Brasil. Montes Claros MG Brasil

4Faculdade de Odontologia, Universidade Federal de Minas Gerais. Belo Horizonte MG Brasil

5Departamento de Odontologia, Universidade Estadual de Montes Claros. Montes Claros MG Brasil

Resumo

Avaliou-se o uso de serviços odontológicos de forma regular entre os residentes de Montes Claros (MG), assim como os aspectos relacionados a esse uso. Estudo transversal realizado com amostra complexa probabilística por conglomerados. Utilizou-se a análise de regressão logística (OR/IC95%). Dos 2582 participantes do estudo, 761 necessitaram de serviços odontológicos e obtiveram acesso a eles há menos de um ano. Destes, 262 (35,8%) fizeram uso dos serviços de forma regular. Esse uso foi maior entre os indivíduos na faixa etária “≥ 18 ≤ 37”; com escolaridade “igual ou maior a 9 anos”; que classificaram sua saúde bucal, saúde geral e a aparência dos dentes e gengivas como “ótima/boa”; que não relataram dor nos dentes e gengivas nos últimos seis meses; que relataram que o “prestador da assistência possuía habilidades adequadas”; que “sempre/frequentemente” receberam informações sobre higiene bucal e sobre dieta/alimentação. Em adição, esse uso foi menor entre os que classificaram o tempo para fazer perguntas sobre o problema bucal ou tratamento como “regular/ruim/péssimo”. Conclui-se que o uso de serviços odontológicos de forma regular foi relativamente baixo, sendo associado a características pessoais, condições subjetivas de saúde e características relacionadas aos serviços.

Palavras-chave Odontologia preventiva; Saúde bucal; Serviços de saúde bucal

Abstract

The use of dental services on a regular basis by residents of Montes Claros (MG) was assessed, as well as related aspects. Cross-sectional study was conducted with a complex probabilistic sample by conglomerates. Logistic regression was used (OR/CI95%) with a significance level of 5. Of the 2582 study participants, 761 required and obtained access to the services for less than a year. Of these, 262 (35.8%) used the services in a regular/routine manner. The use of dental services on a regular basis was greatest among individuals in the age group “≥ 18 ≤ 37”; with schooling “equal to or greater than 9 years”; who classified their oral health, general health and appearance of teeth and gums as “excellent/good”; who reported no pain” on teeth and gums over the last six months; They reported that the “assistance provider had adequate skills”; that they “always/often” received information about oral hygiene and diet/nutrition. In addition, this use was lower among those who rated the time to ask questions about the dental problem or treatment as “regular/bad/terrible.” The conclusion drawn is that the use of dental services on a regular basis was relatively low, being associated with personal traits, subjective health conditions and characteristics related to the services.

Key words Preventive dentistry; Oral health; Dental health services

Introdução

A atenção à saúde bucal no Brasil tem passado por transformações da assistência com um maior enfoque na promoção de saúde e prevenção de doenças, pautadas, principalmente na educação em saúde, requalificação da atenção e a ampliação do acesso aos serviços1-3. Apesar dos avanços alcançados no processo de atenção à saúde bucal e nas políticas públicas relacionados à esta atenção3,4, ainda pode-se constatar desigualdades sociais no uso de serviços odontológicos entre as regiões do Brasil e também entre os indivíduos5-7. Tal disparidade pode estar relacionada às características contextuais de cada realidade, bem como com as características individuais das pessoas. Além disso, observa-se uma alta prevalência de agravos bucais na população brasileira, tais como cárie dentária, doença periodontal e perdas dentárias, como demonstrado pelo último levantamento epidemiológico das condições de saúde bucal da população brasileira, realizado pelo Ministério da saúde em 2010 (SB Brasil 2010)8. Tal fato é ainda agravado quando se observa uma prevalência relevante de indivíduos que nunca fizeram uso de serviços odontológicos entre os diferentes contingentes populacionais8. Essa realidade em que o uso de serviços odontológicos é baixo demonstra a necessidade de consolidação das políticas públicas existentes de saúde que fomentem programas educativos, acesso da população e uso de serviços odontológicos de forma regular6.

Na literatura, verifica-se uma escassez de estudos que avaliaram o uso para a prevenção ou comportamentos odontológicos preventivos9. Ademais, os fatores associados aos diversos usos (preventivos, curativos ou reabilitadores) são distintos10. Cabe ressaltar que o uso regular é um hábito importante para a saúde bucal do sujeito6. O uso regular dos serviços pode ser um importante preditor da saúde bucal, podendo levar à execução de tratamentos de caráter preventivo11, evitando, assim, a ocorrência de problemas bucais e, consequentemente, reduzindo a propensão a perdas de horas de trabalho, decorrentes desses problemas12. Diferentes contingentes populacionais têm sido avaliados quanto ao uso regular de serviços odontológicos, tais como: pré-escolares13, adultos14 e idosos6, sendo esse uso associado, principalmente, a melhores condições socioeconômicas, características do serviço e condições subjetivas de saúde6,13,14.

O modelo teórico mais utilizado, que tem como objetivo avaliar os fatores associados ao uso de serviços odontológicos, foi proposto por Andersen e Davidson10. Tal modelo foi desenvolvido para adultos e idosos nos Estados Unidos e demonstra que as variáveis exógenas (grupos étnicos e corte etário) possuem influência sobre os determinantes primários de saúde bucal (características do ambiente externo, saúde geral relatada, sistema de atenção à saúde bucal e características pessoais dos sujeitos). Estes últimos também possuem influência sobre comportamento de saúde bucal (compreendem as práticas pessoais e o uso formal de serviços, seja ele preventivo, curativo ou reabilitador) que, por sua vez, influenciam os desfechos em saúde bucal (condição de saúde bucal avaliada por um profissional da odontologia, percepção da condição de saúde bucal e a satisfação do paciente). Tal modelo tem sido utilizado com o intuito de identificar possíveis fatores associados ao uso de serviços odontológicos15.

Nesse sentido, verifica-se que os comportamentos de saúde bucal são variáveis intermediárias, possivelmente preditoras dos desfechos de saúde bucal e dependentes dos determinantes de saúde bucal. O uso de serviços odontológicos de forma regular é perceptível no domínio Comportamentos de Saúde Bucal. Tais comportamentos demonstram que o indivíduo faz o uso formal dos serviços, neste caso, para a prevenção; destaca-se que o modelo proposto por Andersen & Davidson também considera as possibilidades de uso desses serviços com fins curativos ou reabilitadores. As interações apresentadas no modelo são dinâmicas e possuem caráter retroalimentador, em que os desfechos de saúde bucal determinam e são determinados pelos comportamentos de saúde bucal10.

No Brasil, constata-se uma carência de pesquisas que tenham investigado fatores associados ao uso de serviços odontológicos de forma regular. Portanto, o presente estudo teve por objetivo avaliar o uso dos serviços odontológicos de forma regular entre residentes de um município brasileiro de grande porte populacional. Considerou-se o modelo teórico proposto por Andersen e Davidson10.

Metodologia

Trata-se de um estudo transversal, realizado em 2012, na área urbana de Montes Claros (MG), sendo considerado um participante para cada unidade domiciliar, com idade ≥ 18 anos e que tivesse utilizado serviços odontológicos nos últimos 12 meses. No cálculo amostral para a população finita (N=344.427/IBGE, 2010), considerouse a estimativa para proporções da ocorrência dos eventos ou doenças em 50% da população, um erro de 5%, taxa de não resposta de 20%, e um deff (design effect - efeito de desenho) de 2,0. No primeiro estágio do planejamento amostral por conglomerado, foram sorteados 30 setores censitários do município a partir da amostragem proporcional ao tamanho. No segundo estágio, sorteou-se um percentual de quadras em cada um dos 30 setores selecionados. Todos os domicílios das quadras selecionadas foram visitados e as pessoas que atendessem aos critérios de inclusão foram convidadas a participar do inquérito. Por fim, foram atribuídos pesos diferenciados aos elementos da amostra, sendo estes calculados através do inverso do produto das probabilidades de inclusão nos diversos estágios de seleção16. Estimou-se uma amostra de 2582 representantes domiciliares.

As entrevistas foram realizadas por estudantes dos cursos de graduação em medicina, odontologia e matemática, de uma instituição de ensino superior pública, que foram devidamente treinados.

A variável dependente - uso de serviços odontológicos de forma regular - foi definida entre aqueles que relataram ter utilizado o serviço no último ano e de forma regular. Para construção da variável dependente foram considerados os indivíduos que precisaram de assistência odontológica a menos de um ano e a obtiveram. A variável dependente foi construída a partir do relato de uso de serviços odontológicos de forma regular, identificado em duas questões, sendo elas: “Você vai ao dentista de forma regular ou periódica?” (sim e não); e “Que problema, melhor descreve por que você precisou de assistência odontológica?” (revisão/prevenção/uso regular/limpeza; sangramento na gengiva; dor de dente; dor na gengiva; colocar aparelho ortodôntico; necessidade de prótese; dor muscular ou próxima ao ouvido; fazer canal; necessidade de fazer restaurações; extrair dente; clarear dentes; outro). O relato de uso de forma regular em ambas as variáveis foi considerado para criação da dependente – essa variável foi nomeada uso de serviços odontológicos de forma regular e dicotomizada em “sim” e “não”.

As variáveis independentes foram agrupadas a partir do modelo teórico de Andersen e Davidson10, conforme descrito anteriormente15: características pessoais; sistema de atenção à saúde bucal; autopercepção da saúde bucal; saúde geral relatada; práticas pessoais e satisfação do paciente.

O grupo referente às características pessoais foi subdivido em predisposição e disponibilidade de recursos. Não foi construído um grupo de variáveis exógenas (estrato etário e etnia), pois, no modelo teórico, verificou-se apenas um único estrato etário e a etnia é apresentada conforme organização sociocultural que se difere do Brasil, em que se usa a terminologia raça/cor6. Nesse sentido, utilizou-se classificação de modo apropriado à realidade nacional e conforme o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Portanto, compôs o subgrupo predisposição as variáveis: sexo; faixas etárias em anos, dicotomizadas pelo limite inferior do intervalo de confiança de 95%; raça/cor declarada; escolaridade expressa em anos17 e estado civil. O subgrupo disponibilidade de recursos compreendeu: renda per capita. Avaliou-se também a situação ocupacional do respondente. Também foram avaliados nesse subgrupo as variáveis: meio de transporte utilizado para chegar ao local da consulta e tempo gasto para chegar ao local da consulta, categorizados pelos quartis.

Para avaliar o grupo referente ao sistema de atenção à saúde bucal, utilizaram-se as seguintes variáveis: cadastrado do domicílio no Programa de Saúde da Família; local da consulta; prestador da assistência odontológica; e como o serviço foi pago.

Compuseram o grupo da autopercepção da saúde bucal variáveis referentes à autopercepção da: saúde bucal geral; mastigação, aparência de dentes e gengivas; fala; relacionamento com outras pessoas decorrente das condições de saúde bucal; e dor de dentes e gengivas, nos últimos 6 meses.

A variável que compôs o grupo saúde geral relatada foi elaborada a partir da pergunta “como você classifica a sua saúde geral?” No grupo de variáveis relacionadas a práticas pessoais, avaliou-se o hábito de fazer o autoexame da boca.

O último grupo está relacionado à satisfação do paciente. Para tal, construiu-se um instrumento estruturado, baseado no questionário sobre avaliação da assistência oftalmológica -Questionário de Responsividade ao Sistema de Assistência Ocular (QRSAO)18. Esse instrumento aborda aspectos sobre a assistência ocular e foi desenvolvido pela Organização Mundial de Saúde (OMS) e traduzido para língua portuguesa e cultura brasileira18. É constituído por questões que abordam prontidão no atendimento, dignidade, privacidade, comunicação, autonomia, escolha e infraestrutura18. Optou-se pela modificação desse instrumento por tratar-se de uma avaliação da responsividade do usuário quanto ao serviço utilizado, seguindo os parâmetros propostos pela OMS. Além disso, apesar de ter sido desenvolvido para a assistência oftalmológica, o instrumento não possui questões específicas apenas para esse tipo de serviço, sendo passível de serem modificadas. A confiabilidade desse instrumento (em sua versão para a assistência odontológica) foi avaliada (concordância boa) antes da coleta de dados e utilizado/descrito em estudo prévio19.

Além disso, o grupo satisfação do paciente considerou as seguintes variáveis: satisfação com os serviços odontológicos; se o prestador de assistência odontológica possuía habilidades adequadas; se os materiais e equipamentos do prestador de assistência odontológica eram adequados para o tratamento.

Para a análise dos dados, empregou-se o software SPSS® 19.0. Para avaliação dos fatores associados ao desfecho (uso regular), foram realizadas análises bivariada e múltipla. Na análise bivariada, foram estimadas odds ratio brutas (OR) e intervalos de confiança de 95% (IC95%), com a correção pelo efeito do desenho amostral. As variáveis independentes que apresentaram nível descritivo menor ou igual a 20% (p ≤ 0,20) foram para a análise múltipla. Foram estimadas as magnitudes das associações do uso regular dos serviços odontológicos com as variáveis independentes investigadas. Utilizou-se regressão logística com correção pelo efeito de desenho, calculouse a Odds Ratio com nível de significância de 5% e intervalos de confiança de 95% (OR/IC 95%).

A investigação atendeu aos princípios da Resolução 196/96 do Conselho Nacional de Saúde (CNS), tendo sido aprovada com parecer consubstanciado quanto à sua realização, pelo Comitê de Ética e Pesquisa da Associação Educativa do Brasil (SOEBRAS).

Resultados

Dos 2582 participantes do estudo, 2581 necessitaram de assistência odontológica. Destes, 1685 obtiveram (63,8%). Dentre os que obtiveram a assistência, 791 (47,0%) haviam sido atendidos há menos de um ano, e 29 não souberam informar. Sendo assim, o uso regular foi avaliado em 761 indivíduos, destes, 262 (35,8%) relataram uso de forma regular (Figura 1).

Figura 1 Fluxograma dos participantes do inquérito epidemiológico sobre uso da assistência odontológica, Montes Claros - MG, 2012. 

Dentre os indivíduos incluídos, identificouse uma maior predominância de indivíduos com idade entre 18 e 37 anos, do sexo feminino, com renda per capita menor que um salário mínimo, e que haviam utilizado serviço odontológico particular/convênio (Tabela 1).

Tabela 1 Características pessoais, sistema de atenção à saúde bucal, autopercepção da saúde bucal, saúde geral relatada, práticas pessoais e satisfação do paciente entre usuários dos serviços odontológicos de Montes Claros, MG, 2012 (n = 761) 

n %*
CARACTERÍSTICAS PESSOAIS
PREDISPOSIÇÃO
Sexo
Masculino 211 27,2
Feminino 550 72,8
Faixa etária em anos**
> 37 ≤ 84 350 48,2
≥ 18 ≤ 37 400 51,8
Raça ou cor**
Parda/preta 558 72,1
Branca/amarela 202 27,9
Escolaridade em anos**
De 0 a 8 202 24,8
Igual ou maior que 9 559 75,2
Estado civil
Solteiro 271 38,4
Separado/divorciado/viúvo 76 9,8
Casado/união estável 414 51,8
DISPONIBILIDADE DE RECURSOS
Renda per capita
Menor que um salário mínimo 512 73,5
Maior ou igual a um salário mínimo 171 26,5
Situação ocupacional**
Desempregado 182 22,7
Nunca trabalhou 88 13,3
Aposentado/pensionista 60 8,9
Trabalha 430 55,1
Meio de transporte utilizado para chegar ao local da consulta**
Andou/bicicleta/outros 302 43,1
Transporte público/moto-táxi 164 19,4
Veículo particular/táxi 290 37,5
Tempo gasto para chegar ao local da consulta**
≥ 30 ≤ 120 minutos 92 10,5
≥ 15 < 30 minutos 247 30,5
≥ 10 < 15 minutos 124 16,7
≥ 0 <10 minutos 294 42,3
SISTEMA DE ATENÇÃO À SAÚDE BUCAL
O domicílio estava cadastrado no Programa de Saúde da Família**
Não 252 39,7
Sim 499 60,3
Local da consulta**
Serviço público 191 24,0
Serviço particular/convênio particular 567 76,0
Prestador de assistência odontológica**
Técnico de higiene/agente comunitário/dentista prático/acadêmico 50 5,9
Cirurgião dentista/clínico geral 245 37,2
Cirurgião dentista/especialista 380 57,0
Como o serviço foi pago**
Não pagou/sistema público/filantrópico 191 24,0
Plano de saúde 129 16,7
Particular sem reembolso 439 59,3
AUTOPERCEPÇÃO DA SAÚDE BUCAL
Como você classificaria a sua saúde bucal?**
Regular/ruim/péssima 185 23,1
Ótima/boa 572 76,9
Como você classificaria a sua mastigação?**
Regular/ruim/péssima 264 32,0
Ótima/boa 495 68,0
Como você classificaria a aparência de seus dentes e gengivas?**
Regular/ruim/péssima 227 26,9
Ótima/boa 533 73,1
Como você classificaria a sua fala devido aos dentes e gengivas?**
Regular/ruim/péssima 105 12,4
Ótima/boa 656 87,6
De que forma a sua saúde bucal afeta o seu relacionamento com outras pessoas?**
Mais ou menos/muito/afeta extremamente 66 7,7
Não afeta/afeta pouco 695 92,3
O quanto de dor os seus dentes e gengivas lhe causaram nos últimos seis meses?**
Média/muita/dor extrema 139 15,6
Nenhuma/pouca dor 622 84,4
SAÚDE GERAL RELATADA
Como você classificaria a sua saúde geral?**
Regular/ruim/péssima 188 23,4
Ótima/boa 571 76,6
PRÁTICAS PESSOAIS
Já realizou o autoexame da boca?**
Não 565 74,4
Sim 193 25,6
SATISFAÇÃO DO PACIENTE
Satisfação
Nem satisfeito, nem insatisfeito/parcialmente insatisfeito/muito insatisfeito 69 7,9
Muito satisfeito/parcialmente satisfeito 692 92,1
O prestador de assistência odontológica possui habilidades adequadas?**
Não 42 5,7
Sim 712 94,3
Materiais e equipamentos do prestador de assistência odontológica adequados para o tratamento?**
Não 27 3,5
Sim 716 96,5
QRSAO ….para sua última consulta como você classificaria‥(adaptado para serviços odontológicos)
DOMÍNIO PRONTIDÃO NO ATENDIMENTO
… O tempo de viagem até o prestador de assistência odontológica?**
Regular/ruim/péssimo 166 18,5
Ótimo/bom 589 81,5
… O tempo que você esperou antes de ser atendido?**
Regular/ruim/péssimo 146 18,9
Ótimo/bom 608 81,1
DOMÍNIO DIGNIDADE
… A experiência de ter sido recebido e tratado com respeito?**
Regular/ruim/péssimo 23 3,1
Ótimo/bom 728 96,9
DOMÍNIO PRIVACIDADE
… Sua privacidade foi respeitada durante exames e tratamentos?**
Regular/ruim/péssimo 16 2,1
Ótimo/bom 734 97,9
… A maneira que o serviço foi prestado assegurou que você poderia falar reservadamente**
Regular/ruim/péssimo 58 7,1
Ótimo/bom 690 92,9
DOMÌNIO COMUNICAÇÃO
… A clareza com que o prestador explicou as coisas para você?**
Regular/ruim/péssimo 48 5,5
Ótimo/bom 701 94,5
… Ter tempo suficiente para fazer perguntas sobre seu problema bucal ou tratamento?**
Regular/ruim/péssimo 80 10,2
Ótimo/bom 669 89,8
… A experiência de ter informações sobre outros tipos de exames ou tratamentos?**
Regular/ruim/péssimo 121 15,2
Ótimo/bom 630 84,8
… Recebeu informações sobre como evitar problemas bucais?**
Não 174 21,1
Sim 584 78,9
… Recebeu informações sobre higiene bucal?**
Ocasionalmente/raramente/nunca 147 19,2
Sempre/frequentemente 611 80,8
… Recebeu informações sobre dieta/alimentação?**
Ocasionalmente/raramente/nunca 456 60,3
Sempre/frequentemente 301 39,7
… Recebeu informações sobre como evitar câncer de boca?**
Ocasionalmente/raramente/nunca 516 70,0
Sempre/frequentemente 242 30,0
… Recebeu informações sobre como realizar o autoexame da boca?**
Ocasionalmente/raramente/nunca 594 79,3
Sempre/frequentemente 165 20,7
DOMÍNO AUTONOMIA
… A experiência de estar envolvido em tomar decisões sobre sua assistência ou tratamento?**
Regular/ruim/péssimo 81 11,6
Ótimo/bom 668 88,4
DOMÍNIO ESCOLHA
… A liberdade que teve para escolher o seu prestador de assistência odontológica?**
Regular/ruim/péssimo 95 12,3
Ótimo/bom 652 87,7
Procurou ir ao mesmo dentista ao longo da vida?**
Não 461 60,2
Sim 287 39,8
DOMÍNIO INFRAESTRUTURA
… A limpeza das salas dentro do local de exame, incluindo os banheiros?**
Regular/ruim/péssimo 29 3,3
Ótimo/bom 726 96,7
… A quantidade de espaço na sala de espera e na sala onde foi examinado?**
Regular/ruim/péssimo 101 12,0
Ótimo/bom 653 88,0

*Correção pelo efeito desenho.

**O n° de respondentes foi inferior ao n° de participantes.

***Salário Mínimo vigente = R$ 622,00 ($1,00 = R$ 2,01 maio 2012).

Na análise bivariada, identificou-se associação entre uso de serviços odontológicos de forma regular com variáveis referentes às características pessoais, sistema de atenção à saúde bucal, autopercepção da saúde bucal, saúde geral relatada, práticas pessoais, satisfação do paciente e domínios do QRSAO (Tabela 2).

Tabela 2 Análise bivariada entre o uso de serviços odontológicos de forma regular e características pessoais, sistema de atenção á saúde bucal, autopercepção da saúde bucal, saúde geral relatada, práticas pessoais e satisfação do paciente entre usuários dos serviços odontológicos de Montes Claros, MG, 2012, (n = 761). 

Uso de serviços odontológicos de forma regular OR** IC95%** p
CARACTERÍSTICAS PESSOAIS Não Sim
PREDISPOSIÇÃO %** %**
Sexo
Masculino 54,4 45,6 1,00
Feminino 67,8 32,2 0,57 0,38-0,86 0,010
Faixa etária em anos**
> 37 ≤ 84 7408 25,2 1,00
≥ 18 ≤ 37 55,5 44,5 2,37 1,55-3,65 0,000
Raça ou cor**
Parda/preta 64,5 35,5 1,00
Branca/amarela 63,3 36,7 1,05 0,69-1,61 0,813
Escolaridade em anos**
De 0 a 8 87,1 12,9 1,00
Igual ou maior que 9 56,6 43,4 5,21 3,21-8,43 0,000
Estado civil
Solteiro 54,0 46,0 1,00
Separado/divorciado/viúvo 84,1 15,9 0,22 0,09-0,52 0,003
Casado/união estável 67,9 32,1 0,55 0,38-0,80 0,045
DISPONIBILIDADE DE RECURSOS
Renda per capita
Menor que um salário mínimo 72,2 27,8 1,00
Maior ou igual a um salário mínimo 50,0 50,0 2,60 1,72-3,93 0,000
Situação ocupacional**
Desempregado 68,4 31,6 1,00
Nunca trabalhou 51,7 48,3 2,01 1,11-3,67 0,389
Aposentado/pensionista 73,2 26,8 0,79 0,40-1,57 0,030
Trabalha 63,9 36,1 1,22 0,76-1,97 0,099
Meio de transporte utilizado para chegar ao local da consulta**
Andou/bicicleta/outros 70,1 29,9 1,00
Transporte público/moto-táxi 69,2 30,8 1,04 0,58-1,88 0,007
Veículo particular/táxi 54,3 45,7 1,97 1,22-3,19 0,008
Tempo gasto para chegar ao local da consulta**
≥ 0 <10 minutos 63,8 36,2 1,00
≥ 10 < 15 minutos 60,0 40,0 1,18 0,69-1,99 0,531
≥ 15 < 30 minutos 66,2 33,8 0,90 0,57-1,43 0,645
≥ 30 ≤ 120 minutos 64,7 35,3 0,96 0,46-2,03 0,919
SISTEMA DE ATENÇÃO À SAÚDE BUCAL
O domicílio estava cadastrado no Programa de Saúde da Família**
Não 53,8 46,2 1,00
Sim 71,0 29,0 0,48 0,29-0,77 0,004
Local da consulta**
Serviço público 88,1 11,9 1,00
Serviço particular/convênio particular 57,0 43,0 5,56 2,94-10,54 0,000
Prestador de assistência odontológica**
Técnico de higiene/agente comunitário/dentista prático/acadêmico 76,1 23,9 1,00
Cirurgião dentista/clínico geral 73,2 26,8 1,16 0,43-3,15 0,067
Cirurgião dentista/especialista 56,0 44,0 2,50 0,93-6,68 0,000
Como o serviço foi pago**
Não pagou/sistema público/filantrópico 88,1 11,9 1,00
Plano de saúde 44,0 56,0 9,41 4,48-19,58 0,006
Particular sem reembolso 59,9 40,1 4,94 2,64-9,22 0,000
AUTOPERCEPÇÃO DA SAÚDE BUCAL
Como você classificaria a sua saúde bucal?**
Regular/ruim/péssima 91,9 8,1 1,00
Ótima/boa 56,0 44,0 8,88 3,91-20,16 0,000
Como você classificaria a sua mastigação?**
Regular/ruim/péssima 74,8 25,2 1,00
Ótima/boa 59,0 41,0 2,07 1,25-3,42 0,007
Como você classificaria a aparência de seus dentes e gengivas?**
Regular/ruim/péssima 82,3 17,7 1,00
Ótima/boa 57,4 42,6 3,46 2,07-5,79 0,000
Como você classificaria a sua fala devido aos dentes e gengivas?**
Regular/ruim/péssima 84,7 15,3 1,00
Ótima/boa 61,3 38,7 3,49 1,72-7,10 0,001
De que forma a sua saúde bucal afeta o seu relacionamento com outras pessoas?**
Mais ou menos/muito/afeta extremamente 81,5 18,5 1,00
Não afeta/afeta pouco 62,7 37,3 2,62 0,92-7,48 0,069
O quanto de dor os seus dentes e gengivas lhe causaram nos últimos seis meses?**
Média/muita/dor extrema 85,9 14,1 1,00
Nenhuma/pouca dor 60,1 39,9 4,05 2,05-8,03 0,000
SAÚDE GERAL RELATADA
Como você classificaria a sua saúde geral?**
Regular/ruim/péssima 84,2 15,8 1,00
Ótima/boa 57,9 42,1 3,86 2,47-6,04 0,000
PRÁTICAS PESSOAIS
Já realizou o autoexame da boca?**
Não 66,2 33,8 1,00
Sim 58,6 41,4 1,49 1,10-2,01 0,130
SATISFAÇÃO DO PACIENTE
Satisfação
Nem satisfeito, nem insatisfeito/parcialmente insatisfeito/muito insatisfeito 93,4 6,6 1,00
Muito satisfeito/parcialmente satisfeito 61,6 38,4 8,79 2,69-28,67 0,001
O prestador de assistência odontológica possui habilidades adequadas?**
Não 90,9 9,1 1,00
Sim 62,3 37,7 6,08 1,14-32,37 0,036
Materiais e equipamentos do prestador de assistência odontológica adequados para o tratamento?**
Não 92,3 7,7 1,00
Sim 63,1 36,9 7,00 1,82-26,90 0,006
QRSAO ….para sua última consulta como você classificaria‥(adaptado para serviços odontológicos)
DOMÍNIO PRONTIDÃO NO ATENDIMENTO
… O tempo de viagem até o prestador de assistência odontológica?**
Regular/ruim/péssimo 56,3 43,7 1,00
Ótimo/bom 65,9 34,1 1,00 0,91-2,47 0,111
… O tempo que você esperou antes de ser atendido?**
Regular/ruim/péssimo 62,2 37,8 1,00
Ótimo/bom 72,6 27,4 0,67 0,40-1,11 0,065
DOMÍNIO DIGNIDADE
… A experiência de ter sido recebido e tratado com respeito?**
Regular/ruim/péssimo 84,7 15,3 1,00
Ótimo/bom 63,2 36,8 3,21 0,92-11,24 0,066
DOMÍNIO PRIVACIDADE
… Sua privacidade foi respeitada durante exames e tratamentos?**
Regular/ruim/péssimo 80,8 19,2 1,00
Ótimo/bom 64,1 35,9 2,35 0,39-14,24 0,336
… A maneira que o serviço foi prestado assegurou que você poderia falar reservadamente**
Regular/ruim/péssimo 79,7 20,3 1,00
Ótimo/bom 62,9 37,1 2,32 1,06-5,08 0,036
DOMÌNIO COMUNICAÇÃO
… A clareza com que o prestador explicou as coisas para você?**
Regular/ruim/péssimo 89,2 10,8 1,00
Ótimo/bom 62,6 37,4 4,96 1,86-13,20 0,003
… Ter tempo suficiente para fazer perguntas sobre seu problema bucal ou tratamento?**
Regular/ruim/péssimo 70,9 29,1 1,00
Ótimo/bom 63,2 36,8 1,42 0,58-3,47 0,428
… A experiência de ter informações sobre outros tipos de exames ou tratamentos?**
Regular/ruim/péssimo 70,4 29,6 1,00
Ótimo/bom 62,9 37,1 1,40 0,69-2,82 0,332
… Recebeu informações sobre como evitar problemas bucais?**
Não 78,9 21,1 1,00
Sim 60,2 39,8 2,47 1,51-4,04 0,001
… Recebeu informações sobre higiene bucal?**
Ocasionalmente/raramente/nunca 82,7 17,3 1,00
Sempre/frequentemente 59,7 40,3 3,23 1,92-5,39 0,000
… Recebeu informações sobre dieta/alimentação?**
Ocasionalmente/raramente/nunca 69,7 30,3 1,00
Sempre/frequentemente 55,5 44,5 1,84 1,30-2,61 0,001
… Recebeu informações sobre como evitar câncer de boca?**
Ocasionalmente/raramente/nunca 66,5 33,5 1,00
Sempre/frequentemente 58,1 41,9 1,43 0,92-2,23 0,110
… Recebeu informações sobre como realizar o autoexame da boca?**
Ocasionalmente/raramente/nunca 66,0 34,0 1,00
Sempre/frequentemente 56,6 43,4 1,49 1,10-2,00 0,011
DOMÍNO AUTONOMIA
… A experiência de estar envolvido em tomar decisões sobre sua assistência ou tratamento?**
Regular/ruim/péssimo 75,0 25,0 1,00
Ótimo/bom 63,1 36,9 1,75 0,76-4,05 0,180
DOMÍNIO ESCOLHA
… A liberdade que teve para escolher o seu prestador de assistência odontológica?**
Regular/ruim/péssimo 78,3 21,7 1,00
Ótimo/bom 61,6 38,4 2,25 0,83-6,05 0,105
Procurou ir ao mesmo dentista ao longo da vida?**
Não 69,0 31,0 1,00
Sim 56,0 44,0 1,75 1,32-2,33 0,000
DOMÍNIO INFRAESTRUTURA
… A limpeza das salas dentro do local de exame, incluindo os banheiros?**
Regular/ruim/péssimo 93,3 6,7 1,00
Ótimo/bom 63,1 36,9 8,16 2,12-31,43 0,004
… A quantidade de espaço na sala de espera e na sala onde foi examinado?**
Regular/ruim/péssimo 25,8 1,00
Ótimo/bom 37,1 1,70 0,75-3,86 0,194

OR bruta: Odds Ratio – valores brutos.

*O n° de respondentes foi inferior ao número de participantes (n = 761).

**Correção efeito desenho. -- Não se aplica.

Na Tabela 3, são apresentados os resultados do modelo final ajustado (p≤0,05) com as variáveis que permaneceram significativamente associadas ao uso de serviços odontológicos de forma regular, sendo tais variáveis associadas: faixa etária, escolaridade, autopercepção da saúde bucal, aparência de dentes e gengivas, dor de dentes, autopercepção da saúde geral, habilidades do profissional na percepção do paciente e variáveis do domínio da comunicação.

Tabela 3 Análise múltipla entre o uso de serviços odontológicos de forma regular e características pessoais, sistema de atenção á saúde bucal, autopercepção da saúde bucal, saúde geral relatada, práticas pessoais e satisfação do paciente entre usuários dos serviços odontológicos de Montes Claros, MG, 2012, (n = 761). 

ORajustada* IC95%* P
CARACTERÍSTICAS PESSOAIS
PREDISPOSIÇÃO
Faixa etária em anos**
> 37 ≤ 84 1,00
≥ 18 ≤ 37 1,82 1,14-2,91 0,050
Escolaridade em anos**
De 0 a 8 1,00
Igual ou maior que 9 3,76 2,14-6,60 0,000
AUTOPERCEPÇÃO DA SAÚDE BUCAL
Como você classificaria a sua saúde bucal?**
Regular/ruim/péssima 1,00
Ótima/boa 3,87 2,03-7,37 0,000
Como você classificaria a aparência de seus dentes e gengivas?**
Regular/ruim/péssima 1,00
Ótima/boa 1,90 1,06-3,38 0,037
O quanto de dor os seus dentes e gengivas lhe causaram nos últimos seis meses?**
Média/muita/dor extrema 1,00
Nenhuma/pouca dor 3,00 1,47-6,14 0,004
SAÚDE GERAL RELATADA
Como você classificaria a sua saúde geral?**
Regular/ruim/péssima 1,00
Ótima/boa 1,81 1,06-3,09 0,034
SATISFAÇÃO DO PACIENTE
O prestador de assistência odontológica possui habilidades adequadas?**
Não 1,00
Sim 4,19 0,93-18,96 0,034
DOMÌNIO COMUNICAÇÃO
… Ter tempo suficiente para fazer perguntas sobre seu problema bucal ou tratamento?**
Ótimo/bom 1,00
Regular/ruim/péssimo 0,40 0,16-0,96 0,010
… Recebeu informações sobre higiene bucal?**
Ocasionalmente/raramente/nunca 1,00
Sempre/frequentemente 2,08 1,26-3,43 0,005
… Recebeu informações sobre dieta/alimentação?**
Ocasionalmente/raramente/nunca 1,00
Sempre/frequentemente 1,66 1,07-2,57 0,031

*Correção efeito desenho.

**O n° de respondentes foi inferior ao número de participantes (n = 761).

Discussão

Ao considerar a adaptação ao modelo teórico de Andersen e Davidson, utilizado no presente estudo, identificou-se que o uso de serviços odontológicos de forma regular manteve-se associado a grupos de variáveis preconizadas pelo modelo (características pessoais, autopercepção da saúde e satisfação do paciente). A variável dependente deste estudo é intermediária, uma vez que as características pessoais da população influenciam o uso dos serviços odontológicos e estes resultam em desfechos de saúde que são a autopercepção da saúde e a satisfação do paciente com os serviços prestados5. Ressalta-se que a associação das questões socioeconômicas e subjetivas de saúde está relacionada ao uso, em estudos prévios6,13,14, de serviços odontológicos de forma regular. No entanto, numa ampla caracterização dos serviços odontológicos utilizados, considerando seus diferentes domínios e a avaliação da associação destes com o uso regular, não tem sido relatada na literatura, fato constatado no presente estudo.

A prevalência do uso regular de serviços odontológicos identificada neste estudo foi baixa. Ao considerar estudos com desenho metodológico similar ao presente inquérito, foram registradas prevalências semelhantes deste, com prevalência de uso entre 24,6%, em Minas Gerais20, e de 32,8%, no Rio Grande do Sul21.

O registro de maior prevalência de uso de forma regular entre pessoas com menor idade, identificado no presente estudo, corrobora com estudos internacionais e nacionais22-24. Entre finlandeses, pesquisa longitudinal identificou tendência de consulta de serviços odontológicos entre indivíduos jovens22. Estudos desenvolvidos em Passo Fundo (RS)23, Campinas (SP)24 e em Ponta Grossa (PR)25, também constataram tal tendência, sendo que, na pesquisa rio-grandense, o fato de possuir mais idade foi o que menos se associou à visita ao dentista, o que pode ter impactado pela maior prevalência de edentulismo entre pessoas nessa faixa etária23. Entretanto, estudo de base populacional dos fatores associados ao uso regular de serviços odontológicos em adultos de Bambuí (MG) identificou que a idade não estava associada à procura pelo serviço20.

Identificou-se maior chance de uso regular dos serviços odontológicos entre pessoas com maior nível de escolaridade. Sabe-se que a prevalência de uso regular de dentista por sujeitos com maior nível de escolaridade é cerca de 10 vezes maior do que entre aqueles menos escolarizados20. Tal comportamento pode ser explicado pela associação entre maior nível de escolaridade com melhor condição socioeconômica e melhor autopercepção da necessidade de cuidados odontológicos, sendo a autopercepção em saúde bucal um fator impactante na procura pelo serviço26,27. Estudos entre norte-americanos22, noruegueses9, canadenses28 e brasileiros6,13,14,20,21,29,30 corroboram com o resultado constatado nesta pesquisa, uma vez que aqueles também registraram maior utilização de serviços entre pessoas com maior nível de escolaridade. Tal informação norteia para a necessidade de uma avaliação acerca das desigualdades em saúde relacionadas às desigualdades socioeconômicas, principalmente no Brasil, país com diferenças regionais e culturais relevantes30. Nessa perspectiva, é necessário avaliar os resultados da implantação de políticas de saúde, como a Política Nacional “Brasil Sorridente”, que busca melhorar a condição de saúde e superar as desigualdades sociodemográficas na saúde bucal, considerando o acesso à assistência odontológica a todas as faixas etárias e níveis de atenção31.

Pessoas que classificaram a saúde bucal, a saúde geral e a aparência dos seus dentes e gengivas como “regular/ruim/péssima” tiveram menor chance de usar de forma regular os serviços odontológicos. Também foi encontrada associação entre o uso e relato de dor dos usuários nos últimos seis meses como média, muita dor ou dor extrema. Estudos prévios envolvendo idosos do Brasil encontraram associação entre uso, percepção da aparência dos dentes e gengivas como regular/ruim/péssima e relato de dor6,27,32. O modelo teórico utilizado neste estudo explica que as características pessoais da população influenciam os comportamentos de saúde, dentre eles o uso de serviços odontológicos, que por sua vez influenciam a autopercepção da saúde. Há que se ressaltar a característica de retroalimentação deste processo10.

O fato de o prestador de assistência odontológica não possuir habilidades adequadas, na percepção do usuário, esteve associado ao menor uso dos serviços odontológicos de forma regular. A atuação na área da saúde é permeada pelas incertezas decorrentes da flutuação das demandas, falta de normatização de procedimentos e até mesmo condução inadequada do profissional. Nesse sentido, é importante a formação de profissionais com habilidades e competências adequadas ao setor de saúde do país, ressaltando-se que o plano de curso prevê essas habilidades. Nesse sentido, deve-se enfatizar esta formação e sempre que possível aproximar os alunos da realidade, de modo que, estes, ao ingressarem no mercado de trabalho, estejam mais preparados para as adversidades da rotina na odontologia. A falta de habilidade do profissional, na perspectiva do usuário, pode ser decorrente da condução inadequada do tratamento, da não resolução do problema, da falta de esclarecimentos ao paciente, da insegurança do profissional, ou até mesmo de descaso com o serviço, o que pode acarretar na influência dos comportamentos de saúde dos usuários33. O sistema de atenção à saúde bucal, é uma variável preditora importante nos resultados de saúde bucal, e tem como função proporcionar ao uso formas dos serviços de saúde odontológica, tanto nos níveis: preventivo, curativo ou restaurador10.

Maior chance de uso de forma regular no último ano também foi encontrada entre pessoas que classificaram como sempre/frequentemente o fato de receber informações sobre higiene bucal e sobre dieta e alimentação. E menor chance foi verificada em indivíduos que classificaram como sempre/frequentemente de terem tempo suficiente para fazerem perguntas sobre o problema bucal ou tratamento. Os achados demonstram a importância das atitudes dos profissionais da área da saúde, tais como: cumprimentar o paciente, ser atencioso, interessar-se pelo caso, utilizar linguagem clara, explicar o problema e dar ao paciente oportunidade para esclarecer suas dúvidas. Essas atitudes podem gerar maior satisfação e consequente uso dos serviços de forma ideal29. O sistema de atenção à saúde bucal, sobretudo a prática dos profissionais, promove bons comportamentos de saúde bucal que influenciam tanto no uso formal dos serviços, como na avaliação satisfatória da assistência prestada10,34. Vale ressaltar que o conhecimento de saúde bucal pode ter relação com os determinantes sociais, haja visto que mulheres com melhor nível socioeconômico conhecem mais adequadamente os cuidados para com a saúde bucal dos seus filhos, bem como são mais frequentemente orientadas sobre tais cuidados26.

No que diz respeito às questões relacionadas ao modelo teórico de Andersen e Davidson, identificou-se associação das variáveis presentes nos grupos propostos e o uso de forma regular dos serviços no último ano. Este é um estudo de base populacional, representativo da população adulta da cidade de Montes Claros e que, ao estudar a utilização dos serviços, incluiu indivíduos que o usaram e que não o usaram, o que proporciona critério de comparação. Entretanto, há que se ressaltar que o uso de serviços odontológicos de forma regular é um comportamento socialmente desejável. Nesse sentido, pessoas podem superestimar as consultas realizadas e, dificilmente, esse comportamento poderá ser verificado em sentido contrário33, tornando-se uma limitação do estudo. Dentre outras limitações deste estudo, ressalta-se o fato de o processo de avaliação ser dinâmico, quanto ao uso de serviços odontológicos na perspectiva e nas variáveis investigadas. Portanto, causas e efeitos certamente variam ao longo do tempo. Sendo este um estudo transversal, pode ocorrer viés de causalidade reversa e, sendo seccional, não permitir estabelecer a relação temporal entre as associações observadas, a interpretação dos achados ser limitada. Por outro lado, destaca-se o fato de se tratar de um estudo de base populacional, com uma amostra representativa do município e que aborda um tema ainda pouco explorado.

Por fim, os resultados encontrados devem ser considerados. Conclui-se que o uso de serviços odontológicos de forma regular foi relativamente baixo. Considerando-se a alta prevalência de problemas bucais de que a população brasileira é acometida e a importância do uso de serviços de saúde bucal de forma regular na prevenção desses problemas, tal prática deve ser incentivada. Constata-se ainda que o uso de forma regular manteve-se associado a características pessoais dos indivíduos, condições subjetivas de saúde e característica do serviço odontológico utilizado. Essas associações demonstram a possível relação entre melhores condições socioeconômicas, melhor percepção da saúde e das condições do serviço odontológico e prestador da assistência, com um maior uso de forma regular. Tais achados devem ser considerados na melhoria das políticas públicas de saúde bucal que visem ao incentivo do uso de serviços odontológicos de forma regular como forma de prevenção a agravos bucais e monitoramento das condições de saúde bucal dos indivíduos.

Agradecimentos

À FAPEMIG pela bolsa de Raquel Conceição Ferreira.

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Recebido: 11 de Junho de 2015; Revisado: 07 de Maio de 2016; Aceito: 09 de Maio de 2016

Colaboradores

DL Carreiro, RC Ferreira e AMEBL Martins participaram do delineamento, coleta e análise dos dados e redação do artigo. JGS Souza e WLM Coutinho participaram da análise de dados e redação do artigo. E Ferreira e Ferreira participou da revisão crítica.

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