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Ciência & Saúde Coletiva

versão impressa ISSN 1413-8123versão On-line ISSN 1678-4561

Ciênc. saúde coletiva vol.23 no.1 Rio de Janeiro jan. 2018

http://dx.doi.org/10.1590/1413-81232018231.18952015 

Temas Livres

Prevalência de sinais e sintomas de disfunção temporomandibular em estudantes pré-vestibulandos: associação de fatores emocionais, hábitos parafuncionais e impacto na qualidade de vida

Marcilia Ribeiro Paulino1 

Vanderlucia Gomes Moreira2 

George Azevedo Lemos3 

Pâmela Lopes Pedro da Silva2 

Paulo Rogério Ferreti Bonan2 

André Ulisses Dantas Batista2 

1Programa de Pós-Graduação em Odontologia, Centro de Ciências da Saúde, Universidade Federal de Pernambuco. Av. da Engenharia, Cidade Universitária. 50670-420 Recife PE Brasil. marcilia.paulino@yahoo.com.br

2Centro de Ciências da Saúde, Universidade Federal da Paraíba. João Pessoa PB Brasil

3Departamento de Biologia Estrutural e Funcional Universidade Estadual de Campinas. Campinas SP Brasil

Resumo

O objetivo deste estudo foi avaliar a prevalência de sinais e sintomas de disfunção temporomandibular (DTM), sua associação com gênero, hábitos parafuncionais, tensão emocional, ansiedade e depressão e, o seu impacto sobre a qualidade de vida relacionada com a saúde oral (QVRSO) em estudantes pré-vestibulandos de instituições públicas e privadas de João Pessoa/PB. A presença de sintomas de DTM foi determinada através de questionário anamnésico, contendo também questões relacionadas à presença de hábitos parafuncionais e tensão emocional. Um protocolo simplificado de avaliação clínica foi aplicado. Ansiedade e depressão foram determinadas através da escala Hospital Anxiety and Depression (HAD) e, a QVRSO avaliada por meio da versão resumida do Oral Health Impact Profile (OHIP-14). Foram realizados testes de Qui-quadrado, Exato de Fisher, Mann Whitney e Kruskal-Wallis. A presença de sinais e sintomas de DTM foi estatisticamente associada ao gênero feminino, hábitos parafuncionais, tensão emocional e ansiedade, e representou maior comprometimento da QVRSO. A elevada prevalência de sinais e sintomas de DTM entre os estudantes pré-vestibulandos sinaliza a necessidade de divulgação e esclarecimento de professores e alunos visando o diagnóstico precoce e a prevenção.

Palavras-chave Transtornos da articulação temporomandibular; Adolescente; Hábitos; Ansiedade; Qualidade de vida

Introdução

A American Academy of Orofacial Pain (AAOP) define disfunção temporomandibular (DTM) como um conjunto de condições dolorosas e/ou disfuncionais relacionados aos músculos da mastigação, às articulações temporomandibulares (ATMs) e estruturas associadas1.

Os principais sinais e sintomas relatados são a dor na região da ATM e na palpação dos músculos da mastigação, dor de ouvido e outros sinais otológicos, ruídos articulares, desvios mandibulares, limitação da abertura bucal, cansaço e fadiga muscular, cefaleia e desgastes dentários26.

Sua etiologia é multifatorial, destacando-se fatores genéticos e comportamentais, trauma direto ou indireto, fatores psicológicos e hábitos posturais e parafuncionais2,79. No entanto, a influência desses agentes etiológicos é controversa e ainda não totalmente compreendida.

Atualmente o modelo biopsicossocial tem ganhado destaque, promovendo uma ampla discussão sobre a influência dos fatores emocionais na etiologia da DTM812. Neste sentido, a tensão emocional, o estresse, a ansiedade e a depressão têm sido associados à presença de sinais e sintomas desta disfunção em diferentes populações9,11,1315. Estes fatores, especialmente o estresse e a ansiedade, podem causar hiperatividade muscular e o desenvolvimento de hábitos parafuncionais, levando a microtraumas da ATM e lesões musculares1618.

Estudos recentes também têm demonstrado que os sintomas de DTM, principalmente a dor, podem promover elevado grau de comprometimento físico e mental, com reflexo negativo sobre a qualidade de vida (QV)1923. Além disso, a literatura tem demonstrado que a gravidade da DTM reflete em maior comprometimento da qualidade de vida relacionada com a saúde oral (QVRSO)23.

Neste estudo, avaliou-se a presença de sinais e sintomas de DTM em uma população de estudantes pré-vestibulandos, em sua maioria, adolescentes no último ano do ensino médio. Segundo Godoy et al.24 esta fase é muitas vezes caracterizada como um período de confusão e ambiguidade devido à necessidade do jovem em começar a fazer parte do mundo adulto e as modificações em seu corpo, que lhe impõem mudanças de papel frente à sociedade. Ao mesmo tempo, a seleção do vestibular que é considerado um sistema competitivo e estressante para o ingresso em universidades brasileiras, pode refletir em maior pressão social e familiar, estresse, ansiedade e outros distúrbios emocionais, intimamente relacionados ao diagnóstico de DTM25,26.

Além disso, diversos estudos investigaram a prevalência de DTM e fatores associados em crianças3,7,14,27, adolescentes2,4,16, universitários9,15,18,23,28, adultos10,12,21,29 e idosos30, no entanto a literatura ainda é escassa em relação a análise de pré-vestibulandos, tendo em vista a elevada carga psicossocial ao qual essa população é submetida, inclusive com manifestações psicológicas e físicas de estresse e ansiedade24,26,31,32.

Desta forma, o objetivo do presente estudo foi avaliar a presença de sinais e sintomas de DTM, sua associação com gênero, relato de hábitos parafuncionais, tensão emocional, ansiedade e depressão e o seu impacto sobre a QVRSO em pré-vestibulandos matriculados no último ano do ensino médio ou de cursos pré-vestibulares de João Pessoa/PB.

Material e métodos

Trata-se de um estudo transversal não probabilístico, realizado com alunos pré-vestibulandos matriculados no 3° ano do Ensino Médio ou de cursos pré-vestibulares em instituições públicas e privadas da cidade de João Pessoa (PB) no ano de 2011. A amostra foi constituída por 303 voluntários de ambos os sexos, com idades entre 15 e 25 anos, que aceitaram participar do estudo. Foram excluídos da amostra os alunos ou responsáveis que não assinaram o termo de consentimento livre e esclarecido (TCLE), os estudantes que estavam em tratamento ortodôntico (aparelho fixo ou removível), e os que estavam ou já tinham realizado tratamento para DTM ou outras dores orofaciais.

Seguindo os critérios e exigências estabelecidos pela Resolução n°. 196/96 do Conselho Nacional de Saúde (CNS) o projeto foi apresentado ao Comitê de Ética em Pesquisa (CEP) do Hospital Universitário Lauro Wanderley da Universidade Federal da Paraíba (UFPB) e aprovado.

Coleta de dados

Pedidos de autorização foram entregues em duas vias em 10 instituições de ensino médio (cinco privadas e cinco públicas) juntamente com a cópia do projeto de pesquisa. As instituições foram selecionadas por conveniência dentro do universo de instituições de ensino médio e cursos pré-vestibulares da cidade de João Pessoa. A autorização para realização da pesquisa foi concedida em apenas três instituições privadas e três públicas.

A aplicação dos questionários ocorreu no horário do intervalo entre as aulas, que variava entre 20 e 30 minutos, em ambos os turnos (manhã e tarde), dependendo da disponibilidade de cada escola.

A maioria das instituições foi visitada mais de uma vez, tanto pela limitação de tempo para aplicação dos questionários, quanto pela inclusão de menores de idade no estudo, cuja participação foi condicionada à assinatura do TCLE pelos responsáveis legais.

Avaliação da presença de sintomas DTM e hábitos parafuncionais

Foi utilizado um questionário de autopreenchimento contendo questões objetivas sobre a presença de hábitos parafuncionais e o índice anamnésico DMF de Fonseca et al.33 para avaliar o grau de DTM e a necessidade de tratamento.

O índice DMF é composto por 10 perguntas relacionadas aos sintomas de DTM, sendo que para cada pergunta há três respostas possíveis: “sim”, “não” ou “às vezes”; às quais foram atribuídos valores que são, respectivamente, “10”, “0”, “5”. A somatória dos valores atribuídos às respostas permite a classificação da população segundo o grau de DTM, tendo como base os sintomas relatados, se ausente (0-15), leve (20-40), moderada (45-65) ou severa (70-100). Os dados do índice anamnésico DMF permitiram ainda classificar a amostra segundo a presença/ausência de necessidade de tratamento, baseado nos sintomas de DTM relatados: sem necessidade de tratamento (ausência de DTM e DTM leve) e com necessidade de tratamento (DTM modera e DTM severa).

Em relação aos hábitos parafuncionais, solicitou-se que os voluntários assinalassem os hábitos que mais realizavam, em uma questão de múltipla escolha contendo opções previamente selecionadas descritas na literatura4,16,34. Os participantes foram informados que poderiam assinalar mais de uma opção.

Avaliação da presença de sinais clínicos de DTM

Dois examinadores, previamente calibrados, com coeficientes Kappa inter e intra-examinador de 0,82 e 0,95, respectivamente, realizaram o exame clínico simplificado nas dependências das escolas, em salas selecionadas pelas instituições. A avaliação ocorreu com os alunos sentados em uma cadeira com encosto, com coluna ereta, pernas e pés paralelos, firmes no chão, sob luz ambiente com o examinador respeitando os princípios de biossegurança (uso de jaleco, luvas, gorro, máscara e óculos de proteção).

Os seguintes parâmetros foram avaliados:

Sensibilidade muscular: Foi realizada a palpação dos músculos masseter (terços inferior, médio e superior) e temporal (terços anterior, médio e posterior) com pressão aproximada de 1,0 kg/cm223,35, e a protrusão contra-resistência para avaliar o pterigoideo lateral. No total foram avaliados 7 sítios de palpação em cada lado (3 do temporal, 3 do masseter e 1 do pterigoideo lateral), resultando em 14 sítios de palpação muscular por voluntário. A dor foi quantificada em valores objetivos, onde “0” significa ausência de dor, “1” sensibilidade dolorosa relatada pelo voluntário, “2” sensibilidade dolorosa com manifestação física, e “3” sensibilidade dolorosa com esquiva do voluntário23,35.

Sensibilidade articular: Foi realizada a palpação lateral da ATM com o voluntário em repouso, e a palpação posterior da ATM em abertura máxima, sob pressão aproximada de 0,5 kg/cm223,35. A dor foi quantificada em valores objetivos de acordo com os mesmos critérios descritos anteriormente23,35.

Ruídos articulares: Foi solicitado que os voluntários realizassem abertura e fechamento bucal três vezes. Os dedos indicadores do examinador foram posicionados sobre as ATMs, permitindo a verificação da presença/ausência de estalidos e crepitação (ruído semelhante à areia durante movimentação mandibular). Definiu-se a presença de ruído quando os mesmos foram reproduzíveis em pelo menos dois de três movimentos23,35.

Grau de abertura ativa: Com o voluntário em abertura máxima, foi mensurada a distância em milímetros (mm) entre as bordas incisais dos dentes incisivos centrais superiores e inferiores com o auxílio de um paquímetro (NSK, Nippon Sokutei, Japão). A esta medida, foi adicionada a mensuração do transpasse vertical, que foi obtida pela sobreposição vertical dos incisivos superiores sobre os inferiores, estando o voluntário em máxima intercuspidação com o auxílio do paquímetro. A soma das duas medidas (abertura e transpasse vertical) representou a abertura bucal ativa de cada voluntário. O grau de abertura bucal ativa foi classificado em abertura restrita (< 40 mm), abertura normal (40-59 mm) ou hipermobilidade (a partir de 60 mm)23,35.

Alteração dos movimentos mandibulares: Foi solicitado que os voluntários realizassem abertura e fechamento bucal três vezes, permitindo a observação da presença ou ausência de desvio mandibular (quando na abertura bucal, há um desvio da mandíbula, mas ao completar a abertura máxima ela volta para o centro) ou deflexão (quando há um desvio da mandíbula para o lado até a abertura bucal máxima). Definiu-se a presença de alterações nos movimentos mandibulares quando as mesmos foram reproduzíveis em pelo menos dois de três movimentos23,35.

A presença de sinais clínicos permitiu a classificação de acordo com os seguintes critérios:

Sinais de DTM muscular: dois ou mais sítios de dor muscular;

Sinais de DTM articular: dois ou mais sítios de desvios da normalidade da ATM (dor articular, ruídos articulares, restrição de abertura bucal ou hipermobilidade e movimentos mandibulares alterados);

Sinais de DTM muscular e articular: presença de dois ou mais sítios de dor muscular e sinais articulares simultâneos.

Avaliação da presença de ansiedade, depressão e tensão emocional

Para a avaliação da frequência de ansiedade e depressão foi utilizado a escala Hospital Anxiety and Depression (HAD), traduzida e validada para o português36. A escala possui 14 itens, sendo sete voltados para a avaliação da ansiedade (HADS -A) e sete para a depressão (HADS-D). Cada um dos seus itens pode ser pontuado de zero a três, compondo uma pontuação máxima de 21 pontos para cada subescala. O somatório dos pontos de corte em cada subescala permite a seguinte classificação: sem ansiedade de 0 a 8, com ansiedade ≥ 9; sem depressão de 0 a 8, com depressão ≥ 9

Os voluntários também responderam, em mesmo questionário, uma questão relacionada à presença/ausência de tensão emocional e assinalaram em uma Escala Visual Analógica (EVA) de zero a dez, o seu grau de tensão.

Avaliação da qualidade de vida relacionada com a saúde oral

A QVRSO foi determinada através o Oral Health Impact Profile (OHIP), em sua versão reduzida e validada para o português (OHIP-14)37,38. O questionário é composto por 14 perguntas, sendo duas para cada uma das sete dimensões do instrumento. Para cada questão há cinco opções de respostas: nunca, raramente, às vezes, repetidamente e sempre, graduadas, respectivamente, como zero, um, dois, três e quatro pontos. As respostas ordinais somadas produzem um escore total do OHIP-14 que poderá variar de zero a 56, com maiores escores significando maior impacto negativo na saúde oral37,38.

O OHIP-14 distingue sete domínios da saúde bucal utilizando dois itens para cada domínio (limitação funcional, dor física, desconforto psicológico, incapacidade física, incapacidade psicológica, incapacidade social e deficiência). A pontuação de cada um dos sete domínios do OHIP-14 pode variar de zero a oito pontos, com maiores escores significando maior comprometimento.

Análise dos dados

Os dados foram registrados e tabulados no programa Statistical Package for Social Sciences (SPSS), versão 22.0, e analisados por meio de estatística descritiva e inferencial. Para os procedimentos descritivos, foram apresentadas frequências e porcentagens e para os procedimentos de inferência estatística foram utilizados testes não paramétricos: Qui-Quadrado, Exato de Fisher e cálculo da significância, que identificam associações entre as variáveis. Em relação aos escores do OHIP-14, o teste de normalidade Kolmogorov-Smirnov demonstrou uma distribuição anormal dos dados, desta forma, os testes não paramétricos Mann-Whitney e Kruskal-Wallis foram utilizados para comparações entre as médias do OHIP-14 nos diferentes grupos avaliados. Em todos os testes estatísticos foi adotado um intervalo de confiança de 95%, e nível de significância de 5% (p < 0,05).

Resultados

Caracterização da amostra

No presente estudo foram avaliados 303 estudantes. Da amostra em questão, a maioria era do gênero feminino (69%), com idade de 15 a 19 anos (93,1%) e de escolas públicas (74,6%). Segundo o índice DMF, algum grau de DTM foi identificado em 89,8% dos participantes, sendo 50,2% com DTM leve, 33,0% moderada e 6,6% severa. Dos voluntários, 39,6% exibiram necessidade ativa de tratamento (DTM moderada e/ou severa). A gravidade da DTM e a necessidade de tratamento são determinadas pelo índice DMF de acordo com os sintomas de DTM relatados. Já o exame físico mostrou presença de sinais clínicos de DTM em 56,4% da amostra. 31,0% apresentaram sinais clínicos de DTM articular, 11,2% sinais de DTM muscular e 14,2% sinais simultâneos de DTM articular e muscular.

Os hábitos parafuncionais exibiram alta prevalência (95,4%), já as variáveis tensão emocional, ansiedade e depressão estavam presentes, respectivamente, em 82,5%, 40,3% e 10,6% da população avaliada.

Fatores associados a presença de sinais e sintomas de DTM

Conforme se observa na Tabela 1 a presença de sintomas de DTM (índice DMF) foi estatisticamente associada ao gênero feminino (p < 0,001), relato de hábitos parafuncionais (p < 0,001), relato de tensão emocional (p < 0,001) e ansiedade (p < 0,001). Não houve associação estatística significativa entre os sintomas de DTM e o tipo de instituição de ensino do voluntário ou presença de depressão. A necessidade de tratamento (índice DMF, baseado nos sintomas de DTM relatados) foi estatisticamente associada ao gênero feminino (p < 0,001), relato de hábitos parafuncionais (p = 0,039), relato de tensão emocional (p < 0,001), ansiedade (p < 0,001) e depressão (p < 0,001) (Tabela 2). Já a presença de sinais clínicos de DTM, segundo exame físico, foi associado apenas ao gênero feminino (p < 0,001) e à presença de ansiedade (p < 0,001) (Tabela 3).

Tabela 1 Associação entre a presença de sintomas de DTM (índice DMF) e as variáveis gênero, tipo de instituição de ensino, presença de hábitos parafuncionais, relato de tensão, presença de ansiedade e depressão. 

Variáveis Sintomas de DTM (índice DMF) p
Ausente Presente Total
n % n % %
Gênero
Feminino 11 3,6 198 65,3 69,0 < 0,001
Masculino 20 6,6 74 24,4 31,0
Instituição de ensino
Particular 4 1,3 73 24,1 25,4 0,065*
Pública 27 8,9 199 65,7 74,6
Hábitos parafuncionais
Não 7 2,3 7 2,3 4,6 < 0,001
Sim 24 7,9 265 87,5 95,4
Presença/Relato de tensão
Não 17 5,6 36 11,9 17,5 < 0,001
Sim 14 4,6 236 77,9 82,5
Ansiedade
Não 31 10,2 150 49,5 59,7 < 0,001*
Sim 0 0 122 40,3 40,3
Depressão
Não 29 9,6 242 79,9 89,4 0,337*
Sim 2 0,7 30 9,9 10,6

Teste Qui-Quadrado.

*Teste Exato de Fisher. Estatisticamente significativo p < 0,05.

Tabela 2 Associação entre a necessidade de tratamento (índice DMF) e as varáveis gênero, tipo de instituição de ensino, presença de hábitos parafuncionais, relato de tensão, presença de ansiedade e depressão. 

Necessidade de Tratamento de DTM (índice DMF) p
Ausente Presente Total
n % n % %
Gênero
Feminino 107 35,3 102 33,7 69,0 < 0,001
Masculino 76 25,1 18 5,9 31,0
Instituição de ensino
Particular 43 14,2 34 11,2 25,4 0,344
Pública 140 46,2 86 28,4 74,6
Hábitos parafuncionais
Não 12 4,0 2 0,7 4,7 0,039*
Sim 171 56,4 118 38,9 95,3
Presença/Relato de tensão
Não 44 14,5 9 3,0 17,5 < 0, 001
Sim 139 45,9 111 36,6 82,5
Ansiedade
Não 136 44,8 45 14,9 59,7 < 0, 001
Sim 47 15,5 75 24,8 40,3
Depressão
Não 175 57,8 96 31,7 89,5 < 0, 001
Sim 8 2,6 24 7,9 10,5

Teste Qui-Quadrado.

*Teste Exato de Fisher. Estatisticamente significativo p < 0,05.

Tabela 3 Associação entre a presença de sinais clínicos de DTM (exame físico) e as variáveis gênero, tipo de instituição de ensino, presença de hábitos parafuncionais, relato de tensão, presença de ansiedade e depressão. 

Sinais Clínicos de DTM (exame físico) p
Ausente Presente Total
n % n % %
Gênero
Feminino 77 25,4 132 43,6 69,0 < 0, 001
Masculino 55 18,2 39 12,2 31,0
Instituição de ensino
Particular 32 10,6 45 14,8 25,4 0,681
Pública 100 33,0 126 41,6 74,6
Hábitos parafuncionais
Não 10 3,3 5 1,7 5,0 0,064
Sim 122 40,3 166 54,4 95,0
Presença/Relato de tensão
Não 24 7,9 29 9,6 17,5 0,781
Sim 108 35,6 142 36,9 82,6
Ansiedade
Não 97 32,0 91 30,0 62,0 < 0, 001
Sim 35 11,6 80 26,4 38,0
Depressão
Não 120 39,6 153 50,5 90,1 0,678
Sim 12 4,0 18 5,9 9,9

Teste Qui-Quadrado.

*Teste Exato de Fisher. Estatisticamente significativo p < 0,05.

Quando relacionamos os sintomas de DTM (índice DMF) à cada tipo de hábito parafuncional verificamos associação estatisticamente significativa com os seguintes hábitos: mascar chiclete (p = 0, 027); apertar os dentes (p = 0,020); colocar a mão no queixo (p = 0,002); morder a língua (p = 0,014); morder os lábios (p = 0,008); mastigação unilateral (p = 0,008), dormir de um lado (p = 0,003) e mastigação de gelo e/ou pirulito (p = 0,039) (Tabela 4).

Tabela 4 Associação entre a presença de sintomas de DTM (índice DMF) e cada hábito parafuncional. 

Variáveis Sintomas de DTM (índice DMF) p
Ausente Presente Total
n % n % %
Tipos de hábitos parafuncionais
ranger os dentes 0,204*
Não 29 9,6 235 77,6 87,1
Sim 2 0,7 37 12,2 12,9
apertar os dentes 0,020*
Não 28 9,2 197 65,0 74,3
Sim 3 1,0 75 24,8 25,7
roer as unhas 0,841
Não 18 5,9 163 53,8 59,7
Sim 13 4,3 109 36,0 40,3
morder objetos (ex. lápis) 0,646
Não 19 6,3 155 51,2 57,4
Sim 12 4,0 117 38,6 42,6
mascar chicletes 0,027
Não 22 7,3 136 44,9 52,1
Sim 9 3,0 136 44,9 47,9
morder a bochecha 0,239
Não 25 8,3 192 63,4 71,6
Sim 6 2,0 80 26,4 28,4
chupar o dedo 0,417*
Não 31 10,2 264 87,1 97,4
Sim 0 0 8 2,6 2,6
colocar a mão no queixo 0,002
Não 25 8,3 139 45,9 54,1
Sim 6 2,0 133 43,9 45,9
morder a língua 0,014*
Não 31 10,2 235 77,6 87,8
Sim 0 0 37 12,2 12,2
morder os lábios 0,008
Não 22 7,3 125 41,3 48,5
Sim 9 3,0 147 48,5 51,5
mastigação unilateral 0,008*
Não 30 9,9 214 70,6 80,5
Sim 1 0,3 58 19,1 19,5
dormir de um lado 0,003
Não 24 7,9 135 44,6 52,5
Sim 7 2,3 137 45,2 47,5
mastigação de gelo e/ou pirulitos 0,039
Não 22 7,3 140 46,2 53,5
Sim 9 3,0 132 43,6 46,5

Teste Qui-Quadrado.

*Teste Exato de Fisher. Estatisticamente significativo p < 0,05.

Impacto da DTM na qualidade de vida relacionada a saúde oral

Conforme se observa na Tabela 5, os voluntários com sintomas de DTM (índice DMF) exibiram média do OHIP-14 estatisticamente maior em comparação aos sem sintomas (p < 0,001), sugerindo impacto negativo na QV. A média do OHIP-14 foi estatisticamente mais elevada no grupo de voluntários com necessidade de tratamento em comparação ao sem (p < 0,001) e, quanto maior a gravidade da DTM (índice DMF, baseado nos sintomas de DTM relatados) maior o impacto sobre a QV.

Tabela 5 Comparações estatísticas entre as pontuações do OHIP-14 relacionadas à presença de sintomas de DTM (índice DMF), gravidade da DTM (índice DMF), necessidade de tratamento (índice DMF) e sinais clínicos de DTM (exame físico). 

Classificação da DTM Média OHIP-14 ± DP p
Sintomas de DTM (índice DMF)
Ausente 5,42 ± 4,581 < 0,001*
Presente 11,65 ± 8,482
Necessidade de tratamento (índice DMF)
Ausente 8,02 ± 6,531 < 0,001*
Presente 15,53 ± 8,855
Grau de DTM (índice DMF)
Sem DTM 5,42 ± 4,581 0,019**
DTM Leve 8,60 ± 6,745
DTM Moderada 14,54 ± 8,474 < 0,001**
DTM Severa 20,45 ± 9,512 < 0,001**
Sinais clínicos de DTM (exame físico)
Sem DTM 9,98 ± 8,046 0,320**
Sinais clínicos de DTM articular 10,52 ± 8,421
Sinais clínicos de DTM muscular 12,26 ± 8,743 0,127**
Sinais clínicos de DTM articular e muscular 14,30 ± 8,348 0,01**

DP = Desvio padrão.

*Estatisticamente significante (p < 0,05) (Teste de Mann-Whitney).

**Estatisticamente significante (p < 0,05) (Teste de Kruskal-Wallis).

Em relação ao exame físico, os voluntários com sinais clínicos de DTM articular, muscular ou simultâneos exibiram maiores escores do OHIP-14 em comparação aos voluntários sem sinais de DTM, no entanto, apenas para o sinais clínicos simultâneos de DTM articular e muscular esta diferença foi estatisticamente significante (p = 0,01) (Tabela 4). Entre os sete domínios do OHIP-14, dor física foi o de maior comprometimento para os grupos com sinais clínicos de DTM articular (p = 0,033), muscular (p = 0,019) e simultâneos (p < 0,001).

Discussão

No presente estudo optou-se por avaliar a prevalência de sinais e sintomas de DTM e seus fatores associados em uma amostra de estudantes, no último ano do ensino médio e que seriam submetidos ao exame vestibular. Esta escolha justificase pela ausência de estudos mais aprofundados relacionados a DTM nesta amostra específica, comprovadamente submetida a elevada carga emocional, incluindo ansiedade, angústia, inquietação e estresse26,31,32. Ao mesmo tempo, estudos recentes têm demonstrado que estes fatores emocionais podem estar intimamente relacionados ao surgimento e à progressão da DTM9,11,1315.

Neste estudo, a amostra foi composta predominantemente por alunos de escolas públicas e do gênero feminino. Tais resultados devem-se à ausência de resposta ao pedido de autorização para início da coleta de dados e negativa de algumas instituições de ensino privado. Adiciona-se a estes fatores a maior receptividade dos voluntários do gênero feminino, dificultando obtenção de uma amostra equivalente por gênero e por instituição de ensino.

A prevalência de sintomas e sinais clínicos de DTM foram determinadas no presente estudo por meio do índice DMF34 e de exame clínico simplificado2,4,16,23. O índice DMF permite a classificação dos voluntários em categorias de gravidade dos sintomas de DTM e na ausência/presença de necessidade de tratamento, porém não oferece classificação diagnóstica39. Outra limitação é decorrente de seu sistema de pontuação, uma vez que se três respostas afirmativas forem atribuídas às questões sobre relato de dor de cabeça, dor cervical e percepção de tensão emocional, o voluntário será classificado como portador de DTM leve, e esses sintomas podem ocorrer de maneira isolada, sem qualquer relação com esta disfunção39.

O DMF, no entanto, reúne algumas vantagens tais como simplicidade, rapidez e baixo custo, favorecendo sua utilização em estudos epidemiológicos, para traçar perfis populacionais, para fazer triagens iniciais de pacientes ou ainda, na avaliação da qualidade de vida23,39,40, sendo utilizado em diversos estudos para avaliação da prevalência de sintomas de DTM18,4143. Campos et al.40 sugeriram a remoção de algumas questões do índice DMF, o que aumentaria a sua confiabilidade. A remoção destas questões, no entanto, torna este instrumento semelhante ao questionário da AAOP, além de não permitir a classificação em níveis de gravidade dos sintomas de DTM, bem como não foi ainda validada. Desta forma, optou-se por utilizar o índice DMF em sua versão original.

Já o exame clínico simplificado2,4,16,23,35 permite a avaliação da presença de sinais clínicos articulares, musculares ou simultâneos semelhantes à DTM. Esta avaliação clínica é rápida e simples, facilitando o seu uso em estudos de grande alcance, complementando as informações do questionário anamnésico33. Contudo não é capaz de determinar uma classificação diagnóstica para DTM. Atualmente, o Research Diagnostic Criteria for Temporomandibular Disorders (RDC/TMD), e sua versão mais atualizada, o Diagnostic Criteria for Temporomandibular Disorders (DC/TMD) são as principais ferramentas disponíveis na literatura para avaliação da DTM, o qual fornece um diagnóstico preciso desta disfunção44. No entanto, o RDC/TMD é um instrumento mais complexo e demorado, dificultando seu uso em grandes amostras, além de necessitar de mais tempo para calibração entre os examinadores. No presente estudo, todas as avaliações foram realizadas com os estudantes no período de intervalo entre as aulas. Este é um período curto de tempo, em torno de 20-30 minutos, o que prejudicaria a aplicação do RDC/TMD. Já o DC/TMD ainda não encontra-se traduzido nem validado para o português, o que dificulta ainda sua aplicação em pesquisa no Brasil. A dificuldade no estabelecimento de um protocolo “ideal” de avaliações epidemiológicas de DTM pode ser verificada pela inexistência de dados representativos da população brasileira, tendo em vista não dispormos até o momento a inclusão do exame de DTM na Pesquisa Nacional de Saúde Bucal – o SB Brasil, realizados em 2003 e 2010.

Levando em consideração as informações descritas anteriormente e as limitações dos instrumentos utilizados, observamos neste estudo uma elevada prevalência de sintomas e sinais clínicos de DTM através, respectivamente, do índice anamnésico DMF (89,8%) e do exame físico (56,4%). Além disso, uma significativa parcela dos estudantes avaliados exibiu necessidade ativa de tratamento (39,6%). Cabe ressaltar que a necessidade de tratamento foi baseada nos sintomas relatados33 e não no diagnóstico de DTM. A prevalência de sinais e sintomas de DTM em adolescentes varia amplamente devido a diferenças individuais, variabilidade da amostra (grupos etários heterogêneos, tamanho da amostra e critérios de seleção dos voluntários), e a utilização de diferentes métodos de avaliação27,45. Neste sentido, estudos epidemiológicos em crianças e adolescentes demonstram uma prevalência de sintomas de DTM entre 21-74%4,16,28. No presente estudo, a faixa etária avaliada variou de 15-25 anos, envolvendo, portanto, adolescentes e também adultos jovens. Este último grupo, de fato, exibe as maiores prevalências de sinais e sintomas de DTM5,41,43, justificando os resultados obtidos.

No que diz respeito à gravidade da DTM, a maioria dos voluntários exibiu DTM leve (50,2%) e apenas 6,6% apresentaram DTM severa. Convém destacar que a gravidade da DTM foi baseada nos sintomas relatados pelos voluntários. A maior porcentagem de indivíduos com DTM leve em relação aos demais graus de DTM foi igualmente observada por Medeiros et al.18, Pedroni et al.41, Oliveira et al.42 e Bonjardim et al.43. Em relação ao exame físico, os sinais clínicos de DTM articular foram os mais prevalentes (31%), seguidos dos sinais simultâneos de DTM articular e muscular (14,2%) e DTM muscular apenas (11,2%). Colaborando com nossos resultados, estudos epidemiológicos em crianças e adolescentes demonstraram prevalência de ruídos articulares em cerca de 23-47% e, a dor articular em 16-45%2,4,5,24. Já a sensibilidade à palpação muscular foi registrada em cerca de 23-43% desta população2,4,16.

No presente estudo, o gênero feminino foi fortemente associado à presença de sintomas e sinais clínicos de DTM (índice DMF e exame físico), assim como à necessidade de tratamento (índice DMF). Uma maior prevalência de sinais e sintomas de DTM no gênero feminino tem sido amplamente demonstrada na literatura2,4,5,28,45, no entanto suas razões continuam ainda controversas. Fatores como uma maior percepção do gênero feminino à dor, maior prevalência de tensão emocional, ansiedade ou depressão, diferenças fisiológicas (variações hormonais), diferenças estruturais musculares ou maior preocupação e elevada procura por tratamento1,9,41 têm sido sugeridos. Por outro lado, pesquisas realizadas em crianças não demonstraram associações significativas entre o gênero e os sinais e sintomas de DTM14,34, o que reforça a influência hormonal sobre o desenvolvimento desta disfunção, visto que estes estudos foram realizados em crianças na pré-puberdade e, portanto, não influenciadas por hormônios reprodutivos14.

O relato de hábitos parafuncionais foi estatisticamente associado à presença de sintomas de DTM e à necessidade de tratamento (índice DMF). Além disso, os hábitos de apertar os dentes, mascar chiclete, colocar a mão no queixo, morder a língua, morder os lábios, dormir de uma lado e mastigação de gelo/pirulito foram associados à presença de sintomas desta disfunção (índice DMF). Semelhantes aos nossos resultados, vários estudos demonstraram associação positiva entre os hábitos parafuncionais e a presença de sinais e sintomas de DTM4,18,45,46. Outros trabalhos, no entanto, têm contestado tal associação34,47,48. Os presentes resultados sugerem que os hábitos parafuncionais podem ser importantes fatores associados com o surgimento e/ou progressão de sintomas de DTM, no entanto uma análise mais aprofundada, correlacionando cada hábito aos diagnósticos específicos desta disfunção é necessária para melhor entendimento de sua participação na etiologia dos diferentes subgrupos de DTM. Destaca-se também que no presente estudo o hábito de apartamento dentário foi determinado a partir do relato dos estudantes2,4,16,34. Este tipo de avaliação carrega uma limitação que lhe é inerente: a sua subjetividade natural, além do fato de que uma parte dos hábitos parafuncionais são inconscientes, fazendo com que o paciente nem sempre esteja consciente de sua presença, o que pode causar riscos de super ou subestimar esta condição49. Neste sentido, o exame polissonográfico é considerado padrão -ouro para avalição dos hábitos de bruxismo, no entanto é uma técnica adequada apenas para pequenas amostras devido ao alto custo e limitada disponibilidade49, o que compromete a sua utilização tendo em vista o delineamento deste estudo.

Observamos elevada prevalência de tensão emocional autorrelatada (82,5%) e ansiedade (40,3%). Já a depressão esteve presente em 10,6% da amostra. Estes resultados estão de acordo com estudos prévios os quais também demonstraram elevada prevalência de fatores emocionais nesta população24,26,32,33. Neste sentido, Guhur et al.26 afirmam que o momento do exame vestibular geralmente coincide com o turbulento período da vida que é a adolescência, fazendo com que a tomada de decisão a respeito do futuro profissional gere grandes ansiedades. Além disso fatores como interferência familiar, pressão social e ausência de uma visão realista a respeito de determinadas áreas de conhecimentos ou profissões contribuem para aumentar o estado de tensão emocional e a ansiedade26,32,33. Já a prevalência de depressão relativamente baixa reflete a maior participação dos eventos de tensão e estresse na amostra avaliada conforme demonstrada em estudos anteriores24,26,32,33. Cabe destacar que neste estudo a avaliação da presença de tensão emocional foi determinada a partir de uma pergunta objetiva relacionada à sua presença/ausência direcionada aos voluntários. Este dado deve ser analisado com cuidado, tendo em vista o caráter subjetivo da tensão emocional. Optou-se por este tipo de avaliação em virtude da ausência de instrumentos mais específicos e precisos para este componente emocional.

Diversos estudos têm demonstrado significativa associação entre diferentes fatores emocionais e a presença de sinais e sintomas de DTM9,11,13,14. No presente estudo, o relato de tensão emocional foi estatisticamente associado à presença de sintomas de DTM e necessidade de tratamento (índice DMF), estando estes achados de acordo com outros estudos realizados em diferentes populações17,28. Neste sentido, acredita-se que o estresse e a tensão emocional podem afetar os processos biológicos de transmissão e percepção da dor, promover uma hiperatividade muscular recorrente que de modo progressivo pode causar danos à ATM e estruturas associadas, além de contribuir para o surgimento e a evolução de hábitos parafuncionais8,50.

Diversos trabalhos também têm mostrado uma relação significativa entre ansiedade e depressão e a presença de sinais e sintomas de DTM11,12,15,28,29. Colaborando com estes resultados, os dados demonstraram que a ansiedade foi estatisticamente associada à presença de sintomas e sinais de DTM (índice DMF ou exame físico) e à necessidade de tratamento (índice DMF). Neste sentido, Karibe et al.45 mostraram uma associação significativa entre ansiedade e a presença de sintomas de DTM em uma população de crianças e adolescentes japoneses.

Quanto à depressão, os resultados apontaram uma associação significativa apenas para a necessidade de tratamento (índice DMF). Conforme Fonseca et al.33 a necessidade de tratamento representa uma maior gravidade dos sintomas de DTM, na qual um intervenção terapêutica faKolmogoro z-se necessária. Este resultado pode sugerir que a depressão desempenha um papel importante na progressão e gravidade desta disfunção, corroborando com diversos trabalhos descritos na literatura10,12,15,28,29,50. No entanto, tendo em vista a limitação do delineamento de estudo, é difícil determinar se a depressão foi responsável pelo desenvolvimento de uma condição mais grave de DTM ou se é causada pelos próprios sintomas desta disfunção.

Quando analisamos os dados relacionados à QV, foi observado que os voluntários com sintomas ou sinais clínicos de DTM (índice DMF ou exame físico) exibiram maiores escores do OHIP-14 em comparação aos voluntários sem sintomas ou sinais, sugerindo que esta disfunção influencia negativamente na QVRSO. Estes resultados estão de acordo com vários outros trabalhos que demonstraram pontuações do OHIP-14 marcadamente superiores em pacientes com DTM em comparação aos indivíduos assintomáticos19,21,23.

Os dados do índice DMF mostraram que os voluntários com necessidade de tratamento exibiram maiores pontuações do OHIP-14 em comparação aos sem e, quanto maior a gravidade da DTM (determinada pelos sintomas relatados) maior o impacto sobre a QVRSO, estando estes resultados de acordo com outros estudos prévios2123. Um estudo realizado em estudantes universitários mostrou que a principal queixa dos voluntários com DTM grave é a presença de dor, e esta exibe um papel significativo no comportamento psicossocial e na QV23. Ao passo que uma recente revisão sistemática demonstrou forte evidência de que a dor afeta negativamente a QVRSO em pacientes com DTM22.

Em relação ao exame físico, os voluntários com algum sinal clínico de DTM exibiram pontuações do OHIP-14 estatisticamente superiores aos pacientes sem, sendo as maiores pontuações observadas no grupo com sinais clínicos simultâneos de DTM articular e muscular, seguido daquele com sinais de DTM muscular apenas. Estes dados suportam a afirmativa de que indivíduos com sinais simultâneos exibem maior gravidade da DTM23 e, portanto, apresentam maior grau de comprometimento da QV21,22,51. Já as maiores pontuações do OHIP-14 no grupo com sinais de DTM muscular é sustentada pela observação clínica de que estes indivíduos exibem maior sintomatologia dolorosa em comparação àqueles com sinais clínicos de DTM articular19,22,51.

Entre os sete domínios do OHIP-14, dor física foi o mais afetado nos grupos com sinais clínicos de DTM articular, muscular e simultâneos em comparação aos voluntários sem disfunção. Neste sentido, vários trabalhos também revelaram maior grau de comprometimento no domínio dor física em diferentes populações, reforçando o papel da dor sobre a QV dos indivíduos com DTM2123,51.

Os dados do presente estudo demonstraram uma eleva prevalência de sinais e sintomas de DTM em estudantes pré-vestibulandos, sendo que uma grande parcela exibiu necessidade ativa de tratamento. Além disso, foi evidente o impacto negativo desta disfunção sobre a QVRSO. Entre os fatores associados, destacou-se o gênero feminino, a parafunção e a ansiedade. Estes dados sinalizam a necessidade de divulgação e esclarecimento de professores e alunos sobre as DTMs e da sua possível associação com hábitos parafuncionais e fatores emocionais, visando o diagnóstico precoce e a prevenção do problema, os quais influenciam diretamente o prognóstico e a eficácia do tratamento.

A elevada prevalência de tensão emocional autorrelatada e de ansiedade, observadas no presente estudo reforça a evidência de grande carga emocional ao qual os pré-vestibulandos estão submetidos, e estes fatores foram estatisticamente associados à presença de sinais e sintomas de DTM, o que pode sugerir que esta população é submetida a importantes fatores de risco para o desenvolvimento e a progressão desta disfunção. Guhur et al.26 afirmam a necessidade de um serviço de orientação vocacional e de acompanhamento psicológico aos adolescentes nas escolas para que eles passem por esse período de difíceis escolhas e nervosismo de forma mais amena. Seguindo este raciocínio, sugere-se também a inclusão de outros profissionais de saúde nestes serviços, tais como cirurgiões-dentistas e médicos, com o objetivo de trabalhar determinadas condições que possam ser agravadas ou iniciadas neste período, como a DTM.

Além disso, estes dados, somados aos de inúmeros outros estudos, os quais demonstraram elevada prevalência de DTM em diferentes faixas etárias3,7,9,12,15,21,23,27,30, sugerem a necessidade da inserção da especialidade “Disfunção temporomandibular e dor orofacial” na atenção de média complexidade em Odontologia, especialmente nos centros de especialidades odontológicas (CEO). Os centros de tratamento para pacientes com DTM financiados pelo SUS ainda são limitados e geralmente restritos a centros de ensino e/ou pesquisa (universidades ou clínicas-escola), A inserção desta especialidade poderia assegurar a integralidade na atenção odontológica a uma grande parcela da população que sofre com os sinais e sintomas desta disfunção, prevenindo complicações mais graves e melhorando sua qualidade de vida.

Agradecimentos

Ao CNPq pelo irrestrito apoio financeiro e incentivo a pesquisa

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Recebido: 30 de Maio de 2015; Revisado: 24 de Novembro de 2015; Aceito: 26 de Novembro de 2015

Colaboradores

MR Paulino e VG Moreira participaram da concepção, delineamento do estudo, coleta e análise dos dados e redação do manuscrito; GA Lemos, PLP Silva e PRF Bonan contribuíram na análise estatística, interpretação dos dados e revisão do manuscrito. AUD Batista orientou em todas as etapas da pesquisa desde a concepção e delineamento do projeto, coleta de dados, análise dos dados, escrita e revisão final do texto. Todos os autores revisaram o texto e aprovaram a versão final.

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