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Ciência & Saúde Coletiva

Print version ISSN 1413-8123On-line version ISSN 1678-4561

Ciênc. saúde coletiva vol.23 no.3 Rio de Janeiro Mar. 2018

http://dx.doi.org/10.1590/1413-81232018233.07702016 

ARTIGO

Aspectos sociodemográficos relacionados à gravidade da maloclusão em crianças brasileiras de 12 anos

Socio-demographic aspects related to severity of malocclusion among 12-year-old Brazilian children

José Mansano Bauman1 

João Gabriel Silva Souza2 

Claudiana Donato Bauman3 

Flávia Martão Flório1 

1Departamento de Saúde Coletiva. Faculdade São Leopoldo Mandic. R. José Rocha Junqueira 13, Ponte Preta. 13041-445 Campinas SP Brasil. flaviaflorio@yahoo.com

2Departamento de Ciências Fisiológicas, Faculdade de Odontologia de Piracicaba, Universidade Estadual de Campinas. Piracicaba SP Brasil.

3 Programa de Pós-Graduação em Ciências da Saúde, Universidade Estadual de Montes Claros. Montes Claros MG Brasil.


Resumo

Estudo transversal e analítico para caracterizar a maloclusão em crianças brasileiras de 12 anos e identificar os aspectos sociodemográficos associados, utilizando dados do SB Brasil 2010. Foram incluídas 5539 crianças dentre as quais 41% possuíam algum grau de maloclusão, de acordo com o índice Dental Aesthetic Index (DAI). Conduziu-se análises descritivas, bivariadas e múltiplas por regressão logística multinomial. A maloclusão definida foi maior entre os que avaliaram sua saúde bucal como nem satisfeito/nem insatisfeito (OR 1,24; IC 95%; 1,03-1,50) e insatisfeito (OR 1,76; IC 95%; 1,50-2,08). A maloclusão grave foi maior entre crianças do Sudeste (OR 1,44; IC 95%; 1,06-1,96) e Sul (OR 1,52; IC 95%; 1,05-2,19), sexo masculino (OR 1,24; IC 95%; 1,03-1,48), raça negro/pardo (OR 1,39; IC 95%; 1,14-1,69) e que avaliaram sua saúde bucal como nem satisfeito/nem insatisfeito (OR 1,79; IC 95%; 1,41-2,26) e insatisfeito (OR 2,20; IC 95%; 1,77-2,72). O nível muito grave foi maior entre os residentes de capitais (OR 1,36; IC 95%; 1,07-1,71) e que avaliaram sua saúde bucal como nem satisfeito/nem insatisfeito (OR 1,58; IC 95%; 1,22-2,05) e insatisfeito (OR 2,44; IC 95%; 1,96-3,03). A prevalência da maloclusão é alta entre crianças brasileiras, sendo suas diferentes gravidades associadas a aspectos sociodemográficos.

Palavras-Chave: Má oclusão; Oclusão dentária; Criança; Saúde bucal

Abstract

The scope of this study was to characterize malocclusion in 12-year-old Brazilian children and identify associated socio-demographic aspects. It is a cross-sectional and analytical study based on an Oral Health Survey (SB Brasil 2010). A sample of 5,539 was included, among which 41% had some degree of malocclusion according to the Dental Aesthetic Index (DAI). Descriptive, bivariate and multiple multinomial logistic regression analyses were conducted. Defined malocclusion was greater among those who rated their oral health as neither satisfied/nor dissatisfied (OR 1.24; CI95%1.03-1.50) and dissatisfied (OR 1.76; CI95%1.50-2.08). Severe malocclusion was greater among children in the Southeast (OR 1.44; CI95%1.06-1.96) and South (OR 1.52; CI95%1.05-2.19), male (OR 1.24; CI95%1.03-1.48), black/brown (OR 1.39; CI95%1.14-1.69) who rated their oral health as neither satisfied/nor dissatisfied (OR 1.79; CI95%1.41-2.26) and dissatisfied (OR 2.20; CI95%1.77-2.72). Very severe malocclusion was higher among residents of capitals (OR 1.36; CI95%1.07-1.71) who evaluated their oral health as neither satisfied/nor dissatisfied (OR 1.58; CI95%1.22-2.05) and dissatisfied (OR 2.44; CI95%1.96-3.03). The prevalence of malocclusion is high among Brazilian children, the severity being associated with socio-demographic aspects.

Key words: Malocclusion; Dental occlusion; Child; Oral health

Introdução

A maloclusão caracteriza-se como um transtorno do desenvolvimento que afeta o complexo craniofacial, sendo resultado da interação de fatores genéticos e ambientais, que compromete aspectos funcionais e estéticos dos indivíduos1-4. Sua ocorrência tem sido associada a diferentes fatores, tais como, desigualdades sociais5, comportamentos6 e outras doenças bucais, como a cárie dentária7. Além disso, a maloclusão tem sido associada ao impacto negativo na vida diária das pessoas8,9, ressaltando a necessidade do reconhecimento de grupos mais acometidos, além do diagnóstico e tratamento adequado, a fim de minimizar tais impactos.

Apesar disto, no campo da saúde bucal, observou-se historicamente uma desvalorização da maloclusão como problema de saúde pública10, assim como outros agravos bucais, em vista da prioridade conferida ao tratamento da cárie dentária e suas sequelas10-12. No entanto, devido ao evidente declínio da cárie dentária na população mundial nos últimos anos13, observa-se uma valorização de outros problemas bucais, com destaque para a maloclusão14. Dessa forma, os problemas ortodônticos ganharam maior enfoque no processo de atenção à saúde, decorrente da sua alta prevalência, impacto na estética e influência em aspectos funcionais e sistêmicos14, os quais podem comprometer a qualidade de vida.

Nesse contexto, foram desenvolvidos diferentes índices com o intuito de diagnosticar e mensurar a presença e gravidade dos problemas relacionados a oclusão dentária7,15,16, entre eles destaca-se o DAI (Dental Aesthetic Index)15. O DAI foi indicado pela Organização Mundial de Saúde (OMS) como forma de avaliar a presença de oclusopatias a nível populacional, sendo caracterizado pela combinação de medidas as quais expressam a condição oclusal do indivíduo e sua necessidade de tratamento17. Tal índice vem sendo amplamente utilizado em estudos populacionais em diferentes populações5,18-20, sendo indicado e aplicado, principalmente, para crianças de 12 anos de idade. Dessa forma, este instrumento tem sido utilizado por estudos prévios com intuito de estimar os diferentes níveis de gravidade da maloclusão18-20, assim como a necessidade de tratamento ortodôntico5.

A prevalência da maloclusão entre crianças de 12 anos tem variado em diferentes países, com taxas próximas aos 30% em países como Índia20 e Espanha21. Ressalta-se que apesar de serem países com diferentes níveis de desenvolvimento socioeconômico a prevalência é próxima entre estes países, o que pode ser atribuído a características locais restritas a população alvo dos estudos, dificultando assim a diferenciação entre países desenvolvidos e em desenvolvimento em termos de prevalência de maloclusão. Além disso, estudos de abrangência nacional abordando a maloclusão são escassos, o que dificulta essas comparações. No Brasil, tal prevalência é ainda mais elevada, segundo dados dos dois últimos levantamentos epidemiológicos de base nacional realizados no pais: 58,1% e 38,9%, respectivamente, em 2002/2003 e 201011,12. Apesar da representativa redução dessa prevalência, considerando os levantamentos realizados, sua ocorrência ainda é preocupante, principalmente ao considerar as desigualdades sociais e regionais associadas a presença desse agravo na população brasileira14.

No entanto, apesar da reconhecida associação entre aspectos sociodemográficos com a maloclusão entre crianças brasileiras, tal fato tem sido investigado apenas em relação a presença geral de maloclusão, não diferenciado por gravidade de acometimento, ou com seus níveis de gravidade mais severos14,22. A influência dos aspectos sociodemográficos pode variar de acordo com a gravidade da maloclusão, possibilitando a identificação de grupos vulneráveis e adoção de medidas de diagnóstico e tratamento. Neste sentido, o presente estudo teve por objetivo estimar a prevalência de maloclusão em escolares brasileiros e verificar a influência dos aspectos sociodemográficos em função da gravidade da maloclusão.

Metodologia

Trata-se de um estudo observacional, transversal e analítico que utilizou a base de dados do levantamento epidemiológico das condições de Saúde Bucal da população brasileira, realizado pelo Ministério da Saúde no ano de 201012, conduzido de acordo com os princípios éticos da Resolução do Conselho Nacional de Saúde n°196/96, sendo aprovado e registrado pela Comissão Nacional de Ética em Pesquisa (Conep).

Seguindo os critérios propostos pela OMS (1997)17, uma amostra representativa da população brasileira nas faixas etárias índices foi entrevistada e examinada em seus domicílios quanto às condições de saúde bucal, demográficas e socioeconômicas, uso de serviços odontológicos e questões subjetivas de saúde bucal.

Em relação à idade de interesse, foram entrevistadas e examinadas 7328 crianças de 12 anos, residentes em 177 municípios, incluindo as 27 capitais brasileiras, das cinco macrorregiões brasileiras (Norte, Nordeste, Centro-Oeste, Sudeste e Sul), selecionados por amostragem probabilística por conglomerados, em múltiplos estágios, com probabilidade proporcional ao tamanho e considerando um efeito de desenho (deff) igual a 223.

Na presente investigação utilizou-se um recorte do banco de dados, sendo incluídas apenas as crianças que tiveram suas condições oclusais clinicamente avaliadas a partir do DAI. Optou-se pela exclusão daqueles indivíduos que autodeclaram sua raça como “amarelo” ou “indígena”, devido sua baixa representatividade de acordo com estudo prévio22.

A gravidade da maloclusão – variável dependente – foi avaliada utilizando o índice DAI, composto por dez características oclusais dispostas em três dimensões: (1) dentição; (2) espaço, o qual se baseia na presença ou ausência de apinhamento no segmento incisal, espaçamento no segmento incisal, diastema incisal, desalinhamento no maxilar e mandibular anterior; e (3) a dimensão da oclusão com os componentes overjet maxilar anterior e mandibular anterior, mordida aberta anterior e relação molar ântero-posterior15,17.

Para a interpretação dos resultados da maloclusão estimou-se uma equação matemática na qual as dez características oclusais foram medidas e os valores a elas atribuídos foram multiplicados pelos seus respectivos pesos e os resultados totalizados com a adição de uma constante (Quadro 1). Ao final, foi obtido um escore compreendido entre treze e oitenta, que permitiu a classificação dos indivíduos em uma de quatro categorias: ausência de anormalidade ou maloclusão leve, cujo tratamento ortodôntico é desnecessário (DAI ≤ 25); maloclusão definida, cujo tratamento é eletivo (DAI = 26 a 30); maloclusão grave, cujo tratamento é altamente desejável (DAI = 31 a 35) e maloclusão muito grave ou incapacitante, cujo tratamento ortodôntico é fundamental (DAI ≥ 36).

Quadro 1 Componentes, dimensões e equação do DAI. 

Dimensão Componentes do DAI Peso
1. Dentição Dentição 6
2. Espaço Apinhamento no segmento incisal (API) 1
2. Espaço Espaçamento no segmento incisal (ESP) 1
2. Espaço Diastema incisal (DI) 3
2. Espaço Desalinhamento maxilar anterior (DMXA) 1
2. Espaço Desalinhamento mandibular anterior (DMDA) 1
3. Oclusão Overjet maxilar anterior (OMXA) 3
3. Oclusão Overjet mandibular anterior (OMDA) 4
3. Oclusão mordida aberta anterior (MAA) 4
3. Oclusão relação molar anteroposterior (RMAP) 3

DAI = (dentes perdidos x 6) + (API)+(ESP) + (DI x 3) + (DMXA) + (DMDA) + (OMXA x 3) + (OMDA x 4) + (MAA x 4) + (RMAP x 3) + 13.

Em relação aos aspectos sóciodemográficos avaliados, considerou-se as seguintes variáveis independentes: macrorregião brasileira (Norte, Centro-Oeste, Nordeste, Sudeste, Sul) localização geográfica (capital, interior), sexo (masculino, feminino), cor de pele (branco, negro/pardo), renda familiar (mais de R$ 1500,00, Até R$ 1500,00) e avaliação da saúde bucal (satisfeito, nem satisfeito nem insatisfeito, insatisfeito).

Inicialmente, as variáveis foram descritas por meio de suas distribuições de frequências, sendo estimados os intervalos de 95% de confiança para as prevalências dos componentes do DAI, bem como para o desfecho (gravidade da maloclusão). Na análise bivariada, utilizou-se teste do Qui-quadrado para avaliar a existência de associação entre o desfecho e as variáveis independentes. As variáveis que apresentaram nível descritivo (valor-p) menor ou igual a 0,20 foram selecionadas para o modelo múltiplo. Na análise múltipla adotou-se o modelo de regressão logística multinomial, utilizando a razão de chances (OR) como medida de associação. Foram estimadas OR brutas (análise bivariada), bem como OR ajustadas (análise múltipla) com seus respectivos intervalos de 95% de confiança. Na análise múltipla o nível de significância adotado foi de 0,05. Foi adotado o teste da deviance para avaliar a qualidade do modelo ajustado. Todas as análises estatísticas foram realizadas no programa SPSS 18.0.

Resultados

Foram incluídas no presente estudo 5539 crianças de 12 anos de idade. A amostra foi composta, em sua maioria, por crianças do sexo feminino, residentes no Nordeste e que se avaliaram como “satisfeito” quanto às suas condições de saúde bucal (Tabela 1). No que diz respeito a prevalência da maloclusão e sua gravidade, como pode ser observado na Tabela 2, 41,0% das crianças avaliadas foram classificados com a presença de oclusopatia em um de seus níveis de gravidade, sendo que a oclusopatia definida acometeu 21,2%, a grave, 10,4% e a muito grave, 9,4% dos indivíduos examinados. Além disso, a amostra foi caracterizada quanto aos componentes do DAI, sendo identificada uma baixa prevalência de overjet mandibular ≥ 4 mm (0,2%), de crianças com dentes ausentes nas arcadas superior (3,2%) ou inferior (2,7%) ou com presença de mordida aberta anterior (5,0%).

Tabela 1 Distribuição das crianças de 12 anos de idade segundo região, localização geográfica, sexo, cor de pele, renda familiar e avaliação da saúde bucal. Brasil, 2010. 

Variável N %
Região
Norte 1498 27,0
Centro-Oeste 816 14,7
Nordeste 1568 28,3
Sudeste 1080 19,5
Sul 577 10,4
Localização
Capital 4155 75,0
Interior 1384 25,0
Sexo
Masculino 2742 49,5
Feminino 2797 50,5
Cor de pele
Branco 2188 39,5
Negro/Pardo 3351 60,5
Renda familiar
Mais de R$1.500,00 1344 25,5
Até R$ 1.500,00 3924 74,5
Avaliação da saúde bucal
Satisfeito 3301 60,7
Nem satisfeito/nem insatisfeito 908 16,7
Insatisfeito 1233 22,7

* Os totais variam devido à perdas de informações.

Tabela 2 Prevalência das maloclusões e componentes avaliados pelo Índice de Estética Dental (DAI) entre crianças de 12 anos. Brasil, 2010. 

Variáveis n % (IC95%)
Número de dentes ausentes na arcada superior
Nenhum 5360 96,8 (96,3-97,3)
Um ou mais 179 3,2 (2,7- 3,7)
Número de dentes ausentes na arcada inferior
Nenhum 5389 97,3 (96,9 – 97,7)
Um ou mais 150 2,7 (2,3 – 3,1)
Apinhamento no segmento anterior
Nenhum 3222 58,2 (56,9 – 59,5)
Um segmento 1454 26,3 (25,1 – 27,5)
Dois segmentos 863 15,6 (14,6 – 16,6)
Espaçamento no segmento anterior
Nenhum 3831 69,2 (68,0 – 70,4)
Um segmento 1274 23,0 (21,9 – 24,1)
Dois segmentos 434 7,8 (7,1 -8,5)
Diastema mediano
Não 4330 78,2 (77,1 -79,3)
Sim 1209 21,8 (20,7 -22,9)
Desalinhamento anterior superior
< 2mm 3911 70,6 (69,4 – 71,8)
≥ 2 mm 1628 29,4 (28,2 – 30,6)
Desalinhamento anterior inferior
< 2mm 4475 80,8 (79,8 – 81,8)
≥ 2mm 1064 19,2 (18,2 -20,2)
Overjet maxilar
< 4mm 3865 69,8 (68,6 – 71,0)
≥ 4mm 1674 30,2 (29,0 – 31,4)
Overjet mandibular
< 4mm 5526 99,8 (99,7 – 99,9)
≥ 4mm 13 0,2 (0,1- 0,2)
Mordida aberta anterior
< 2mm 5264 95,0 (94,4 – 95,6)
≥ 2mm 275 5,0 (4,4 – 5,6)
Relação Molar
Normal 3302 59,6 (58,3 – 60,9)
Meia cúspide 1690 30,5 (29,3 – 31,7)
Uma cúspide 547 9,9 (9,1 – 10,7)
Gravidade da Maloclusão -DAI
Sem oclusopatia 3270 59,0 (57,7 – 60,3)
Oclusopatia definida 1174 21,2 (20,1 – 22,3)
Oclusopatia grave 575 10,4 (9,6 – 11,2)
Oclusopatia muito grave 520 9,4 (8,6 – 10,2)

Na análise bivariada identificou-se que apenas a renda familiar (p = 0,388) não se manteve associada (p ≤ 0,20) às diferentes gravidades da maloclusão para compor o modelo múltiplo, mantendo-se na regressão as variáveis região, localização, sexo, cor da pele e avaliação da saúde bucal (Tabela 3).

Tabela 3 Análise bivariada da gravidade da maloclusão segundo região, localização, sexo, cor de pele, renda familiar, avaliação da saúde bucal entre crianças de 12 anos. Brasil, 2010. 

Variáveis Gravidade da Maloclusão Total Valor-p*

Ausente Definida Grave Muito grave

n (%) n (%) n (%) n (%) n
Região 0,029
Norte 915 (61,1) 317 (21,2) 126 (8,4) 140 (9,3) 1498
Centro-Oeste 481 (58,9) 190 (23,3) 79 (9,7) 66 (8,1) 816
Nordeste 938 (59,8) 305 (19,5) 166 (10,6) 159 (10,1) 1568
Sudeste 608 (56,3) 240 (22,2) 136 (12,6) 96 (8,9) 1080
Sul 328 (56,8) 122 (21,1) 68 (11,8) 59 (10,2) 577
Localização 0,081
Capital 2424 (58,3) 893 (21,5) 427 (10,3) 411 (9,9) 4155
Interior 846 (61,1) 281 (20,3) 148 (10,7) 109 (7,9) 1384
Sexo 0,135
Masculino 1581 (57,7) 593 (21,6) 306 (11,2) 262 (9,6) 2742
Feminino 1689 (60,4) 581 (20,8) 269 (9,6) 258 (9,2) 2797
Cor de pele 0,022
Branco 1338 (61,2) 452 (20,7) 198 (9,0) 200 (9,1) 2188
Negro/Pardo 1932 (57,7) 722 (21,5) 377 (11,3) 320 (9,5) 3351
Renda familiar 0,388
Mais de R$1.500,00 797 (59,3) 298 (22,2) 132 (9,8) 117 (8,7) 1344
Até R$ 1.500,00 2300 (58,6) 817 (20,8) 427 (10,9) 380 (9,7) 3924
Avaliação da saúde bucal <0,001
Satisfeito 2120 (64,2) 648 (19,6) 282 (8,5) 251 (7,6) 3301
Nem satisf. /Nem insatisfeito 502 (55,3) 192 (21,1) 121 (13,3) 93 (10,2) 908
Insatisfeito 587 (47,6) 313 (25,4) 167 (13,5) 166 (13,5) 1233

Na análise múltipla de regressão logística multinomial, identificou-se associações (p ≤ 0,05) da maloclusão definida apenas com auto avaliação da saúde bucal, sendo a presença deste tipo de maloclusão maior entre aqueles que avaliaram a saúde bucal como nem satisfeito/nem insatisfeito e insatisfeito. A chance da maloclusão grave foi maior nos residentes das macrorregiões brasileiras Sudeste e Sul, indivíduos do sexo masculino, que se declararam com cor de pele negro/pardo e entre aqueles que avaliaram a saúde bucal como nem satisfeito/nem insatisfeito e insatisfeito. Para maloclusão muito grave, a chance foi maior entre os residentes em capitais e entre aqueles que avaliaram a saúde bucal como nem satisfeito/nem insatisfeito e insatisfeito (Tabela 4).

Tabela 4 Resultados da análise de regressão logística multinomial múltipla para gravidade da maloclusão entre crianças de 12 anos. Brasil, 2010. 

Variáveis Gravidade da Maloclusão*

Definida Grave Muito Grave

OR (IC95%) Valor-p OR (IC95%) Valor-p OR (IC95%) Valor-p
Região
Centro-Oeste 1,00 1,00 1,00
Norte 0,84 (0,68-1,05) 0,119 0,80 (0,59-1,09) 0,160 1,10(0,80-1,51) 0,576
Nordeste 0,80 (0,65-1,00) 0,051 1,08 (0,80-1,45) 0,613 1,22 (0,89-1,68) 0,215
Sudeste 1,02 (0,81-1,29) 0,850 1,44 (1,06-1,96) 0,019 1,22 (0,87-1,72) 0,259
Sul 1,05 (0,80-1,38) 0,748 1,52 (1,05-2,19) 0,025 1,45 (0,98-2,15) 0,068
Localização
Interior 1,00 1,00 1,00
Capital 1,15 (0,98-1,35) 0,094 1,04 (0,85-1,29) 0,689 1,36 (1,07-1,71) 0,011
Sexo
Feminino 1,00 1,00 1,00
Masculino 1,11 (0,97-1,27) 0,135 1,24 (1,03-1,48) 0,020 1,11 (0,92-1,34) 0,298
Cor de pele
Branco 1,00 1,00 1,00
Negro/Pardo 1,10 (0,95-1,27) 0,219 1,39 (1,14-1,69) 0,001 1,08 (0,88-1,33) 0,440
Avaliação da saúde bucal
Satisfeito 1,00 1,00 1,00
Nem satisf. /Nem insatisf. 1,24 (1,03-1,50) 0,024 1,79 (1,41-2,26) <0,001 1,58 (1,22-2,05) 0,001
Insatisfeito 1,76 (1,50-2,08) <0,001 2,20 (1,77-2,72) <0,001 2,44 (1,96-3,03) <0,001

OR: Razão de chances; IC95%: intervalo de 95% de confiança. *A categoria de referência da variável dependente é “maloclusão ausente”. ** Teste Deviance (valor-p = 0,121).

Discussão

A prevalência da maloclusão entre crianças brasileiras de 12 anos incluídas no presente estudo foi de 41,0%, considerando-se os diferentes níveis de gravidade. Ao considerar a totalidade das crianças de 12 anos examinadas nos inquéritos epidemiológicos de saúde bucal da população brasileira realizado em 200311 e 201012, observa-se não apenas uma redução de 19% na prevalência geral da maloclusão, mas também de 14% nos níveis mais severos. A prevalência da presença de oclusopatia foi semelhante àquelas identificadas em estudos prévios realizados em outros países, tais como Índia (33,4%)20 e Irã (45,5%)24. Resultados próximos também foram identificados em estudos realizados em localidades brasileiras, como Pelotas-RS (40,2%)25 e Manaus-AM (42,3%)26, mas prevalência superior foi identificada em Belo Horizonte-MG (62,0%)27. Ressalta-se que apesar desses estudos terem utilizado o DAI como critério de avaliação, considera-se as diferenças regionais e culturais, assim como o acesso ao tratamento ortodôntico de cada localidade. Considerando os relevantes avanços alcançados no processo de atenção à saúde bucal no Brasil, assim como a possibilidade de acesso ao tratamento ortodôntico em alguns serviços públicos no pais a partir de 20115,28, a prevalência da maloclusão entre crianças brasileiras ainda é bastante elevada. Além disso, possivelmente essa prevalência pode estar relacionada a adoção de comportamentos inadequados que podem agir como fatores de risco para ocorrência desse agravo.

Além disso, nota-se iniquidades sociais no perfil de acometimento de oclusopatias nesse contingente populacional14, o que salienta a compreensão dos aspectos sociodemográficos associados as diferentes gravidades da maloclusão com intuito de descentralização das ações de saúde.

Adicionalmente, constatou-se a associação entre as diferentes gravidades da maloclusão com variáveis referentes aos aspectos sociodemográficos e auto avaliação da saúde bucal. A prevalência da maloclusão definida foi maior entre aqueles que avaliaram sua saúde bucal como nem satisfeito/nem insatisfeito e insatisfeitos. A auto percepção da saúde bucal refere-se ao quanto os indivíduos se sentem afetados pelo seu estado de saúde ou pela presença de problemas bucais, sendo uma interpretação das expectativas e do estado de saúde no contexto da vida diária29. Portanto, considerando os impactos funcionais e estéticos decorrentes da presença da maloclusão1, é de se esperar que sua presença, independente da gravidade, possa afetar a percepção que as crianças possuem de suas condições de saúde bucal, levando à insatisfação. A associação entre condições normativas com a autopercepção da saúde bucal também tem sido identificada entre outros contingentes populacionais no Brasil, como o de adultos30 e idosos29. Estudos prévios realizados no Brasil têm demostrado que as crianças brasileiras, em sua maioria, demonstraram estar satisfeitas com suas condições de saúde bucal, como aqueles realizados em Caruaru-PE31 e Aracaju-SE32. Um estudo conduzido em Maringá-PR entre escolares (12 a 15 anos) identificou que a presença de problemas oclusais, avaliados a partir dos itens que compõem o DAI, mantiveram-se associados a uma pior percepção da fala e da mastigação33, fatores estes que podem compor a auto percepção da saúde bucal. A associação entre a presença de maloclusão e a auto avaliação negativa da saúde bucal também foi identificada entre adolescentes japoneses34, porém utilizando outro critério de diagnóstico. Ressalta-se que tal associação também foi identificada para os níveis grave e muito grave.

A prevalência da maloclusão no nível grave foi maior entre as crianças residentes na região Sudeste e Sul, do sexo masculino, com pele negra/parda e que avaliaram sua saúde bucal como nem satisfeito/nem insatisfeito e insatisfeito. Diferenças regionais no acometimento de outros agravos e doenças bucais, tais como cárie35 e fluorose dentária36, entre crianças brasileiras tem sido identificada em estudos prévios. Ressalta-se ainda que tanto as desigualdades sociais, como a presença de agravos bucais, podem comprometer a qualidade de vida e impactar negativamente na vida diária das pessoas37. Ao considerar a totalidade das crianças de 12 anos incluídas no SB Brasil 2010, foi identificada em estudo prévio14 a inexistência de diferenças significativas no acometimento de oclusopatias graves entre as regiões brasileiras, mas sim diferenças entre as cidades. Além disso, ao considerar que a maloclusão pode ser influenciada por questões comportamentais, acredita-se que diferentes comportamentos podem ser identificados entre as regiões brasileiras decorrentes das diferenças culturais e regionais.

Considera-se ainda que as condições socioeconômicas possam influenciar na saúde bucal das pessoas, estabelecendo uma complexa relação com outros determinantes, tais como escolaridade, adoção de certos comportamentos e acesso a bens e serviços básicos, sendo tais associações identificadas em estudos prévios22,38. Dessa forma, as ações de saúde devem considerar tais diferenças com intuito de atender apropriadamente a população. Da mesma forma como a maloclusão definida manteve-se associada a avaliação negativa das condições de saúde bucal, considera-se que quanto maior a gravidade da oclusopatia maior a chance de autopercepção negativa.

Em relação a maloclusão no nível muito grave, identificou-se que sua prevalência foi maior entre as crianças residentes na capital e que avaliaram sua saúde bucal como nem satisfeito/nem insatisfeito e insatisfeito. Assim como para maloclusão grave, identificou-se diferenças regionais no seu acometimento, diferindo entre capitais e cidades do interior. Ressalta-se que iniquidades sociais, tais como aquelas relacionadas à renda e raça, tem sido associadas à maloclusão muito grave entre crianças (12 anos) e adolescentes (15 a 19 anos) brasileiros22. Dessa forma, apesar de diferenças sociodemográficas, e maior concentração de recursos nas capitais, assim como um maior acesso aos serviços de sáude39, considera-se que uma maior densidade populacional pode resultar em uma maior prevalência de agravos bucais e maior demanda a ser tratada pelos serviços de saúde. Considerando a possibilidade dos agravos bucais afetarem na percepção dos indivíduos quanto a sua saúde bucal29, quanto maior sua gravidade, pior sua auto avaliação da saúde bucal. Dessa forma, assim como para os níveis definido e grave, era de se esperar que a maloclusão muito grave fosse associada à uma pior autoavaliação das condições de saúde bucal.

Ao considerar o impacto funcional e estético da maloclusão14, assim como seu impacto na vida diária e qualidade de vida dos indivíduos acometidos8,9, as investigações que buscam identificar seu perfil de prevalência e possíveis fatores associados podem subsidiar ações de saúde e melhoria nas políticas públicas de saúde que visem uma melhor saúde bucal entre crianças. Além disso, a avaliação de possíveis fatores sociodemograficos associados às diferentes gravidades da maloclusão podem ser úteis na distribuição e locação de recursos, assim como nas prioridades de tratamento ortodôntico fundamentados no princípio da equidade da atenção à saúde bucal22. Ressalta-se que no Brasil os Centros de Especialidades Odontológicas, a partir no ano de 2011, podem incluir em suas atividades, a realização de tratamento ortodôntico. Porém, considerando a alta demanda de tratamento, o déficit no números e procedimentos realizados desde então e as diferenças regionais na distribuição desses procedimentos22, resultados positivos e uma redução na prevalência da maloclusão só serão visualizados a longo prazo.

Dentre as limitações do presente estudo, ressalta-se sua característica transversal, não sendo possível estabelecer relações de causa e feito entre os fatores associados. Apesar disso, os resultados apresentados são válidos e representativos da população de crianças de 12 anos do Brasil, situação que permitiu mais esclarecimentos sobre a associação de aspectos sociodemográficos com os diferentes níveis de gravidade da maloclusão nesta população. Salienta-se ainda que a maloclusão foi avaliada em um único momento, não sendo identificado há quanto tempo os indivíduos possuíam tal condição e, portanto, não explicando totalmente o papel das variáveis independentes no acometimento desse agravo bucal.

Considera-se que, no geral, as crianças brasileiras investigadas possuem uma alta prevalência de maloclusão em seus diferentes níveis de gravidade. Além disso, identificou-se que diferentes aspectos sociodemográficos, assim como auto avaliação da saúde bucal, mantiveram-se associados aos níveis de gravidade da maloclusão. Ressalta-se que, estudos futuros devem considerar a possível influência de características contextuais dos municípios, tais como a disponibilidade de serviços e profissionais especializados no tratamento desse agravo bucal e sua possível influência nos desfechos em saúde, em termos de maloclusão. Além disso, devem ser considerados em estudos epidemiológicos comportamentos prévios adotados durante a infância por parte das crianças e responsáveis, que possam representar fatores de risco à ocorrência da maloclusão.

Agradecimentos

À Coordenação Nacional de Saúde Bucal/Ministério da Saúde pela cessão e envio do banco de dados do SBBrasil 2010.

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Received: October 13, 2015; Revised: May 23, 2016; Accepted: May 25, 2016

Colaboradores

JM Bauman e FM Flório participaram da organização e análise dos dados, redação do artigo, revisão crítica e aprovação da versão submetida. JGS Souza e CD Bauman participaram da organização dos dados e redação do artigo.

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