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Ciência & Saúde Coletiva

Print version ISSN 1413-8123On-line version ISSN 1678-4561

Ciênc. saúde coletiva vol.23 no.7 Rio de Janeiro July 2018

http://dx.doi.org/10.1590/1413-81232018237.20602016 

TEMAS LIVRES

Fatores associados às infecções sexualmente transmissíveis: inquérito populacional no município de São Paulo, Brasil

Valdir Monteiro Pinto1 

Caritas Relva Basso1 

Claudia Renata dos Santos Barros2 

Eliana Battaggia Gutierrez1 

1Programa Municipal de DST/AIDS de São Paulo. R. Santa Cruz 81, Vila Mariana. 04121-000 São Paulo SP Brasil. vmpinto@prefeitura.sp.gov.br

2Universidade Católica de Santos. Santos SP Brasil.

Resumo

Descrevemos a frequência de infecções sexualmente transmissíveis (IST), os fatores associados e as orientações recebidas dos profissionais de saúde entre homens e mulheres no município de São Paulo. Estudo de corte transversal, com inquérito populacional, com indivíduos de 15 a 64 anos residentes em São Paulo. De 4057 indivíduos que iniciaram a vida sexual, 6,3% relataram IST durante a vida, 4,3% das mulheres e 8,2% dos homens. As IST mostraram associação, entre os homens, com: idade > 34 anos, não uso de preservativo na primeira relação sexual; e entre as mulheres idade > 25 anos. Mostraram-se fatores de proteção, entre os homens: não ter tido relações sexuais com pessoa do mesmo sexo; e entre as mulheres: início sexual > 15 anos de idade e não ter tido parceria casual no último ano. Quanto às orientações, 72,1% e 64,7% das mulheres as receberam sobre a importância de realizar testes para HIV e sífilis, respectivamente, enquanto foram ofertadas para menos da metade dos homens (40,2% e 38,6%). A elevada proporção de antecedentes de IST entre a população do município e os resultados deste estudo possibilitaram a construção, implementação e avaliação de políticas públicas de saúde para o enfrentamento das IST incluindo o HIV, com diminuição de barreiras de acesso aos preservativos e criação de um app para prevenção.

Palavras-Chave: DST; Prevenção; HIV

Introdução

As Infecções Sexualmente Transmissíveis (IST) são problemas de Saúde Pública, devido à sua magnitude e dificuldade de acesso ao tratamento adequado. Em 2012 a incidência global foi estimada em 357,4 milhões de casos novos de IST curáveis no mundo, na faixa etária de 15 a 49 anos, a maioria deles em países em desenvolvimento1.

Nestes países as IST estão entre as 10 causas mais frequentes de procura por serviços de saúde, com consequências de natureza sanitária, social e econômica2. A falta de acesso a serviços de saúde efetivos e confiáveis se refletem no aumento das IST em muitos países3 e essas infecções podem representar até 17% de perdas econômicas, causadas pelo binômio saúde-doença4,5.

O tratamento inadequado das IST ou o não tratamento pode resultar em complicações como a doença inflamatória pélvica (DIP), gravidez ectópica, infertilidade masculina e feminina, cânceres6-8, abortos, prematuridade, natimortos, mortalidade neonatal e infecções congênitas2, além de aumentar o risco de transmissão do HIV9,10.

No Brasil, a verdadeira situação epidemiológica dessas doenças e de suas complicações não são bem conhecidas, devido ao fato da maioria das IST não ser de notificação compulsória, além da escassez de estudos sentinelas e de base populacional.

O município de São Paulo conta com cerca de 12 milhões de habitantes, sendo que, destes, 52,5% são mulheres11. Ainda hoje há lacunas na estimativa da magnitude das IST entre homens e mulheres residentes neste município.

Este estudo teve como objetivo descrever a frequência de IST entre a população de 15 a 64 anos, residente no município de São Paulo, identificar os fatores associados e as orientações recebidas por ocasião de seu tratamento.

Metodologia

Este estudo de corte transversal é parte do inquérito populacional intitulado “Pesquisa sobre Conhecimento, Atitudes e Práticas dos indivíduos de 15 a 64 anos residentes no município de São Paulo”, que objetivou avaliar o conhecimento, as atitudes e as práticas relacionadas às IST, HIV e Hepatites virais entre a população residente no município. A coleta de dados foi realizada entre novembro de 2013 e janeiro de 2014.

No cálculo para o tamanho da amostra foi utilizado como parâmetro a proporção de 20% de uso regular de preservativo com parceria fixa do PCAP de 2008 com intervalo de confiança de 95%, efeito do desenho para conglomerado de 1,8 e erro de 0,05. O tamanho mínimo da amostra foi de 443 entrevistas para cada domínio. Acrescido de 20% que refere-se ao valor aceitável para perda amostral, assim resultou em uma amostra total de 530 para os domínios sexo e idade.

A amostra por conglomerado foi selecionada em dois estágios e baseada nos setores censitários do Censo de 2010. Os domínios para o planejamento da amostra foram as cinco Coordenadorias Regionais de Saúde (CRS) do município (Centro-Oeste, Sudeste, Sul, Leste e Norte), o sexo e a faixa etária da população residente na região urbana de São Paulo.

Foram sorteados como unidades primárias da amostragem 80 Setores Censitários, por meio de processo de amostragem sistemática, ou seja, o critério de probabilidade aleatório é aplicado à primeira unidade e às demais a cada k intervalo sistemático definido pela razão entre o tamanho da população e da amostra. Também o sorteio dos respectivos setores foi proporcional ao tamanho populacional de cada região administrativa (Centro-Oeste, Sudeste, Sul, Leste e Norte) do município. Destacamos que o total de setores selecionados compreendeu a diversidade entre as regiões administrativas.

A seleção dos domicílios e do morador do domicílio em cada setor respeitou o preenchimento das cotas, compostas por três variáveis: sexo; faixa etária; e situação conjugal. Assim, em cada setor, foi entrevistado um indivíduo em cada composição, totalizando a amostra de 4318 entrevistas.

Coleta de dados

Para a coleta de dados foram utilizados dois instrumentos: entrevista face a face, que compreendeu a caracterização sociodemográfica, conhecimento sobre doenças infectocontagiosas, infecções sexualmente transmissíveis, realização de testagem para HIV e hepatites, discriminação e acesso a preservativos. O outro instrumento, utilizado para questões e temas com potencial de causar constrangimento, inibição, recusa ou falseamento nas informações (comportamento sexual e uso de drogas e de álcool), foi de autopreenchimento.

As entrevistas, realizadas por entrevistadores do mesmo sexo dos entrevistados, foram feitas utilizando Tablets. Para as pessoas não alfabetizadas foi adotada a opção de áudio, no momento do autopreenchimento. Importante ressaltar que nestes casos específicos foram garantidos o sigilo e a privacidade para realização das respostas.

Neste estudo sobre IST foram analisadas as informações de 4057 homens e mulheres que iniciaram a vida sexual, 93,9% da amostra total.

As variáveis independentes foram: as características sociodemográficas – a idade, categorizada em “15 a 24”, “25 a 34”, “35 a 49” e “50 a 64”; – a escolaridade (“até fundamental”, “médio completo e incompleto” e “superior completo e incompleto”); – a raça/cor (autorreferida), conforme classificação IBGE; – a situação conjugal (viver ou não com companheiro(a); a classificação econômica, para a qual foi utilizada a classificação Brasil e agrupada em “A/B”, “C” e “D/E”; e as comportamentais: a idade da primeira relação sexual, o uso de preservativo no primeiro intercurso sexual e ter tido relação sexual com pessoa do mesmo sexo alguma vez na vida.

A variável dependente foi a ocorrência de alguma IST na vida: corrimento uretral (somente para os homens), feridas, bolhas, verrugas (para homens e mulheres). Queixas de corrimentos vaginais não foram incluídas no questionário porque geralmente não se devem a IST.

Análises

As variáveis foram descritas por meio de frequências e proporções. Os testes de hipótese utilizados foram o Qui-quadrado de Pearson e o Exato de Fisher. Para a análise dos fatores associados foi utilizado o modelo de regressão logística. Foram incluídas no modelo múltiplo as variáveis que apresentaram o valor de p < 0,20 na análise bivariada.

A inclusão das variáveis no modelo múltiplo respeitou a ordem crescente do nível de significância e foram mantidas no modelo final aquelas que apresentaram valor de p < 0,05 ou as que ajustaram em pelo menos 10% alguma outra variável.

Todas as análises foram realizadas por meio do pacote estatístico STATA 10.0 e o nível de significância adotado foi de 5%.

Este estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Secretaria Municipal da Saúde de São Paulo.

Resultados

Entre todos os indivíduos que iniciaram a vida sexual (n = 4057), 6,3% (255) declararam ter tido pelo menos um episódio de IST durante a vida, 4,3% das mulheres e 8,2% dos homens, conforme Tabela 1.

Tabela 1 Distribuição percentual (%) de indivíduos que iniciaram vida sexual, segundo antecedentes de IST alguma vez na vida, por sexo. São Paulo, 2014. 

Antecedente de IST Homens (n = 2.044) Mulheres (n = 2.013) p

n % n %
Corrimento* 113 5,5 ----- -----
Feridas 45 2,2 57 2,8 0,2
Bolhas 37 1,8 15 0,7 0,003
Verrugas 17 0,8 26 1,3 0,153
Pelo menos um sintoma 168 8,2 87 4,3 < 0,001

* Queixas de corrimentos vaginais não foram incluídas na análise, porque em sua maioria podem não ser casos de IST.

Antecedente de corrimento uretral foi relatado por 5,5% dos homens; feridas nos genitais por 2,2% dos homens e 2,8% das mulheres, verrugas, em 0,8% dos homens e 1,3% das mulheres, e bolhas, em 1,8% dos homens e 0,8% das mulheres (Tabela 1).

Entre os homens, houve predomínio da cor de pele branca (45,5%), 52,5% tinham idade superior a 34 anos e aproximadamente 46% dos entrevistados alcançaram 11 anos de estudo. Mais da metade dos homens (52,4%) viviam com companheira(o), conforme Tabela 2. Na análise bivariada das características sociodemográficas, foi observado associação positiva com IST a idade superior a 34 anos. Ter alcançado nove ou mais anos de estudo apresentou associação negativa com IST na vida (Tabela 2).

Tabela 2 Características sociodemográficas e comportamentais de homens e fatores associados com IST. Município de São Paulo, 2014. (N = 2044) 

Variáveis Total IST ORbr (95%CI)

Não Sim

n % n % n %
Faixa etária
15-24 anos 445 21,8 428 22,8 17 10,1 1
25-34 anos 526 25,7 497 26,5 29 17,3 1,47 (0,8-2,6)
> 34 anos 1073 52,5 951 50,7 122 72,6 3,23 (2,0-5,2)
Escolaridade (anos de estudo)
< 8 anos 619 30,3 546 29,1 73 43,4 1
9-11 anos 938 45,9 874 46,6 64 38,1 0,54 (0,4-0,8)
12 e + 487 23,8 456 24,3 31 18,5 0,51 (0,3-0,9)
Raça/cor
Branca 930 45,5 859 45,8 71 42,3 1
Preta 377 18,4 350 18,6 27 16,1 0,93 (0,6-1,4)
Parda 650 31,8 592 31,6 58 34,5 1,18 (0,8-1,7)
Outra 87 4,3 75 4,0 12 7,1 1,93 (0,9-4,0)
Estado marital
Vive com companheiro 1070 52,4 987 52,6 83 49,4 1
Não vive com companheiro 974 47,6 889 47,4 85 50,6 1,13 (0,8-1,6)
Classe econômica
D/E 160 7,8 147 7,9 13 7,8 1
C 890 43,6 809 43,1 81 48,2 1,13 (0,5-2,4)
A/B 994 48,6 920 49,0 74 44,0 0,91 (0,4-1,9)
Idade da primeira relação sexual*
≤ 15 anos 1074 52,7 978 52,3 96 57,1 1
> 15 anos 963 47,3 891 47,7 72 42,9 0,82 (0,6-1,2)
Uso de preservativo na primeira relação sexual*
Sim 842 41,2 808 43,1 34 20,2 1
Não/não respondeu 1202 58,8 1068 56,9 134 79,8 2,98 (1,9-4,6)
Relação sexual com pessoa do mesmo sexo
Sim 176 8,6 151 8,1 25 14,9 1
Não/não respondeu 1868 91,4 1725 91,9 143 85,1 0,50 (0,3-0,8)
Parceiro casual no último ano**
Sim 744 39,0 673 38,5 71 44,6 1
Não 1164 61,0 1076 61,5 88 55,4 0,77 (0,5-1,1)

* 7 pessoas não responderam a idade da primeira relação sexual ** 136 pessoas não tiveram relações sexuais no último ano. Nota: As variáveis que apresentaram p < 0,20 na análise bivariada foram incluídas no modelo múltiplo.

Em relação ao comportamento sexual, a maioria dos homens teve iniciação sexual antes dos 15 anos (52,7%) e 58,8% deles não usaram preservativo na primeira relação sexual. Mais de um terço deles (39,0%) tiveram parceria casual no último ano e 8,6% já mantiveram relações sexuais com outros homens. Na análise bivariada das características comportamentais verificou-se que a falta de uso de preservativo na primeira relação sexual foi associada positivamente com IST, enquanto não ter tido relação sexual com pessoa do mesmo sexo foi associado negativamente com IST (Tabela 2).

Entre as mulheres, as características sociodemográficas foram semelhantes às observadas entre os homens, com predominância da cor de pele branca (53,5%), 43,7% tinham de 9 a 11 anos de estudo e mais da metade vivia com companheiro (53,5%), conforme Tabela 3. Na análise bivariada, verificou-se associação positiva com IST e idade superior a 25 anos (Tabela 3).

Tabela 3 Características sociodemográficas e comportamentais de mulheres e fatores associados com IST. Município de São Paulo, 2014. (N = 2013) 

Variáveis Total IST ORbr (95%CI)

Não Sim

n % n % n %
Faixa etária
15-24 anos 417 20,7 410 21,3 7 8,1 1
25-34 anos 533 26,5 510 26,5 23 26,4 3,39 (1,6-7,2)
> 34 anos 1063 52,8 1006 52,2 57 65,5 4,28 (1,9-9,6)
Escolaridade (anos de estudo)
< 8 anos 729 36,2 694 36,0 35 40,2 1
9-11 anos 879 43,7 841 43,7 38 43,7 0,84 (0,5-1,3)
12 e + 405 20,1 391 20,3 14 16,1 0,73 (0,3-1,6)
Raça/cor
Branca 1077 53,5 1032 53,6 45 51,7 1
Preta 347 17,2 328 17,0 19 21,8 1,33 (0,7-2,3)
Parda 510 25,3 489 25,4 21 24,2 1,02 (0,6-1,7)
Outra 79 4,0 77 4,0 2 2,3 0,60 (0,1-2,5)
Estado marital
Vive com companheiro 1078 53,5 1042 54,1 36 41,4 1
Não vive com companheiro 935 46,5 884 45,9 51 58,6 1,45 (0,9-2,3)
Classe econômica
D/E 145 7,2 135 7,1 10 11,5 1
C 918 45,6 881 45,7 37 42,5 0,56 (0,3-1,1)
A/B 950 47,2 910 47,2 40 46,0 0,56 (0,3-1,2)
Idade da primeira relação sexual*
≤ 15 anos 443 22,2 417 21,8 26 30,6 1
> 15 anos 1555 77,8 1496 78,2 59 69,4 0,63 (0,4-0,9)
Uso de preservativo na primeira relação sexual
Sim 757 37,6 725 37,6 32 36,8 1
Não/não respondeu 1256 62,4 1201 62,4 55 63,2 1,04 (0,6-1,8)
Relação sexual com pessoa do mesmo sexo
Sim 84 4,2 78 4,1 6 6,9 1
Não/não respondeu 1929 95,8 1848 95,9 81 93,1 0,57 (0,2-1,3)
Parceiro casual no último ano**
Sim 277 17,4 255 16,8 22 31,0 1
Não 1315 82,6 1266 83,2 49 69,0 0,45 (0,3-0,7)

* 15 pessoas não responderam a idade da primeira relação sexual ** 421 pessoas não tiveram relações sexuais no último ano Nota: As variáveis que apresentaram p < 0,20 na análise bivariada foram incluídas no modelo múltiplo.

Mais de três quartos das mulheres (77,8%) iniciaram a vida sexual após os 15 anos, 62,4% não usaram preservativo na primeira relação sexual e 17,4% relataram que não mantiveram relações sexuais com parceiro casual no último ano. Na análise bivariada foi observado que ter iniciado a vida sexual após os 15 anos e não ter tido parceria sexual casual no último ano foram associadas negativamente com IST, entre as mulheres (Tabela 3).

O modelo final de regressão logística mostrou associação positiva com IST entre os homens, as seguintes variáveis: idade superior de 34 anos [ORaj = 2,51 (IC95%: 1,5-4,0)] e não usar preservativo na primeira relação sexual [ORaj = 2,45 (IC95%: 1,6-3,8)]. Por outro lado, mostrou-se como fator de proteção não ter relação sexual com pessoa do mesmo sexo [ORaj = 0,46 (IC95%: 0,3-0,8)] (Tabela 4).

Tabela 4 Análise multivariada dos fatores associados com IST entre homens e mulheres. Município de São Paulo, 2014. 

Variáveis Homens Mulheres

ORaj (95%CI) ORaj (95%CI)
Faixa etária
15 a 24 1 1
25 a 34 1,40 (0,7-2,5) 2,86 (1,4-6,1)
Acima 34 2,51 (1,5-4,0) 4,41 (2,1-9,1)
Uso de preservativo na primeira relação sexual
Sim 1 ***
Não/não respondeu 2,45 (1,6-3,8) *** ***
Relação sexual com pessoa do mesmo sexo
Sim 1 ***
Não/não respondeu 0,46 (0,3-0,8) *** ***
Idade da primeira relação sexual
≤ 15 anos *** 1
> 15 anos *** *** 0,46 (0,3-0,7)
Teve parceiro casual no último ano
Sim *** 1
Não/não respondeu *** *** 0,43 (0,3-0,7)

Nota: *** Não entrou no modelo múltiplo.

Entre as mulheres mostrou associação positiva com as IST: idades maiores de 34 anos [ORaj = 4,41 (IC95%: 2,1-9,1)] e de 25 a 34 anos [ORaj = 2,86 (IC95%: 1,4-6,1)], enquanto mostraram-se como fatores de proteção: ter iniciado a vida sexual após os 15 anos [ORaj = 0,46 (IC95%: 0,3-0,7)] e não ter tido parceiro casual no último ano [ORaj = 0,43 (IC95%: 0,3-0,7)] (Tabela 4).

Quando acometidos por IST, 72,1% e 64,7% das mulheres receberam orientações sobre a importância de realizar testes para HIV e sífilis, respectivamente; porém estas orientações foram ofertadas para apenas 40,2% e 38,6% dos homens. (Tabela 5)

Tabela 5 Número (n) e percentual (%) de orientações recebidas por homens e mulheres que tiveram pelo menos um antecedente de IST e buscaram tratamento, segundo faixa etária. São Paulo. 2014. 

Orientações recebidas HOMENS

15 a 24 25 a 34 35 a 49 50 a 64 p

n % n % n % n %
Usar preservativo
Sim 9 90,0 19 82,6 29 69,1 23 44,2
Não 1 10,0 4 17,4 13 30,9 29 55,8 0,001
Informar aos parceiros
Sim 9 90,0 18 78,3 27 64,3 27 51,9
Não 1 10,0 5 21,7 15 35,7 25 48,1 0,041
Fazer teste HIV
Sim 3 30,0 17 73,9 22 52,4 9 17,3
Não 7 70,0 6 26,1 20 47,6 43 82,7 <0,001
Fazer teste de Sífilis
Sim 2 20,0 12 52,2 21 50.0 14 26,9
Não 8 80,0 11 47,8 21 50.0 38 73,1 0,036
Fazer teste de HB e HC
Sim 1 10,0 12 52,2 20 47,6 7 13,5
Não 9 90,0 11 47,8 22 52,4 45 86,5 <0,001

Orientações recebidas MULHERES

15 a 24 25 a 34 35 a 49 50 a 64 p

n % n % n % n %

Usar preservativo
Sim 2 100,0 17 100,0 19 65,5 11 55,0
Não 0 0 0 0 10 34,5 9 45,0 0,012
Informar aos parceiros
Sim 2 100,0 17 100,0 18 62,1 11 55,0
Não 0 0 0 0 11 37,9 9 45,0 0,01
Fazer teste HIV
Sim 1 50,0 15 88,2 23 79,3 10 50,0
Não 1 50,0 2 11,8 6 20,7 10 50,0 0,04
Fazer teste de Sífilis
Sim 1 50,0 13 76,5 23 79,3 7 35,0
Não 1 50,0 4 23,5 6 20,7 13 65,0 0,009
Fazer teste de HB e HC
Sim 1 50,0 10 58,8 20 69,0 9 45,0
Não 1 50,0 7 41,2 9 31,0 11 55,0 0,412

Os percentuais de pessoas informadas sobre a importância de usar preservativos e de notificar suas parcerias sexuais alcançaram a totalidade para a faixa etária de 15 a 24 anos entre as mulheres e 90% entre os homens. Esses percentuais decresceram conforme aumentaram as idades e menos da metade dos homens (44,2%), na faixa de 50 a 64 anos, foi informado da importância do seu uso, conforme Tabela 5.

Metade da população feminina mais velha (50 a 64 anos) com IST não recebeu informações sobre a importância de se testar para HIV e para sífilis, assim como 70% e 80% dos homens mais jovens (15 a 24 anos), que não foram orientados a fazer testes para HIV e sífilis, respectivamente (Tabela 5).

A orientação para realizar teste para HIV variou geograficamente: entre as mulheres, os maiores percentuais foram observados nas regiões Centro-Oeste e Norte, (90,0% e 84,2%), sendo que a menor proporção foi na região Leste (41,2%) enquanto para a população masculina o maior percentual foi de 52,9% na região Norte (dados não apresentados na tabela).

Discussão

A prevalência das IST é de difícil estimativa e conhecimento, seja em nível global ou regional, devido à fragilidade e inadequação dos sistemas de vigilância. Entretanto, são conhecidos os seus impactos, tanto do ponto de vista socioeconômico quanto para a saúde sexual e reprodutiva.2,4,5

A Organização Mundial da Saúde, devido à transcendência das IST, apresenta, periodicamente, estimativas da magnitude destas infecções no mundo, para subsidiar a implementação de políticas públicas para seu controle12.

O exposto acima reforça a importância de inquéritos domiciliares, como o presente estudo, que possibilitou estimar a prevalência de 6,3% de antecedentes de IST para o município.

No Brasil, o Departamento Nacional de DST, AIDS e Hepatites Virais (DDAHV), bem como os Programas Estaduais e Municipais de DST/AIDS, vêm envidando esforços para ampliar o acesso universal e gratuito aos preservativos, para aumentar a prática de sexo protegido, estratégia destinada a reduzir a ocorrência de infecções sexualmente transmissíveis, inclusive o HIV.

Outra importante estratégia de prevenção para todas as IST é a divulgação sobre as formas de transmissão, os sinais e os sintomas de IST13, com o objetivo de aumentar o conhecimento da população e orientar a busca precoce por assistência. Estudo nacional mostrou que, para a maioria dos jovens, a escola seria a instituição preferencial para receber informações sobre IST14; outro estudo concluiu que os conteúdos sobre IST/aids nas grades de emissoras de televisão e nas revistas são insignificantes15 e, finalmente, muitos jovens, apesar de receber informações, ainda falham em adotar medidas de proteção contra as IST16,17.

Nosso estudo aponta que uma proporção importante da população já apresentou sinais e sintomas de IST, e mostrou o início sexual mais tardio como fator protetor em relação ao agravo, em concordância com a bibliografia, que mostra que o início precoce da atividade sexual está associado com IST18.

O inicio sexual precoce torna as pessoas mais susceptíveis às IST, tanto pela busca de novas experiências que podem levar a práticas sexuais de maior risco, como pela maior dificuldade de negociação do uso de preservativo, o que caracteriza o sentimento de invulnerabilidade dos mais jovens16.

Viver com companheiro e a escolaridade não se mostraram como fator protetor para IST. Pessoas que vivem com companheiro, em geral, não têm autopercepção de vulnerabilidade para IST e, por consequência, podem deixar de se proteger adequadamente e esta avaliação equivocada, da ausência de risco, pode ser compartilhada também pelos profissionais de saúde. Embora em nosso estudo a escolaridade não tenha sido associada às IST, na literatura há descrição de associação entre menor escolaridade e início sexual precoce14, ambos os fatores extremamente relevantes para o estabelecimento de políticas de prevenção.

As IST não fazem parte do cotidiano dos jovens, que frequentemente não estão atentos ao risco de infecção e não adotam medidas protetoras; particularmente as mulheres casadas têm baixa percepção de vulnerabilidade13,19 e, portanto, se acometidas por uma IST, a falta de diagnóstico precoce impede que o tratamento seja iniciado, contribuindo para as complicações advindas do agravo, além de perpetuar a transmissão da infecção20.

Outro importante achado em nosso estudo refere-se à maior prevalência e associação das IST entre os homens que fazem sexo com homens (HSH), em consonância com estudo conduzido no Brasil19 e outro na Austrália21, o qual demonstrou aumento de IST entre HSH no período de 2007 a 2013. Isto pode ser devido a certos comportamentos como o não uso regular de preservativos e a prática do sexo anal aumentando o risco de DST, além da homofobia, estigma e discriminação que podem influenciar negativamente a saúde de HSH22.

As IST são afecções que demandam ações, principalmente, de baixa complexidade tecnológica, porém ainda há dificuldade de integrar as ações de vigilância com a assistência. Uma vez que o sistema de saúde no Brasil assegura acesso universal e equitativo, é inaceitável que pessoas com IST não recebam diagnóstico precoce e tratamento oportuno com orientações completas. Em uma metrópole, cosmopolita, como São Paulo11, deve haver ampla acessibilidade aos serviços de saúde para diagnóstico e tratamento precoce, evitando complicações devidas a esses agravos, bem como a infecção pelo HIV.

Outra questão importante refere-se à falta de orientações para as pessoas que buscaram tratamento de IST, lacuna que já fora apontada por estudo realizado em Campinas23 com mulheres atendidas na rede básica de saúde e pelo Ministério da Saúde24. Esta situação demonstra que existe discrepância entre as orientações preconizadas pelas normas editadas pelo Ministério da Saúde e a prática nos serviços de saúde. Fato que pode ser explicado por desconhecimento ou pelo não cumprimento do protocolo estabelecido para o manejo das IST por profissionais de saúde no município de São Paulo25.

Particularmente, as menores proporções de informações sobre comunicar parceiros sexuais ou usar preservativos para as pessoas mais velhas podem ser decorrência de pré-julgamento, despreparo ou desconforto dos profissionais no manejo de IST em pessoas com maiores idades.

As diferenças observadas em relação à qualidade das orientações prestadas às pessoas que buscaram atendimento são reforçadas pela análise segundo a região de moradia, o que indica a diversidade social e de necessidades de saúde dentro de um município com a dimensão de São Paulo. Estas diferenças regionais apontam a necessidade de educação permanente para os profissionais de saúde, considerando as particularidades e as diferentes situações de vulnerabilidade das pessoas acometidas por IST e pelo HIV, com vistas à melhoria da saúde sexual e reprodutiva da população paulistana.

Uma das limitações deste estudo é a obtenção de dados por inquéritos com base em comportamentos relacionados à vida íntima das pessoas, que pode ser suscetível ao viés de memória, além de possíveis adequações de respostas social e politicamente aceitas, o que pode subestimar a prevalência de antecedentes de IST. Porém, o uso de dispositivo eletrônico de autopreenchimento diminuem a probabilidade deste viés. Por outro lado, trata-se de um estudo de base populacional com amostra representativa da população residente no município de São Paulo, o que possibilita a inferência populacional dos resultados.

Deste modo, esse tipo de estudo pode oferecer aos formuladores de políticas públicas, gestores, profissionais de saúde, universidades e ao público em geral informações atualizadas sobre a ocorrência de IST na população e as necessidades de saúde no âmbito do município.

A redução da magnitude das IST é baseada no conhecimento da população sobre estas infecções, no uso de preservativo e no acesso aos serviços de saúde com a finalidade de promover atenção efetiva à saúde, inclusive com vacinação das pessoas expostas26.

Conclusão

A proporção de antecedentes de IST na população de 15 a 64 anos, residente no município de São Paulo, é elevada. O início precoce da atividade sexual, o não uso de preservativo na primeira relação sexual e a parceria eventual no último ano estão associados com IST. É importante incorporar as IST como tema na agenda política dos movimentos que lutam pela saúde com o mesmo vigor de outros temas, tais como aborto, morte materna e HIV, pois há uma profunda conexão entre todos esses agravos, em que pesem a magnitude dos mesmos e sua importância para a saúde sexual e reprodutiva.

Uma das medidas adotadas pelo MSP após esse estudo foi a diminuição de barreiras de acesso aos preservativos, com a implantação de dispensadores de larga escala, “Jumbos”, com capacidade para 15.000 preservativos, alocados fora dos serviços de saúde. Em dezembro de 2015 foram instalados os “jumbos” em 28 terminais de ônibus na capital com distribuição de aproximadamente oito milhões de preservativos em 30 dias, nestes locais.

Sob coordenação do Programa Municipal de DST/AIDS, foi elaborado o aplicativo ‘Tá Na Mão”, com foco na prevenção, orientação e gerenciamento de risco para IST e HIV, com a participação de profissionais de saúde, homens que fazem sexo com homens (HSH) e jovens. Este app, que também traz informações dos locais onde é possível obter preservativos, testes e profilaxia pós-exposição (PEP) gratuitos, está disponível para Android, iOS e Windows Phone, sem custos.

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Recebido: 16 de Março de 2016; Aceito: 03 de Agosto de 2016; Revisado: 05 de Agosto de 2016

Colaboradores

VM Pinto, CR Basso, CRS Barros e EB Gutierrez tiveram participação em todas as fases de análise e interpretação dos dados e aprovação da versão a ser submetida, como também na elaboração do projeto e acompanhamento do trabalho de campo.

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