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Ciência & Saúde Coletiva

Print version ISSN 1413-8123On-line version ISSN 1678-4561

Ciênc. saúde coletiva vol.23 no.10 Rio de Janeiro Oct. 2018

https://doi.org/10.1590/1413-812320182310.23382016 

TEMAS LIVRES

Redução da capacidade funcional de idosos residentes em comunidade: estudo longitudinal

Fernanda Souza Matos1 

Cleber Souza de Jesus1 

José Ailton Oliveira Carneiro1 

Raildo da Silva Coqueiro1 

Marcos Henrique Fernandes1 

Thais Alves Brito1 

1 Núcleo de Estudos em Epidemiologia do Envelhecimento , Departamento de Saúde , Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia . R. José Moreira Sobrinho s/n, Jequiezinho. 45206-190 Jequié BA Brasil . fm_fisio@hotmail.com


Resumo

O objetivo deste estudo foi identificar a incidência e fatores de risco para a redução da capacidade funcional de idosos residentes em comunidade. Foi conduzido estudo de coorte prospectivo em duas fases, 2011 e 2014. A população do estudo foi composta por 202 idosos inicialmente independentes para as atividades básicas da vida diária. Utilizou-se como medida de associação o risco relativo (RR) e seus respectivos intervalos de confiança (IC) 95%, que foram estimados por regressão log-binomial com variância robusta. A incidência da redução de capacidade funcional foi de 15,3%. Os fatores de risco para o declínio funcional foram: estado civil sem união (RR aj = 2,75; IC95%: 1,15 – 6,57) e presença de sintomas de depressão (RR aj = 2,41; IC95%: 1,15 – 5,06), mesmo após ajuste por sexo, faixa etária, renda familiar per capita, diabetes, uso de medicamentos e nível de atividade física. A elevada incidência da redução de capacidade funcional e sua associação com aspectos da relação conjugal e de saúde mental revela a necessidade de considerar tais fatores no planejamento de ações em saúde voltadas à manutenção e recuperação da capacidade funcional dos idosos.

Palavras-Chave: Saúde do Idoso; Envelhecimento; Atividades Cotidianas; Incapacidade Funcional

Abstract

This study aimed to identify the incidence and risk factors for the reduced functional capacity of community-dwelling elderly. A prospective, two-stage cohort study was conducted in 2011 and 2014. The study population consisted of 202 initially independent older adults for the basic activities of daily living. The relative risk (RR) and its respective 95% confidence intervals (CI) were used as a measure of association and were estimated by log-binomial regression with robust variance. The incidence of lower functional capacity was 15.3%. The risk factors for the functional decline were unmarried status (RRadj = 2.75; 95%CI: 1.15–6.57) and depressive symptoms (RRadj = 2.41; 95%CI: 1.15–5.06), even after adjusting for gender, age group, per capita household income, diabetes, use of medication and level of physical activity. The high incidence of reduced functional capacity and its association with marital status and mental health aspects reveals the need to consider such factors in the planning of health actions aimed at maintaining and restoring the functional capacity of the seniors.

Key words: Elderly health; Aging; Daily activities; Functional disaos bility

Introdução

O envelhecimento é caracterizado por diversas alterações no corpo e metabolismo humano, as quais potencialmente produzem uma redução da capacidade de adaptação do indivíduo ao meio ambiente 1 . A habilidade do indivíduo para decidir e atuar em suas atividades da vida diária de forma independente tem sido considerada a capacidade funcional 2 . De modo que, a realização de atividades básicas da vida diária (ABVD) de autocuidado como: banhar-se, vestir-se, usar o banheiro, alimentar-se, transferir-se e continência, tem sido considerada importante indicador de funcionalidade dos idosos 3 . A redução da capacidade funcional e suas implicações para a saúde dos idosos, familiares e sistema de saúde deve ser considerada importante problema a ser enfrentado com o avanço do envelhecimento populacional. Segundo estudo de López et al. 4 , com indivíduos de 65 anos ou mais, verificou-se redução da capacidade funcional em 11,9% dos idosos. O declínio funcional encontra-se associado às condições de saúde, como autopercepção de saúde ruim, acidente vascular encefálico, diabetes mellitus e doenças cardíacas; às características sociodemográficas como sexo feminino, idade igual ou superior a 80 anos, viver só, estar viúvo, baixa escolaridade ou analfabetismo; além de fatores como sedentarismo e a diminuição das atividades cotidianas 5,6 .

A redução da capacidade funcional consiste no déficit de habilidades para o autocuidado do idoso, o qual ao tornar-se dependente de familiares ou cuidadores produz custos sociais, familiares e de saúde que devem ser investigados. O estudo de fatores de risco para redução da capacidade funcional poderá contribuir para proposição de políticas e intervenções que visem à minimização e os impactos ocasionados pela perda da funcionalidade do idoso. Assim, este estudo teve por objetivo identificar a incidência e fatores de risco para a redução da capacidade funcional de idosos residentes em comunidade.

Métodos

Estudo de coorte prospectivo foi conduzido com uso dos dados da pesquisa epidemiológica populacional denominada “Estado nutricional, comportamentos de risco e condições de saúde dos idosos de Lafaiete Coutinho-BA”. O estudo foi realizado com idosos residentes no município de Lafaiete Coutinho-BA, localizado a 356 km da capital do Estado, possuía 3.901 habitantes, distribuídos nas zonas urbana (53,9%) e rural (46%), todos cadastrados na Estratégia Saúde da Família (ESF) 7 .

A população alvo do estudo consistiu de todos os indivíduos com idade igual ou superior a 60 anos, de ambos os sexos, não institucionalizados e residentes na zona urbana.

A linha de base do estudo foi realizada em 2011 (Fase I) com o censo dos 355 idosos cadastrados na Estratégia de Saúde da Família (ESF). Destes, apenas 260 foram considerados independentes na realização das ABVD’s, sendo elegíveis para o seguimento. Na fase II, em 2014, foram identificados 202 idosos com respostas para a escala de ABVD, de modo que ocorreram 58 perdas (22,3%), por motivos tais como óbito, mudança de cidade e não localização mesmo após três tentativas.

Os dados foram coletados por meio de entrevista domiciliar e as medidas antropométricas foram agendadas e coletadas na unidade de saúde do município.

Antes de iniciar a entrevista foi realizada triagem cognitiva por meio da versão modificada e validada do Mini-exame do Estado Mental (MEEM), procurando avaliar a preservação da memória recente para responder aos questionários 8 . O ponto de corte adotado foi ≥ 13 pontos (não comprometido) e ≤ 12 pontos (comprometido) 9 . Para aqueles idosos que atingiram pontuação menor ou igual a 12 pontos, a pesquisa foi continuada com auxílio de um informante. Considerou-se como informante, pessoa que residisse na mesma casa e soubesse oferecer informações sobre o idoso entrevistado. Ao informante foi aplicado o Questionário de Pfeffer para Atividades Funcionais (QPAF), continuando a entrevista com este, caso a soma do questionário fosse seis ou mais, e com o idoso, caso a soma fosse cinco ou menos 10 . Portanto, a combinação desses dois instrumentos, MEEM e QPAF, buscou garantir uma maior especificidade na identificação de idosos com declínio cognitivo mais grave, dado o viés produzido pela baixa escolaridade 11 .

Foi aplicado o questionário da pesquisa SABE “Saúde, Bem Estar e Envelhecimento” 12 , sendo acrescentado a este, o questionário internacional de atividades físicas (IPAQ) 13 , forma longa, versão brasileira. O processo de entrevista consistiu de visita domiciliar feita para busca de aspectos como características sociodemográficas, condições de saúde e fatores comportamentais. A verificação do peso e altura dos idosos foi realizada em duas Unidades de Saúde da Família do Município, com agendamento prévio. As entrevistas e mensurações diretas foram realizadas por entrevistadores treinados e submetidos a processo de calibração.

A capacidade funcional foi considerada variável dependente, sendo avaliada por meio da escala de Katz et al. 14 com informações sobre a realização de atividades básicas da vida diária (ABVD) tais como: controlar esfíncteres, tomar banho, alimentar-se, deitar e levantar da cama, ir ao banheiro e vestir-se. Os idosos foram questionados sobre a dificuldade ou necessidade de ajuda em cada atividade básica. Foram considerados independentes quando não relataram necessidade de ajuda para realizar nenhuma ABVD, e dependentes quando referiram necessidade de ajuda em pelo menos uma das ABVD’s.

Foram consideradas variáveis independentes as características sociodemográficas: sexo (feminino e masculino); faixa etária (≥ 60 à ≤ 79, ≥ 80); sabe ler e escrever um recado (sim, não); estado civil (com união, sem união); renda familiar per capita (>510,00 , ≤ 510,00) referente ao salário mínimo no ano de 2011 e participação em atividade religiosa (participa, não participa). Fatores comportamentais: nível de atividade física avaliada pelo IPAQ, versão longa 13 (≥ 150 minutos de atividade física moderada ou vigorosa por semana = ativo e < 150 minutos por semana = insuficientemente ativo) 15 ; consumo de bebidas alcoólicas (sim, não); tabagismo (fumante, ex-fumante, nunca fumou) e trabalho (sim, não). As condições prévias de saúde foram avaliadas por: sintomas de depressão a partir da escala de depressão geriátrica (GDS), na forma abreviada de 15 itens, ausência de sintomas depressivos (≤ 5 pontos) e presença de sintomas depressivos (> 5 pontos) 16 ; utilizou-se uma versão modificada e validada 8 para avaliação do estado cognitivo através do Mini-exame do Estado Mental (MEEM), não comprometido (≥ 13 pontos) e comprometido (≤ 12 pontos) 9 ; a autopercepção de saúde foi classificada como positiva (excelente, muito boa, boa) ou negativa (regular, ruim); hospitalização nos últimos 12 meses (nenhuma, uma ou mais); doenças referidas por algum profissional de saúde foram hipertensão, diabetes e osteoporose (não, sim); quedas nos últimos 12 meses (sim, não); uso de medicamentos (nenhum ou um, dois ou mais); estado nutricional, avaliado por meio do índice de massa corporal (IMC) (IMC < 22 kg/ m2 = baixo peso, 22 kg/m2 ≤ IMC ≤ 27 kg/m2 =adequado e IMC > 27 kg/m2 = sobrepeso) 17 .

Análise estatística

A distribuição das características sociodemográficas, comportamentais e das condições de saúde de acordo com a capacidade funcional foi realizada por meio do teste qui-quadrado de Pearson. A estimativa da incidência de redução da capacidade funcional foi realizada adotando-se como numerador os casos novos de dependentes para capacidade funcional e tendo como denominador o número total de idosos. A medida de associação foi o risco relativo estimado pela regressão log-binomial com matriz de covariância robusta e para inferência estatística o intervalo de confiança de 95% estimado pelo método Newton-Raphson. Para o modelo final multivariado inseriu-se as variáveis estatisticamente significantes, aquelas com nível de significância igual ou inferior a 20% nas análises bivariadas e aquelas de relevância teórica para o modelo exploratório. O nível de significância estatística foi de 5% e as análises foram realizadas com auxílio do programa IBM SPSS (IBM SPSS. 21.0, 2012, Armonk, NY: IBM Corp.). O projeto de pesquisa foi aprovado pelo comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia. A participação foi voluntária, e todos os participantes do estudo assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido.

Resultados

Foram identificados 31 casos novos de idosos dependentes para capacidade funcional, em uma população de 202 idosos do seguimento. Dessa forma, a incidência de redução da capacidade funcional dos idosos foi de 15,3%. Entre os idosos que tornaram-se dependentes ao final do seguimento foi observada maior proporção de mulheres, com idade acima de 80 anos, que não sabem ler e escrever, de estado civil sem união, com renda per capita inferior a um salário mínimo e insuficientemente ativos ( Tabela 1 ). De acordo com as condições prévias de saúde dos idosos foi possível verificar maior proporção de dependentes entre aqueles com sintomas de depressão, com diagnóstico de diabetes e em uso de dois ou mais medicamentos ( Tabela 2 ). A incidência da redução da capacidade funcional foi estatisticamente maior entre os idosos com idade igual ou superior à 80 anos (RR = 2,57; IC95%: 1,37 – 4,82) e de estado civil sem união (RR = 2,71; IC95%: 1,37 – 5,36) ( Tabela 3 ). Dentre as condições prévias de saúde foi observada incidência de redução da capacidade funcional estatisticamente maior em idosos com história de sintomas de depressão (RR = 2,94; IC95%: 1,48 – 5,82) ( Tabela 4 ). A análise multivariada exploratória dos fatores sociodemográficos, comportamentais e das condições prévias de saúde associados à redução da capacidade funcional dos idosos revelou que idosos de estado civil sem união e com sintomas prévios de depressão tiveram maior risco de tornarem-se dependentes para a realização de atividades básicas da vida diária, independentemente do sexo, faixa etária, renda familiar per capita, de ter diabetes, do uso de medicamentos e do nível de atividade física ( Tabela 5 ).

Tabela 1 Distribuição das características sociodemográficas e comportamentais de acordo com a capacidade funcional dos idosos. Lafaiete Coutinho, Bahia, Brasil. 2011-2014. 

Variáveis Capacidade Funcional p-valor

Independente Dependente

N % N %
Sexo 0,989
Masculino 77 45,0 14 45,2
Feminino 94 55,0 17 54,8
Faixa Etária 0,003*
≥ 60 à ≤ 79 136 79,5 17 54,8
≥ 80 35 20,5 14 45,2
Escolaridade 0,513
Ler e escreve 60 35,1 9 29,0
Não ler nem escreve 111 64,9 22 71,0
Estado Civil 0,003*
Com União 110 64,3 11 35,5
Sem União 61 35,7 20 64,5
Atividade Religiosa 0,820
Participa 164 95,9 30 96,8
Não Participa 7 4,1 1 3,2
Renda familiar per capita (R$)†† 0,182
> 510,00 100 59,9 13 46,4
≤ 510,00 67 40,1 15 53,6
Atividade Física 0,204
Ativo 103 60,6 15 48,4
Insuficientemente ativo 67 39,4 16 51,6
Uso de bebida alcoólica 0,964
Não 154 90,1 28 90,3
Sim 17 9,9 3 9,7
Uso de cigarro
Nunca fumou 80 46,8 13 41,9 0,542
Ex-fumante 72 42,1 16 51,6
Fuma atualmente 19 11,1 2 6,5
Trabalho 0,462
Sim 20 11,8 5 16,7
Não 149 88,2 25 83,3

* p < 0,05; †† Referente ao salário mínimo, em reais, do Brasil em 2011.

Tabela 2 Distribuição das condições prévias de saúde de acordo com o nível de capacidade funcional dos idosos. Lafaiete Coutinho, Bahia, Brasil. 2011-2014. 

Variáveis Capacidade Funcional p-valor

Independente Dependente

N % N %
Sintomas de depressão 0,002*
Não 143 86,7 17 63,0
Sim 22 13,3 10 37,0
Estado cognitivo 0,348
Não comprometido 118 70,7 16 61,5
Comprometido 49 29,3 10 38,5
Autopercepção de Saúde 0,328
Positiva 82 48,2 12 38,7
Negativa 88 51,8 19 61,3
Hospitalização 0,407
Nenhuma 138 80,7 23 74,2
Uma ou mais 33 19,3 8 25,8
Diabetes 0,130
Não 148 89,7 24 80,0
Sim 17 10,3 6 20,0
Hipertensão 0,391
Não 63 37,1 9 29,0
Sim 107 62,9 22 71,0
Quedas 0,465
Não 136 80,0 23 74,2
Sim 34 20,0 8 25,8
Uso de medicamentos 0,111
Nenhum ou um 70 40,9 8 25,8
Dois ou mais 101 59,1 23 74,2
IMC 0,778
Adequado 87 51,8 14 45,2
Baixo peso 36 21,4 8 25,8
Sobrepeso 45 26,8 9 29,0

* p < 0,05.

Tabela 3 Risco relativo (RR) dos fatores de risco sociodemográficos e comportamentais e a redução da capacidade funcional em idosos residentes de comunidade. Lafaiete Coutinho, Bahia, Brasil. 2011-2014. 

Variáveis N % Capacidade Funcional

RR* IC 95%†
Sexo
Masculino 91 15,4 1,00
Feminino 111 15,3 0,99 (0,51 - 1,90)
Faixa Etária
≥ 60 à ≤ 79 153 11,1 1,00
≥ 80 49 28,6 2,57 (1,37 - 4,82)
Escolaridade
Ler e escreve 69 13,0 1,00
Não ler nem escreve 133 16,5 1,26 (0,61 - 2,60)
Estado Civil
Com União 121 9,1 1,00
Sem União 81 24,7 2,71 (1,37 - 5,36)
Atividade Religiosa
Participa 194 15,5 1,00
Não Participa 8 12,5 0,80 (0,12 - 5,20)
Renda familiar per capita (R$)
> 510,00 113 11,5 1,00
≤ 510,00 82 18,3 1,59 (0,80 - 3,15)
Atividade Física
Ativo 118 12,7 1,00
Insuficientemente ativo 83 19,3 1,51 (0,79-2,89)
Uso de bebida alcoólica
Não 182 15,4 1,00
Sim 20 15,0 0,97 (0,32-2,92)
Uso de cigarro
Nunca fumou 93 14,0 1,00
Ex-fumante 88 18,2 1,30 (0,66 - 2,54)
Fuma atualmente 21 9,5 0,68 (0,16 - 2,79)
Trabalho
Sim 25 20,0 1,00
Não 174 14,4 0,71 (0,30 - 1,70)

*Risco Relativo; †Intervalo de Confiança; ‡ Referente ao salário mínimo do Brasil em 2011.

Tabela 4 Condições prévias de saúde e redução da capacidade funcional em idosos residentes de comunidade. Lafaiete Coutinho, Bahia, Brasil. 2011-2014. 

Variáveis N % Capacidade Funcional

RR* IC 95%†
Sintomas de depressão
Não 160 10,6 1,00
Sim 32 31,3 2,94 (1,48 - 5,82)
Estado cognitivo
Não comprometido 134 11,9 1,00
Comprometido 59 16,9 1,41 (0,68 - 2,94)
Autopercepção de Saúde
Positiva 94 12,8 1,00
Negativa 107 17,8 1,39 (0,71 - 2,71)
Hospitalização
Nenhuma 161 14,3 1,00
Uma ou mais 41 19,5 1,36 (0,66 - 2,82)
Diabetes
Não 172 14,0 1,00
Sim 23 26,1 1,87 (0,85 - 4,08)
Hipertensão
Não 72 12,5 1,00
Sim 129 17,1 1,36 (0,66 - 2,80)
Quedas
Não 159 14,5 1,00
Sim 42 19,0 1,31 (0,63 - 2,73)
Uso de medicamentos
Nenhum ou um 78 10,3 1,00
Dois ou mais 124 18,5 1,80 (0,85 - 3,84)
IMC
Adequado 101 13,9 1,00
Baixo peso 44 18,2 1,31 (0,59 - 2,90)
Sobrepeso 54 16,7 1,20 (0,55 - 2,59)

* Risco Relativo; †Intervalo de Confiança.

Tabela 5 Fatores de risco para redução da capacidade funcional de idosos residentes em comunidade. (N = 178) Lafaiete Coutinho-BA, Brasil, 2011-2014. 

Modelo* RR† IC 95% ‡
Sexo feminino 0,67 (0,31 - 1,41)
Faixa etária ≥ 80 1,61 (0,75 - 3,43)
Estado civil sem união 2,75 (1,15 - 6,57)
Renda familiar per capita ≤ 510,00 (R$) § 1,24 (0,56 - 2,72)
Com sintomas de depressão 2,41 (1,15 - 5,06)
Com diabetes 1,88 (0,75 - 4,70)
Uso de dois ou mais medicamentos 1,96 (0,61 - 6,32)
Inativo para atividade física 0,70 (0,33 - 1,49)

Foram consideradas categorias de referência sexo masculino, idade 60 a 79 anos, estado civil com união, renda familiar > 510,00 reais, sem sintomas de depressão, sem diagnóstico de diabetes, uso de nenhum ou um medicamento, ativo para atividade física. *Modelo multivariado com ajuste entre as variáveis; †Risco Relativo; ‡Intervalo de Confiança; § Referente ao salário mínimo no Brasil em 2011.

Discussão

Estudos longitudinais relacionados à redução da capacidade funcional no contexto do envelhecimento ainda são escassos, sobretudo com idosos residentes em municípios de pequeno porte populacional e com indicadores ruins de saúde. A proporção de idosos em municípios com até 5.000 habitantes é de 13,8%, sendo superior à nacional de 10,8% 18 . Assim, este estudo busca garantir a representatividade de idosos que vivem e residem em condições semelhantes no nordeste brasileiro.

Neste contexto, os resultados deste estudo revelam uma incidência de 15,3% de redução da capacidade funcional em idosos residentes em comunidade, entre 2011 e 2014. Os idosos sem cônjuge ou companheiro apresentaram maior risco de tornarem-se dependentes comparados aqueles com união, assim como aqueles com história prévia de sintomas de depressão quando comparados aos sem sintomas, independentemente de fatores como sexo, faixa etária, renda, diabetes, uso de medicamentos e nível de atividade física.

Estudo conduzido na Espanha com indivíduos de 65 anos ou mais encontrou incidência de perda da capacidade funcional de 11,9% 4 . Apesar de diferenças regionais, sociais e culturais entre as populações estudadas, resultados semelhantes também foram encontrados no Brasil, nos estudos de Figueredo et al. 19 com incidência de 12,3% e Moreira et al. 20 com 21,35%. Entretanto, estudo realizado em São Paulo estimou a redução da capacidade funcional em 27,47% dos idosos, essa maior incidência pode ser explicada pelos métodos utilizados, uma vez que neste último foram incluídos idosos institucionalizados, bem como a utilização da escala de Katz modificada 21 .

Os idosos sem cônjuge ou companheiro apresentaram uma incidência na redução da capacidade funcional cerca de 2,7 vezes maior do que os idosos com algum tipo de união, casados ou que vivem com companheiro. Alguns estudos têm identificado maior declínio funcional em idosos solteiros, sem união e viúvos 22,23 . É possível que a união civil tenha relação com o cuidado provido pelo companheiro nos mais diversos aspectos da vida, tais como saúde, alimentação, lazer e atividades ocupacionais, de modo que essas dimensões do cuidado podem contribuir para uma melhor capacidade funcional, ou mesmo na manutenção desta ao longo do tempo.

Idosos com sintomas de depressão tiveram aproximadamente 2,4 vezes maior risco de redução da capacidade funcional do que aqueles sem sintomas de depressão. Resultados semelhantes foram encontrados por Tomita e Burns 24 com idosos da África do Sul. Os sintomas de depressão frequentemente são acompanhados de sintomas adicionais, tais como fadiga, cansaço físico, perda da vitalidade e indisposição para realizar as atividades do cotidiano 25 . Podendo, assim, interferir diretamente na capacidade funcional ao longo do tempo e comprometer o esforço necessário para manter a funcionalidade, assim como a disposição de executar uma atividade.

A relação entre distúrbios psíquicos, tais como a depressão, com alterações neuronais, hormonais e do sistema imunológico têm sido apresentada como mecanismos causais que podem predispor os idosos à outras enfermidades e até mesmo ao declínio da saúde física 26 . A exemplo disto, foi identificada relação entre a depressão e a redução em neurotransmissores como a serotonina, noradrenalina e dopamina 27 . A redução da dopamina pode levar a decréscimo no desempenho motor e na modulação emocional 28 .

A perda no interesse ou prazer por quase todas as atividades interfere nas relações sociais do idoso 25 . Desse modo, o isolamento social, comum em pessoas com sintomas de depressão, faz com que o idoso participe menos de eventos comunitários, religiosos, reduz a frequência em fazer ou receber visitas. A redução dessas relações sociais compromete o desempenho funcional para realização das atividades básicas da vida diária 3,29 . A falta de motivação com as relações sociais conduz a um menor cuidado com a saúde, tais como a não procura por assistência terapêutica apropriada e inatividade física 30 . Portanto, diversos mecanismos relacionados a saúde mental dos idosos podem explicar a redução da capacidade funcional. É preciso detalhar a contribuição relativa de cada um desses possíveis caminhos causais para que se possa aprimorar políticas públicas e intervenções direcionadas a melhoria da capacidade funcional dos idosos.

Estudos longitudinais abordando outros fatores de risco para redução da capacidade funcional devem ser conduzidos, sobretudo com uma população maior e com mais tempo de seguimento. A identificação de potenciais fatores de risco modificáveis pode se tornar elemento fundamental para a manutenção e recuperação da capacidade funcional dos idosos. Assim, as ações dos serviços de promoção da saúde devem buscar a autonomia e independência dos idosos, sobretudo para realização das atividades básicas da vida diária.

Conclusão

Os resultados deste estudo indicam que a incidência de redução da capacidade funcional em idosos residentes em comunidade do Nordeste Brasileiro foi de 15,3%, assim como os principais fatores de risco identificados foram ter estado civil sem união e a presença de sintomas de depressão, independentemente do sexo, faixa etária, renda, de ter diabetes, do uso de medicamentos e nível de atividade física.

Agradecimentos

À Fundação de Amparo a Pesquisa do Estado da Bahia (FAPESB) pelo financiamento do projeto original e pela bolsa de iniciação científica concedida a uma das autoras.

Referências

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Recebido: 12 de Maio de 2016; Revisado: 10 de Outubro de 2016; Aceito: 12 de Outubro de 2016

Colaboradores

FS Matos, CS Jesus, JAO Carneiro, RA Coqueiro, MH Fernandes e TA Brito contribuíram substancialmente para a concepção e planejamento, análise e interpretação dos dados; e participaram da aprovação da versão final do manuscrito.

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