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Ciência & Saúde Coletiva

versão impressa ISSN 1413-8123versão On-line ISSN 1678-4561

Ciênc. saúde coletiva vol.23 no.11 Rio de Janeiro nov. 2018

http://dx.doi.org/10.1590/1413-812320182311.00132017 

ARTIGO

O preconceito contra a mulher entre trabalhadores da Atenção Primária em Saúde

Marcos Mesquita Filho1 

Thaline Figueiredo Marques2 

Ana Beatriz Cavalcanti Rocha2 

Suellen Ramos de Oliveira2 

Maíra Barbosa Brito2 

Camila Claudiano Quina Pereira1 

1Mestrado em Bioética, Universidade do Vale do Sapucaí (Univas). Av. Pref. Tuany Toledo 470, Fátima. 37554-210 Pouso Alegre MG Brasil. mesquita.filho@uol.com.br

2Faculdade de Ciências da Saúde, Univas. Pouso Alegre MG Brasil.

Resumo

O objetivo deste trabalho foi pesquisar a existência de preconceitos contra a mulher entre trabalhadores da Atenção Primária em Saúde e identificar fatores associados. Estudo transversal que teve a participação de 163 profissionais de APS. Foram utilizados os questionários Estereótipos de Gênero (EG) e o Inventário do Sexismo Ambivalente. Pesquisou-se indivíduos dos dois sexos, com mais de 18 anos e escolaridade básica ou média. Os escores médios tinham valores acima de 50,0% do valor máximo: EG – 53,8%, Sexismo Hostil – 58,2%; Sexismo Benévolo – 64,1%. As médias estratificadas por variáveis sociodemográficas eram elevadas. Foram encontradas diferenças significantes por sexo (masculino maior que feminino), religiões (maior nos evangélicos) e nos que usavam bebidas alcoólicas, no Sexismo Hostil. No Sexismo Benévolo houve diferenças por escolaridade (maior no nível básico), religião (maior nos evangélicos e católicos) e atividade exercida (maior em serviços gerais). Estratificando EG não se encontrou diferenças significantes. Preconceitos sexistas hostis, benevolentes e estereótipos de gênero foram detectados. Esse achado pode influir negativamente na relação serviço-usuárias agravando as iniquidades em saúde geradas pelas desigualdades entre gêneros.

Palavras-Chave: Saúde da mulher; Sexismo; Desigualdades em saúde; Pessoal de saúde; Serviços de saúde

Introdução

A violência contra a mulher, pela gravidade de suas consequências físicas, mentais e sociais, por sua elevada morbimortalidade, que, segundo a OMS, atinge proporções epidêmicas1, pela forte carga de sofrimento que provoca, pelos altos custos gerados ao sistema de saúde é considerada importante problema de saúde pública. Ela é, em grande parte, motivada por preconceitos e discriminação de gênero, que interferem na definição, elaboração e execução de estratégias efetivas para seu equacionamento2. Podem ocasionar situações indesejáveis nas práticas dos serviços de saúde. A Política Nacional de Atenção Integral à Saúde da Mulher destaca, inclusive, que “as questões de gênero devem ser consideradas como um dos determinantes da saúde na formulação das políticas públicas”3.

A identidade de gênero implica na percepção que se tem sobre ser homem ou mulher, ou seja, como a pessoa se reconhece, conforme os atributos e papéis sociais que são atribuídos ao gênero masculino e feminino. Trata-se de uma construção social e cultural, sendo distinta da de sexo, que corresponde à condição biológica, no qual a anatomia do corpo irá definir o sexo masculino ou feminino4.

Compreende-se como estereótipo “um processo de formação de impressão, que constitui um conjunto de avaliações afetivas, morais e instrumentais, elaboradas em relação a um indivíduo. Esse conjunto possui a capacidade de orientar o percebedor em suas relações com o meio social”5. Já sexismo é “um conjunto de estereótipos quanto à aparência, atos, habilidades, emoções e papel apropriado na sociedade, de acordo com o gênero. Apesar de também estereotipar o homem, mais frequentemente reflete preconceitos contra o gênero feminino”6. O sexismo ocorre em dimensões ambivalentes: o hostil e o benévolo. O primeiro é a demonstração do preconceito com as mulheres de maneira explícita, “evidenciando crenças e práticas típicas de pessoas que consideram as mulheres inferiores aos homens, bem como refletindo antipatia e intolerância em relação ao seu papel como figura de poder e decisão”. Já o segundo se expressa por atitudes aparentemente não preconceituosas, manifestas por um tom subjetivamente positivo, que define para a mulher uma identidade dependente, frágil, sensível, que necessita de amparo e atenção do homem7. Estas manifestações do preconceito se associam a fatores como gênero8,9, à escolaridade10,11, ao apego ao conservadorismo, à religiosidade cristã12, ao consumo de bebidas alcoólicas e drogas ilegais13.

Concepções sexistas e de estereótipos de gênero entre os profissionais de saúde podem orientar práticas discriminativas e preconceituosas. Preconceitos arraigados e a reiteração das desigualdades, relacionados à construção das identidades de gênero, podem ser evidenciados no exercício cotidiano das equipes de saúde5. Essas construções se refletem na privação da atenção à saúde das mulheres, prejudicando o seu acolhimento e cuidados essenciais, o que dificulta o zelo integral das equipes às usuárias7. As identidades de gênero determinam, além de atitudes do profissional, seu modo de enfrentar e agir perante os problemas. É importante ressaltar que elas resultam de um processo histórico e ideológico, que tem a figura masculina como referência central em toda a sociedade5. “Diferenças desnecessárias, injustas e evitáveis entre homens e mulheres em relação às oportunidades de desfrutar a saúde e as probabilidades de adoecer, descapacitar-se ou morrer por causas preveníveis” se incluem nas desigualdades entre os gêneros14.

Da mesma maneira que diferentes populações estão expostas a variados tipos e graus de risco, mulheres e homens, em função da organização social das relações de gênero, também estão expostos a padrões distintos de sofrimento, adoecimento e morte. A mulher encontra barreiras e iniquidades no acesso ao sistema de saúde. São comuns as dificuldades para obtenção de suporte para métodos contraceptivos, para a atenção pré-natal e puerpério15. Também nas situações de violências, tanto as de origem familiar como as provenientes de outras fontes, os serviços de saúde, na maioria das vezes, não costumam ser capazes de apresentar respostas adequadas5. Não é incomum que nos casos de violência contra a mulher, “a vítima seja considerada culpada pela agressão e o preconceito entre os profissionais de saúde promova uma nova ofensa à mulher”16. Os trabalhadores de saúde, notadamente nas situações em que a mulher é vítima de violência, devem exercer suas atividades com o emprego de procedimentos adequados para a sua atenção, garantindo a confidencialidade e o acesso a serviços especializados, físicos, mentais e jurídicos1. Além disto, existem estudos que mostram que o atendimento hospitalar das pessoas do sexo feminino apresenta iniquidades em relação ao do homem tanto em relação à indicação de procedimentos, como na qualidade da execução dos mesmos1,17,18.

O Sistema Único de Saúde (SUS) considera que os serviços da Estratégia Saúde da Família (ESF) são a porta de entrada do Sistema. Busca-se a construção de laços entre profissionais e usuários a partir do estabelecimento de territórios com população adscrita. Pelo estreitamento deste relacionamento vêm à tona situações, que fazem parte daquelas mediadas pela saúde e que outrora eram omitidas, como é o caso da violência doméstica19. Esta, apesar de poder causar danos a todos os componentes da família, tem na mulher sua principal vítima20. Pelas diretrizes do SUS, são os serviços de Atenção Primária à Saúde (APS) que devem ter o primeiro contato com as situações de violência contra a mulher. Diante disto, é imprescindível que se compreenda a percepção dos profissionais de saúde da construção social da identidade de gênero e da violência contra a mulher, para que suas ações em saúde possam ser adequadas e resolutivas. A detecção de sexismo e de outros estereótipos e preconceitos junto a trabalhadores de saúde, a compreensão de seus determinantes, são fundamentais para que haja melhor acolhimento e equacionamento das necessidades de saúde da mulher pelos profissionais de saúde. A presença de sexismo e estereótipos de gênero por parte dos profissionais da ESF poderá agravar, ao invés de obter ações integrais humanizadas e resolutivas, os casos da violência contra a mulher.

O objetivo deste trabalho foi o de pesquisar a existência de preconceitos contra a mulher em trabalhadores da Atenção Primária em Saúde e identificar fatores a eles associados.

Métodos

Delineamento

O estudo foi de natureza quantitativa, exploratório, transversal, analítico.

Local

Equipes municipais de Saúde da Família, do município de Pouso Alegre, MG. Trata-se de município de médio porte situado na região sul de Minas Gerais, com uma população estimada em 140.000 habitantes. Os serviços de APS estudados correspondiam a 19 unidades, que contavam com 252 profissionais, cobrindo em média 47,0% da população.

População de estudo e amostra

Trabalhou-se com o universo dos trabalhadores da ESF, selecionados a partir dos seguintes critérios de elegibilidade: ser funcionário municipal, estar lotado em equipe da ESF, exercer função num serviço de saúde, ter contato com o público, possuir escolaridade fundamental ou média, não estar desfrutando de nenhum tipo de afastamento (por problemas de saúde, para tratar de questões particulares, por aposentadoria, etc.) e concordar em participar do estudo. Não participaram os trabalhadores de nível superior, que serão estudados numa segunda etapa deste trabalho. A amostra foi composta por 163 profissionais que correspondiam a 64,7% do pessoal que atuava no setor (n = 252). Não fizeram parte da pesquisa 89 indivíduos, sendo 17 por recusas. Os demais 72 não participaram por não cumprirem os critérios de elegibilidade ou porque não foram localizados.

Instrumentos

Foram utilizados três instrumentos para a coleta de informações. Inicialmente, foi aplicado um protocolo de dados sociodemográficos e de saúde. O segundo foi o questionário Gender Stereotyping, de domínio público criado por Gunter e Wober21 validado por Foshee e Baumann22, com versão brasileira desenvolvida por Eufrásio23, que mensura estereótipos de gênero no contexto de relações e responsabilidades. É composto de sete itens fechados, com quatro opções de respostas, que recebem pontuações diferentes quando selecionadas: Concordo totalmente (quatro pontos); Concordo (três pontos); Discordo (dois pontos); Discordo totalmente (um ponto). A questão de número sete tem a contagem de pontos invertida. Quanto mais alta for a pontuação final, maior o indicativo de atitude estereotipada. O maior escore possível é de 28 pontos.

O terceiro instrumento foi o Inventário de Sexismo Ambivalente, desenvolvido originalmente por Glick et al.24, adaptado e validado para o Brasil por Formiga et al.25. Composto de 22 itens avalia preconceitos assumidos em duas dimensões do sexismo: hostil (11 questões) e benevolente (11 questões). Para respondê-los, a pessoa deve indicar seu grau de discordância ou de concordância com o conteúdo expresso, utilizando uma escala de cinco pontos, tipo Likert, com os seguintes tópicos: 1 = Discordo totalmente; 2 = Discordo; 3 = Indeciso; 4 = Concordo e 5 = Concordo totalmente. Os itens se apresentam ou por afirmativas positivas, ou por outras de cunho sexista. Quanto mais elevado o escore, maior o nível de sexismo. A pontuação mais alta possível é de 55 pontos por dimensão. As escalas não apresentam um ponto de corte definido. Também neste instrumento, quanto mais elevados os escores, maiores são os preconceitos.

Procedimentos

Os pesquisadores se deslocaram até os serviços municipais de APS e entraram em contato com os participantes da pesquisa. Em cada uma das Unidades realizaram reuniões onde explicaram os objetivos do trabalho e a metodologia aplicada. Em seguida, convidaram os profissionais que podiam ser incluídos na pesquisa a participar do estudo. Aqueles que aceitaram compuseram a amostra. A manifestação desta concordância foi explicitada pela assinatura do Termo de Consentimento de Livre e Esclarecido (TCLE). No passo seguinte foi efetuada a leitura dos questionários e se questionou sobre o entendimento de cada um deles. Quando ocorria qualquer dúvida, o pesquisador lia novamente a(s) questão(ões) não compreendida(s) até que o indivíduo manifestasse seu entendimento. Não era explicado o sentido de nenhuma das perguntas, para que a resposta não fosse influenciada pelo pesquisador. Quando não restasse mais nenhuma dúvida, os questionários eram auto respondidos na seguinte ordem: 1º- Questionário sociodemográfico e de saúde; 2º- Estereótipos de Gêneros; 3º- Inventário do Sexismo Ambivalente. A aplicação dos instrumentos era realizada em sala isolada, tranquila, sem interferência de terceiros. No final do trabalho, o pesquisador certificava se todas as questões tinham sido respondidas e solicitava ao respondente que houvesse deixado qualquer item sem preenchimento, para completá-lo.

Banco de dados e análise estatística

Os questionários foram tabulados em um banco de dados construído no programa Microsoft Excel. Para a análise estatística usou-se o SPSS 17. A descrição de variáveis quantitativas foi efetuada por medidas de tendência central (média, mediana) e de dispersão (desvio padrão). As variáveis categóricas foram descritas por proporções. Os procedimentos analíticos para medidas de tendência central, quando as variáveis se distribuíam de maneira normal, foram o teste t ou a análise de variância (ANOVA). No caso de variáveis não paramétricas, aplicaram-se os testes de Mann-Whitney ou de Kruskal-Wallis. A adesão à normalidade foi testada pelo teste de Kolmogorov-Smirnov. Considerou-se estatisticamente significante p ≤ 0,05.

Procedimentos éticos

Essa pesquisa seguiu as diretrizes da resolução 466/2012 do Conselho Nacional de Saúde e foi aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade do Vale do Sapucaí.

Resultados

A amostra era composta principalmente por mulheres (89,0%), sendo que 58,9% tinha mais de 35 anos. A maior parte dos trabalhadores havia cursado o ensino médio ou técnico (78,5%). Se declararam brancos 79,8% do total da amostra. Quanto à religião, 70,6% eram católicos. Foram 77,9% os que informaram ter companheiro (a). A maior parte dos trabalhadores (54,0%) morava num bairro diferente daquele onde se situava a Unidade de Saúde, 52,1% residiam com seus cônjuges e 20,9% com os pais. A maioria dos profissionais exerciam funções na área de atenção à saúde (69,9%). Os demais, trabalhavam na área administrativa ou como auxiliares de serviço. Todos tinham contato direto com os usuários do serviço. A renda familiar de 94,5% era de no máximo 5 salários mínimos mensais, 71,1% exerciam suas funções há mais de um ano, com 97,5% atuando em serviços da região urbana. Houve um total de 38 profissionais de saúde que se declararam tabagistas (23,3%) e 43 (26,4%) consumiam bebidas alcoólicas (Tabela 1).

Tabela 1 Variáveis sociodemográficas e de saúde. 

Variável n Proporção (%)
Sexo
Feminino 145 89,0
Masculino 18 11,0
Faixa etária
18 a 35 anos 67 41,1
Mais de 35 anos 96 58,9
Escolaridade
Fundamental 35 21,5
Médio ou técnico 128 78,5
Cor
Branca 130 79,8
Outra 33 20,2
Religião
Católica 115 70,6
Evangélica 41 25,2
Outra 7 4,3
Situação conjugal
Não tem companheiro (a) 36 22,1
Com companheiro (a) 127 77,9
Residência
No bairro onde trabalha 75 46,0
Outro 88 54,0
Com quem reside
Com os pais 34 20,9
Com outros familiares 19 11,7
Com o cônjuge 85 52,1
Sozinho 19 11,7
Outros 6 3,7
Tipo de trabalho
Saúde 114 69,9
Administrativa 28 17,2
Serviços Gerais 21 12,9
Renda Familiar em Salários Mínimos
Zero a três 75 46,0
Quatro a cinco 79 48,5
Mais de cinco 9 5,5
Tempo de trabalho
0 a 5 meses 13 8,0
6 meses a um ano 34 20,9
13 a 36 meses 40 24,5
Mais de 3 anos 76 46,6
Local de trabalho
Urbano 159 97,5
Rural 4 2,5
Tabagismo
Sim 38 23,3
Não 125 76,7
Uso de bebidas alcoólicas
Sim 43 26,4
Não 120 73,6
Estar em tratamento de saúde
Sim 25 15,3
Não 138 84,7
Uso regular de medicamentos
Sim 55 33,7
Não 108 66,3

O questionário Estereótipos de Gênero apresentou um escore médio de 15,07; que corresponde a 53,8% do maior escore possível (Tabela 2). Dois de seus itens obtiveram uma pontuação inferior a 50,0% do possível. Estas questões eram referentes à possibilidade de o homem exercer mal tratos e agressão física. Cinco apresentaram um escore mais elevado do que metade dos pontos possíveis e duas destas superiores a 70% e correspondiam a afirmativas de que os homens ao se interessarem por mulheres buscam sexo e de que as mulheres procuram romance. No Inventário de Sexismo Ambivalente (Tabelas 2, 3 e 4) o componente Hostil obteve média de 32,03 (58,2% do valor mais alto). A grande maioria dos itens desta dimensão apresentaram escore maior que a metade da pontuação possível, a única exceção foi a que afirmava que as mulheres interpretavam expressões inocentes como sexistas, dando como exemplo deste tipo de enunciado “as vezes é certo um homem bater em uma mulher”. A que obteve maior número de pontos (73,7%) era a que colocava que as mulheres se “insinuam sensualmente para os homens e depois rejeitam seus avanços ou ‘cantadas”. As demais ficaram entre 50 e 70%. A dimensão Benévola apresentou o escore médio de 35,23 de média (64,1% da pontuação). Houve sete questões que ultrapassaram 60% dos valores máximos. Destas, quatro ultrapassaram 70,0%. Somente uma que foi inferior a 50,0% (“Em caso de grandes ou pequenos acidentes, as mulheres devem ser resgatadas antes que os homens”).

Tabela 2 Escore médio e porcentagem do escore máximo por variável em Estereótipos de Gênero e Inventário do Sexismo Ambivalente. 

Instrumento e Questões Escore % da Média Mediana
Estereótipo de Gênero 15,07 53,8 15,0
1. A maioria das mulheres gosta de ser maltratada por homens. 1,48 37,1 1,0
2. A maioria das mulheres gosta de exibir seus corpos. 2,70 67,5 3,0
3. A maioria dos homens quer sair com mulheres apenas para fazer sexo. 2,85 71,3 3,0
4. A maioria das mulheres gosta de casos românticos com homens. 2,94 73,5 3,0
5. A maioria das mulheres depende dos homens para se livrarem de encrencas. 2,22 55,5 2,0
6. Ás vezes está certo um homem bater em sua mulher. 1,39 34,8 1,0
7. Homens e mulheres deveriam ter igual responsabilidade pela criação de filhos. 1,48 63,0 1,0
Inventário de Sexismo Ambivalente
Sexismo Hostil 32,03 58,2 32,0
Sexismo Benévolo 35,23 64,1 36,0
1. Ainda que um homem tenha muito êxito em sua vida, não poderá sentir-se completo a menos que tenha o amor de uma mulher. 3,36 67,2 4,0
02. Com o pretexto da igualdade, muitas mulheres buscam privilégios especiais, como condições de trabalho que as favoreçam. 3,15 63,1 3,0
03. Em caso de grandes ou pequenos acidentes, as mulheres devem ser resgatadas antes que os homens. 2,45 49,1 2,0
04. A maioria das mulheres interpreta os comentários ou brincadeiras inocentes como sexistas, isto é, como expressões preconceituosas ou discriminatórias contra elas como: Às vezes está certo um homem bater em sua mulher. 2,37 47,5 2,0
05. As mulheres se ofendem muito facilmente. 3,33 66,5 4,0
06. As pessoas não podem ser verdadeiramente felizes em suas vidas a menos que tenham uma outra pessoa do sexo oposto. (Ex.: para o homem, uma mulher, e vice-versa). 2,60 51,9 2,0
07. Na verdade, o que as mulheres feministas pretendem é que a mulher tenha mais poder que o homem. 2,83 56,6 2,0
08. Muitas mulheres se caracterizam por uma pureza que poucos homens possuem. 3,37 67,5 4,0
09. As mulheres devem ser queridas e protegidas pelos homens. 3,99 79,8 4,0
10. A maioria das mulheres não dá valor de forma completa a tudo o que os homens fazem por ela. 2,91 58,3 3,0
11. As mulheres tentam ganhar poder controlando os homens. 2,69 53,9 2,0
12. Todo homem deve ter uma mulher a quem amar. 3,57 71,4 4,0
13. O homem está incompleto sem a mulher. 3,19 63,8 4,0
14. As mulheres exageram os problemas que têm no trabalho. 2,63 52,6 2,0
15. Uma vez que uma mulher consiga que o homem se comprometa com ela, geralmente, ela tenta o controlar. 2,89 57,8 3,0
16. Quando as mulheres são vencidas pelos homens numa disputa justa, geralmente elas se queixam de haver sido “roubadas” ou discriminadas. 2,78 55,6 2.0
17. Uma boa mulher deveria ser posta em um pedestal pelo homem. 2,96 59,3 2,0
18. Existem muitas mulheres que, para chamar a atenção de um homem, primeiro se insinuam sensualmente e depois rejeitam seus avanços ou ‘cantadas’. 3,69 73,7 4,0
19. As mulheres, em comparação com os homens, tendem a ter uma maior sensibilidade moral. 3,51 70,2 4,0
20. Os homens deveriam estar dispostos a sacrificar seu próprio bem-estar a fim de dar segurança econômica e social às mulheres. 2,70 54,0 2,0
21. As mulheres feministas estão fazendo exigências completamente irracionais aos homens. 2,75 55,1 3,0
22. As mulheres, em comparação com os homens, mostram um sentido mais refinado para a cultura e o bom gosto. 3,53 70,6 4,0

A questão 7 de Estereótipos de Gênero é contada de forma invertida. Sexismo hostil: 2, 4, 5, 7, 10, 11, 14, 15, 16, 18, 21. Sexismo benévolo: 1, 3, 6, 8, 9, 12, 13, 17, 19, 20, 22.

Tabela 3 Escores Médios e percentual do escore máximo em Estereótipos de Gênero, Sexismo Hostil e Sexismo Benevolente por variáveis sociodemográficas e de saúde. 

Variável Estereótipo de gênero Sexismo Hostil Sexismo Benévolo

Média % Média % Média %
Sexo
Feminino 15,02 53,6 31,41 57,1 35,41 64,4
Masculino 15,44 55,1 37,06 67,4 33,78 61,4
Faixa etária
18 a 35 anos 15,1 53,9 32,67 59,4 35,82 65,1
Mais de 35 anos 15,04 53,7 31,58 57,4 34,82 63,3
Escolaridade
Fundamental 14,71 52,5 31,63 57,5 37,03 67,3
Médio ou técnico 15,16 54,1 32,14 58,4 34,74 63,2
Cor
Branca 14,98 53,5 31,97 58,1 35,22 64,0
Outra 15,39 55,0 32,27 58,7 35,27 64,1
Religião
Católica 14,97 53,5 31,86 57,9 34,96 63,6
Evangélica 15,39 55,0 33,32 60,6 36,76 66,8
Outra 14,86 53,1 27,29 49,6 30,86 56,1
Situação conjugal
Não tem companheiro (a) 14,51 51,8 32,5 59,1 34,97 63,6
Com companheiro (a) 15,2 54,3 31,9 58,0 35,31 64,2
Residência
No bairro onde trabalha 15,44 55,1 33,12 60,2 35,88 65,2
Outro 14,75 52,7 31,1 56,5 34,68 63,1
Com quem reside
Com o cônjuge 15,02 53,6 31,78 57,8 35,27 64,1
Sozinho ou com outros 15,12 54,0 32,31 58,7 35,19 64,0
Tipo de trabalho
Saúde 15,11 54,0 31,94 58,1 35,06 63,7
Administrativa 15,32 54,7 33,25 60,5 35,57 64,7
Serviços Gerais 14,52 51,9 30,9 56,2 35,71 64,9
Renda Familiar em Salários Mínimos
Zero a três 15,23 54,4 32,25 58,6 36 65,5
Quatro a cinco 14,9 53,2 31,71 57,7 34,72 63,1
Mais de cinco 15,22 54,4 33 60,0 33,33 60,6
Tempo de trabalho
0 a 5 meses 15,23 54,4 33,62 61,1 34,31 62,4
6 meses a um ano 14,94 53,4 31,21 56,7 33,65 61,2
13 a 36 meses 15,48 55,3 31,27 56,9 35,77 65,0
Mais de 3 anos 14,88 53,1 32,53 59,1 35,82 65,1
Local de trabalho
Urbano 15,04 53,7 31,99 58,2 35,26 64,1
Rural 16,25 58,0 33,75 61,4 34 61,8
Tabagismo
Sim 15,37 54,9 32,61 59,3 35,45 64,5
Não 14,98 53,5 31,86 57,9 35,17 63,9
Uso de bebidas alcoólicas
Sim 15,37 54,9 33,84 61,5 35,79 65,1
Não 14,96 53,4 31,38 57,1 35,03 63,7
Estar em tratamento de saúde
Sim 14,4 51,4 31,76 57,7 36,16 65,7
Não 15,19 54,3 32,08 58,3 35,07 63,8
Uso regular de medicamentos
Sim 14,93 53,3 31,75 57,7 35,55 64,6
Não 15,14 54,1 32,18 58,5 35,07 63,8
Total 15,07 53,8 32,03 58,2 35,23 64,1

Tabela 4 Escores médios, mediana, desvio padrão e valor de p para Sexismo Hostil e para o Benévolo por variáveis sociodemográficas ou de saúde. 

Variável Sexismo Hostil Sexismo Benévolo

Média Desvio padrão Mediana p Média Desvio padrão Mediana p
Sexo < 0,001*, ES 0,239*
Feminino 31,41 5,83 31,00 35,41 5,52 36,00
Masculino 37,06 6,68 37,00 33,78 5,68 35,50
Faixa etária 0,269* 0,260*
18 a 35 anos 32,67 6,23 32,00 35,82 5,45 37,00
Mais de 35 anos 31,58 6,11 31,00 34,82 5,60 35,00
Escolaridade 0,612* 0,013*ES
Fundamental 31,63 4,89 31,00 37,03 4,36 37,00
Médio ou técnico 32,14 6,48 32,00 34,74 5,75 35,00
Cor 0,801* 0,964*
Branca 31,97 6,15 31,50 35,22 5,39 36,00
Outra 32,27 6,33 32,00 35,27 6,22 38,00
Religião 0,048**, ES 0,020**ES
Católica 31,86 5,76 32,00 34,96 5,53 35,00
Evangélica 33,32 7,12 32,00 36,76 4,93 37,00
Outra 27,29 4,11 27,00 30,86 6,91 33,00
Situação conjugal 0,606* 0,750*
Não tem companheiro (a) 32,50 6,39 33,00 34,97 6,26 35,50
Com companheiro (a) 31,90 6,12 31,00 35,31 5,35 36,00
Com quem reside 0,584* 0,929*
Com o cônjuge 31,78 5,93 31,00 35,27 5,30 36,00
Sozinho ou com outros 32,31 6,44 32,00 35,19 5,83 35,50
Tipo de trabalho 0,405** 0,024**ES
Saúde 31,94 6,13 36,00 35,06 5,60 36,00
Administrativa 33,25 7,25 36,00 35,57 5,90 36,00
Serviços Gerais 30,90 4,58 36,00 35,71 4,97 36,00
Renda Familiar em Salários Mínimos 0,767** 0,207**
Zero a três 32,25 6,53 32,00 36,00 5,29 37,00
Quatro a cinco 31,71 5,77 31,00 34,72 5,67 35,00
Mais de cinco 33,00 6,93 32,00 33,33 6,23 36,00
Tempo de trabalho 0,468** 0,226**
0 a 5 meses 33,62 7,02 33,00 34,31 4,96 33,00
6 meses a um ano 31,21 6,06 30,00 33,65 6,28 34,50
13 a 36 meses 31,27 5,29 31,50 35,77 4,41 36,00
Mais de 3 anos 32,53 6,50 32,00 35,82 5,76 36,00
Local de trabalho 0,574* 0,654**
Urbano 31,99 6,17 32,00 35,26 5,57 36,00
Rural 33,75 6,65 32,00 34,00 4,76 32,00
Tabagismo 0,513* 0,787**
Sim 32,61 7,14 31,00 35,45 5,70 36,00
Não 31,86 5,86 32,00 35,17 5,52 36,00
Uso de bebidas alcoólicas 0,025*, ES 0,444**
Sim 33,84 6,52 34,00 35,79 5,43 36,00
Não 31,38 5,93 30,50 35,03 5,60 36,00
Total 32,03 6,17 32,00 35,23 5,55 36,00

*Teste t **ANOVA esEstatisticamente significante.

A Tabela 3 mostra que ao se calcular os escores estratificados do Sexismo Hostil por variáveis sociodemográficas, “ser de outra religião” (diferente da católica ou evangélicas) foi a que obteve menor escore médio com 49,6% da pontuação possível. O valor mais alto encontrado foi para os que cursaram apenas o Ensino Fundamental, com 67,3% do escore máximo, para Sexismo Benévolo. Com exceção da variável já citada, todos os escores médios, quando categorizados por variáveis sociodemográficas mostraram valores acima de 50,0% da pontuação máxima.

A Tabela 5 indica que Estereótipos de Gênero não se associou de maneira significante a nenhuma das variáveis sociodemográficas e de saúde.

Tabela 5 Escores médios, mediana, desvio padrão e valor de p para Estereótipos de Gênero por variáveis sociodemográficas ou de saúde. 

Variável Média Desvio padrão Mediana p
Sexo 0,699*
Feminino 15,02 2,51 15,00
Masculino 15,44 2,71 15,00
Faixa etária 0,841*
18 a 35 anos 15,10 2,00 15,00
Mais de 35 anos 15,04 2,85 15,00
Escolaridade 0,102*
Fundamental 14,71 3,21 15,00
Médio ou técnico 15,16 2,32 15,00
Cor 0153*
Branca 14,98 2,52 15,00
Outra 15,39 2,59 15,00
Religião 0,772**
Católica 14,97 2,57 15,00
Evangélica 15,39 2,45 15,00
Outra 14,86 2,48 16,00
Situação conjugal 0,699*
Não tem companheiro (a) 14,51 2,99 15,00
Com companheiro (a) 15,20 2,38 15,00
Residência 0,074*
No bairro onde trabalha 15,44 2,26 15,00
Outro 14,75 2,71 15,00
Com quem reside 0,172*
Com o cônjuge 15,02 2,32 15,00
Com outros 15,12 2,75 15,00
Tipo de trabalho 0,992**
Saúde 15,11 2,13 15,00
Administrativa 15,32 3,23 14,50
Serviços Gerais 14,52 3,40 16,00
Renda Familiar em Salários Mínimos 0,477**
Zero a três 15,23 2,76 15,00
Quatro a cinco 14,90 2,36 15,00
Mais de cinco 15,22 1,99 15,00
Tempo de trabalho 0,656**
0 a 5 meses 15,23 2,28 15,00
6 meses a um ano 14,94 2,19 15,00
13 a 36 meses 15,48 2,46 15,00
Mais de 3 anos 14,88 2,76 15,00
Local de trabalho 0,204*
Urbano 15,04 2,55 15,00
Rural 16,25 1,26 16,00
Tabagismo 0,545*
Sim 15,37 2,66 15,00
Não 14,98 2,49 15,00
Uso de bebidas alcoólicas 0,521*
Sim 15,37 2,74 15,00
Não 14,96 2,45 15,00
Estar em tratamento de saúde 0,132*
Sim 14,40 2,58 14,00
Não 15,19 2,51 15,00
Uso rotineiro de medicamentos 0,774*
Sim 14,93 2,43 15,00
Não 15,14 2,59 15,00
Total 15,07 2,53 15,00

*Teste de Mann-Whitney ** Teste de Kruskall-Wallis.

Sexismo Hostil (Tabela 4) estava associado a Sexo (p < 0,001), com os homens apresentando um escore superior ao das mulheres. Quando se estratificou esta variável por sexo e raça, encontrou-se que os homens brancos tiveram um escore médio (37,1; DP = 7,3) maior que o das mulheres brancas (31,5; DP = 5,8); achado que foi estatisticamente significante (p = 0,01). Não brancos também apresentaram médias mais elevadas entre os homens (p = 0,03). Não se encontrou diferenças significantes ao se comparar homens brancos com não brancos, nem ao se fazer o mesmo entre as mulheres. O Sexismo Hostil também se associou significantemente a Religião, sendo que os evangélicos foram os mais sexistas hostis, vindo em seguida católicos e, por último, outras (p = 0,048). Este tipo de comportamento também predominou de maneira significante (p = 0,025) entre os usuários de bebidas alcoólicas (escore = 33,84) em relação aos demais trabalhadores (escore = 31,38). Outras variáveis como faixa etária, escolaridade, cor referida, situação conjugal, residência com o cônjuge, tipo de função no serviço de saúde, renda, tempo de serviço, tabagismo, não apresentaram diferenças significativas.

Na Tabela 4 pode-se observar que o Sexismo Benevolente se associou significantemente à escolaridade: os que apenas fizeram o curso fundamental eram os de maior escore; à religião, com os evangélicos novamente apresentando valores mais elevados; ao tipo de trabalho exercido no serviço de saúde, quando os atuantes em serviços gerais eram os mais sexistas benévolos. As demais variáveis sociodemográficas não apresentaram diferenças estatisticamente significantes neste construto.

Discussão

O perfil sociodemográfico dos componentes da amostra deste estudo correspondeu às características de profissionais de APS encontradas em outros trabalhos26,27.

As três escalas usadas (Estereótipos de Gênero, Sexismo Hostil e Sexismo Benévolo) não têm pontos de corte definidos. Os autores informam que quanto mais alta a pontuação, mais preconceitos existem. Nesta pesquisa, todas elas se apresentaram elevadas, indicando a existência do preconceito contra a mulher entre os trabalhadores em saúde. O componente Benevolente do Sexismo foi o que apresentou médias mais elevadas. Isso aconteceu, possivelmente, pelo fato dele se apresentar como “atitude positiva, aparentemente não preconceituosa em relação à mulher, evidenciando o sentido paternalista que a descreve como pessoa frágil, que necessita atenção, mas que também pode complementar o homem”28. Os efeitos nefastos do sexismo hostil são incontestáveis, entretanto, há menor reconhecimento social das consequências negativas do sexismo benevolente.

Ao se estudar especificamente Estereótipos de Gênero, não foram encontradas diferenças estatisticamente significantes ao se estratificar os escores obtidos em cada item pelas variáveis sociodemográficas. Entretanto, estes estereótipos estavam presentes, pois a pontuação obtida era elevada (mais que 50,0% dos seus valores máximos, exceto para uma variável), não importando a estratificação que fosse efetuada. Sexismo e Estereótipos de Gênero aumentam o risco da violência contra a mulher6,28. No setor saúde, muitas vezes, acontecem abusos, maus tratos, negligência, abandono, atraso, desrespeito, quebra de confidencialidade, desconsideração da autonomia, realização de procedimentos dolorosos e desnecessários afetando mulheres29. Trabalhadores de saúde preconceituosos ao atuarem, podem trazer danos e prejuízos às usuárias dos serviços e a toda a organização do Sistema. Os profissionais, para desenvolverem ações efetivas e humanizadas e atuarem com interesse, diálogo, resolutividade, necessitam preparo para lidar com questões sociais e subjetivas presentes nas práticas do serviço. A Atenção Primária à Saúde e a Estratégia da Saúde da Família, são embasadas nos atributos de Acesso, Longitudinalidade, Integralidade, Coordenação, Competência Cultural30, bem como, no Acolhimento e no Vínculo31. Esses atributos se tornam impraticáveis na presença de Sexismo e Preconceito, ainda mais levando-se em conta que a maioria do público da APS é constituído por mulheres32.

É importante destacar a estratificação dos EG pela variável sexo. Tanto homens, como mulheres obtiveram escores elevados, sem diferença significativa entre eles. Este fato indica que ambos apresentam estereótipos quanto ao gênero. Estereótipos do feminino são mais comuns entre os homens, mas também pode ocorrer entre as mulheres8,9. Tal achado pode estar indicando a possiblidade de discriminação das usuárias, mesmo em situações em que elas, quando buscassem o serviço de saúde, optassem por serem atendidas por profissionais do mesmo sexo.

Entretanto, é importante lembrar que a escala Estereótipos de Gênero é composta por apenas sete itens, insuficientes para avaliar toda complexidade deste construto. O instrumento produz resultados de precisão limitada, indicados para fins de triagem28, devendo ser discutidos com cautela.

Ao se estudar o Sexismo Hostil verificou-se que tanto os homens como as mulheres apresentavam pontuação indicativa da presença do preconceito. Entretanto, os homens foram significantemente mais hostis do que as mulheres.

Estudos mostram que preconceitos de gênero e raça se associam33,34. O fato de a maioria dos trabalhadores ser de cor branca poderia também estar contribuindo para a detecção do sexismo hostil em homens e mulheres. Entretanto, a estratificação dos escores do sexismo hostil por sexo e cor não mostrou diferenças entre homens brancos e não brancos, nem entre estes dois grupos nas mulheres. A detecção das inter-relações entre sexismo e racismo pode não ter ocorrido, neste estudo, devido à complexidade e multidimensionalidade deste construto34. Os instrumentos utilizados não estavam voltados à identificação destas questões. Outro fator que deve ser levado em conta é a composição étnica da população usuária dos serviços pesquisados. Provavelmente, ela era distinta da dos participantes da pesquisa, com uma maior proporção de não brancos, o que pode ter influenciado as respostas obtidas.

Houve diferenças significantes em relação ao sexismo hostil conforme a religião do profissional de saúde. Enquanto católicos e evangélicos tiveram escores elevados, indicando uma posição sexista hostil, os de outras religiões apresentaram uma média um pouco abaixo da metade dos pontos possíveis. As religiões têm sido apontadas como espaço de reprodução de relações sexistas e desiguais entre mulheres e homens, favorecendo sempre os últimos35. Mickolajczac e Pietrzak12 relacionaram a prática da religião católica com a presença do sexismo benévolo, mas não com a do hostil, diferentemente deste estudo. Na realidade brasileira, evangélicos e católicos, tradicionalmente, assumem valores conservadores em relação à família, sexualidade e costumes11. As religiões de inserção afro-brasileira apresentam um maior respeito aos valores e crenças dos seus seguidores36,37.

Aqueles que tinham o hábito de consumir bebidas alcoólicas mostraram escores significativamente maiores para o Sexismo Hostil do que os não usuários. Este achado reforça o uso do álcool como fator desencadeante de episódios de sexismo hostil13,38. Ele também é associado à violência contra as mulheres39.

De todos os construtos, o Sexismo Benévolo foi o de escores mais elevados. No geral, a sua pontuação correspondeu, em média, a valores acima de 60,0% dos pontos possíveis.

Todas as categorias sociodemográficas, pelas pontuações apresentadas, podem ser consideradas Sexistas Benévolas. Entretanto, foram encontradas diferenças estatisticamente significativas em três delas: Escolaridade, Religião e Tipo de Trabalho. Não ocorreram diferenças entre homens e mulheres, fato observado em outros estudos10,40. Como se discutiu nos outros construtos, ambos foram sexistas benévolos.

Quanto menor a escolaridade, maior foi o grau de sexismo benévolo10,41. Os trabalhadores de escolaridade fundamental foram significantemente mais preconceituosos que os de nível médio e/ou técnico.

O tipo de religião, como ocorreu no componente Hostil, também se associou à forma Benevolente, só que com escores mais elevados. A maior pontuação dos católicos e dos evangélicos confirmaram a alta presença do Sexismo Benévolo nos grupos de orientação cristã em relação aos demais. Essa relação é geralmente mediada pelo apego ao conservadorismo, cujos valores se associam a visões do mundo presentes nas religiões cristãs12.

Os trabalhadores, cujas práticas eram as de Atenção à Saúde, eram significantemente menos Sexistas Benévolos que os Administrativos e que os de Serviços Gerais. Tal fato pode estar associado à presença de uma maior escolaridade, ou por este tipo de profissional receber maiores ofertas de reciclagens e treinamentos, bem como por terem uma atuação direta junto ao usuário, o que poderia trazer-lhes motivações mais humanísticas. Entretanto, apesar da diferença estatística, todos eles apresentaram escores elevados, superiores a 60,0% dos pontos possíveis. O primeiro contato que uma usuária tem ao chegar em um serviço de APS é, geralmente, com técnicos e auxiliares de enfermagem, que costumam ser os responsáveis pelo acolhimento. Entretanto, existem situações em que tal função é desempenhada por funcionário administrativo. Nos dois casos, se a demanda de quem procura o serviço for potencialmente desencadeante do preconceito e se quem a atende for sexista, atitudes contrárias ao direito à saúde, ao atendimento humanizado, ao respeito ao usuário podem ocorrer.

Limitações do estudo

Este trabalho apresentou algumas limitações. Os construtos pesquisados ao serem assumidos publicamente, podem resultar em reprovação e constrangimento. Alguns trabalhadores, para que não fossem taxados de preconceituosos, por vezes poderiam optar por não responder aos instrumentos com o que realmente pensavam, pois, a atitude sexista é socialmente condenada e pode ocasionar restrições. Pesquisas a respeito de comportamentos reprováveis, ilegais ou marginais, têm a possibilidade de gerar resultados imprecisos e vieses em suas estatísticas. Entretanto, na literatura existem poucas pesquisas sobre formas de reduzir estas limitações. Para sua minimização, os pesquisadores, antes da aplicação dos instrumentos, além de efetuarem a completa explicação dos objetivos e metodologia da pesquisa, colocavam detalhadamente a garantia de confidencialidade. Além disso, os questionários eram auto preenchidos, em local tranquilo e sem circulação de pessoal, sempre individualmente, prevenindo-se a intimidação e constrangimento do respondente, fosse por quem aplicasse o instrumento ou por quaisquer outras pessoas que ensejassem o possível falseamento das respostas. A estes cuidados acrescentou-se, entre os procedimentos de análise estatística, o cálculo do alfa de Crömbach, para mensuração da confiabilidade.

Por ter sido realizado em município de médio porte, situado no Sudeste do Brasil, a generalização dos resultados foi feita com cautela, pois a questão do preconceito contra a mulher pode se apresentar de maneiras diferentes nas diversas regiões do país. Alguns fatores que não foram considerados como a experiência de cada profissional de saúde, sua capacitação, reciclagens, poderiam acrescentar maiores informações aos resultados. Além disso, por se tratar de tema pouco pesquisado, foram encontrados poucos trabalhos que propiciassem comparações diretas aos resultados.

Conclusões

Os resultados deste trabalho apontam que os profissionais de saúde portavam Estereótipos de Gênero, Sexismo Hostil e Benevolente. Eles se associaram a variáveis que mostraram que estes fenômenos se inseriram em situações sociais que extrapolam os serviços de saúde e são questões que devem ser enfrentadas por toda a sociedade.

Nos serviços de saúde, a existência de preconceito contra a mulher é inaceitável em qualquer circunstância. A sua ocorrência nas práticas da Atenção Primária em Saúde não é admissível, pois agrava as iniquidades já existentes. Os próprios trabalhadores podem se tornar causadores de problemas. Indivíduos sexistas, estereotipados, não são capazes de desempenhar o papel ético de proteção a usuários do SUS, não cumprindo sua função de “proteger seres e entes vivos contra ameaças que podem prejudicar de maneira irreversível suas existências”42. Populações de mulheres, vítimas de violência ou de outros agravos, estarão expostas a atitudes danosas, hostis, com prejuízos nas esferas mental, física, moral, espiritual e de cidadania.

Os achados deste estudo levantam a possibilidade de novas pesquisa. Novos aspectos do problema poderão ser levantados dando-se voz às usuárias ou ainda, abordando questões sobre as práticas de saúde desenvolvidas, a existência ou não da educação continuada, relações de trabalho, inserção social entre outros, aprofundando as questões aqui discutidas.

Políticas públicas antissexistas, que levem em conta a área da saúde, devem ser estabelecidas a curto prazo, envolvendo a condenação de atitudes preconceituosas de forma cotidiana, bem como, ações de educação continuada para os trabalhadores da área.

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Recebido: 14 de Março de 2016; Revisado: 28 de Fevereiro de 2017; Aceito: 02 de Março de 2017

Colaboradores

M Mesquita Filho trabalhou na concepção e delineamento do estudo, na análise e interpretação dos dados, na redação do artigo; na revisão crítica do artigo e na aprovação da versão a ser publicada. ABC Rocha, MB Brito, SR Oliveira e TF Marques trabalharam na concepção e no delineamento do estudo, na coleta, análise e interpretação dos dados. CCQ Pereira trabalhou na redação do artigo, revisão crítica do artigo e na aprovação da versão a ser publicada.

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