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Ciência & Saúde Coletiva

Print version ISSN 1413-8123On-line version ISSN 1678-4561

Ciênc. saúde coletiva vol.24 no.3 Rio de Janeiro Mar. 2019

http://dx.doi.org/10.1590/1413-81232018243.05432017 

TEMAS LIVRES

Consumo de bebidas açucaradas e fatores associados em adultos

Consumption of sweetened beverages and associated factors in adults

Danielle Cristina Guimarães da Silva1 

Wellington Segheto1 

Fernanda Cristina da Silva Amaral1 

Nínive de Almeida Reis1 

Ghéssica Santana Silva Veloso1 

Milene Cristine Pessoa2 

Juliana Farias de Novaes1 

Giana Zarbato Longo1 

1Departamento de Nutrição e Saúde, Universidade Federal de Viçosa. R. P. H. Holfs s/n, Centro. 36570-000 Viçosa MG Brasil. daniellenut@hotmail.com

2Departamento de Nutrição, Escola de Enfermagem, Universidade Federal de Minas Gerais. Belo Horizonte MG Brasil.


Resumo

O objetivo deste estudo foi avaliar o consumo regular de bebidas açucaradas e sua associação com aspectos sociodemográficos e comportamentais de adultos de uma cidade do sudoeste brasileiro. Trata-se de um estudo de base populacional com 1226 adultos de 20 a 59 anos, residentes na zona urbana do município de Viçosa-MG. Foi aplicado um questionário estruturado para medir as condições sociodemográficas e comportamentais. O consumo de bebidas açucaradas foi classificado como regular quando a frequência de ingestão foi igual ou superior a cinco vezes por semana. O consumo regular de bebidas açucaradas foi superior em homens e mulheres com idade entre 20 e 29 anos (p < 0,01). Homens com hábito de realizar refeições em frente à televisão (p = 0,03) e mulheres insatisfeitas com seu peso (p = 0,03) apresentaram maior consumo regular de bebidas açucaradas. Conclui-se que os indivíduos de maior idade apresentaram menor consumo regular de bebidas açucaradas e este consumo esteve associado a comportamentos obesogênicos, como o hábito em realizar refeições em frente à televisão, e em indivíduos insatisfeitos com o peso corporal.

Palavras-Chave: Refrigerantes; Sucos; Adultos; Epidemiologia nutricional

Abstract

The aim of this study was to evaluate the regular consumption of sweetened beverages and its association with sociodemographic and behavioral aspects in a city in the southwest of Brazil. It involves is a population-based study of 1,226 adults aged 20 to 59 living in the urban area of the municipality of Viçosa in the state of Minas Gerais. A structured questionnaire to measure sociodemographic and behavioral conditions was applied. The consumption of sweetened beverages was considered regular when the frequency of consumption was five or more times a week. Regular consumption of sweetened beverages was higher in men and women aged between 20 and 29 years (p < 0.01). Men with the habit of eating meals in front of the television (p = 0.03) and women dissatisfied with their weight (p = 0.03) consumed greater regular amounts of sweetened beverages. The conclusion reached is that older individuals showed less regular consumption of sweetened beverages and that the consumption of same was associated with obesogenic behaviors, such as the habit of eating meals in front of the television and among individuals dissatisfied with their body weight.

Key words: Soft drinks; Juices; Adults; Nutritional epidemiology

Introdução

O elevado consumo de bebidas açucaradas, fontes líquidas de adição de açúcares na dieta, está associado com potencial desregulação hormonal, resistência à insulina, dislipidemia e obesidade1,2. Está positivamente associado a uma pior qualidade da dieta, maior consumo de alimentos com alta densidade energética e a inferior ingestão de várias vitaminas e minerais3. Estas bebidas incluem refrigerantes e sucos artificiais, e podem ocasionar o excesso de peso devido a seu elevado teor de açúcar, além de acarretar baixa saciedade e compensação incompleta para a quantidade de energia total4-6.

O estilo de vida também pode estar associado ao consumo de bebidas açucaradas. Boulos et al.7citam que indivíduos com hábitos de vida sedentários, que têm elevada permanência em frente à televisão (TV), frequentemente apresentam comportamento alimentar não saudável. Estudo de coorte holandês mostrou que pré-escolares que assistem mais de duas horas de TV por dia tem 2,13 vezes mais chance de ingerir bebidas adicionadas de açúcar8. O hábito de comer enquanto assiste televisão também se associa negativamente ao comportamento alimentar9.

As recomendações dietéticas americanas para o período de 2015-2020 sugerem que a ingestão diária de calorias de açúcares adicionados não deve exceder 10% do total de calorias10, porém o consumo de bebidas açucaradas em adultos norte-americanos representa cerca de um terço do consumo de açúcar11. Na Austrália, de acordo com estimativas nacionais, a população adulta consome por dia, em média, entre 110-120 mL de refrigerantes não dietéticos12. No Brasil, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o consumo de refrigerantes não dietéticos de adultos chega a 15 milhões de litros por dia e é o sexto alimento mais consumido, perdendo apenas para o café, feijão, arroz, carne e sucos13. A Pesquisa de Orçamento Familiar (POF 2002-2003) registrou aumento de 400% na participação do refrigerante na aquisição domiciliar de alimentos pelos brasileiros14.

Recentemente, os Estados Unidos da América implementaram uma política pública de saúde visando a melhora ao acesso a bebidas mais saudáveis, como forma de combate ao uso de bebidas açucaradas15. No Brasil, o Plano de Ações Estratégicas para o Enfrentamento das Doenças Crônicas Não Transmissíveis, 2011-2022, que objetiva promover o desenvolvimento e a implementação de políticas públicas integradas e baseadas em evidências para a prevenção e o controle das DCNT e de seus fatores de risco16, tem se atentado para a desestimulação do consumo de bebidas com elevado teor de açúcar, por meio de restrições sobre o marketing destes alimentos. No entanto, apesar do crescente interesse em reduzir o consumo de bebidas açucaradas e dos malefícios das práticas alimentares inadequadas, ainda são escassos estudos de base populacional que investigaram o consumo de bebidas açucaradas nas populações e determinaram os principais fatores associados ao consumo elevado.

Diante do exposto, este estudo objetivou avaliar o consumo regular de bebidas açucaradas e sua associação com aspectos sociodemográficos e comportamentais em adultos de uma cidade do sudoeste brasileiro.

Metodologia

Foi conduzido um estudo transversal, de base populacional, pelo grupo de Estudos sobre Saúde e Alimentação de Viçosa (ESA/Viçosa) na zona urbana do município de Viçosa – Minas Gerais. O município apresenta uma área de 299,4 km2e densidade demográfica de 249,3 habitantes por km2.

A amostra do estudo foi constituída por adultos com faixa etária entre 20 a 59 anos de idade, de ambos os sexos e residentes na área urbana do município. Segundo dados do IBGE17, a população do município no ano 2010 foi de 72.220 habitantes, sendo que 67.305 destes habitantes (93%) se localizavam na zona urbana e 43.431 indivíduos, 52% da população, correspondiam aos adultos. O processo de amostragem segue a metodologia descrita anteriormente por Segheto et al.18.

Para definir o tamanho da amostra, considerou-se a população de referência, descrita anteriormente, a prevalência esperada do fenômeno desconhecida (50%), o erro amostral de 3,8 pontos percentuais e o efeito do desenho do estudo (amostra por conglomerados) estimado a 1,5. Houve acréscimo de 20% para perdas e recusas e 10% para controle de fatores de confusão, totalizando 1.294 indivíduos. O cálculo do tamanho da amostra foi realizado pelo programa Epi Info 6.04. Foram excluídos da amostra: gestantes, indivíduos acamados e impossibilitados para aferição das medidas.

Inicialmente, o participante assinou o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido, que continha todas as informações referentes às etapas do estudo e foi aplicado um questionário estruturado englobando variáveis sociodemográficas e comportamentais.

A variável dependente foi o consumo de bebidas açucaradas, medida a partir da pergunta: “Em quantos dias da semana o (a) Sr.(a) toma refrigerante e/ou suco artificial?”, utilizadas em outros inquéritos populacionais. O consumo dessas bebidas foi classificado como regular quando a frequência de ingestão relatada foi igual ou superior a 5 vezes por semana19,20.

As variáveis sociodemográficas estudadas foram: sexo (masculino/feminino), idade em anos completos, categorizada em períodos de dez anos, escolaridade em anos completos de estudo, definida em 0-4, 5-8, 9-12 e ≥ 13 anos de estudo, a cor da pele autoreferida foi categorizada em branca e não branca e o nível socioeconômico, determinado pela Associação Brasileira de Empresas de Pesquisa21 e classificado em nível socioeconômico elevado (A e B), intermediário (C) e baixo (D e E).

Quanto às variáveis comportamentais, para o tabagismo, os indivíduos foram classificados como não fumante, ex-fumante e fumante atual22. Foi considerado fumante o indivíduo que consumiu qualquer quantidade de tabaco nos últimos trinta dias, e como ex-fumante o indivíduo que fumou em algum momento da vida. O hábito de consumo de carnes gordurosas foi obtido por meio da combinação das respostas sobre o consumo de carne vermelha gordurosa ou de frango com pele sem remoção da gordura visível do alimento19. Os participantes também foram questionados quanto ao hábito de realizar as refeições em frente à televisão23, sua satisfação com o peso corporal através da questão “você está satisfeito com o seu peso corporal?”, tendo o participante as opções de responder que sim, não e gostaria de diminuir ou não gostaria de aumentar, conforme utilizado no estudo de Duca et al.24. O tempo de TV foi avaliado por meio da soma do tempo em que o indivíduo passava assistindo programas de televisão ou usando o computador, nos dias da semana e durante o final de semana. Utilizou-se como ponto de corte, a soma de tempo maior ou igual a três horas por dia25,26, em frente a televisão ou usando o computador, como um indicador de comportamento sedentário.

Após a verificação do controle de qualidade e consistência dos dados, foram realizadas as análises no STATA versão 13.1, levando em consideração o efeito do delineamento amostral, pelo grupo de comandos svy, o qual considera o efeito da expansão da amostra na análise dos dados. As análises foram ponderadas por sexo, idade e escolaridade, sendo os pesos determinados pela razão entre as proporções de indivíduos segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e na amostra.

Foram calculadas as proporções, razões de prevalência e seus respectivos intervalos com 95% de confiança dos fatores associados ao consumo de refrigerante para a amostra, segundo o sexo. Na análise bivariada através da Regressão de Poisson, foram avaliadas as associações entre idade, escolaridade, cor da pele, nível socioeconômico, tabagismo, hábito de consumir carnes gordurosas, realização das refeições em frente à TV, satisfação com o peso corporal, tempo de TV e consumo regular de bebidas açucaradas. Aquelas que apresentaram p < 0,20 foram incluídas na regressão múltipla. A análise múltipla foi realizada por meio da Regressão de Poisson sendo todas as variáveis que atenderam o critério de seleção (p < 0,20) incluídas no modelo e a seleção das variáveis realizadas através do método backward. Permaneceram no modelo final aquelas com nível de significância de 5%.

O estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa com Seres Humanos da Universidade Federal de Viçosa.

Resultados

A taxa de resposta foi de 95,64%, perfazendo os 1226 adultos elegíveis que foram entrevistados. O consumo de bebidas açucaradas foi relatado por 27,8% (IC95% 23,8 – 32,3) dos avaliados, sendo maior no sexo masculino (31,8% IC95% 25,9 – 38,3). A Tabela 1 descreve a proporção do consumo de bebidas açucaradas para o sexo masculino e feminino.

Tabela 1 Características demográficas, socioeconômicas e comportamentais, segundo o consumo de bebidas açucaradas, em adultos. Viçosa, MG, 2012-2014. 

Variáveis Consumo de bebidas açucaradas

% Masculino % (IC95%) Feminino % (IC95%)
Idade em anos
20 – 29 32,8 43,1 (36,2 – 50,3) 35,8 (30,0 – 42,1)
30 – 39 25,2 28,7 (20,1 – 39,1) 31,4 (23,7 – 40,3)
40 – 49 22,9 27,4 (17,2 – 40,7) 18,8 (12,2 – 27,8)
50 – 59 19,0 15,0 (8,6 – 24,9) 6,7 (3,5 – 12,6)
Escolaridade em anos
≥ 13 44,3 34,0 (27,4 – 41,4) 26,9 (22,3 – 32,2)
9 – 12 21,5 43,2 (35,5 – 51,2) 28,0 (22,5 – 34,2)
5 – 8 15,2 22,1 (16,3 – 29,3) 27,3 (18,7 – 38,0)
0 – 4 19,0 17,8 (6,0 – 42,1) 12,8 (6,9 – 22,6)
Cor da pele
Branca 39,6 29,9 (22,5 – 38,5) 23,6 (18,8 – 29,2)
Não branca 60,4 33,1 (25,6 – 41,6) 24,2 (20,4 – 28,5)
Nível socioeconômico
Elevado (A e B) 24,5 32,4 (25,1 – 40,6) 20,7 (13,7 – 30,1)
Intermediário (C) 64,7 31,8 (25,0 – 39,6) 27,0 (22,8 – 31,6)
Baixo (D e E) 10,8 29,9 (10,2 – 61,4) 14,8 (5,7 – 33,4)
Tabagismo
Não fumante 65,57 33,4 (26,5 – 41,2) 24,3 (19,6 – 29,6)
Fumante 16,2 33,9 (25,5 – 43,5) 30,3 (16,6 – 48,7)
Ex-fumante 18,3 24,4 (13,1 – 40,9) 18,2 (11,5 – 27,4)
Hábito de consumir carnes gordurosas
Não 44,6 29,1 (21,0 – 38,7) 21,3 (17,1 – 26,1)
Sim 55,4 33,2 (25,7 – 41,7) 27,0 (21,4 – 33,8)
Realiza refeições em frente à TV
Não 37,6 23,1 (16,5 –31,5) 15,7 (10,7 – 22,6)
Sim 62,4 35,9 (29,2 – 43,2) 30,2 (25,5 – 35,4)
Satisfação com o peso corporal
Não 41,2 30,4 (23,1 - 38,8) 19,0(14,2 – 25,0)
Sim 58,7 33,1 (26,1 – 40,9) 26,7 (22,1 – 31,9)
Tempo de TV
0 – 3 horas 67,9 29,0 (22,0 – 37,1) 21,5 (18,0 – 25,5)
>3 horas 32,1 37,6 (30,2 – 45,6) 29,8 (23,5 – 37,0)

No sexo masculino, após ajustes para as variáveis de confusão, a faixa etária de 40 a 49 anos (0,6 IC95% 0,4 – 0,9) e 50 a 59 anos (0,3 IC95% 0,2 – 0,6) mantiveram-se inversamente associada ao consumo de bebidas açucaradas, enquanto o hábito de comer em frente à televisão (1,4 IC95% 1,0 – 1,8) esteve associado positivamente ao consumo de bebidas açucaradas (Tabela 2). No sexo feminino, as faixas etárias de 40 a 49 anos (0,5 IC95% 0,3 – 0,8) e 50 a 59 anos (0,2 IC95% 0,1 – 0,4) também estiveram inversamente associadas ao consumo de bebidas açucaradas, enquanto a insatisfação com o peso corporal (1,4 IC95% 1,1 – 1,9) esteve positivamente associada ao consumo de bebidas açucaradas (Tabela 3).

Tabela 2 Análise univariada e multivariada do consumo regular de refrigerantes de acordo com as variáveis sociodemográficas e comportamentais em adultos do sexo masculino. Viçosa, MG, 2012-2014. 

Variáveis Razão de Prevalência Bruta (IC 95%) p Razão de Prevalência ajustada (IC 95%)
Idade em anos <0,01 <0,01
20 – 29 1,0 1
30 – 39 0,7 (0,4 – 0,9) 0,7 (0,5 – 1,0)
40 – 49 0,6 (0,4 – 0,9) 0,6 (0,4 – 1,0)
50 – 59 0,3 (0,2 – 0,6) 0,4 (0,2 - 0,6)
Escolaridade em anos 0,09
≥ 13 1,9 (0,7 – 5,1)
9 – 12 2,4 (0,9 – 6,5)
5 – 8 1,2 (0,5 – 3,2)
0 – 4 1
Nível socioeconômico 0,85
Elevado (A e B) 1
Intermediário (C) 1,0 (0,7 – 1,3)
Baixo (D e E) 0,9 (0,3 – 2,4)
Tabagismo 0,30
Não fumante 1
Fumante 1,0 (0,7 – 1,4)
Ex-fumante 0,7 (0,4 – 1,2)
Hábito de consumir carnes gordurosas 0,46
Não 1
Sim 1,1 (0,8 – 1,6)
Realiza refeições em frente à TV 0,01 0,03
Não 1 1
Sim 1,5 (1,1 – 2,1) 1,4 (1,1 – 1,9)
Satisfação com o peso corporal 0,54
Sim 1
Não 1,1 (0,8 – 1,4)
Tempo de TV 0,06
0 – 3 horas 1
>3 horas 1,3 (1,0 – 1,7)

Tabela 3 Análise univariada e multivariada do consumo regular de refrigerantes de acordo com as variáveis sociodemográficas e comportamentais em adultos do sexo feminino. Viçosa, MG, 2012-2014. 

Variáveis Razão de Prevalência Bruta (IC 95%) p Razão de Prevalência ajustada (IC 95%) P
Idade em anos <0,01 <0,01
20 – 29 1 1
30 – 39 0,9 (0,6 – 1,2) 0,9 (0,6 – 1,1)
40 – 49 0,5 (0,3 – 0,8) 0,5 (0,3 – 0,8)
50 – 59 0,2 (0,1 – 0,4) 0,2 (0,1 – 0,4)
Escolaridade em anos 0,04
≥ 13 2,1 (1,1 – 4,0)
9 – 12 2,2 (1,2 – 3,9)
5 – 8 2,1 (1,2 – 3,6)
0 – 4 1
Nível socioeconômico 0,66
Elevado (A e B) 1
Intermediário (C) 1,3 (0,8 – 2,1)
Baixo (D e E) 0,7 (0,3 – 1,9)
Tabagismo 0,41
Não fumante 1
Fumante 1,2 (0,7 – 2,3)
Ex-fumante 0,7 (0,5 – 1,2)
Hábito de consumir carnes gordurosas 0,11
Não 1
Sim 1,3 (0,9 – 1,7)
Realizar refeições em frente à TV <0,01
Não 1
Sim 1,9 (1,3 – 2,8)
Satisfação com o peso corporal 0,04 0,03
Sim 1 1
Não 1,4 (1,0 – 1,9) 1,4 (1,1 – 1,9)
Tempo de TV <0,01
0 – 3 horas 1
>3 horas 1,4 (1,1 – 1,7)

Discussão

Quase um terço dos adultos deste estudo (27,8 IC95% 23,8 – 32,3) referiram o consumo regular de bebidas açucaradas. Este consumo foi inferior em indivíduos com maior idade, em ambos os sexos. Homens com hábito de fazer refeições em frente a televisão e mulheres com insatisfação com o peso corporal apresentaram maior consumo regular destas bebidas.

Essa análise torna-se importante uma vez que em função do alto índice glicêmico dessas bebidas27 há um aumento da ingestão calórica, o que pode levar ao aumento da adiposidade corporal, elevar o risco de obesidade e outras doenças crônicas degenerativas. Além disso, ao optarem por consumir bebidas açucaradas, como os refrigerantes, por exemplo, pode ocorrer uma diminuição no consumo de outras bebidas saudáveis, como o leite e os sucos naturais28. É importante destacar que a deficiência de micronutrientes é fator de risco para a carga global de doenças, estando entre os vinte principais fatores e afetando cerca de dois bilhões de indivíduos em todo mundo29. Segundo a Organização Mundial de Saúde30 há evidências suficientes para desencorajar o consumo de refrigerantes como estímulo da alimentação saudável.

Estudo conduzido com a população brasileira indicou que houve um aumento na aquisição per capita de refrigerantes de 490% no período de 1975 a 200331. Dados mais recentes26 demonstraram que a frequência do consumo de refrigerantes é de 20,8%, sendo maior entre os homens (23,9%). Estudo de base populacional realizado na cidade de Pelotas, RS, em adultos, identificaram que cerca de 20,4%, dos avaliados ingeriam refrigerantes32, sendo o consumo maior referido pelos homens. O consumo de refrigerantes relatado pela população brasileira e por adultos de Pelotas foram inferiores aqueles encontrados em nosso estudo (27,8%). Essa prevalência elevada de consumo de bebidas açucaradas descrita em nossa amostra pode está relacionada à característica da cidade que possui um número elevado de estudantes universitários sendo que grande parte não reside com seus familiares, favorecendo a alimentação em locais onde a disponibilidade de refrigerantes e sucos artificiais são maiores.

As bebidas açucaradas, como os refrigerantes e os sucos artificiais, são classificadas como alimentos ultraprocessados segundo o Guia Alimentar Para a População Brasileira33, sendo o crescente consumo deste tipo de alimento considerado um fator de risco para o aumento da prevalência de obesidade e doenças crônicas30,34. No Brasil, estudo recente conduzido com a população adulta, a Pesquisa Nacional de Saúde, indicou que dois em cada 10 brasileiros consomem refrigerantes, sendo que a prevalência de consumo regular de refrigerante ou suco artificial foi maior entre os homens, apresentando redução na medida do incremento da idade35. Em nosso estudo essa relação está próxima de 3/10 adultos, sendo importante ressaltar que o consumo de bebidas açucaradas tende a ocorrer com a ingestão simultânea de outros alimentos com alto teor calórico.

Importante atenção deve ser dada aos alimentos ultraprocessados, como os refrigerantes e sucos artificiais, uma vez que o consumo destes alimentos apresentaram associação com a densidade energética e ao teor de gorduras saturadas e trans, açúcar livre e sódio, além de conteúdo insuficiente de fibras e potássio36. Além disso, os alimentos ultraprocessados possuem um teor de micronutrientes inferior aqueles observados em outros alimentos, principalmente, quando comparado aos alimentos in natura ou minimamente processados37. Em função disso, atenção especial deve ser dada ao consumo de bebidas açucaradas devido ao alto teor de sódio, açúcar e ao baixo valor nutritivo.

Essa prevalência elevada de consumo regular de bebidas açucaradas observada neste estudo pode ser em função da divulgação excessiva desses produtos na mídia. Monteiro38 destacam que o consumo de alimentos e/ou preparações não estão relacionados aos nutrientes desses alimentos, mas sim ao comercio e indústria alimentícia que oferecem um tipo de alimento mais atrativo para a população. As políticas públicas que tratam do cuidado na transmissão de informações pelos veículos de comunicação e nas embalagens dos produtos ainda são escassas em nosso país39, reforçando a necessidade de trabalhos de educação alimentar e nutricional com a população em função das consequências negativas do consumo elevado desses produtos para a saúde.

Algumas limitações inerentes a este estudo devem ser destacadas, dentre elas, o viés de informação oriundo de registros alimentares. Este tipo de instrumento pode levar a uma subestimação do consumo de bebidas açucaradas devido ao conhecimento pela população da contraindicação deste tipo de alimento. Outra limitação é o desenho transversal deste estudo que impede determinar o intervalo de tempo entre as variáveis dependentes e independentes, favorecendo o viés de causalidade reversa. Como pontos positivos, destaca-se o fato de ser um dos poucos estudos de base populacional com adultos realizados em países de média renda, onde observa-se um crescimento significativo do consumo de alimentos ultraprocessados e da obesidade.

Conclui-se que o consumo regular de bebidas açucaradas é elevado na população estudada, sendo inferior em indivíduos com maior idade e superior nos homens que possuem o hábito de fazer as refeições em frente a televisão e nas mulheres que estão insatisfeitas com o peso corporal. Estratégias de intervenção alimentar e nutricional devem ser implementadas com o objetivo de diminuir o consumo de bebidas açucaradas, uma vez que estes alimentos apresentam baixo teor nutricional e alto valor calórico e estão associados a comportamentos obesogênicos tal como o hábito de realizar refeições em frente à televisão, além da presença de adiposidade abdominal excessiva.

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Recebido: 27 de Agosto de 2016; Revisado: 23 de Março de 2017; Aceito: 25 de Março de 2017

Colaboradores

DCG Silva, W Segheto, FCS Amaral, NA Reis e GSS Veloso contribuíram para a coleta de dados e análises deste estudo, escreveram o primeiro rascunho do manuscrito e desenvolveram a versão final. MC Pessoa e JF Novaes contribuíram nas análises dos dados. GZ Longo foi a supervisora deste estudo, contribuindo no desenho do estudo, no desenvolvimento e na análise dos dados.

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