Introdução
Sabendo que a pessoa é um individuo humano em relação com o mundo e em desenvolvimento permanente através das escolhas que realiza e da interação com os outros1, a enfermagem é uma resposta nutridora intencionalmente dirigida ao bem-estar da pessoa, ajudando-a a tornar-se tanto mais humana quanto possível, na sua situação particular1. Por outro, o cuidar em enfermagem é uma experiência vivida entre humanos, numa relação intersubjetiva na qual o processo de nutrir ocorre, envolvendo um modo de ser e de fazer com o outro, situado num determinado tempo e espaço.
Ser-se enfermeiro é dar e construir significados das experiências vividas, permitindo realizar um ‘cuidado’ de enfermagem significativo ao outro. Que entendimento conceptual tem a Enfermagem e os Enfermeiros da experiência vivida, o seu significado do ponto de vista daqueles que a vivem? Na resposta a estas duas questões, os enfermeiros têm desenvolvido estudos de cariz fenomenológico que têm alicerçado a construção de teorias de grande e médio alcance que suportam as práticas profissionais em enfermagem. Não obstante, não podemos esquecer-nos de alertar que a aplicação do método fenomenológico para a disciplina da Enfermagem, “centrada sobretudo no campo da experiência vivida, tal como vivida, deve ser feita com a utilização de estratégias de rigor adequadas e devidamente enquadradas no processo de investigação, e isso implica um conhecimento do método e da sua linguagem”2, principalmente no que diz respeito aos referenciais onto-epistemológicos.
Mas quem é este Outro que interpela o Enfermeiro na sua ação do Cuidar?
Para Heidegger3, só o homem (ser-aí) existe, sendo este privilegiado, devido “a aceitação do dom da existência que lhe entrega a responsabilidade e a tarefa de ser e assumir esse dom”, uma vez que o homem só pode ser “compreendido a partir da sua existência, da possibilidade (que lhe é própria) de ser ou não ser ele mesmo”.
Configurando-se a situação do homem como clareira do ser, onde este se esconde e se revela, Dasein, é marcado pela pre-sença, a qual, só é possível com fundamento no ser-no-mundo em geral3. A compreensão do ser-no-mundo como estrutura essencial da presença é que possibilita a “visão penetrante da espacialidade existencial da pre-sença”3. Dasein, este ser-no-mundo, é alguém que “espacializa”, por ser pre-sença no mundo no qual se encontra. Para além destas características, o homem (Dasein) é um ser-no-mundo e um ser-com-o-outro, com consciência do eu, afirmação de si mesmo e da própria identidade, que interage com outros seres e se relaciona com estes, “[...] o ser simplesmente dado é o modo de ser de um ente que não possui o carácter de presença”3.
Desta forma, a vida oferece ao Homem a experiência, em que através da sua compreensão, este se autoapreende, regressa e se encontra a si mesmo. A experiência vivida é tida como objeto de estudo, em que o conjunto complexo de dados num todo indivisível, cria um corpo de conhecimentos profundamente compreensivo e interpretativo. A experiência humana, assente numa história e numa cultura, perfaz a relação deste consigo próprio e com o mundo, em que a realidade pré-refletida faz com que o Homem tome consciência de si situadamente4.
Em Heidegger, o ato de desocultação, a abertura entre Dasein (ser aí) e os objetos que preenchem o mundo, desempenha a função da razão, portadora do real. A verdade está no combate entre a clareira e a ocultação, em que o próprio ser, a partir da sua essência, faz acontecer5. Sob um eixo interpretativo, os fenómenos são estudados nas situações vividas pelas pessoas, enfatizando a compreensão do significado que os indivíduos atribuem às suas ações, indo ao encontro da premissa da prestação de cuidados de enfermagem individualizados, assente numa filosofia de compromisso moral para com o outro6.
Assim, o cuidar é o cerne da enfermagem, exigindo o desenvolvimento de conhecimento científico próprio, em que os estudos fenomenológicos poderão contribuir, construir e aprofundar quadros de referência, articulando conceitos, valores e crenças que correspondem à concepção de cuidar em enfermagem. Através da questão ‘Qual é Experiência Vivida da Transição para o Papel Maternal de Mulheres com Problemas de Adição a Substâncias Psicoativas, desde a gravidez ao primeiro ano de vida do filho?’ e com o objetivo de compreender a experiência vivida da transição para o papel maternal de mulheres com problemas de adição a substâncias psicoativas, desde a gravidez ao primeiro ano de vida do filho, propusemo-nos desenvolver um estudo fenomenológico que pudesse contribuir para fortalecer o mapeamento conceptual da problemática em estudo, tal como para sustentar melhores práticas de enfermagem a Mulheres Mães com Problemas de Adição a Substâncias Psicoativas.
A interação do enfermeiro com o ser vivido
Segundo Meleis7, o enfermeiro interage com o Outro (cliente de enfermagem), numa situação de saúde-doença em que o Ser Humano é parte integrante do seu ambiente e que está a viver uma transição. Estas interações entre o enfermeiro e o seu cliente (o Outro) organizam-se em torno de uma intenção (processo de enfermagem) e o enfermeiro utiliza intervenções (terapêuticas de enfermagem) para promover, recuperar ou facilitar a saúde. Partindo deste entendimento, os seres humanos são como sujeitos vivenciados nos processos de saúde-doença e os enfermeiros, os profissionais que acompanham as situações experienciadas (nos processos de saúde e doença), tal como na elaboração e significação posterior e na exploração cuidativa do sentido do vivido para quem o viveu”8.
Se o ser humano só pode ser compreendido a partir da sua própria existência, a experiência vivida das mulheres aquando da gravidez, parto, pós-parto e primeiros anos de vida da criança, possibilita a exploração do vivido por estas e permite o conhecimento por parte dos enfermeiros dos processos de ajustamento e de transição ao papel maternal para que posteriormente possam conceber processos cuidativos significativos para as mesmas.
Continuando a assistir-se a uma conceção naturalista e essencialista do processo de ‘tornar-se e ser-se mãe’9, percepcionamos a necessidade de desocultar a experiência vivida de mulheres com problemas de adição a substâncias psicoativas face à transição para o papel maternal, considerando-as como seres experienciados, em que a enfermagem poderá contribuir para a compreensão do fenómeno, ocupando-se assim da resposta humana aos processos de vida9.
Método
Trata-se de um estudo fenomenológico, transversal e retrospetivo, de cariz interpretativo assente na fenomenologia existencial de Heidegger3,5 e na hermenêutica de Gadamer10-12.
Considerando de que fenomenologia é tendencialmente descritiva e interpretativa, linguística e hermenêutica9, esta constitui-se uma via de acesso ao mundo como nós o experienciamos pré-refletidamente13. Para Gadamer11, o Homem situado num tempo, num espaço e numa cultura que faz com que este esteja imerso por preconceitos transmitidos ou construídos durante a sua vida, por outro, cada intérprete está imerso num conjunto de pré-juízos que fazem parte do seu ser.
O ato interpretativo é um encontrar-se, que se dá na abertura à alteridade da coisa que se busca compreender11. É no momento fusional do encontro com o outro, que se ancora o processo dialógico de compreensão, processo este mutável e dinâmico.
O círculo hermenêutico de interpretação desloca-se de frente e para trás, com início no presente. O processo interpretativo subjacente ao significado surge das interações, trabalhando para fora e para trás, de si para o acontecimento e do acontecimento para si. A investigação fenomenológica aplicada à enfermagem permite-nos responder a questões de como a experiência dos seres humanos é vivida e como dá sentido à vida humana, possibilitando-nos compreender como se constrói a realidade tal como é experienciada pelos sujeitos13.
Atendendo à nossa questão de investigação e procurando a compreensão da experiência vivida da transição para o papel maternal de mulheres com problemas de adição a substâncias psicoativas, desde a gravidez ao primeiro ano de vida do filho, partimos para encontros significativos com estas mulheres, através de uma amostragem com propósito. A seleção foi orientada com a ajuda das equipas de enfermagem de três Equipas Técnicas Especializadas de Tratamento da Região Centro de Portugal (Serviço de Intervenção nos Comportamentos Aditivos e nas Dependências, Sicad). Como critérios de elegibilidade para a participação no nosso estudo definimos: mães com idades compreendidas entre os 18 e os 35 anos, que soubessem ler e escrever e que acordassem voluntariamente participar na investigação. Todas as participantes estavam ao abrigo de programas terapêuticos (substituição narcótica de opiáceos) no âmbito dos Centros de Respostas Integradas, desde o período pré-natal até ao momento da colheita de dados. Participaram no estudo catorze mulheres (Quadro 1).
Quadro 1 Participantes no estudo.
| Nome Fictício | Filhos | Outros dados |
|---|---|---|
| Dora (N1) | Filha do sexo feminino com um ano e seis meses, fruto de uma relação anterior. | Vive com o atual companheiro não sendo este o pai da sua filha (fruto de uma relação anterior). Criança encontra-se atualmente institucionalizada. Desempregada |
| Ana (N2) | Filha do sexo feminino com dois anos de idade. A participante tem uma filha mais velha vinte anos de idade, fruto de uma relação anterior. | Vive com o atual companheiro e filha, sendo este o pai da sua filha mais nova. Desempregada |
| Maria (N3) | Filha do sexo feminino com dois anos de idade | Vive com a sua filha, companheiro e sogros. Sogros têm a regulação do poder parental da menor. Desempregada |
| Irene (N4) | Filho do sexo masculino com cerca de um ano e quatro meses de idade. | Vive sozinha. Relação no passado com um namorado de quem teve o único filho que possui. Desempregada |
| Raquel (N5) | Filho do sexo masculino com dois anos e seis meses de idade. | Teve uma relação no passado com um namorado de quem teve um único filho. Vive com os seus pais e o filho. Desempregada |
| Sandra (N6) | A filha mais velha tem dezanove anos, seguida de uma filha de dezasseis anos e outra de treze anos de idade. O filho mais novo tem dois anos de idade. | Vive com os quatro filhos. Empregada |
| Patrícia (N7) | Filha com cerca de dois anos de idade. | Vive com o companheiro. Criança encontra-se atualmente sob os cuidados dos avós paternos. Desempregada |
| Nélia (N8) | Filha com dois anos e meio de idade. | Vive sozinha. Criança encontra-se atualmente institucionalizada. Desempregada |
| Cristina (N9) | Filho do sexo masculino com três anos de idade e outro com dois anos de idade. | Vive com os filhos e o companheiro. Empregada |
| Carla (N10) | Filha do sexo feminino com quatro anos de idade e outra com um ano e meio de idade. | Vive com as suas filhas. Desempregada |
| Inês (N11) | Filha do sexo feminino com um ano e meio de idade. | Vive com os seus pais. Criança encontra-se atualmente institucionalizada. Desempregada |
| Paula (N12) | A participante tem dois filhos do sexo masculino, um com vinte anos de idade e o outro filho com um ano e meio de idade. | Vive com o companheiro e filho mais novo. Empregada |
| Carlota (N13) | Filho do sexo masculino com seis anos de idade e outro com dois anos de idade. | Vive com os filhos e o companheiro. Desempregada |
| Aurora (N14) | Filho do sexo masculino com vinte anos de idade e outro com dois anos de idade. | Vive com o seu atual companheiro e filho mais novo. Empregada |
Foi utilizada a entrevista fenomenológica com uma abordagem não estruturada para a colheita dos dados, procurando que as participantes narrassem a sua experiência vivida do fenómeno.
O estudo foi autorizado pela Administração Regional do Centro - Portugal, e pelo Serviço de Intervenção nos Comportamentos Aditivos e nas Dependências. Foi aprovado pela respetiva Comissão de Ética da Administração Regional do Centro, Portugal.
Realizadas as entrevistas, o investigador procedeu à sua transcrição, associando as notas de campo tomadas no decurso das mesmas. Foram, ainda, realizados genogramas simples tendo por base as informações fornecidas pelas participantes (Figura 1).

Figura 1 Genograma Simples tendo por base a informação fornecida pela participante Ana (nome fictício).
Posteriormente à transcrição completa, o texto narrativo foi enviado às participantes com o objetivo de estas validarem o processo de transcrição realizado pela investigadora. Para rigor metodológico, nenhuma entrevista foi realizada sem que a anterior tivesse sido transcrita. Este aspeto é de especial relevância em estudos fenomenológicos, em que se pretende a procura da compreensão de determinado fenómeno e o desvelar das experiências vividas dos sujeitos9. “A linguagem é o médium universal em que se realiza a própria compreensão. A forma de realização da compreensão é a interpretação”11.
Tendo as participantes corroborado com processo de transcrição das entrevistas, os textos foram reanalisados e foram retirados os aspetos narrativos referenciados pelas participantes não relacionados com o fenómeno em estudo, permitindo ao investigador procurar centrar-se no fenómeno em estudo, deixando de lado aspetos muito abstratos ou divagações relacionadas com outros assuntos, permitindo-nos recolher e destapar os fenómenos14.
Entrando especificamente na análise fenomenológica, a investigadora mergulhou nos dados, fazendo leituras e releituras circulares sobre os mesmos13, buscando a compreensão de cada dado em relação ao todo, e do todo em relação a cada dado (círculo hermenêutico). Recorremos seguidamente ao movimento circular de leituras e releituras, aos pressupostos processuais de Van Manen14, procurando a investigadora voltar-se para a natureza da experiência vivida, dedicando-se e concentrando-se no fenómeno do seu interesse e acedendo às “estruturas da experiência”14, no ato de construir os temas fenomenológicos com base na experiência vivida e narrada.
Constituindo-se a fenomenologia o método para chegar às estruturas do significado das experiências vividas, o mesmo, também denominado de redução, consiste em dois movimentos opostos que se complementam um ao outro14. Num movimento, procurar-se-á colocar entre parêntesis (Epoché ou Bracketing) as ideias preexistentes ou preconcebidas do investigador face ao fenómeno. Num outro movimento, em sentido contrário, procurar-se-á a essência do fenómeno em estudo através da redução (Reduction), em que se pretenderá uma descrição rica da experiência face ao fenómeno em estudo e a sua tradução “através de clusters, insights ou conjunto de temas a partir da compreensão dos relatos”14,15.
Resultados e discussão
Utilizando a metáfora de estar à tona da água, estas mulheres procuraram na gravidez a possibilidade da transcendência e de mudança. De forma não planeada e não desejada, a gravidez surge na vida destas mulheres gerando sentimentos de ambivalência, mas com expressão de uma forte ligação e vinculação ao seu bebé (Quadro 2). A comunicação e a relação estabelecida entre a mãe e o futuro bebé ocorre gradualmente ao longo dos meses de gravidez e é, sem dúvida, responsável pelo desenvolvimento da vinculação entre a díade mãe/filho16.
Quadro 2 A gravidez - o situar-se na díade mãe-filho.
| Tema | O Situar-se na Díade Mãe-Filho | Exemplo de Extrato das Narrativas | |
|---|---|---|---|
| Experiência vivida da transição para o papel maternal de mulheres com problemas de adição a substâncias psicoativas no momento da gravidez | Variações no Tema | - A Ligação/Vinculação ao Bebé - O Sentir Medo de Alterações/Malformações no Bebe - O Sentir Medo de Perder o Filho |
[...] mas depois conforme ela ia crescendo dentro de mim foi, eh pá, foi uma paz…uma coisa maravilhosa…ai! [...] Gostava de dormir agarrada à minha barriga quando ela já estava grande e sentir a bebé a mexer, é uma coisa maravilhosa, doutora. [...] Eu falava para a minha filha, desabafava com ela, ela estava ali comigo, dentro de mim.” (Dora - N1). |
É no momento do trabalho de parto e parto que estas mulheres expressam o sentirem a diferença no cuidar, o medo, mas também a felicidade e o amor pelos seus bebés (Quadro 3). Os profissionais de saúde deverão ser promotores do combate ao estigma, que tanto parece condicionar a vida destas e de outras mulheres, levando à perda de oportunidades, prejuízo da autoestima e autoconceito, qualidade de vida, suporte social e empoderamento17. Segundo Banwell e Bammer18, as mulheres que usam drogas ilícitas são muitas vezes culpadas por dificuldades no exercício da parentalidade, ao contrário dos outros grupos de mulheres, o que se traduz em estigma face a estas mulheres, representando um obstáculo à concretização dos seus projetos pessoais.
Quadro 3 O Parto - O Situar-se na Díade Mãe-Filho.
| Tema | O Situar-se na Díade Mãe-Filho | Exemplo de Extrato das Narrativas | |
|---|---|---|---|
| Experiência vivida da transição para o papel maternal de mulheres com problemas de adição a substâncias psicoativas no momento do trabalho de parto e parto | Variações no Tema | - A Ligação/Vinculação ao Bebé - O Sentir Medo de Alterações/Malformações no Bebe - O Sentir Medo de Perder o Filho |
“[...] estava farta de dores, mas também ao mesmo tempo, fogo, estava feliz, queria ver a minha filha, abraçá-la, queria ver a minha filha, a gravidez durou séculos.” (Dora - N1). |
No período pós-parto e primeiro mês de vida dos seus filhos, estas mulheres exprimem o sentirem-se mães e a capacidade de cuidarem dos seus filhos, em que as exigências encetadas no mesmo, e a possibilidade de institucionalização do filho, a vigilância por parte de outros e o estigma social em relação à capacidade em serem mães, as fazem exprimirem-se com tristeza e revolta (Quadro 4). O estudo inglês que procurou compreender de que forma programas de reabilitação para a toxicodependência podem criar oportunidades de afirmação da identidade materna, mostra-nos que as mulheres toxicodependentes em processo de reabilitação encontram-se motivadas em agir no supremo interesse do seu descendente, tendo uma oportunidade para se reabilitar do uso de drogas19.
Quadro 4 O Pós-Parto - O Situar-se no Projeto da Maternidade.
| Tema | O Situar-se no Projeto da Maternidade | Exemplo de Extrato das Narrativas | |
|---|---|---|---|
| Experiência vivida da transição para o papel maternal de mulheres com problemas de adição a substâncias psicoativas no momento pós-parto (até aos 30 dias após o nascimento da criança) | Variações no Tema | - O Sentir Estigma Social em relação à Capacidade em Ser Mãe - O Sentir-se Igual a outras Mães - A Revolta em Relação às Instituições e Técnicos de Segurança Social |
“Quando a bebé estava lá eu é que fazia tudo, nos primeiros dias eles é que queriam fazer e eu disse eu quero a minha filha, eu quero fazer. [...] Uma enfermeira lá no hospital então disse-me, anda cá, anda cá, estica o braço vá, tens de aprender, não pode ser só a ver. Eu fiquei tão contente, eu é que lhe dava banho, trocava as fraldas, dava de comer, tudo, tudo, eles não faziam quase nada, tratavam dos outros. Isto era muito importante para mim, eu aprendi a fazer e a minha filha sentia que era eu.” (Dora - N1). |
Retornando ao primeiro ano de vida de seus filhos, estas mulheres culpabilizam-se por uma história de vida passada. Se a perceção do estigma social em relação à capacidade em serem mães é enfatizado por estas mulheres, é com o sentimento de orgulho e de vínculo ao seu filho, que estas se sentem mães e com capacidade para cuidarem dos seus filhos, evocando aqueles que foram capazes de cuidarem delas (Quadro 5).
Quadro 5 O primeiro ano de vida - o situar-se na díade mãe-filho.
| Tema | O Situar-se no Projeto da Maternidade | Exemplo de Extrato das Narrativas | |
|---|---|---|---|
| Experiência vivida da transição para o papel maternal de mulheres com problemas de adição a substâncias psicoativas após o primeiro ano de vida do filho | Variações no Tema | - O Sentir Estigma Social em relação à Capacidade em Ser Mãe - O Sentir-se Mãe - O Sentir Orgulho |
Uma coisa que me marcou, foi que quando eu tive o meu filho eu era a toxicodependente e a outra senhora que estava lá também a ter o bebé, não era. [...]! É como lhe digo, fazem muita distinção! (Aurora - N14). |
Através desta pesquisa, os enfermeiros poderão aceder à experiência vivida destas mulheres, e com ele refletirem sobre a necessidade inequívoca da prestação de cuidados de enfermagem significativos ao outro. Por outro, abordamos o método fenomenológico como método basilar no desenvolvimento da exploração e clarificação conceptual da ciência de enfermagem, tal como fez a autora Swanson20 através de três investigações fenomenológicas no âmbito da saúde materna, construindo uma teoria de médio alcance, que a levou à definição do cuidar em enfermagem como “[...] a forma de relacionar crescendo com um outro significativo, por quem nos sentimos pessoalmente envolvidos e responsáveis”.
De acordo com Swanson20,21, uma das pedras basilares do cuidar em enfermagem é a manutenção da crença na pessoa e na sua capacidade de superar eventos e transições. Por outro, tal como este estudo se propôs, conhecer, significa compreender os acontecimentos e o significado dos mesmos na vida da pessoa.
O enfermeiro também tem de estar com, isto é, estar emocionalmente presente, em que presença emocional é uma forma de partilha de significados, sentimentos e da experiência vivida pela pessoa. O enfermeiro é aquele que faz, e que faz com sentido em que Fazer inclui confortar a pessoa; antecipar as suas necessidades; desempenhar funções com habilidade e competência; proteger a pessoa e preservar a sua dignidade20. Por último, o enfermeiro é o profissional que possibilita e capacita em que possibilitar/capacitar é facilitar a passagem da pessoa nos acontecimentos e transições de vida (Figura 2).
Considerações finais
A transição para o Papel Maternal de Mulheres com Problemas de Adição a Substâncias Psicoativas, da gravidez ao primeiro ano de vida do filho é desvelada quando estas mulheres narram e se situam num momento passado de história de consumos, quando se sentiram investidas e cuidadas pelos profissionais de saúde; quando se situam num passado difícil em que as relações familiares, muitas vezes, são fugazes e pouco estruturadas; quando se sentiram desinvestidas e não cuidadas pelos outros; mas fundamentalmente quando se situaram numa relação vinculativa e afetiva Mãe-Filho, valorizando os momentos do tempo presente e permitindo-se sonhar e projetar um futuro melhor.
Pelos achados obtidos, verificamos que o fenómeno em estudo é de elevada complexidade. Desvelando-se uma imagem estereotipada, estas mulheres salientam a necessidade de uma maior visibilidade para a equipa de saúde e a desocultação das suas experiências enquanto mães. Na possibilidade da consecução do papel maternal, estas mulheres gravitam de forma transicional para a identidade em serem mães, culpabilizando-se por uma história de vida passada e todas as consequências que esta determinou em suas vidas e de seus filhos, sentindo por isso, necessidade de cortar com um passado ainda muito presente. Se a perceção do estigma social em relação à capacidade em serem mães é enfatizado por estas mulheres, é com o sentimento de orgulho e de vínculo ao seu filho, que estas se sentem mães e com capacidade, em alguns casos, para cuidarem dos seus filhos.
Pela necessidade de ajustamento ao fenómeno da maternidade, de adaptação e na experiência simultânea de uma transição desenvolvimental, situacional e de saúde-doença, a consecução maternal faz-se, para estas mulheres, num passado e numa história de consumos, em que o projeto de maternidade é presente, fortemente alicerçado na díade mãe-filho.










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