SciELO - Scientific Electronic Library Online

 
vol.15 issue1Opinion of college students about persons with HIV/AIDS: an exploratory study about prejudiceMotivation to practicing physical activities: a study with non-athletes author indexsubject indexarticles search
Home Pagealphabetic serial listing  

Services on Demand

Journal

Article

Indicators

Related links

Share


Psico-USF

On-line version ISSN 2175-3563

Psico-USF (Impr.) vol.15 no.1 Itatiba Apr. 2010

http://dx.doi.org/10.1590/S1413-82712010000100012 

ARTIGOS

 

O papel das características sociodemográficas na felicidade

 

The role of sociodemographic characteristics on happiness

 

 

Airton Rodrigues; José Aparecido da Silva

Universidade de São Paulo, São Paulo, Brasil

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

O presente estudo teve como objetivo avaliar as diferenças no bem-estar subjetivo de trabalhadores do comércio de Ribeirão Preto e região. Foram consideradas as seguintes características no estudo: sexo, estado civil, etnia, escolaridade, prática religiosa, presença de alguns tipos de doenças, prática ou ausência de tabagismo e execução de atividades físicas. Os instrumentos de mensuração utilizados foram dois tipos de escalas: a Escala Subjetiva de Felicidade, com quatro itens, e uma escala com um item único que procura avaliar de maneira geral o nível de felicidade do indivíduo. A amostra foi composta de 467 entrevistados e os dados foram coletados nos estabelecimentos comerciais dos entrevistados. Para as análises estatísticas dos dados foram utilizadas as técnicas de análise fatorial e regressão multivariada com variáveis binárias (mudas), onde se encontraram diferenças nos níveis de BES para algumas das características mencionadas.

Palavras-chave: Felicidade, Bem-estar subjetivo, Psicologia positiva.


ABSTRACT

This study aimed to evaluate the differences in subjective well-being of trade workers in Ribeirão Preto and two nearby cities. The following characteristics were considered in the study: gender, marital status, ethnicity, education, religious practice, the presence of some types of diseases, practice or absence of smoking and practice of physical activities. The measurement instruments used were two types of scales: the Subjective Happiness Scale, with four items, and a scale with a single item which assessed general level of happiness. The sample of 467 interviews was collected at the interviewees' workplace. The factor analysis and multivariate regression with dummy variables were used for statistical analysis of the data and differences were found in levels of BES for some of the mentioned features.

Keywords: Happiness, Subjective well-being, Positive psychology.


 

 

Algo que une os diferentes tipos de cientistas sociais é a busca pela compreensão das forças que afetam o bem-estar individual e identificar o que torna as pessoas e a sociedade mais felizes (Blanchflower & Oswald, 2004). O bem-estar subjetivo (BES) refere-se ao que as pessoas pensam e como se sentem sobre suas vidas, construindo conclusões em bases afetivas e cognitivas sobre sua existência (Seligman & Csikszentmihalyi, 2000). É importante ressaltar que a literatura entende os termos bem-estar subjetivo e felicidade como intercambiáveis (Veenhoven, 1994).

A compreensão do que leva as pessoas à felicidade está além de questões filosóficas e dos valores ocidentais. O estudo empírico mostra que a capacidade de ser feliz é sinal de adaptação e saúde mental (Lyubomirsky, Sheldon & Schkade, 2005b). Há estudos que mostram que pessoas felizes possuem benefícios tangíveis nos mais diversos domínios da vida, derivados deste estado mental positivo: maior tempo de casamento, mais amigos, maior suporte social e interações sociais mais enriquecedoras, resultados superiores no trabalho (como aumento de produtividade, qualidade do trabalho e maior renda), maior atividade, energia e envolvimento, maior autocontrole e autodomínio, maior habilidade em superar dificuldades, sistema imunológico mais eficiente e até mesmo maior longevidade; além de serem menos egoístas, mais cooperativas e caridosas, conforme Lyubomirsky, Sheldon e Schkade (2005b).

Alguns indivíduos possuem a capacidade de ser feliz, mesmo em circunstâncias adversas ou em momentos de dificuldade; enquanto há indivíduos que, mesmo em situações extremamente favoráveis parecem cronicamente infelizes. (Lyubomirsky, 2001). No propósito de entender essas diferenças individuais, muitos trabalhos procuram identificar a relação entre o bem-estar subjetivo e os aspectos ambientais (e.g: cultura), aspectos relativamente controláveis (e.g: renda, casamento) e aspectos fora do controle individual (e.g. sexo, idade) (Lyubomirsky, 2001).

Pesquisas sobre o bem-estar subjetivo revelam consistentemente que características e recursos valorizados pela sociedade correlacionam-se em alguma medida com felicidade, como o casamento e a renda. Tais associações entre os resultados de vida desejáveis e o bem-estar subjetivo dos indivíduos têm levado pesquisadores a procurar compreender as relações causais entre as características desejáveis e a felicidade (Lyubomirsky, King & Diener, 2005a).

O objetivo deste artigo é primeiramente avaliar as propriedades psicométricas de uma escala de mensuração do construto BES. Em seguida, apresentar uma investigação de relação de causa e efeito, tendo como variáveis independentes as características relativamente controláveis (estado civil, escolaridade, prática religiosa e boa saúde, mediante ausência de problemas físicos e práticas saudáveis, como não fumar e execução de atividade física) e características fora do controle individual (sexo, etnia e idade). Como variável dependente, ou de efeito, foi considerada a felicidade medida através de duas diferentes escalas: a primeira que acessa o construto indiretamente e a segunda, diretamente.

 

Método

Participantes

A pesquisa foi desenvolvida junto a comerciantes e comerciários da cidade de Ribeirão Preto e em duas localidades vizinhas, a cidade de Jardinópolis e o distrito de Bonfim Paulista.

O total de casos foi de 467 entrevistas, compostos por 202 homens (43,1%) e 265 mulheres (56,9%) com idades entre 15 e 66 anos (média de 30,85 e dp=10,587). Os entrevistados avaliaram-se quanto a sua etnia, que totalizou 369 brancos (79,0%), 75 pardos (16,1%), 17 negros (3,6%), 3 índios (0,6%) e três que não se identificaram. Quanto ao estado civil, a amostra está assim representada: casados 203 (43,5%), solteiros 215 (46,0%), divorciados 22 (4,7%), viúvos 10 (2,10%) e com outros tipos de relacionamento 17 (3,5%). Quanto à escolaridade houve a seguinte distribuição: fundamental incompleto 33 (7,1%), fundamental completo 17 (3,6%), ensino médio incompleto 59 (12,6%), ensino médio completo 221 (47,3%), ensino superior incompleto 72 (15,4%), ensino superior completo 63 (13,5%) e dois pesquisados que não se manifestaram (0,4%).

Segundo Argyle (1987), a definição de saúde proveniente da Organização Mundial de Saúde é "um estado de bem-estar físico, social e mental e não apenas a ausência de doenças" (p. 177), o que leva a considerar que a saúde e atitudes saudáveis, como a prática desportiva e o não-tabagismo, podem ter relações com o BES. Os entrevistados se autoavaliaram com relação a sua condição de saúde, contudo os problemas identificados refletem apenas como o entrevistado se vê, não sendo atestado o quadro clínico manifestado. A amostra ficou assim dividida: hipertensão 32 indivíduos (6,9%), diabetes 11 (2,4%), problemas com visão 22 (4,7%), audição 7 (1,5%), distúrbios psicológicos 9 (1,9%). Esses pesquisados foram categorizados em dois grupos: aqueles que se avaliaram com algum problema de saúde (72 pessoas; 15,4%) e aqueles que manifestaram ter nenhum problema, (395 pessoas; 84,6%). Sobre atividades esportivas, 179 (38,3%) praticam e 288 não praticam (61,4%). Os fumantes são 79 (16,9%) e os não-fumantes, 381 (81,6%), e 7 não se manifestaram (1,5%).

A fé e a felicidade estão relacionadas, segundo Myers (1992). Aqueles que praticam algum tipo de religião foram 367 (78,6%) e os que não praticam somam 99 (21,2%). Uma pessoa absteve-se de responder (0,2%). Entre as religiões praticadas, 281 são católicos (60,2%), 89 evangélicos (19,1%), 39 espíritas (8,4%), 53 outras religiões (11,6%) e três não responderam (0,6%).

Instrumentos

A mensuração do bem-estar subjetivo procura proporcionar a captura da percepção que a pessoa possui da qualidade de sua vida, fundamentada em seus próprios parâmetros (Diener & Suh, 1997). O método mais comumente utilizado é por meio de escalas de autoavaliação (Diener, Sollon & Lucas, 2003).

Diversas escalas se propõem a mensurar o bem-estar subjetivo. Algumas destas escalas possuem múltiplos itens, podendo ser mais ou menos extensas, conforme a orientação teórica do pesquisador; enquanto outras são mais compactas e medem o BES por meio de um único item (Diener, 1984). Esses dois tipos de escalas foram utilizados neste trabalho: a primeira foi a (1) Escala com Item Único (EU), com a seguinte questão: Considerando todas as coisas, o quão feliz você está nos dias atuais?, com um intervalo de sete pontos, que compreende Não muito feliz1 a Muito feliz. A segunda escala foi a (2) Subjective Happiness Scale (Escala Subjetiva de Felicidade - ESF) de Lyubomirsky e Lepper (1999), que possui quatro itens. Para esta última será apresentada a análise de mensuração e sua validação antes de utilizá-la como uma medida apropriada de felicidade.

Inicialmente é necessário discutir sobre a validade de mensuração dos dois instrumentos utilizados. De acordo com Stutzer e Frey (2003), a abordagem subjetiva da utilidade (que para Jeremy Bethan reflete os prazeres e dores das pessoas) reconhece que todos possuem opiniões próprias sobre a felicidade. As pessoas são capazes de realizar avaliações absolutas do quanto estão satisfeitas com suas próprias vidas de uma maneira geral. Segundo Stutzer e Frey (2003), é possível, por meio de uma simples questão obter medidas válidas de avaliação global de satisfação. A evidência de aceitação da validade da escala de item único é a sua utilização no German Socio-Economic Panel (GSEOP2), que faz a questão: How satisfied are you with your life, all thinks considered? para avaliar o BES em grandes amostras populacionais (Stutzer & Frey, 2003). Diener (1984) afirma que, apesar da brevidade e da funcionalidade da escala de item único, não é possível estimar sua consistência interna. Para ele, a fidedignidade que pode ser calculada é a estabilidade temporal pelo reteste, verificando assim a confiabilidade da medida.

Sobre a segunda escala, Lyubomirsky e Lepper (1999) afirmam que

as mensurações atuais (do BES) ou acessam um dos dois componentes (afetivo ou cognitivo) ou são itens únicos de avaliação global. O que falta é uma mensuração total da felicidade subjetiva - que consiste em uma avaliação global e subjetiva do quanto uma pessoa é feliz ou infeliz. (p. 139).

Sua abordagem fundamenta-se na característica subjetiva do respondente em avaliar sua felicidade em sua própria perspectiva. Ela é composta por quatro itens, procura os dois iniciais caracterizar o pesquisado de forma absoluta (o quanto se considera feliz) e relativa (comparando-se a outros, o quanto se sente feliz). Os outros dois itens descrevem indivíduos felizes e infelizes, respectivamente, e solicitam ao respondente que quantifique o grau em que as afirmações identificam a sua forma de ser. De acordo com as autoras, esse questionário possui o benefício de não "ameaçar a unidimensionalidade do construto com numerosos itens" (p. 140), e a existência de quatro itens proporciona o cálculo de sua consistência interna, construindo uma escala mais curta (Lyubomirsky & Lepper, 1999). Essa escala foi traduzida e retrotraduzida a fim de que em sua versão final apresentasse a melhor configuração semântica. O último item da escala foi construído de forma invertida pelas autoras e foi revertido para a análise dos dados.

O instrumento de pesquisa foi composto pelas escalas citadas, precedidas pelo termo de consentimento livre e esclarecido e seguido das questões sobre as condições sociodemográficas.

Procedimentos

Considerou-se a unidade amostral do projeto o estabelecimento comercial. Neste foram entrevistadas até cinco pessoas que pertenciam ao quadro da empresa, tanto comerciantes como comerciários. Para a identificação desta unidade utilizou-se uma lista de empresas associadas a uma entidade que congrega regionalmente este segmento de empresas e nela sorteou-se cerca de cem nomes de empresas com seus respectivos endereços. As empresas foram visitadas e as entrevistas realizadas de forma pessoal. Diferentes tipos de perfis de estabelecimentos comerciais estão inseridos na amostra: butique, borracheiro, magazine, farmácia, hipermercado, loja de sapatos, loja de roupas, funileiro, mecânico, joalheria, floricultura, padaria, mercado, supermercado, loja de computadores e periféricos, academia, açougue, varejão, locadora de vídeo, papelaria, revendedora de automóveis, materiais para construção, bar, restaurante, escola de informática e línguas, auto-center, produtos metalúrgicos, produtos químicos, loja de piscinas, madeireira, posto de gasolina, produtos odontológicos, sex shop, artigos para presentes, seguradora, planos médicos, TV por assinatura, tapeçaria, autoescola, despachante, entre outras

 

Resultados e discussão

Consideradas as duas escalas utilizadas no estudo, somente a ESF pode ser analisada em relação a sua fidedignidade em termos estatísticos. Segundo Pasquali (2003), o alfa de Cronbach tem por finalidade verificar a consistência interna do teste pela consistência dos itens que o compõem.

 

Tabela 1

 

Considerado os quatro itens da escala, esta apresentou o valor de α(467)=0,674, que segundo Hill e Hill (2005), é um desempenho fraco. O último item (Algumas pessoas geralmente não são muito felizes...) apresentou baixa correlação item-total, conforme pode ser verificado na Tabela 2. Observa-se que caso o item seja eliminado, a consistência interna eleva-se para α(467)=0,730. Apesar do indício de inadequação do item citado, optou-se por prosseguir a análise com a escala completa a fim de avaliar outras propriedades desta. Foi identificada uma forte correção entre as duas medidas de bem-estar subjetivo, uma vez que a correlação entre as duas escalas foi de r(467)=0,641 (p<0,01).

Pasquali (2003) afirma que

a análise fatorial (AF) tem como lógica precisamente verificar quantos construtos comuns são necessários para explicar as covariâncias (as intercorrelações) dos itens. (p. 173)

Portanto, esta técnica permite demonstrar as dimensões que a escala mensura.

A AF proporciona a simplificação da estrutura dos dados pela redução do número de variáveis necessárias para descrevê-los, de modo que os fatores retidos de forma estandardizada possam ser utilizados como novas variáveis quantitativas em outras análises (Pestana & Gageiro, 2005). Foi utilizada a técnica das Componentes Principais para resumir as inter-relações existentes entre as variáveis (Pett, Lackey & Sullivan, 2003) e no propósito de fornecer a maior explicação da variância (Pestana & Gageiro, 2005). O teste de Bartlett testa a hipótese nula da matriz de correlações ser uma matriz identidade (portanto, sem relacionamento entre os itens) e a rejeição desta hipótese torna favorável a AF.

Realizada a AF, foi obtido um único fator com explicação da variância de 55,89%. A medida de adequação da amostra, KMO=0,664, mostra um valor mediano mas ainda assim aceitável, de acordo com Pett e cols. (2003). Os valores de adequação da amostra de cada item, fornecidos pelo MSA, apresentaram estar acima de 0,6, o que também favorece a AF. Contudo, de acordo com Pestana e Gageiro (2005),

as variáveis importantes para manter na análise fatorial são aquelas que têm maiores correlações lineares entre si, ou cujos valores da matriz anti-imagem sejam elevados na diagonal e pequenos fora dela. Estas variáveis devem também ter valores elevados nos pesos e nas comunalidades. (p. 491)

O item 4 da escala apresenta baixo valor de comunalidade, bem como correlações baixas com os demais itens da escala. Dessa maneira, observado o aumento da fidedignidade do teste e em face aos resultados obtidos na análise fatorial, o item 4 foi descartado da escala e realizada nova análise fatorial.

Com os três itens restantes, o coeficiente de fidedignidade elevou-se para α(467)=0,730 e os indicadores da análise fatorial apresentaram KMO=0,614, teste de Bartlett sig=0,000 e comunalidades ligeiramente mais elevadas. O fator obtido é responsável por 67,93% de explicação da variância, e esse fator possui uma correlação significante com a Escala de Item Único de r=0,682 (p<0,01). A Tabela 3 apresenta as cargas fatoriais, que representam a correlação entre a variável e o fator (Hill & Hill, 2005).

Observado o fator obtido, os dois primeiros itens da escala ESF possuem uma maior saturação, isto é, a avaliação absoluta de felicidade (o quanto a pessoa se sente feliz de maneira geral) e a avaliação relativa (como se considera comparado aos amigos) têm cargas fatoriais elevadas. As comunalidades representam a variância explicada pelo item no fator e o resultado mostra que a menor contribuição para esta explicação é realizada pelo terceiro item, que consiste na descrição de pessoas felizes e o quanto o pesquisado se identifica com essa descrição (Tabela 4). Ainda assim a estrutura fatorial se mostrou satisfatória e a variável constituída pelo fator foi salva para utilização em novas análises.

 

 

Stutzer e Frey (2003) apresentam o modelo de função linear Wit=α+βXit+εit, onde a felicidade de determinada pessoa em determinado tempo (Wit) é analisada como uma variável dependente de fatores ambientais, sociais, demográficos e econômicos (X1, X2, X3,...,Xn) que cercam esta pessoa naquela momento. Tecnicamente, os autores apresentam a regressão como método de análise, onde a escala de avaliação é enquadrada como a variável dependente no modelo. O objetivo desta análise é identificar a relação das características individuais com os diferentes níveis de felicidade identificados.

Segundo Clark e Oswald (2002b), esse método permite confrontar os muitos fatores que moldam a felicidade das pessoas, como relacionamento, saúde, renda, entre outros, relacionando-os às mensurações de felicidade. Conforme Pestana e Gageiro (2005), "as variáveis independentes de nível qualitativo podem ser introduzidas no modelo de regressão através do uso de variáveis artificiais", definidas em um padrão binário, também chamado de variáveis mudas (dummies).

Foram criadas variáveis artificiais a partir dos perfis considerados no estudo e em cada categoria foi arbitrariamente definida uma classificação de referência (ex.: solteiro, etnia branca, homem, menos do que 20 anos, etc.). A forma de construção dessas categorias de referência é demonstrada mais adiante. Os coeficientes da regressão mostram o impacto que a variável em questão possui em relação a esta referência.

A Tabela 5 mostra um exemplo da variável criada. Na análise com a matriz binária3, a quantidade resultante de variáveis na análise é n-1, sendo n o total de categorias existentes. No caso do exemplo, o estado civil possui cinco categorias, portanto, irá apresentar quatro saídas no modelo obtido. Esse recurso é necessário para avaliar o impacto de cada categoria na variável dependente, tendo-se como referência um parâmetro estabelecido (que consiste na variável que recebe todos os zeros, que no exemplo é a categoria de referência Solteiro, escolhida pelo pesquisador). As cargas e sinais da regressão estão em função da variável de referência adotada para o estudo. Estas cargas apresentam a variação esperada em Y por unidade de variação de uma variável X, mantendo todas as demais variáveis constantes ou com seus efeitos controlados (Pestana & Gageiro, 2005).

 

 

Para a estimação do modelo geral de regressão foi examinado o coeficiente de determinação, seu índice ajustado, erro de estimativa e significância estatística. No caso de haver relação estatística significante entre a variável dependente e as independentes, avaliou-se a magnitude dessa relação e o seu direcionamento (direto ou inverso), de modo a identificar qual o comportamento das características consideradas no estudo e a sua relação com a felicidade.

O modelo de função linear citado foi analisado para as duas variáveis métricas que incorporam o estudo (o fator obtido pela análise fatorial da ESF e a EU) e os resultados comparados entre si. A técnica de regressão utilizada foi o método stepwise, onde as variáveis a integrarem o modelo são aquelas com maior coeficiente de correlação (Pestana & Gageiro, 2005).

O modelo obtido com base no fator da ESF como variável de efeito e as variáveis sociodemográficas binárias como independentes, resultou em quatro variáveis, a saber: saúde, viúvo, não pratica religião e divorciado (Tabela 6). Conforme Pestana e Gageiro (2005),

sempre que, pelo procedimento stepwise, entra uma variável nova no modelo analisa-se a significância de cada variável X, sendo eliminadas as variáveis que não tenham uma capacidade de explicação significativa. O processo repete-se até que as variáveis não introduzidas não tenham capacidade de explicação significativa e quando todas as que estão no modelo a tenham. (p. 594)

Portanto, as demais categorias consideradas no estudo foram excluídas por não se mostrarem significativamente relacionadas com o fator ESF.

A explicação da variância dada pelo modelo obtido foi de 6,4% e as cargas estandardizadas fornecem a magnitude da contribuição de cada variável. Em termos de impactos negativos, a viuvez possui o maior valor de todos (β=-1,047), seguida pelo divórcio (β=-0,421) e pela ausência da prática religiosa (β=-0,229). Em termos positivos, a presença de saúde (β=0,412) possui impacto positivo na variável dependente (felicidade). É importante repetir que esses escores estão parametrizados na característica de referência escolhida.

A segunda análise foi realizada a partir da utilização da EU como variável de efeito. O modelo obtido contém apenas duas variáveis e explicação da variância menor: 4,8%. Estas foram viuvez (β=-1,565) e saúde (β=0,408).

 

Tabela 7

 

Nas duas análises verificam-se aspectos comuns. As características viuvez e saúde apresentaram relações significativas de causa sobre o efeito felicidade. Esses resultados estão em certa medida alinhados com a literatura disponível.

Segundo Frey e Stutzer (2002a), as auto-avaliações de saúde e felicidade estão bem correlacionadas. Diversos estudos citados em Diener e Seligman (2004) mostram que, ante a doença, as pessoas não conseguem invariavelmente adaptar-se, e indivíduos com problemas sérios de saúde, como doenças do coração, possuem seu nível de BES diminuído em um ano.

As duas escalas apresentaram significância estatística para esta categoria e o coeficiente padronizado (β=0,149 para o fator da ESF e β= 0,118 para a EU) mostra o impacto da variável independente (saúde) na dependente (felicidade). Em estudo realizado por Dela Coleta e Dela Coleta (2006), aplicado em 252 estudantes universitários que responderam à questão aberta "Para você, o que é uma vida boa?", a categoria saúde ocupou a primeira colocação em frequências de respostas espontâneas, totalizando 15,50% das ocorrências.

A diluição do casamento pode ser pelo rompimento voluntário, pela separação (Clark & Oswald, 2002a) ou pela da perda de um dos cônjuges. Holmer e Rachel (1967, conforme Lucas, Clark, Georgellis & Diener, 2003) mostram que a viuvez e o divórcio são os dois eventos mais estressantes da vida adulta. A perda do cônjuge é algo marcante, e muitos indivíduos que se tornam viúvos não voltam a ter novo casamento e não retornam ao nível original de satisfação com a vida, mesmo oito anos após o evento (Lucas & cols., 2003). As escalas apresentaram ser significativas para esta característica e os valores dos coeficientes de regressão padronizados (β=-0,152 para o fator ESF e β=-0,182 para a EU) mostram que a condição de viuvez deprecia a felicidade. O divórcio, significativo apenas para o fator ESF, apresenta ter impacto menor (β=-0,090), com pouco acréscimo de explicação da variância ao modelo (Tabela 6 - observar Mudança R2 para a característica).

Myers (1992) afirma que as pessoas religiosas são mais felizes do que as não-religiosas, independentemente de qual religião pratiquem, contudo Argyle (1987) sustenta que este relacionamento é fraco, bem como Frey e Stutzer (2002b), que afirmam que a crença religiosa e felicidade são positivamente relacionadas, porém não de maneira tão extensa. Considerado que o afeto positivo é um importante integrante do bem-estar subjetivo e este leva à gratidão, pode-se concluir que pessoas felizes são mais gratas, inclusive a Deus (Fredrickson, 2003). A categoria referência é a prática religiosa e o resultado do coeficiente padronizado (para o fator ESF), β=-0,093, mostra que a ausência da prática religiosa impacta de maneira levemente desfavorável na felicidade. Na Tabela 6 pode ser avaliada a magnitude que a entrada dessa variável possui no modelo, onde sua relevância é menor do que saúde e viuvez.

 

Conclusões

Os primeiros pesquisadores que estudaram o BES foram levados a considerar o impacto das características sociodemográficas no BES individual (Cherrier & Munoz, 2007). As evidências acima permitem concluir, para a amostra adotada, que:

  • A mensuração do BES pela escala ESF permitiu a análise de sua fidedignidade e a variável estatística obtida pela análise fatorial da ESF conseguiu obter maior explicação da variância do que a escala de item único (EU), observados os modelos de regressão.
  • As duas escalas possuem grande correlação entre si. O item de avaliação global de felicidade na escala ESF representa a grande parte da variância explicada na análise fatorial, expressa pela comunalidade. Isso mostra a importância que a avaliação global de felicidade possui e ajuda a sustentar a capacidade dos indivíduos de fazerem avaliação global de felicidade.
  • Uma característica socialmente desejável e conceitualmente relacionada com o BES, o casamento, não se mostrou significante em nenhuma das escalas. Para Stutzer e Frey (2004), o casamento é um dos eventos mais importantes que afetam a vida e o bem-estar de uma pessoa, porém essa relação não foi encontrada neste estudo.
  • A escolaridade e a educação não apresentaram ter relação com o bem-estar subjetivo. Conforme Helliwell (2003), estas oferecem atributos para que o indivíduo participe de atividades e conexões sociais, que estão ligadas ao BES, porém os efeitos no BES são insignificantes.
  • Entre as características que não estão sob o domínio do indivíduo, como a etnia e o sexo, não foram encontrada diferenças entre os pesquisados. Contudo, a literatura mostra que, de uma forma geral, mulheres relatam experimentar maior afeto positivo, registrando uma leve diferença a favor delas no BES (Diener, 1984; Stutzer & Frey, 2002). Diferenças entre etnias são registradas em países com problemas raciais, como os EUA (Frey & Stutzer, 2002a), que não representam a realidade social deste estudo.
  • Entre as três características que se mostraram significantes, uma está sob controle do indivíduo, que é a prática religiosa. A segunda, saúde, pode envolver o comportamento do indivíduo, uma vez que este tenha hábitos saudáveis.
  • A última característica significante é a condição de viuvez: esta não está sob o domínio da pessoa, uma vez que a sequência da vida mostra que em algum momento o relacionamento estável será rompido por esse motivo.
  • As variáveis demográficas utilizadas no estudo tiveram baixa explicação na variabilidade do bem-estar subjetivo. Lyubomirsky (2001) afirma que as características individuais conseguem explicar somente entre 8% e 15% da variância em felicidade. Foram obtidos neste estudo valores entre 4,8% e 6,4%. Isso demonstra que muito da variação da felicidade pode ser proveniente de outros fatores, que não os demográficos, apesar destes terem um pequeno papel na construção do bem-estar individual.

A baixa explicação da variância da felicidade pelas características sociodemográficas levou os pesquisadores a questionarem o papel das características internas / fatores psicológicos na construção da satisfação individual (Cherrier & Munoz, 2007). Entre esses estudos está investigação do papel dos genes na felicidade individual (Lykken, 1999), traços de personalidade, comparações sociais (Frey & Stutzer, 2002b), objetivos de vida, adaptação individual às situações adversas e coping (Cherrier & Munoz, 2007). Diener, Ed, Suh, Lucas e Smith (1999) entendem que os fatores subjetivos são os principais responsáveis pela felicidade individual.

Entre as características estudadas, uma delas não converge com os achados provenientes da literatura: o casamento. O amparo social fornecido por uma relação estável e harmoniosa impacta positivamente no BES (Argyle, 1987). Outro aspecto relevante ao casamento é que este fornece um ganho de escala em termos de renda, que proporciona aos participantes da relação a mútua cooperação na obtenção de seus objetivos, que também proporciona impactos no BES (Stutzer & Frey, 2004).

Outro aspecto importante não inserido no modelo e que deve ser estudado com maior profundidade é o papel da renda no bem-estar subjetivo. Segundo Diener e Diener (2002), dinheiro é um aspecto fundamental na vida moderna, contudo esta relação entre renda e felicidade ainda é confusa (Easterlin, 2001) e em muitos casos controversa. O nível de riqueza está relacionado com muitos resultados positivos na vida, como, por exemplo, melhor saúde física e mental, e normalmente se espera que pessoas mais ricas sejam mais felizes, contudo, há motivos para questionar essa suposição (Diener & Diener, 2002).

 

Referências

Argyle, M. (1987). The psychology of happiness. Londres: Routledge.         [ Links ]

Blanchflower, D. G. & Oswald, A. J. (2004). Well-being over time in Britain and the USA. Journal of Public Economics, 88, 1359-1386        [ Links ]

Clark, A. E. & Oswald, A. J. (2002). Well being in panels. Obtido do World Wide Web: em 14 de junho de 2006 http//warwick.ac.uk/fac/soc/economics/staff/academic/oswald/ revwellbeinginpanelsclarkosdec2002.pdf        [ Links ]

Clark, A. E. & Oswald, A. J. (2002b). A simple statistical method for measuring how life events affect happiness. International Epidemiological Association, 31, 1139-1144        [ Links ]

Cherrier, H. & Munoz, C.L. (2007). A reflection on consumers' happiness: the relevance of care for others, spiritual reflection, and financial detachment. Journal of Research for Consumers, 12, 1-19        [ Links ]

Diener, E. (1984). Subjective well being. Psychological Bulletin, 95(3), 542-575        [ Links ]

Diener, E. & Suh, E. (1997). Measuring quality of life: economic, social and subjective indicators. Social Indicators Research, 40, 189-216.         [ Links ]

Diener, E. & Diener, R.B. (2002). Will money increase subjective well-being? Social Indicators Research, 57, 119-169.         [ Links ]

Diener, E. & Seligman, M. (2004). Beyond money: toward an economy of well-being. Psychological Science in the Public Interest, 5, 1-32.         [ Links ]

Diener, E., Scollon, C. N. & Lucas, R. E. (2003). The envolving concept of subjective well-being: the multifaceted nature of happiness. Advances in cell aging and gerontology, 15, 187- 219.         [ Links ]

Diener, E., Suh, E. M., Lucas, E. R. & Smith, H. L. (1999). Subjective well- being: three decades of progress. Psychological Bulletin, 125, 276-302.         [ Links ]

Dela Coleta, J. A. & Dela Coleta, M. F. (2006). Felicidade, bem-estar subjetivo e comportamento acadêmico de estudantes universitários. Psicologia em Estudo, 3, 533-539.         [ Links ]

Easterlin, R. A. (2001). Income and happiness: toward a unified theory. The Economic Journal, 11, 465-484.         [ Links ]

Fredrickson, B. L. (2003). The value of positive emotions. American Scientist, 91, 330-335.         [ Links ]

Frey, B. S. & Stutzer, A. (2002a). What can economists learn from happiness research? Journal of Economic Literature, 40, 402-435.         [ Links ]

Frey, B. S. & Stutzer, A. (2002b). Happiness & economics. New Jersey: Princeton University Press.         [ Links ]

Helliwell, J. F. (2003). How's life? Combining individual and national variables to explain subjective well-being. Economic Modelling, 20, 331-360.         [ Links ]

Hill, M. M. & Hill, A. (2005). Investigação por questionário. Lisboa: Silabo.         [ Links ]

Lykken, D. (1999). Felicidade. Rio de Janeiro, Brasil: Objetiva        [ Links ]

Lucas, R. E., Clark. A. E., Georgellis, Y. & Diener, E. (2003). Reexamining adaptation and the set point model of happiness: reactions to changes in marital status. Journal of Personality and Social Psychology, 84, 527-539.         [ Links ]

Lyubomirsky, S. (2001). Why are some people happier than others. American Psychologist, 56, 239-249.         [ Links ]

Lyubomirsky, S. & Lepper, H. S. (1999). A measure of subjective happiness: preliminary reliability and construct validation. Social Indicators Research, 46, 137-155.         [ Links ]

Lyubomirsky, S., King, L. & Diener, E. (2005a). The benefits of frequent positive affect: does happiness lead to success? Psychological Bulletin, 131, 803-855.         [ Links ]

Lyubomirsky, S., Sheldon, K. M. & Schkade, D. (2005b). Pursuing happiness: the architecture of sustainable change. Review of General Psychology, 9, 111-131.         [ Links ]

Mayers, D. (1992). The pursuit of happiness. Nova Iorque: Avon Books.         [ Links ]

Pasquali, L. (2003). Psicometria: teoria dos testes na psicologia e na educação. Petrópolis: Vozes.         [ Links ]

Pestana, M. H. & Gageiro, J. N. (2005). Análise de dados para ciências sociais: a complementaridade do SPSS. Lisboa: Silabo.         [ Links ]

Pett, M. A., Lackey, N. R. & Sullivan, J. J. (2003). Making sense of factor analysis: the use of factor analysis for instrument development in health care research. California: Sage Publications.         [ Links ]

Seligman, M. E. P. & Csikszentmihalyi, M. (2000). Positive psychology: an introduction. American Psychology, 55, 5-14.         [ Links ]

Stutzer, A. & Frey, B. S. (2003). Reported SWB: a challenge for economic theory and economic policy . Schmollers Jahrbuch,124, 191-231.         [ Links ]

Stutzer, A. & Frey, B. S. (2004). Does marriage make people happy or do happy people get married? Journal of Socio- Economics, 35, 326-347.         [ Links ]

Veenhoven, R. (1994). Is happiness a trait? Social Indicators Research, 32, 101-160.         [ Links ]

 

 

Endereço para correspondência:
airrodrigues@ig.com.br

Recebido em março de 2009
Reformulado em janeiro de 2010
Aprovado em fevereiro de 2010

 

 

Sobre os autores:
Airton Rodrigues é mestre em Psicologia pela Universidade de São Paulo, MBA em Marketing pala FUNDACE-USP e formado em Administração de Empresas pela Universidade Mackenzie. Atua profissionalmente no segmento de pesquisas de mercado como pesquisador e consultor na norma ISO-20252:2006 - Pesquisa de Mercado, Opinião e Social (consiste em um padrão internacional de qualidade para empresas de pesquisa).
José Aparecido da Silva é mestre e doutor em Psicologia pelo Instituto de Psicologia da USP e pós-doutorado em Percepção e Psicofísica pela Universidade da Califórnia, Santa Bárbara, USA. Professor titular do Departamento de Psicologia e Educação da FFCLRP-USP, tem regularmente publicado trabalhos originais de pesquisa em revistas prestigiosas da área, além de ser autor de diversos livros.
1 Não há referência a Infelicidade por esta poder remeter a um quadro patológico (ex: depressão) e o objetivo do teste não é detectar esta característica.
2 Consiste em uma pesquisa contínua, com ondas anuais, que monitora diversos aspectos sociais na Alemanha.
3 Esta representa a presença ou ausência do atributo em questão.

 

 

 

 

Creative Commons License All the contents of this journal, except where otherwise noted, is licensed under a Creative Commons Attribution License