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Psico-USF

Print version ISSN 1413-8271

Psico-USF vol.17 no.1 Itatiba Jan./Apr. 2012

https://doi.org/10.1590/S1413-82712012000100013 

ARTIGOS

Estudo brasileiro de validação para localização e lista de qualidade formal do Rorschach-SC: não-pacientes psiquiátricos

 

Brazilian validation study to locate and list of formal quality of the Rorschach-CS: non-psychiatric patients

 

Estudio brasileño de validación para localización y lista de calidad formal del Rorschach-SC: no-pacientes psiquiátricos

 

 

Juliana de Cassia Leonel; Norma Lotenberg Semer; Latife Yazigi

Universidade Federal de São Paulo, São Paulo, Brasil

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

Este estudo se refere à validação do Atlas de Localização de respostas e da Lista de Qualidade Formal de respostas e conteúdos, FQ, do Rorschach-SC de uma amostra brasileira. Foram selecionados, 46 adultos não-pacientes psiquiátricos, de ambos os sexos, níveis sociais e escolaridade diversos. Os instrumentos utilizados foram o SRQ-20 e o Método de Rorschach. As respostas ao Rorschach foram codificadas segundo as áreas e a lista de qualidade formal norte-americanas e brasileiras. As análises comparativas realizadas por meio da ANOVA não encontraram diferenças entre os dois grupos, no que diz respeito às áreas de localização, W, D, Dd nas áreas brasileiras e norte-americanas, comprovando-se a validade das áreas brasileiras. Não foram também encontradas diferenças quanto à qualidade formal FQo e X+%, nas listas brasileiras e norte-americanas, comprovando-se a validade da lista brasileira para essas duas variáveis. Os resultados indicam validade para o atlas brasileiro.

Palavras-chave: Teste de Rorschach; Psicometria; Testes psicológicos; Medidas de personalidade.


ABSTRACT

This study aimed at validating the Atlas Rorschach-CS Location Areas and Formal Quality List from a Brazilian sample. 46 adults, non-patients psychiatric cases, both genders and different educational levels and social status were selected. The instruments used were the SRQ-20 and the Rorschach method. The Rorschach responses were scoredaccording to the areas and  the North-American and Brazilian Lists of formal quality . The comparative analyzes performed by ANOVA did not established differences between the two groups regarding the Location Areas W, D, Dd in both North-American and Brazilian areas, proving the validity of the Brazilian areas. Differences were not found as regarding the Formal Quality FQo and X+% both using the North-American and Brazilian lists, proving the validity of the Brazilian list for these two variables.. The results indicate validity to the Brazilian Atlas.

Keywords: Rorschach Test; Psychometrics; Psychological tests; Measures of personality.


RESUMEN

Este estudio se refiere a la validación del Atlas de Localización de respuestas y de la Lista de Calidad Formal de respuestas y contenidos, FQ, del Rorschach-SC de una muestra brasileña. Fueron seleccionados, 46 adultos no-pacientes psiquiátricos, de ambos sexos, niveles sociales y de escolaridad diversos. Los instrumentos utilizados fueron el SRQ-20 y el Método de Rorschach. Las respuestas al Rorschach fueron codificadas según las áreas y la lista de calidad formal norteamericanas y brasileñas. Los análisis comparativos realizados, por medio de la ANOVA, no encontraron diferencias entre los dos grupos en lo que respecta a las áreas de localización, W, D, Dd en las áreas brasileñas y norteamericanas, comprobando la validez de las áreas brasileñas. No fueron también encontradas diferencias cuanto a la calidad formal FQo y X+%, en las listas brasileñas y norteamericanas, comprobando la validez de la lista brasileña para esas dos variables. Los resultados indicaron validez para el atlas brasileño.

Palabras-clave: Test de Rorschach; Psicometría; Testes psicológicos; Medidas de personalidad.


 

 

O método de Rorschach, conhecido por ser um valioso método de investigação psicológica, é uma técnica projetiva de avaliação da personalidade em que a pessoa é convidada a observar dez cartões com estímulos ambíguos e pouco estruturados (manchas de tinta) e responder com que tais figuras se parecem. As respostas "fornecem informações sobre o indivíduo que durante a tarefa vai se expressando e se revelando" (Yazigi & Gazire, 2002, p. 111). Para cumprir essa tarefa, o indivíduo necessita evocar uma série de operações para resolução de problemas perceptivos que vão, da área da mancha utilizada, até a análise dos estímulos e representações mentais dos objetos (Nascimento, 2010).

Desde o início da utilização do método de Rorschach como investigação da personalidade, as áreas de localização das respostas fornecidas pelo sujeito são utilizadas como medida de adequação perceptiva, ou seja, de como o sujeito organizou cognitivamente os estímulo e produzir uma resposta.

Ao ser submetido à avaliação por meio do método de Rorschach, um sujeito normal tende a perceber as imagens nas manchas primeiramente como um todo, buscando em sua memória alguma figura conhecida, o que seria uma resposta global (G). Se o sujeito observar partes das manchas, produzirá uma ou várias respostas de detalhe (D) . O sujeito ainda poderá observar pequenas minúcias e produzir respostas de detalhe pequeno (Dd), e assim, sucessivamente, prancha a prancha (Rorschach, 1921/1961). As respostas de detalhe (D) seriam decorrentes da percepção parcial da mancha, de aspectos isolados, e as respostas de pequeno detalhe (Dd) envolveriam seleções inusitadas de áreas do estímulo. Em alguns casos pode ocorrer uma percepção nas áreas sem tintas da pintura preta ou colorida, nos espaços (S), assim, no branco, vejo uma lamparina. Existe ainda outro tipo de resposta, as de pequeno detalhe oligofrênico (Do), que seriam interpretações que o sujeito dá para uma parte da figura onde comumente se daria uma resposta de figura inteira, por exemplo, "cabeças, pernas, braços" em vez de "uma pessoa" (Rorschach, 1921/1961).

Em seus estudos, H. Rorschach também classificava a acuidade perceptiva da resposta dada, atribuindo o símbolo "+", quando a forma era adequada ao que foi percebido, ou "-", para resposta cuja forma era muito discrepante. Seria o registro do ajuste perceptivo do sujeito, a maneira pela qual aquela pessoa percebe a realidade. Para evitar interpretações subjetivas recorreu-se a critérios estatísticos por meio da verificação de respostas de sujeitos normais (Rorschach, 1921/1961).

Já o Sistema Compreensivo codifica a qualidade formal em quatro tipos: "+", "o", "u" e "-", sendo "+" ou superior para as respostas ricamente detalhadas; "o" ou ordinária para respostas comuns, simples de identificar ou reconhecer; "u" ou incomum para respostas pouco frequentes com contorno pouco violado; "-" ou menos para as respostas distorcidas (Exner, 1999).

Assim, as áreas de localizações e a lista de qualidade formal tornam-se as principais codificações do método de Rorschach para se avaliar as funções perceptivas.

As áreas de localização e a Lista de Qualidade Formal do Sistema Compreensivo existem há cerca de 30 anos (Exner, 1979, 1993) do que resultou a necessidade de atualização. Além do mais, vários autores apontam para a importância de se considerar as influências culturais envolvidas nos critérios de codificação das áreas de localização e da qualidade formal das respostas (Villemor-Amaral, Yazigi, Primi, Nascimento & Semer, 2006).

Este estudo se refere à validação do Atlas de Localização de respostas e da Lista de Qualidade Formal de respostas e conteúdos, FQ, do Rorschach no Sistema Compreensivo de uma amostra brasileira. A ideia dessa construção decorreu da necessidade de estudos para a população brasileira, visto que o Método de Rorschach tem sido muito utilizado como instrumento de avaliação psicológica e psicodiagnóstica em nosso país (Villemor-Amaral, 2006; Villemor-Amaral & cols., 2006).

O processo de validação envolveu quatro estudos com amostras distintas: (a) amostra de não-pacientes psiquiátricos da cidade de São Paulo; (b) amostra de não-pacientes psiquiátricos do interior do estado de São Paulo; (c) amostra de casos psiquiátricos da cidade de São Paulo; (d) amostra de casos psiquiátricos do interior do estado de São Paulo. O desenho dos estudos foi discutido pela equipe com o Prof. Gregory Meyer1 (1999), em sua visita ao Brasil, e as diretrizes sugeridas por ele foram seguidas. O presente artigo refere-se ao estudo de validação em amostra de não-pacientes psiquiátricos da cidade de São Paulo.

Objetivo

O objetivo deste trabalho foi buscar evidências de validade para o Atlas de Localização e Lista de Qualidade Formal brasileiros para respostas do Rorschach no Sistema Compreensivo construídos por Villemor-Amaral e cols. (2006) em uma amostra de não-pacientes psiquiátricos da cidade de São Paulo.  Na codificação das áreas de localização W, D, Dd, Dd99 e da qualidade formal FQo, FQu, FQ- e X+%, XA%, Xu% e X-%, utilizaram-se as áreas de localização e a lista de qualidade formal brasileiras (Villemor-Amaral, 2006) e norte-americanas (Exner, 1999).

 

Método

Participantes

Para o estudo de validação foi composta uma amostra intencional, estratificada neutra, não aleatória, de 46 sujeitos, adultos, de ambos os sexos, com diferentes anos de escolaridades e considerados como não-pacientes psiquiátricos por meio do Questionário de Identificação de Distúrbios Psiquiátricos, SRQ-20 (Mari & Willians, 1986).

Instrumentos

Para a seleção da amostra, utilizou-se: (a) entrevista dirigida para obtenção dos dados demográficos relativos a naturalidade, procedência, idade, escolaridade, estado civil, profissão, renda pessoal e renda familiar dos participantes; (b) questionário de identificação de distúrbios psiquiátricos – Self Report Questionnaire-20, para seleção de pessoas sem problemas psiquiátricos, no caso, SRQ-20 (Mari & Willians, 1986). Para o estudo de validação utilizou-se Método de Rorschach no Sistema Compreensivo (Exner, 1979, 2003).

Procedimento

A pesquisadora utilizou o tipo amostral intencional do subtipo estratificado neutro, ou seja, buscou sujeitos desconhecidos, com idades e escolaridades definidos. A procura ocorreu em escolas públicas, ambientes de trabalho diversificados (na própria Universidade – contato direto com funcionários, e no Corpo de Bombeiros – contato via capitão), faculdades públicas e particulares (indicação de professores e alunos) e igreja.

As avaliações das pessoas que aceitaram participar do estudo foram realizadas ou no seu local de trabalho, ou em sua escola ou no Centro Clínico de Pesquisa em Psicoterapia da UNIFESP.

Na entrevista inicial, as pessoas que aceitaram participar do estudo foram esclarecidas sobre o propósito do estudo e receberam o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido. Após a coleta de dados, os participantes responderam ao SRQ-20. Para as pessoas com escolaridade baixa, foi feita a leitura do SRQ-20 no lugar do autorrelato. Os indivíduos com resultado positivo ≥7 no SRQ-20 e aqueles que, na entrevista, forneceram algum dado mais comprometedor sobre sua condição psíquica, como uso de  droga, depressão, não participaram do estudo.

Em seguida, foi realizada a aplicação do Método de Rorschach, Sistema Compreensivo seguindo as normas estabelecidas por Exner (Exner, 1979, 2003).

As respostas dos protocolos de Rorschach foram codificadas de acordo com as áreas de localização e qualidade formal norte-americana (Exner, 1999) e brasileira (Villemor-Amaral & cols., 2006). Todas as respostas foram discutidas entre as três autoras e os protocolos inseridos no programa RIAP-5 (Rorschach Interpretation Assistence Program versão 5.3).  O banco de dados dos 46 protocolos gerados pelo RIAP foi extraído e transportado para o SPSS (Statistical Package for Social Science). Este último banco foi aquele utilizado nas análises estatísticas que incluíram estudo de confiabilidade por meio do índice kappa e comparações relativas às áreas de localização e qualidade formal entre esse grupo amostral e outros grupos por meio da ANOVA.

Análise dos dados

Grupo amostral

A amostra buscou reproduzir proporcionalmente aquela em que foi composta a construção do Atlas e da Lista de Qualidade Formal brasileiros. Participaram do estudo 46 pessoas, 22 do sexo feminino e 24 do masculino, adultos, faixa etária de 18 a 70 anos. A escolaridade variou desde o ensino fundamental ao ensino superior completo ou incompleto. A amostra estava em concordância com o estudo de construção do Atlas de Localização e Lista de Qualidade Formal brasileiros.  No total dos 46 sujeitos, a frequência do SRQ-20 variou entre 30,43% e 2,17%. Três sujeitos pontuaram o SRQ ≥ 7 e por isso não participaram do estudo.

Estudo de confiabilidade

Dos 46 protocolos da pesquisa, 25% foram reclassificados por juízes independentes para estudo de confiabilidade das classificações, exigência do Sistema Compreensivo. Foram sorteados aleatoriamente 12 protocolos e enviados a dois juízes externos2. Cada resposta foi codificada duas vezes, uma em que se usou tanto o Atlas de Localização, quanto a Lista de Qualidade Formal do Sistema Compreensivo brasileiro e outra em que se usaram as áreas e a qualidade formal norte-americanas (Exner, 1999).

Para o estudo de confiabilidade foi calculado o coeficiente kappa, que apontou índices satisfatórios de concordância na maioria das variáveis estudadas. Houve variação do índice kappa entre -0,04 e 1. Segundo Meyer (1999) as correlações com índice kappa > 0,74 são consideradas como excelentes, 0,60 ≤ kappa ≤ 0,74 boas, e 0,40 ≤ kappa ≤ 0,59 regulares.

As variáveis de localização tiveram valores kappa entre 0,920 e 0,992 quando classificadas pelas áreas de localizações norte-americanas e 0,948 e 0,992 quando utilizado o Atlas brasileiro, correlações excelentes. As variáveis de qualidade formal apontaram: "o" com valor kappa de 0,944 pela lista norte-americana e 0,975 pela lista brasileira; "u" com valor kappa de 0,811 pela lista norte-americana e 0,897 pela lista brasileira; "-" com valor kappa de 0,758 pela lista norte-americana e 0.851 pela lista brasileira, todas consideradas excelentes. Diante dos resultados satisfatórios pode-se considerar as codificações para o estudo como confiáveis.

 

Resultados

Tendo em vista o objetivo, buscar evidências de validade para o Atlas de Localização e Lista de Qualidade Formal brasileiros, foram realizadas análises descritivas por meio da ANOVA e os resultados do grupo quanto à localização e qualidade formal foram comparados com os dados normativos do Atlas e da lista de qualidade formal brasileiros (Villemor-Amaral & cols., 2006) e com as áreas de localização e lista de qualidade formal norte-americanas (Exner, 1999).

Uma vez que dois outros estudos de validade do Atlas e da Lista de Qualidade Formal (Marques, 2010; Pianowski, 2010) foram concluídos, decidiu-se também comparar os achados do presente estudo com aqueles. Assim, compararam-se os mesmos (a) com dados do estudo de não-pacientes psiquiátricos do interior (Pianowski, 2010) e (b) com dados do estudo de casos psiquiátricos da capital (Marques, 2010).

As respostas W (globais) foram classificadas da mesma maneira tanto nas áreas de localização do Sistema Compreensivo norte-americano como no Atlas de Localização brasileiro, como esperado. As respostas D (grande detalhe) e Dd (pequeno detalhe) foram classificadas de acordo com a frequência em que apareceram nos protocolos.

Observou-se diferença em alguns recortes da mancha entre as áreas de localização norte-americana e brasileira. Assim, o que seria um grande detalhe (D) na área de localização norte-americana poderia ser um pequeno detalhe (Dd) no Atlas brasileiro, ou vice-versa. Por exemplo, na prancha IV a localização D5 norte-americana passou a ser Dd34 no Atlas brasileiro. As respostas dadas em áreas pouco frequentes foram classificadas como Dd99, como é feito normalmente. As localizações que incluíram espaços (S) não foram separadas das que não incluíram, uma vez que nem as áreas de localização norte-americanas nem as brasileiras contemplam essa separação.

Nas análises comparativas foram selecionadas:

(1) variáveis de localização: W (global) D (grande detalhe), Dd (pequeno detalhe);

(2) variáveis de qualidade formal: FQ+ (soma de todas as F+ com Fo); FQo; FQu; FQ-; XA% calculada pela fórmula [rnd (100* (FQ++ Fqo+FQu)/R)/100]; X+% calculada pela fórmula [rnd (100*(FQ++FQo)/R)/100]; Xu% calculada pela  fórmula rnd [100*FQu/R/100]; e X-% calculada pela fórmula [100* FQ-/R/100].

Foram calculadas média, desvio padrão, magnitude e significância, e a comparação foi realizada por meio de ANOVA.

As Tabelas 1 e 2 mostram a comparação entre o grupo amostral não-pacientes (N=46) e o grupo do Atlas brasileiro (N=370). Não foram encontradas diferenças significativas no que se refere às variáveis relacionadas à localização das respostas, conforme a Tabela 1.

Pela Tabela 2, observa-se que, na comparação com o grupo do Atlas brasileiro, utilizando-se a lista de FQ norte-americana, não foram significativas as diferenças nas variáveis FQo e X+%. Diferenças significativas foram encontradas em FQu, FQ-, XA%, X-% e Xu%, , o grupo amostral apresentou menores valores em FQu, XA%, Xu% e maiores valores em FQ- e X-% . Nessa mesma comparação, mas utilizando-se a lista de FQ brasileira, não ocorreram diferenças nas variáveis FQo e X+%. Diferenças significativas foram encontradas em FQu, XA%, Xu%, com o grupo amostral apresentando menores valores; e em FQ- e X-%, com o grupo amostral apresentando maiores valores.

Deste modo, foi possível validar a lista de qualidade formal brasileira para as variáveis FQo e X+% na amostra de não-casos psiquiátricos da cidade de São Paulo.

Os dados relativos à comparação entre os grupos amostrais da capital (N=46) e do interior (N=46) estão apresentados nas Tabelas 3 e 4. Observa-se que não ocorreram diferenças nas áreas de localização W e D em ambas as listas, norte-americana e brasileira. A única diferença estatisticamente significativa ocorreu com Dd, quando utilizado o Atlas brasileiro, com o grupo da capital apresentando maiores valores. Observa-se na Tabela 4 que não ocorreu diferença na comparação entre capital e interior, usando-se a lista de FQ norte-americana, nas variáveis FQo e X+%. Diferenças foram encontradas, apresentando a amostra da capital menores valores em FQu, XA% e Xu% e maiores valores em FQ- e X-% do que o grupo do interior. Nessa mesma comparação, mas quando se utilizou a lista de qualidade formal brasileira, o grupo da capital apresentou menores valores nas variáveis FQo, FQu, XA% e Xu% e maiores valores em FQ- e X-%.

Esses dados foram coincidentes com aqueles do estudo de comparação com a amostra que compôs o grupo do Atlas brasileiro.

As tabelas 5 e 6 mostram a comparação entre os grupos amostrais casos não-psiquiátricos (N=46) e casos psiquiátricos da capital (N=45). Observa-se que não ocorreu diferença significativa com relação às áreas de localização, da mesma forma que na comparação com o grupo amostral do Atlas brasileiro. A Tabela 6 apresenta os dados de comparação entre não-casos e casos psiquiátricos da capital. Quando utilizada a lista de qualidade formal norte-americana, não ocorreram diferenças nas variáveis FQo, FQ-, XA%, X+, X-%, bem como quando utilizada a lista brasileira FQo, FQu, FQ-, X+% e Xu%. Diferenças significativas ocorreram, quando usada a lista de qualidade formal norte-americana, em FQu e Xu% com o grupo de não-casos apresentando menores valores. Quando utilizada a lista de qualidade formal brasileira, o grupo não-pacientes psiquiátricos apresentou menores valores em XA% e maiores valorem em X-% do que o grupo casos psiquiátricos.

 

Discussão

Apesar de não ser objetivo deste trabalho realizar comparações entre o grupo amostral e grupo de não-pacientes psiquiátricos do interior e de casos psiquiátricos da capital, optou-se por incluir tais comparações por estes estudos já estarem finalizados. A análise estatística apontou adequação das áreas de localização brasileira à nossa população. Entretanto, diferença ocorreu na variável Dd na comparação entre não-pacientes psiquiátricos da capital e do interior com valores maiores no grupo da capital, fato que será comentado adiante.

Quanto à lista de qualidade formal, não ocorreram diferenças nas variáveis de qualidade formal:

1) FQo e X+% - na comparação entre o grupo amostral e o grupo Atlas brasileiro, utilizando a lista de qualidade formal norte-americana;

2) FQo e X+% - na comparação grupo amostral e o grupo Atlas brasileiro, utilizando a lista de qualidade formal brasileira;

3) FQo e X+% - na comparação entre capital e interior, usando-se a lista de qualidade formal norte-americana;

4) FQo, FQ-, XA%, X+, X-% - na comparação entre não-casos e casos psiquiátricos da capital,  usando a lista de qualidade formal norte-americana;

5) FQo, FQu, FQ-, X+% e Xu% - na comparação entre não-casos e casos psiquiátricos da capital,  usando lista de qualidade formal brasileira.

Assim, foi possível confirmar a validade da lista de qualidade formal brasileira para as variáveis: FQo e  X+%.  Entretanto, ocorreram diferenças significativas nas variáveis de qualidade formal:

1) FQu, FQ-, XA%, X-%, Xu%  - na comparação entre o grupo amostral e o grupo Atlas brasileiro, utilizando a lista de qualidade formal norte-americana, sendo os valores menores em FQu, XA%, Xu% do grupo amostral e maiores em FQ- e X-%;

2) FQu, XA%, Xu%, FQ- e X-% - na comparação grupo amostral e o grupo Atlas brasileiro, utilizando lista de qualidade formal brasileira; sendo os valores menores em  FQu, XA%, Xu% e maiores em FQ- e X-% do grupo amostral;

3) FQu, XA% , Xu%, FQ- e X-% - na comparação entre capital e interior, usando-se a lista de qualidade formal norte-americana, sendo os valores menores FQu, FQnone, XA% e Xu% e maiores FQ- e X-%  na amostra da capital;

4) FQo, FQu, XA%, Xu%, FQ- e X-% - na comparação entre não-casos e casos psiquiátricos da capital,  usando lista de qualidade formal brasileira, sendo os valores menores FQo, FQu, XA% e Xu% e maiores FQ- e X-% na amostra da capital;

5) FQu e Xu% -  na comparação entre não-casos e casos psiquiátricos da capital,  usando lista de qualidade formal norte-americana, sendo os valores de FQu e Xu% menores no grupo de não-casos;

6) XA% e X-% - na comparação entre não-casos e casos psiquiátricos da capital,  usando lista de qualidade formal brasileira, sendo menor o valor em XA% e maior em X-% no grupo de não-pacientes psiquiátricos.

Assim, em todas as comparações, o presente grupo amostral, embora tenha apresentado apreensão adequada do que é mais comum e ordinário (FQo), revelou  maior distorção perceptiva (X-%), menor participação de percepção mais pessoal (Xu%) e menor adequação na avaliação da realidade (XA%). A queda nas variáveis XA% e Xu% decorreram certamente do aumento de X-%. É possível que o maior número de Dd, presente na comparação com o grupo do Atlas brasileiro e significativo na comparação com o grupo amostral do interior, seja um dos motivos que levou ao aumento da FQ- e, portanto, de X-%.

As diferenças encontradas com relação às demais variáveis, FQu, FQ-, XA%, Xu% e X-%, geraram  as seguintes possibilidades ou hipóteses: 

1. Capital e interior

Nascimento (2010), em seu desdobramento do estudo normativo, comparou sujeitos da capital com sujeitos do interior do estado e também encontrou diferenças. Na amostra da capital, a variável FQ- foi maior na capital (M=5,06; DP=2,75) do que no interior (M=3,75; DP=2,13). Assim, maior distorção perceptiva ocorreu na amostra da capital, dado que coincidente com o do presente estudo. O mesmo se deu com a variável WSum6, que mede a presença de deslizes de raciocínio e alterações de pensamento, e cujos resultados da capital (M=10,63; DP=11,08) foram mais elevados do que os do interior (M=4,19; DP=4,25), ou seja, pessoas da capital apresentaram maiores dificuldades na esfera do raciocínio e pensamento, o que também aconteceu neste estudo.

Quando comparados os índices deste estudo com o estudo normativo de Nascimento (2010), o presente grupo amostral, nas variáveis estudadas: XA%, X+%, X-% e Xu%, só mostrou diferença na variável X-%, sendo esta mais elevada no grupo amostral. Esses dados confirmam de certa forma os resultados do presente estudo.

2. Composição da amostra

A amostra dos sujeitos não-casos do interior foi realizada por meio de aproximação a pessoas conhecidas que aceitaram participar do estudo e cujas características de boa condição mental eram de conhecimento da pesquisadora Pianowski3, portanto, foi uma amostra intencional, tipo bola de neve. Neste estudo a amostra foi intencional, subtipologia estratificada, neutra, em que se buscou evitar pessoas conhecidas da pesquisadora para não haver interferência afetiva e emocional. Além do mais, durante as entrevistas, algumas pessoas mencionaram uso de álcool e drogas, depressão, fobias, pânico, ou comentaram que queriam participar por estar precisando de um psicólogo, e por isso não fizeram parte da amostra. Assim, embora ambas as amostras, capital e interior, tenham sido compostas por sujeitos voluntários foram distintas em sua estratégia de busca de sujeitos.

Silva Neto e Custódio (2010), sobre o comportamento de sujeitos voluntários, afirmam que a falta de cultura em relação ao hábito, costume de participação em pesquisa no Brasil pode interferir nos resultados de um estudo, tanto no que se refere ao menor envolvimento com a tarefa, como a criação de expectativa envolvendo o resultado da avaliação. Aponta também para a dificuldade em garantir a boa condição de saúde mental dos participantes, já que ao se voluntariarem poderiam, indiretamente, estar pedindo ajuda psicológica. Esse argumento poderia também esclarecer os dados encontrados.

3. Uso do SRQ-20 como instrumento de seleção

O SRQ-20 foi selecionado por ser considerado um bom rastreador de sofrimento psíquico. Porém, no presente estudo, mostrou-se pouco útil, e a análise das respostas mais pontuadas, no SRQ-20, pelo grupo foram aquelas referentes a: sintomas de nervosismo, tensão e preocupação (questão 06 – positiva em 14 pessoas), sentimentos de tristeza  (questão 09 – positiva em 14 pessoas) e dificuldade em tomar decisões (questão 12 – positiva em 16 pessoas), ou seja, sintomas de menor gravidade mas que interferiram nos resultados do Rorschach. Respostas como falta de apetite, insônia, sentimento de inutilidade, incapacidade e ideias suicidas foram pouco pontuadas.

Questionários do tipo "self-report" são inventários que avaliam áreas da personalidade que estão sob o controle consciente do sujeito. Em contrapartida, o Método de Rorschach apreende a estrutura e o funcionamento da personalidade, os mecanismos mais sutis e os aspectos inconscientes da dinâmica psíquica de um sujeito. Sendo assim, é comum que ocorram diferenças quando se comparam instrumentos tão distintos. 

Todos os participantes eram pessoas ativas, inseridas no mercado de trabalho ou estudantes com bom desempenho, apesar de expressarem distorções perceptivas sérias e deslizes de pensamento manifesto nos códigos especiais. Diferente da amostra dos casos psiquiátricos, que mostrou melhor desempenho nas variáveis FQ- e X-% e cujos participantes estavam todos sob cuidados assistenciais, as pessoas do grupo amostral poderiam estar mais desamparadas e tendo que enfrentar as vicissitudes de uma cidade grande, conhecida pelos altos índices de violência urbana e por seus problemas sociais graves. Perante os dados encontrados, uma sugestão para estudos normativos em população de não-pacientes seria a utilização, na seleção da amostra, de instrumentos como as entrevistas estruturadas SCDI do DSM-IV ou da CID-10.

 

Considerações finais

Este estudo conclui que existe uma adequação quanto às áreas de localizações brasileiras à nossa população, sendo possível sua validação. Os achados também comprovaram a validade das variáveis FQo, X+% da Lista de Qualidade Formal brasileira, mas não  de FQu,  FQ– e, portanto, XA%, Xu% e X-%.

Vale ressaltar que este estudo foi realizado com amostra de não-pacientes psiquiátricos na capital do Estado de São Paulo e que seria de grande valia se pudesse ser reaplicado em outras regiões do país, visando apurar as diferenças e semelhanças encontradas na nossa própria diversidade cultural. 

 

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Contato com os autores:
Avenida Odila, 531 Pl. Paulista – CEP 04058-021.
São Paulo

Email: juleonel@ig.com.br

Recebido em 27/07/2011
Reformulado em 23/02/2012
Aprovado em 06/03/2012

 

 

Sobre as autoras:
Juliana de Cassia Leonel é psicóloga, mestre em Psiquiatria e Psicologia Médica pela Universidade Federal de São Paulo, Escola Paulista de Medicina (UNIFESP-EPM).
Latife Yazigi, psicóloga é mestre e doutora pela Universidade de São Paulo. Pós-doutorada pela Universidade de Chicago e livre docência pela Escola Paulista de Medicina. Professora titular do Departamento de Psiquiatria e Psicologia Médica Universidade Federal de São Paulo, Escola Paulista de Medicina (UNIFESP-EPM).
Norma Lottenberg Semer é psicóloga, mestre em Distúrbios da Comunicação Humana e doutora em Saúde Mental pela Universidade Federal de São Paulo, Escola Paulista de Medicina (UNIFESP-EPM). Docente no Departamento de Psiquiatria e Psicologia Médica da Universidade Federal de São Paulo, Escola Paulista de Medicina (UNIFESP-EPM). Psicanalista Membro Associado da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo. Membro da Disciplina de Psicoterapia do Depto de Psiquiatria da UNIFESP, supervisora e coordenadora de pesquisa. Áreas de atuação: avaliação psicológica, psicoterapia, relações e repercussões mente-corpo.

 

 

Agradeço à CAPES pelo apoio.
1 Gregory Meyer – Professor do Departamento de Psicologia da Universidade de Toledo (EUA).
2 Para este trabalho foram convidadas as pesquisadoras Regina Sonia Gattas Fernandes do Nascimento (PUC-SP) e Thaís Cristina Marques (UNIFESP).
3 Informação oferecida pela orientadora da dissertação, professora Anna Elisa de Villemor-Amaral.

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