SciELO - Scientific Electronic Library Online

 
vol.4 issue2A psicologia e a "crise" da educação author indexsubject indexarticles search
Home Pagealphabetic serial listing  

Psicologia Escolar e Educacional

Print version ISSN 1413-8557

Psicol. Esc. Educ. (Impr.) vol.4 no.2 Campinas Dec. 2000

http://dx.doi.org/10.1590/S1413-85572000000200012 

SUGESTÕES PRÁTICAS

 

Como ajudar a criança com a escrita e a leitura

 

 

Geraldina Porto Witter

Pontificia Universidade Católica de Campinas
Universidade de Mogi das Cruzes

 

As sugestões aqui arroladas decorrem de pesquisas, as quais evidenciam a eficiência das mesmas. Elas servem a pais, professores e profissionais que atuam na área de desenvolvimento e recuperação da linguagem oral, da leitura e da escrita. A proposta é principalmente de promoção do ser humano nestas áreas e em seguida de prevenção de problemas. Todavia podem servir como apoio em programas de remediação.

1.Enquanto a criança é alimentada (desde o recém-nascido) converse pausadamente com ela; à medida que ela cresce, aproveite para ir ensinando o nome dos alimentos, dos objetos usados na ocasião; aos poucos introduza informações sobre como são feitos os alimentos, de onde eles surgem, até sobre seu custo.

2. Enquanto dá banho na criança (desde o recém-nascido) converse pausadamente com ela; ao tocar cada parte do corpo dela diga o nome; quando ela já tiver alguma produção peça que repita; que diga o nome (quando já souber) para manutenção ou retenção do aprendido; use jogos: "Agora vou pegar ou lar o..." (dar pistas apontando ou olhando em direção e esperar que ela diga o nome; se não souber, diga-o, se errar, diga "é...".

3. Enquanto veste a criança dizer o nome (e, mais tarde, as cores) das peças de roupa; quando já souber falar, pedir que repita, fazer jogos de adivinhação (o que é que se põe no pé? Depois da ca1cinha a gente põe...; De que cor é a blusa que tenho na mão?).

4. Quando sair com a criança (a pé ou de carro, especialmente a ida-volta à escola já foram bem pesquisadas) é preciso aproveitar para falar com ela, mostrar coisas, ensinar-lhe os nomes das coisas, pedir que diga os nomes. Se estiver no carro (ou ônibus escolar) fazer o mesmo, cantar ou recitar ritmicamente.

5. Desenvolver conversação

a) quando no "shopping", supermercado, drogaria etc. conversar com a criança sobre o que está comprando, porque está comprando, quando irá usar, quanto custa; veja o que ela gostaria de comprar (dê algum dinheiro para ela fazer suas próprias compras - 5 a 6 anos é uma idade em que ela já pode fazer isto.

b) quando estiver cozinhando, converse com a criança sobre o que está fazendo, a ordem em que faz, sobre o que ela gosta de comer, como é feito seu prato predileto (fale e mostre como se faz, tantas vezes quantas forem necessárias).

c) antes de sair para um passeio ou excursão (a pé ou de condução), converse com a criança sobre onde vão, o que irão fazer, o que irão ver; quando chegar ao local recorde com ela, diga o nome e o que mais a interessar sobre o que estão vendo ou fazendo; faça jogos verbais e outros durante o passeio (lá vem um barquinho carregadinho de...; o primeiro carro que vem é...).

d) estabeleça um horário para contar história para e com a criança (na escola pode ser logo após o recreio, como período de acomodação; no lar o horário que for mais conveniente, para muitos é na hora de dormir). O adulto ou a criança começa, outro continua (duas a três orações cada), alternando um com outro até acabar a história (invente histórias, mas elas devem ter sempre começo, desenvolvimento e fim).

e) estabeleça uma dia por semana para jogos (em casa e na escola) de memória, de adivinhação, de alfabeto, de números.

6. Ler para a criança - É necessário ler diariamente para a criança, aumentando gradualmente o tempo de leitura de alguns minutos para o recém-nascido, até 20 minutos para a criança de 4 a 5 anos, até meia hora para as mais velhas (excepcionais ou não) que ainda não tenham o domínio da leitura. Pode estabelecer um horário (na escola pode alternar um dia lê, outro conta história, após o recreio, este horário não é o da "aula" de leitura) que julgar conveniente (após o lanche ou antes da hora de dormir) ou simplesmente no momento em que parecer mais conveniente. O importante é ler, ler, ler muito para a criança, mas sem pressioná-la. Quando na sala de espera de médicos ou dentistas tenha à mão um livro para ler para a criança. O mesmo é válido para viagens longas em qualquer meio de transporte.

São meios para tornar a leitura agradável e educativa:

(a) conhecer a amplitude de atenção da criança e não ir além dela;

(b) conhecer os interesses da criança para escolher material para leitura, com ênfase na discussão do texto e da ilustração (se for ocaso), evitando fazer perguntas de certo ou errado;

(c) fazer questões sobre a história, aceitar os pensamentos e proposições da criança para outras direções na trama da história, evitando perguntas de certo e errado, mas verificar se houve entendimento sobre a mensagem do autor. Ex.: Sobre o que será a história que vou contar? (lê uma parte) Como será que vai acabar?... E agora que vai acontecer? Como gostaria que a história acabasse? e

(d) permita que a criança "leia" com você quando já conhece bem a história. Quando ler para a criança? Sempre que possível, quanto mais melhor; escolher situações particularmente agradáveis para a criança:

a) ao amamentar, dar a mamadeira ou lanche: recitar poesias infantis, contar ou ler histórias;

b) quando a criança estiver irriquieta, com medo, nervosa, tentar acalmá-la lendo alguma história engraçada ou cantando uma música infantil (ritmos marcados e repetitivos);

c) aproveitar todos os momentos tranqüilos e transformar a própria leitura em um momento tranqüilo;

d) antes de ir ao médico, ao dentista ou de ir tomar vacina, ler para a criança ou com ela histórias que mostrem estes profissionais em ação;

e) ter sempre à mão um livro para ler para a criança em salas de espera (de médicos, rodoviárias, aeroportos, estações de trem; e

f) antes e após ver um programa de TV baseado em um livro, ler e discutir o próprio com a criança ou uma obra similar. Por exemplo, viu um desenho sobre o Patinho Feio, ler o livro com a criança.

7. Permitir que a criança leia - A seqüência começa por aprender a virar a página, "ler" por meio das figuras, "ler" o texto. Elogie cada progresso e atitude, inclusive quando, sem saber ler, a criança "faz de conta" que está lendo. Estimule cada tentativa e interesse pela leitura.

a) Coloque cartazes e livros coloridos (de pano ou cartão) no berço e no cercado do bebê (substituílos semanalmente, usar ciclicamente o que ficou numa semana é guardado por uma semana ou duas e depois é recolocado).

b) Organize um espaço para a criança ter sua própria biblioteca (estante de classe).

c) A partir dos 3 anos levar a criança para a hora do conto ou da história na biblioteca pública ou escolar; quando ela já estiver lendo, viabilizar que participe de outras atividades da biblioteca (planejar com o bibliotecário).

d) Faça o registro da criança em alguma biblioteca infanto-juvenil (começar aos 3 anos de idade e encoraje-a a escolher e a retirar livros para ler em casa (planejar com o bibliotecário) só ou com os pais.

e) Recorra a livros que têm fita ou disco gravados para serem usados concomitantemente.

f) Ponha livros em vários lugares em casa para que a criança possa achá-los e lê-los a qualquer momento.

g) Assine revistas infantis para seus filhos ou peça para a bibliotecária tê-los à disposição das crianças.

8. Permitir que a criança escreva - Se a criança vive em uma sociedade que usa a escrita, ela pode começar a aprender a escrever aos 18 meses, ou mesmo antes dependendo da estimulação ambiental e de seu repertório básico. Começa com riscos e formas circulares, abrangendo todo o papel, depois passa a organizá-los no espaço; seguem-se garatujas e riscos já acompanhando o sentido (vertical ou horizontal, esquerda-direita, direita-esquerda) dos modelos de escrita a que foi exposta. A habilidade de escrita requer anos para se desenvolver; é preciso respeitar o ritmo e a produção da criança em cada fase. É preciso valorizar qualquer produção da criança e fornecerlhe oportunidades diárias. Para auxiliar a criança a desenvolver a escrita, é útil recorrer a algumas estratégias:

a) Escrever - seja um exemplo como escritor; escreva, mostre como e quando usa a escrita, escreva para ela, faça listas de coisas que ela goste.

b) Facilidade de materiais - facilite à criança ter acesso a materiais para escrita (papel colorido, lápis, blocos de papel, máquina de escrever, computador, areia, doces etc.).

c) Celebre a autoria da criança - peça que leia o que escreve, fale-lhe sobre a escrita, desenhos, letras, signos; encoraje-a a conversar sobre desenhos e histórias, responda às suas perguntas, seja um bom ouvinte.

d) Valorize a escrita da criança - exponha desenhos e escritos seus na cozinha, no quarto, no quadro de avisos, em varais na classe etc. Organize os melhores em álbuns. Guarde seus primeiros esforços para desenhar ou escrever.

e)Ler para a criança pelo menos 15 minutos por dia ajuda seu desenvolvimento da escrita.

f) Conte histórias clássicas da literatura infantil e outras sobre a vida diária, encorajando-a a recontar, modificar e a desenhar combinando história e texto.

g) Encoraje a criança a incluir a escrita como atividade diária, tanto em casa como na escola.

h) Dê tempo para a criança aprender, apresente modelos corretos, sem destruir ou considerar "erros" respostas que são apenas típicas de uma fase de seu desenvolvimento.

i) Responda a todas as perguntas da criança sobre escrita e leitura; quando não souber, mostre que irá (faça-a ver isto e ajudá-la) procurar nos livros a resposta.

j) Use jogos de letras para a criança brincar (desde os 2 anos), vá ensinando aos poucos os nomes das letras (associar com nomes dela, pais, irmãos, avós, colegas) aos poucos, brincando, vá ensinando ajuntá-las, escrever, copiar, ler recados).

k) Ponha em letras de formas maiúsculas em um canto do papel o nome dela (desde a 1 a folha que receber).

l) Quando "desenhar" ou "escrever", pergunte o que é e escreva em letra de forma maiúscula o que ela dizer ao lado do "desenho" ou "escrita".

9. Lembrar-se sempre de que pais e professores são modelos de leitores e de escritores

a) Em lugar tranqüilo leia, escreva e cante para e com a criança (desde recém-nascida).

b) Quando passear em parques e jardins, leve material para ler, pintar, e cante com a criança.

c) Quando um brinquedo ou jogo tiver instruções ou regras e a criança não souber ler, leia para ela mostrando onde a matéria está escrita (repita a cada vez que for usar o jogo ou o brinquedo).

d) Estabeleça uma hora da leitura em família (leitura individual ou coletiva), com duração e regras estabelecidas em conjunto, de acordo com as necessidades da família (fazer o mesmo em classe), contar com um período de tempo para comentar as leituras.

e) Comentar com os filhos e alunos o que tiver lido de interessante (jornais, revistas, romances).

f) Explique à criança que precisa de algum tempo de silêncio para que você possa ler, solicitando que faça o mesmo por alguns minutos.

g) Quando não tiver material em casa ou em classe para responder às questões da criança, vá com ela à biblioteca para achar um livro sobre o assunto.

h) Oriente a escolha de livros na biblioteca. i) Faça visitas orientadas com a criança a livrarias e a exposições de livro.

j) Mantenha-se informado sobre pesquisas que tratam dos temas preferidos e níveis de textos para leitores de várias idades.